sexta-feira, 7 de agosto de 2020

CAP 10

 

CAPÍTULO 10

 

Com o natal próximo às lojas no centro de Cupertino estavam decoradas e movimentadas. O frio de dezembro era brando comparado ao que Leigh estava habituado. Ele caminhava entrando em cada loja de bebê que encontrava. Saia sempre carregado de pacotes. 

Entrou no departamento de música e filmes. Caminhou até a seção de rock. Observou os últimos lançamentos. Hesitante pegou um CD. O nome New Code lhe saltou. A foto na capa era escura e não era possível ver o rosto dos integrantes da banda. Virou e no verso encontrou os olhos azuis. 

Apenas os olhos como tinha sugerido. Abaixo o nome das músicas. Cada faixa tinha uma história dolorosa. E nenhuma delas poderia ser revivida. Recolocou o CD no lugar. Não iria comprá-lo. Os laços estavam cortados definitivamente. Estava casado com a mulher que amava, seria pai em breve, tinha uma vida nova. Esquecer o passado era o melhor a fazer. Começou a selecionar outros. Seguiu para o caixa levando os CDs escolhidos. Hesitou. Voltou à seção e pegou o que tinha largado. 

Distraído deixou a loja. 

Não imaginava que um forte aparato policial esperava sua saída. Deu dois passos na calçada e mais de cinco agentes o cercaram com armas apontadas para ele. Os gritos de mãos na cabeça, parado, no chão, misturaram-se com o das pessoas que se afastaram assustadas. 

Leigh recuou quando percebeu que aquela movimentação era contra ele. Soltou as sacolas e deixou as mãos à vista. Dois agentes se aproximaram e sem o menor cuidado o deitaram no chão e o algemaram. Um carro oficial parou na rua e um homem desceu. Quando o colocaram de pé se viu frente a frente com o estranho que havia estado em sua casa dois dias antes.

 ─ Dennis Black, tenente da Central de homicídios de São Francisco. ─ Identificou-se ─ Alexius Leigh Lescaut, você está preso pelos assassinatos de Solange Roupem, Paul Galvin, Helena Robson, Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund Treneham, Kyle Wiltakher e Penélope Ives. ─ tomou fôlego satisfeito ─ Você tem o direito de permanecer em silêncio. Se abrir mão desse direito, tudo o que você disser poderá e deverá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um advogado presente durante qualquer interrogatório. Se você não puder pagar um advogado, um defensor lhe será indicado. O senhor tem direito a um telefonema.

Olhou para Lescaut e viu choque. Já esperava essa reação.

Assassinos sempre fingem surpresa quando eram apanhados. 

 ─ O senhor entendeu os seus direitos?

 ─ Não. ─ respondeu sem pensar. ─ Não fiz nada. ─ Dennis repetiu a leitura.

Leigh o fitava sem entender, mas acenou concordando. 

 ─ Podem levar. ─ mandou satisfeito.

Policiais recolheram os pertences dele.

 ─ Não. Por favor. ─ Leigh recebeu um tranco nas pernas quando tentou resistir. Foi empurrado até a viatura e colocado no banco de trás. O carro partiu deixando a multidão chocada. O único rosto conhecido que Leigh viu foi o de Becky Sune.

 

Leigh foi levado para São Francisco e colocado sozinho em uma sala. Reparou no espelho que cobria toda a superfície da parede lateral. Lembranças amargas deixaram as mãos frias. Respirou fundo, ajoelhou-se e orou em voz baixa por longos minutos. Levantou, sentou e esperou. Na primeira hora dois policiais e um técnico entraram e o técnico, coletou uma amostra de saliva. Depois, por mais duas horas levantou, ajoelhou, orou e sentou outras tantas vezes.

 ─ Ele já pediu um advogado? O que está fazendo? ─ Matt perguntou logo que entrou na sala de observação. O rapaz ajoelhado no chão, de costas para o espelho foi uma surpresa. ─ Ele está orando?!

 ─ É. O desgraçado tem mesmo que orar muito. Vai pegar pena de morte.

 ─ Só se confessar. E se não houver acordo.

 ─ Não vai haver acordo algum. Quero ver esse infeliz fuzilado.

 ─ Injeção letal. ─ Olhou o rapaz novamente. ─ Já falou com ele?

 ─ Me mandou esperar lembra?

 ─ Mandei. Só não achei que obedeceria. 

 ─ O mandado foi cumprido? ─ Dennis perguntou impaciente.

 ─ Sim. Acho que encontramos a arma dos crimes. E outras provas.

 ─ Ótimo. 

 ─ Só tive pena da esposa. Ela ficou muito abalada.

 ─ Duvido que ela não saiba de nada. Temos que interrogá-la.     

 ─ Eu sei. Ela já deve estar vindo para cá. Vem, vamos falar com ele. ─ Disse ao ver Leigh terminar a oração e ir sentar. Entraram na sala. 

Leigh levantou e Dennis sacou a arma. Ele recuou levantando as mãos. 

 ─ Senta! ─ O agente mandou e apesar do choque do rapaz foi prontamente obedecido. Em seguida o parceiro algemou o prisioneiro na trava de metal sobre a mesa. ─ Agora vamos conversar.

Matt sentou. Dennis guardou a arma e se acomodou ao lado dele.

 ─ Por que isso? ─ Leigh perguntou levantando as mãos presas.

 ─ Apenas para garantir que vamos conversar civilizadamente. ─ Matt disse frio ─ Senhor Lescaut, sou o capitão Matt Dowling e este é o tenente Dennis Blake.

 ─ Por que tanta raiva de mim? ─ Leigh perguntou olhando Dennis diretamente.

 ─ Tenho certeza que sabe seu desgraçado.

 ─ Blake! ─ Matt repreendeu.

 ─ Não. Não sei. Do que estou sendo acusado?

 ─ Não leu os direitos dele? ─ Matt preocupado.

 ─ Claro que li. Fiz tudo certo para que nenhuma manobra jurídica o livre. Vai pagar por tudo que fez. Não vai conseguir se safar.

 ─ E o que vocês acham que fiz? ─ Olhou de um para outro. Silêncio. Puxou as mãos incomodado. ─ Por favor, estou aqui há horas. Já deveria ter voltado para casa. Minha esposa está preocupada. Ela está grávida, não pode se aborrecer. Por favor, me deixem ligar para ela e avisar que vou demorar a chegar.

 ─ Vai demorar muito. ─ Dennis gracejou satisfeito. 

 ─ Vou? Por quê?

 ─ Diga você. ─ Matt perguntou ─ Que razão acha que temos para prendê-lo?

 ─ É porque matei o cão?

 ─ Matou o cão? ─ Matt perguntou fixando o olhar.

 ─ O rottweiler que atacou minha esposa. O Chefe Kanston me disse que o dono estava procurando um jeito de me fazer pagar. ─ Puxou as algemas. ─ Ele é que deveria ser preso por deixar uma criança conduzir um bicho daquele sem coleira e focinheira adequadas. ─ Puxou o braço ─ Essas algemas são mesmo necessárias? ─ Olhou os dois. ─ Vocês podem imaginar o que é ver um bicho daquele em cima de sua esposa? Matando seu filho? Eu matei o cão e não me arrependo.

 ─ Sua prisão não tem nada a ver com isso. ─ Matt respondeu sério. Sabiam do que ele falava.

 ─ Não? Então do que sou detido? ─ Puxou a mão. ─ Não sou uma ameaça. Isso é mesmo necessário? ─ Estava realmente incomodado. 

 ─ Solte-o. ─ Matt mandou. Dennis obedeceu contrariado. 

Leigh agradeceu aos dois. Blake bufou e sentou novamente.

 ─ Quer um cigarro senhor Lescaut? ─ Matt perguntou acendendo um.

 ─ Não obrigado. Prometi a minha esposa que ia parar. Mas aceitaria um copo d’água, por favor. ─ Matt olhou para Dennis que levantou e saiu sem disfarçar a raiva. ─ Ele realmente não gosta de mim.

 ─ Tem motivos para isso.

 ─ Tem? ─ Olhou para ele intrigado. ─ Quais?

 ─ Lembra-se de Penélope Ives?

 ─ Não. ─ Pensou um pouco. ─ Nunca conheci nenhuma Penélope.

 ─ Não? Ela o conheceu. E intimamente por assim dizer.

 ─ Desculpe. Não me lembro.

 ─ Onde estava entre os meses de agosto e setembro do ano passado?

 ─ O que? ─ paciente Matt repetiu a pergunta. ─ Estava no oriente. Era aluno em um navio-escola. 

 ─ O senhor é estrangeiro. De onde é?

 ─ Nasci em uma antiga colônia russa chamada Koryakia.

 ─ Mora nos Estados Unidos há quanto tempo?

 ─ Há pouco mais de um mês. Cheguei no começo de novembro.

 ─ E antes disso onde morava?

 ─ Tinha residência em Paris.

 ─ Esteve aqui entre agosto e setembro do ano passado?

 ─ Não. Só estive aqui há... ─ Pensou ─ ...há mais de doze anos. Morei com minha mãe em São Francisco, quando ela morreu fui levado de volta ao meu país. Só voltei agora.

 ─ Não esteve na cidade no ano passado? Mais precisamente nos meses de agosto e setembro?

 ─ Não. E nem poderia. Estava interno no navio escola Karnikowski. Só dei baixa em outubro deste ano. Fui direto para Paris encontrar minha noiva. Nos mudamos para Cupertino em novembro. ─ Blake voltou. Soltou o copo com água na frente de Leigh.

 ─ Obrigado. ─ Bebeu a água em um só gole. ─ Escutem, eu já deveria estar em casa. Minha esposa deve estar preocupada. Me deixem ligar para ela.

 ─ Ainda temos algumas perguntas. Colabore conosco e logo vai falar com sua esposa. ─ E as perguntas começaram e continuaram por mais de uma hora. 

Perguntaram tudo sobre sua vida. Seu casamento, seus amigos. Leigh pediu para falar com Ruth três vezes. Foi ignorado. Insistiam em afirmar que ele havia estado na cidade entre agosto e setembro do ano anterior. Citavam datas, lugares, nomes de pessoas que ele não conhecia. Respondeu a tudo com paciência.

 ─ Vou repetir. Estive nessa cidade com doze anos de idade. Depois voltei para a Rússia, onde vivi mais oito anos. Depois me mudei para Paris. Passei mais quatro anos com residência lá, mas a maior parte do tempo estava em um navio escola viajando pelo oriente. Deixei o navio em outubro deste ano e fui para Paris. Coloquei os pés na América em novembro. Não estive aqui antes disso. Agora, quero falar com minha esposa e quero saber do que sou acusado. Se não me atenderem nisso então me calo até falar com ela.

Matt inclinou-se para ele.

 ─ Sua esposa já sabe que está aqui. ─ Leigh o olhou chocado. ─ Venha, vamos levá-lo para ligar para ela. ─ Avisou levantando. Leigh o seguiu.

 

As freadas bruscas no jardim da casa dos Lescaut levou Annette para a janela. Chocada viu vários homens com coletes da polícia saltarem apressados dos carros. A Senhora Lanfond abriu a porta e eles irromperam casa adentro. Ruth desceu as escadas assustada com a movimentação dos policiais que passaram por ela apressados. Ela gritou e se encolheu como se fosse ser atacada.

Matt Dowling subiu rápido para ampará-la.

 ─ Calma senhora. Polícia. ─ Ruth não se deixou tocar. 

Desceu indo parar ao lado da governanta que estava tão assustada quanto ela. 

 ─ O que querem aqui? ─ Perguntou vendo a casa ser invadida. ─ O que estão procurando? Não podem fazer isso. ─ Disse ao ver a as estantes sendo reviradas.

 ─ Podemos. Temos um mandado senhora. ─ Dowling informou penalizado. A garota era mais jovem do que esperava.

 ─ Mandado? Por quê? O que querem?

 ─ O que está acontecendo? ─ Annette perguntou da porta. Vinha acompanhada por Hope que foi direito para o lado de Ruth. 

 ─ O que pensam que estão fazendo? ─ Hope perguntou fazendo Ruth sentar.

 ─ Temos um mandado. ─ O homem informou sério. 

 ─ Deixe-me ver

 ─ Quem é a senhora?

 ─ Hope Kanston, esposa do chefe de polícia da cidade e também assistente social. Qualquer que seja seu mandado e suas ordens está assustando esta jovem que passa por uma gravidez de risco. Responderá por dano que venha a causar por sua total falta de tato. Quero ver o mandado. ─ Ele a atendeu. 

Hope leu o documento. Annette levou Ruth para um canto na sala e a Senhora Lanfond lhe entregava um copo com água. 

 ─ Há alguma acusação contra ela?

 ─ Por enquanto não. ─ Disse frio. 

 ─ Se estão aqui já o prenderam.

 ─ Há dez minutos no centro. ─ Olhou para a jovem assustada. ─ Sabemos que estão casados há um mês. Só não sabia que a gravidez estava tão adiantada.

 ─ Está. ─ Pensou um pouco ─ Tem certeza de que está na casa certa? De que está acusando o homem certo? Leigh Lescaut nos disse que esteve na Ásia nos últimos quatro anos. ─ Olhou para Ruth ─ Ele não parece um assassino.

 ─ Eles nunca parecem. ─ Olhou a jovem ─ Conhece alguém da família dela? Se conhece é melhor chamar. Os dias serão duros daqui para frente.

 ─ O que está acontecendo Hope? Quem são estes homens? Porque estão aqui? ─ Ruth disse se aproximando ─ Eles podem fazer isso? Revirar minha casa?

 ─ Ruth, venha é melhor conversarmos na cozinha.

 ─ Me diga o que houve!

 ─ Leigh foi preso.

 

 ─ Vocês estiveram em minha casa!

 ─ Tínhamos um mandado. ─ Dennis satisfeito ao vê-lo irritado.

 ─ Assustaram minha esposa. ─ Leigh disse nervoso. O guarda que o acompanhou até a sala de interrogatório saiu fechando a porta.

 ─ Sente-se senhor Lescaut. ─ Matt disse serio.

 ─ O que pensam que estavam fazendo? ─ Caminhou na direção de Blake que levantou pronto para uma briga.

 ─ Senhor Lescaut, sente-se agora ou vamos algemá-lo! ─ Matt mandou firme interrompendo os passos de Leigh.

 ─ Ouçam bem o que vou lhes dizer. ─ Virou-se para Matt e sem considerar a mão no coldre caminhou na direção dele com dedo em riste ─ Se minha esposa ou minha criança sofrerem qualquer dano por conta dessa situação vocês irão responder por isso. Eu prometo que...

 ─ Que fará o que? ─ Dennis perguntou debochado. 

 ─ Sente-se senhor Lescaut. ─ Matt ainda mais firme.

 ─ Tenho o direito de saber do que sou acusado droga! ─ Recuou e sentou ─ Minha esposa gesta. Não deve ser incomodada. ─ Disse tenso. 

Baixou a cabeça tenso. Era a pura imagem do inocente desolado. Dennis voltou ao lugar, mas não sentou. Leigh levantou os olhos para os dois. Respirou fundo.

 ─ Desculpem. Eu não deveria ter feito tal coisa. Foi inadequado.

 ─ Não dê uma de bom moço Lescaut. Não vai adiantar. ─ Dennis ferino.

 ─ Eu não... Por favor, do que sou acusado? ─ A pergunta foi para Matt. 

Ele abriu a pasta que ficou fechada sobre a mesa durante todo o tempo. 

 ─ Alexius Leigh Lescaut, você é suspeito de oito homicídios ocorridos na cidade de São Francisco entre 08 de agosto e 01 de setembro de 2010, vitimando: Solange Roupem e Paul Galvin, assassinados em 08 de agosto, Helena Robson e Daril Osbourne, no dia 17 de agosto, Sophia Anello e Edmund Treneham no dia 24 de agosto e Penélope Ives e Kyle Wiltakher em 01 de setembro. 

 ─ Estou sendo acusado de matar oito pessoas? ─ Perguntou chocado.

 ─ Sim.

 ─ Em agosto e setembro?

 ─ Sim.

 ─ Aqui? Na cidade de São Francisco? ─ Matt acenou concordando ─ Vocês se enganaram. Isso é impossível.

 ─ Não nos enganamos Senhor Lescaut. Portanto tudo fica mais fácil se confessar e se entregar seu cúmplice.

 ─ Não posso confessar algo que não fiz. ─ Inclinou-se para Matt ignorando Dennis completamente. ─ Eu já disse a vocês. Não estava na América nessas datas.

 ─ Certo! Não estava. ─ Dennis concordou irônico. ─ Então nos explique qual o truque para estar em dois lugares ao mesmo tempo. ─ Leigh recuou empalidecendo um pouco. Matt notou a leve alteração. ─ Por que o senhor estava aqui nessas datas. O senhor matou oito pessoas. O senhor estuprou, mutilou e assassinou cada uma delas.

 ─ Não fiz isso. Jamais faria algo assim. ─ Respirou ─ Se receberam uma denúncia concordo que devam averiguar, mas isso é ridículo. Seja lá quem foi que me acusou está enganado. Eu não sou um assassino. Não estive aqui. Estava no oriente.

 ─ Temos evidências de que o senhor é o assassino. ─ Matt observando-o. 

 ─ Que evidências? ─ Confuso ─ Alguém disse que me viu? Essa pessoa se enganou. Eu não matei oito desconhecidos.

 ─ Matou senhor Lescaut. ─ Dennis afirmou sério.

 ─ Por que diz isso com essa certeza? Eu estava do outro lado do mundo. E mesmo que estivesse aqui, mesmo que morasse aqui nessas datas, jamais faria algo assim. Lamento, mas está perdendo tempo comigo. Essa testemunha se enganou.

 ─ Não temos uma testemunha senhor Lescaut. ─ Matt começou.

 ─ Nossa evidência é DNA. ─ Dennis completou satisfeito

 ─ DNA?

 ─ É. O seu. ─ Dennis sorriu vitorioso ─ Você foi muito descuidado. Achou que morando fora do país nunca seria apanhado, não é? Deixou muitos rastros nas vítimas e nos lugares onde as matou.

 ─ Não matei essas pessoas. ─ Leigh disse pensando no que ouvia.

 ─ Seu DNA estava em cada vítima. Sua pele debaixo das unhas deles. Seu sêmem... em todos eles. Paul Galvin tinha o seu esperma até nos pulmões. ─ Parou para olhá-lo bem ─ Cada amostra coletada e catalogada e agora comparada à que conseguimos na sua casa na semana passada. E sabe qual a surpresa. Elas conferem. Cada uma delas. 100%. Totalmente.

 ─ Isso é uma imoralidade. Seus testes estão errados. Jamais um homem teria... ─ A expressão de asco era nítida. Tenso ─ Refaçam seus testes. Estão errados.

 ─ Foram feitos e refeitos tantas vezes que a lei nos diz que é necessário. Não há nenhuma dúvida. O DNA é seu. Você é o assassino das bonecas. ─ Matt sério.

 ─ Assassino do que? ─ Perguntou sem entender.

 ─ Das bonecas! Foi como a imprensa o apelidou.

─ Não matei essas pessoas. Meu Deus isso é uma insanidade. Eu estava do outro lado do mundo. Cheque se quiser.

 ─ Não temos porque fazer isso. Sabemos que está mentindo, portanto, se nos disser o nome do cúmplice e confessar todos os crimes a promotoria pode lhe oferecer um acordo e talvez o senhor pegue prisão perpétua em vez de pena de morte. ─ Matt

 ─ Vocês se enganaram. Não sou a pessoa que procuram!

 ─ Não nos enganamos. ─ Matt observando as transformações nas feições de Leigh Lescaut. Ou ele falava a verdade ou não tinha qualquer conhecimento do que havia feito. ─ É melhor parar de insistir nessa história. Sua situação só tende a piorar se continua negando.

 ─ Só posso negar, pois não matei essas pessoas ─ Tenso. Pensou um pouco. Olhou as próprias mãos. ─ Disse que meu... meu DNA estava nas vítimas?

 ─ Sim. ─ Matt respondeu. Ele sabia do que falavam. 

Leigh levantou os olhos. Havia dor e incredulidade neles.

 ─ Quero um advogado. ─ Disse em um fio de voz.

 

Michael Melton voltou ao escritório no fim da tarde depois de uma escapada do escritório com Ângela, uma bela executiva de corpo perfeito e libido apurada. Haviam se conhecido no fórum e foi uma tarde agradável. Uma boa comemoração para mais uma vitória. Então porque se sentia tão vazio? Lembrou da esposa e seu corpo rechonchudo. Ela estava uns dez quilos acima do peso, mas sua falta de desejo por ela era apenas por isso? Justificava a si mesmo dizendo que sim, mas acabara de fazer sexo por três horas com uma mulher escultural e ainda se sentia vazio. 

Apertou o botão do elevador. O que estava acontecendo? O que lhe faltava? 

Tinha direito a duas semanas de folga. Merecidas após quatro anos de trabalho árduo. Talvez essa última vitória no tribunal o levasse a ser sócio. Ser sócio era tudo o que desejava. Talvez fosse a falta de reconhecimento do seu trabalho que gerava toda aquela sensação de insatisfação. Usou a entrada privativa de funcionários evitando a recepção. Sua sala era ampla e confortável, mas ainda uma sala de contratado. Iria apenas pegar alguns papéis, deixar o relatório de horas e ir para casa. Prometeu para o filho que iriam pescar. Tinha uma cabana fora da cidade. Acomodou-se na cadeira, abriu a maleta e antes que pudesse organizar seu relatório Holly entrou na sala.

 ─ Ia viajar sem se despedir? ─ Ela perguntou irônica.

 ─ Claro que não. Ligaria de casa para dar um adeus. ─ Levantou ─ Quando você vai me explicar como sempre sabe que cheguei?

 ─ Já disse que isso é segredo de estado. ─ Sorriu. ─ Pronto para a folga?

 ─ Prontíssimo. Mitch está me esperando com as iscas prontas. ─ Olhou para ela. Conhecia aquela cara. Balançou a cabeça em negativa. ─ Não. De modo algum. Seja lá o que for vai ter que me esperar voltar.

 ─ Não dá para esperar.

 ─ Então mande para o Harrison. Eu vou sair de férias.

 ─ Se eu fizer isso você vai me degolar.

 ─ Nada é mais importante do que minhas férias. Mande para o Harrison.

 ─ Michael, apenas converse com ela.

 ─ Conversar com quem?

 ─ Com a garota que está te esperando há uma hora. ─ Sorriu de novo ─ Tenho certeza de que vai gostar.

 ─ Não. Definitivamente não estou interessado.

 ─ Não quer mesmo atender uma jovem que não deve ter mais do que vinte anos, vestindo um Dior moderníssimo, duas esmeraldas em cada orelha e uma aliança que deve pagar nossos salários por um ano? ─ Sorriu amplamente.

 ─ Outro divórcio complicado? ─ Perguntou irônico. Divórcios complexos eram sua especialidade. Holly acenou que não. ─ Não? Então mande para o Harrison.

 ─ Se é o que quer vai para Harrison. Mas a jovem insiste em ver você. Não sei se ela vai aceitar. Vamos perder a cliente.

 ─ Insiste em me ver? ─ Sorriu. ─ Disse por quê?

 ─ Disse que você é o único capaz de ajudá-la. ─ Ele levantou as sobrancelhas satisfeito. Ter a preferência de clientes era essencial para conseguir a sociedade. ─ Quer falar com a moça?

 ─ Não. ─ Sentou. ─ Me diga antes do que se trata.

 ─ Ela não disse, mas eu acho que será muito interessante escutá-la.

 ─ Desembucha Holly. Sei que você já sabe.

 ─ Lembra por qual motivo foi a uma delegacia da última vez?

 ─ Acompanhei Martin quando ele foi ouvido no caso do assassino das bonecas.

 ─ Ainda não foi divulgado, mas prenderam um suspeito hoje. Será apresentado à imprensa, às nove da noite.

 ─ Até que fim. E a moça é parenta de uma das vítimas quer que eu intermedeie as informações junto ao promotor? Martin me indicou?

 ─ Não. É a esposa do acusado e quer que você o defenda.

 ─ O que?

 ─ É a esposa do acusado e quer que você o defenda. ─ Repetiu sentando. 

 ─ Esposa do acusado? ─ Riu incrédulo. ─ Não sou mais criminalista.

 ─ Já foi. E sabe que com um caso dessa proporção isso não seria problema. Se aceitar pode dividi-lo com Liam ou qualquer outro. Ela está procurando você. Só quer falar com você. Eu até expliquei que não atua mais na área.

 ─ Se ela não disse nada como sabe que...

 ─ Ela deixou escapar que o marido estava detido na central de homicídios. Liguei, falei com um contato e juntei dois e dois. E tem mais. Lembra do que ele fazia com o útero das vítimas?

 ─ Sim...

 ─ A jovem está grávida. ─ Deixou-o pensar ─ Vai falar com ela?

 ─ Não. Não posso pegar este caso. O que vou dizer a Martin?

 ─ Martin é apenas um ex colega de faculdade. E ele sabe que todos têm direito a defesa. Este é um caso que qualquer escritório do país iria agradecer aos céus. Qualquer advogado iria amar se caísse em sua mesa. 

 ─ Mesmo assim...

 ─ Pense Michael. Esse caso terá repercussão. Fale com a moça, conheça o suspeito. Se inteire dos fatos antes de decidir se aceita ou não. Se aceitar o caso, perdendo ou ganhando tenho certeza de que terá a sociedade. ─ Michael refletiu.

 ─ Me dois minutos, depois a faça entrar. ─ Ela ia saindo ─ Ah e, por favor, ligue para Mitch e diga a ele que...

 ─ Eu sei o que dizer. Vá em frente. Esse é o seu caso.

 

 

Era meio da tarde quando a porta se abriu e Ruth entrou na sala. Correu para os braços do marido e antes de abraçá-lo apalpou-o todo em um exame nervoso. Leigh ficou repetindo estou bem, estou bem até que ela o calou com um beijo apaixonado. Quando se separaram ficou agarrada a ele. 

─ Vocês têm cinco minutos ─ Matt disse seco e saiu.

Leigh pegou as mãos da esposa, ajoelhou-se. Beijou o punho direito, depois o esquerdo, virou, beijou a palma esquerda depois a direita, juntou ambas as mãos e descansou o rosto sobre elas por alguns segundos. Beijou-as novamente no dorso. 

Peço-te perdão por fazê-la sofrer. ─ Os olhos de Ruth lacrimejaram.

─ O que esta acontecendo Leigh?

O inimigo de todos encontrou uma forma legal de me matar.

─ Leigh? ─ tremeu assustada. 

Salastiel esteve aqui e disse que há um Koryak oculto que pode nos ajudar. Ele nos mandou procurar por um advogado que responde hoje pela alcunha de Michael Melton. E que você terá que se esforçar para convencê-lo a assumir este caso.

Por que eu?

Por que ele pertence a sua linhagem.

 

Às vezes Michael odiava Holly, outras a amava. Ela era sua assistente desde que começara a advogar aos vinte e seis anos e agora aos trinta e oito anos não imaginava como seria sua carreira sem as intervenções dela. Terminou de ajeitar a mesa no momento em que a fiel assistente abriu à porta dando passagem a cliente.

Ele não estava preparado para a imagem que viu. A mulher era realmente jovem. Tinha os traços delicados como porcelana e os olhos mais azuis que ele já vira. Estava elegantemente vestida exatamente como a assistente descreveu, mas ela deixou de mencionar o longo véu que cobria os cabelos e parte do rosto de sua visitante. Um sinal claro de problemas maiores do que previra.

 ─ Michael, esta e a Senhora Ruth Lescaut. Senhora Lescaut, este é o Michael Melton. ─ Educado Michael estendeu a mão. 

Ruth a aceitou olhando-o nos olhos. Enquanto as mãos se tocavam Michael viu todo o seu passado e mergulhou em um mundo que nunca pensou existir. Tomou conhecimento de suas origens e ofegou sem entender. Quando o soltou Ruth sorriu levemente e murmurou ‘bem-vindo’ no idioma Koryak. 

 ─ Desculpe. ─ Michael meio confuso. Deixou de lado acreditando ser apenas cansaço. ─ Por favor, sente-se senhora Lescaut. ─ Sério. 

A jovem sentou e baixou o véu sem deixar de encará-lo. Holly fez as cortesias de praxe oferecendo água e café que foram recusados. Estrategicamente sentou em uma cadeira ao lado com o bloco de anotação. Nervosa Ruth a olhou. 

 ─ Prefere que falemos a sós? ─ O advogado perguntou.

 ─ Por favor. ─ A voz era uma melodia suave. Ele não precisou dizer nada. Holly se levantou contrariada e da porta sussurrou um ─ você me paga─ antes de sair.

 ─ Estou a sua disposição senhora.

 ─ Obrigada. Acho que sua assistente já lhe explicou do que se trata.

 ─ Ela mencionou algo que me despertou meu interesse, no entanto gostaria de ouvir sua versão dos fatos.

 ─ Tudo o que conversarmos aqui ficará entre nós?

 ─ Sigilo absoluto. Privilégio cliente advogado.

 ─ Não vai falar com a imprensa?

 ─ Somente se a senhora permitir.

 ─ Nada de imprensa. Não podemos nos expor. A família de Leigh é importante e ele não quer que fiquem sabendo desse mal-entendido.

 ─ Não se preocupe. Me conte o que aconteceu.

 ─ O que sei é que meu marido foi preso. Estão esperando apenas que ele nomeie um advogado para anunciar a prisão.

 ─ Do que acusam seu marido Senhora Lescaut?

 ─ De matar oito pessoas aqui em São Francisco. O chamaram de... assassino das bonecas. Mas isso é impossível. Meu marido não estava aqui. Leigh era aluno do navio escola Karnikowski e estava circulando o oriente a bordo. Neste período em que dizem que ele matou essas pessoas o navio estava no mar da China.

 ─ Não poderia ter passado por aqui?

 ─ Não. É um navio oriental. Não circulava por águas ocidentais.

 ─ E tem certeza de que ele estava a bordo?

 ─ Sim tenho.

 ─ O que a polícia disse?

 ─ Disse que tem evidências concretas de que meu marido esteve aqui e que matou essas pessoas. Mas eu sei que isso é impossível. Estão pressionando para que Leigh confesse algo que não fez e... Por favor, podemos ir até lá?

 ─ A polícia disse que tem evidências concretas? Usou esta frase?

 ─ Sim. Afirmam que não estão enganados, mas eu sei que estão. Irão apresentá-lo a imprensa hoje à noite. Me deram até às seis para conseguir um advogado que o represente ou nomearão um do estado. Estou a pouco tempo na cidade, mas acredito que o senhor possa resolver esse engano. ─ Melton pensou por alguns minutos.

 ─ Senhora Lescaut, no ano passado, entre agosto e setembro toda a polícia do estado se mobilizou a caça de um homem cruel. Ele escolhia uma jovem modelo, cortejava, insinuava-se e se fazia ser convidado à casa dela. Lá a rendia, violentava e a mantinha presa. Saia à noite, escolhia um homem em um bar gay. O levava para a casa da jovem, também o violentava e depois torturava os dois com agressões e mutilações terríveis. Por fim os matava. Foram quatro casos com duas vítimas em cada caso. Oito pessoas que não tiveram chance alguma de defesa. A imprensa logo o chamou de Assassino das Bonecas. ─ Observava a reação da jovem. Ela tremia com as informações. ─ Este criminoso foi descuidado. Deixou uma série de evidências que tornavam possível sua identificação. Pele, amostra de cabelos... esperma. Todas as amostras deixaram claro que se tratava do mesmo homem em todos os casos por que continham DNA. A polícia até prendeu alguns suspeitos, mas nenhum deles foi acusado formalmente porque os testes sempre davam negativos. Se a promotoria vai acusar seu marido, não há dúvidas quanto a ele ser o assassino porque as evidências são incontestáveis. Lamento. Seu marido é culpado.

 ─ Eles estão enganados. Os testes falharam. ─ Afirmou calma.

 ─ Senhora. ─ Michael reconhecia os sinais claros de negação ─ A perícia não cometeria um erro assim. Se estivéssemos falando que uma pequena amostra de sangue ou pele, ou de um único fio de cabelo do acusado que fosse compatível com a do seu marido ainda assim seria impossível um engano. Mas como a senhora mesmo disse eles têm várias evidências que comprovam que seu marido é o homem que procuraram.

 ─ Não é. Leigh estava em alto mar neste período.

 ─ Senhora, as provas são irrefutáveis.

 ─ Não são. Leigh estava no navio. Também temos provas disso. 

 ─ Quais?

 ─ Documentos. ─ Tirou um documento da bolsa. ─ Este é o passaporte de Leigh. Olhe as datas.

 ─ Lamento senhora. Há meios de este documento ser falsificado. ─ Disse sem sequer tocar no passaporte.

 ─ Ligações. ─ Pensou um pouco. ─ Podem verificar a companhia telefônica. Leigh me telefonava todos os dias.

 ─ Nada disso pode contestar um exame de DNA. Lamento.

 ─ Leigh ficou no navio por quase quatro anos. Eu sou testemunha de que ele não esteve na América.

 ─ É esposa dele. Seu testemunho não vale. 

Michael já pensava o que valeria a pena naquele caso. Um julgamento um ou acordo rápido. Uma alegação de insanidade provavelmente salvaria o acusado da pena de morte e tornaria o desfecho rápido e notório. 

 ─ Temos outras testemunhas. ─ Michael parou o que anotava. Hesitou. 

 ─ Há outras pessoas que possam testemunhar que ele estava no navio?

 ─ Cento e oitenta pessoas. Acha que isso pode contestar o tal exame?

 ─ Isso sim é interessante. ─ Fechou o bloco com o interesse renovado. 

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