CAPÍTULO 10
Com o natal próximo às lojas no
centro de Cupertino estavam decoradas e movimentadas. O frio de dezembro era
brando comparado ao que Leigh estava habituado. Ele caminhava entrando em cada
loja de bebê que encontrava. Saia sempre carregado de pacotes.
Entrou no departamento de música
e filmes. Caminhou até a seção de rock. Observou os últimos lançamentos.
Hesitante pegou um CD. O nome New Code lhe saltou. A foto na capa era escura e
não era possível ver o rosto dos integrantes da banda. Virou e no verso encontrou
os olhos azuis.
Apenas os olhos como tinha
sugerido. Abaixo o nome das músicas. Cada faixa tinha uma história dolorosa. E
nenhuma delas poderia ser revivida. Recolocou o CD no lugar. Não iria
comprá-lo. Os laços estavam cortados definitivamente. Estava casado com a
mulher que amava, seria pai em breve, tinha uma vida nova. Esquecer o passado
era o melhor a fazer. Começou a selecionar outros. Seguiu para o caixa levando
os CDs escolhidos. Hesitou. Voltou à seção e pegou o que tinha largado.
Distraído deixou a loja.
Não imaginava que um forte
aparato policial esperava sua saída. Deu dois passos na calçada e mais de cinco
agentes o cercaram com armas apontadas para ele. Os gritos de mãos na cabeça,
parado, no chão, misturaram-se com o das pessoas que se afastaram
assustadas.
Leigh recuou quando percebeu que
aquela movimentação era contra ele. Soltou as sacolas e deixou as mãos à vista.
Dois agentes se aproximaram e sem o menor cuidado o deitaram no chão e o
algemaram. Um carro oficial parou na rua e um homem desceu. Quando o colocaram
de pé se viu frente a frente com o estranho que havia estado em sua casa dois
dias antes.
─ Dennis Black, tenente da Central de
homicídios de São Francisco. ─ Identificou-se ─ Alexius Leigh Lescaut, você
está preso pelos assassinatos de Solange Roupem, Paul Galvin, Helena Robson,
Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund Treneham, Kyle Wiltakher e Penélope Ives.
─ tomou fôlego satisfeito ─ Você tem o direito
de permanecer em silêncio. Se abrir mão desse direito, tudo o que você disser
poderá e deverá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um
advogado presente durante qualquer interrogatório. Se você não puder pagar um
advogado, um defensor lhe será indicado. O senhor tem direito a um telefonema.
Olhou para Lescaut e viu choque.
Já esperava essa reação.
Assassinos sempre fingem surpresa
quando eram apanhados.
─ O senhor entendeu os seus direitos?
─ Não. ─ respondeu sem pensar. ─ Não fiz nada.
─ Dennis repetiu a leitura.
Leigh o fitava sem entender, mas
acenou concordando.
─ Podem levar. ─ mandou satisfeito.
Policiais recolheram os pertences
dele.
─ Não. Por favor. ─ Leigh recebeu um tranco
nas pernas quando tentou resistir. Foi empurrado até a viatura e colocado no
banco de trás. O carro partiu deixando a multidão chocada. O único rosto
conhecido que Leigh viu foi o de Becky Sune.
Leigh foi levado para São
Francisco e colocado sozinho em uma sala. Reparou no espelho que cobria toda a
superfície da parede lateral. Lembranças amargas deixaram as mãos frias.
Respirou fundo, ajoelhou-se e orou em voz baixa por longos minutos. Levantou,
sentou e esperou. Na primeira hora dois policiais e um técnico entraram e
o técnico, coletou uma amostra de saliva. Depois, por mais duas horas levantou,
ajoelhou, orou e sentou outras tantas vezes.
─ Ele já pediu um advogado? O que está
fazendo? ─ Matt perguntou logo que entrou na sala de observação. O rapaz
ajoelhado no chão, de costas para o espelho foi uma surpresa. ─ Ele está orando?!
─ É. O desgraçado tem mesmo que orar muito.
Vai pegar pena de morte.
─ Só se confessar. E se não houver acordo.
─ Não vai haver acordo algum. Quero ver esse
infeliz fuzilado.
─ Injeção letal. ─ Olhou o rapaz novamente. ─ Já
falou com ele?
─ Me mandou esperar lembra?
─ Mandei. Só não achei que obedeceria.
─ O mandado foi cumprido? ─ Dennis perguntou
impaciente.
─ Sim. Acho que encontramos a arma dos crimes.
E outras provas.
─ Ótimo.
─ Só tive pena da esposa. Ela ficou muito
abalada.
─ Duvido que ela não saiba de nada. Temos que
interrogá-la.
─ Eu sei. Ela já deve estar vindo para cá.
Vem, vamos falar com ele. ─ Disse ao ver Leigh terminar a oração e ir sentar.
Entraram na sala.
Leigh levantou e Dennis sacou a
arma. Ele recuou levantando as mãos.
─ Senta! ─ O agente mandou e apesar do choque
do rapaz foi prontamente obedecido. Em seguida o parceiro algemou o prisioneiro
na trava de metal sobre a mesa. ─ Agora vamos conversar.
Matt sentou. Dennis guardou a
arma e se acomodou ao lado dele.
─ Por que isso? ─ Leigh perguntou levantando
as mãos presas.
─ Apenas para garantir que vamos conversar
civilizadamente. ─ Matt disse frio ─ Senhor Lescaut, sou o capitão Matt Dowling
e este é o tenente Dennis Blake.
─ Por que tanta raiva de mim? ─ Leigh
perguntou olhando Dennis diretamente.
─ Tenho certeza que sabe seu desgraçado.
─ Blake! ─ Matt repreendeu.
─ Não. Não sei. Do que estou sendo acusado?
─ Não leu os direitos dele? ─ Matt preocupado.
─ Claro que li. Fiz tudo certo para que
nenhuma manobra jurídica o livre. Vai pagar por tudo que fez. Não vai conseguir
se safar.
─ E o que vocês acham que fiz? ─ Olhou de um
para outro. Silêncio. Puxou as mãos incomodado. ─ Por favor, estou aqui há
horas. Já deveria ter voltado para casa. Minha esposa está preocupada. Ela está
grávida, não pode se aborrecer. Por favor, me deixem ligar para ela e avisar
que vou demorar a chegar.
─ Vai demorar muito. ─ Dennis gracejou
satisfeito.
─ Vou? Por quê?
─ Diga você. ─ Matt perguntou ─ Que razão acha
que temos para prendê-lo?
─ É porque matei o cão?
─ Matou o cão? ─ Matt perguntou fixando o
olhar.
─ O rottweiler que atacou minha esposa. O
Chefe Kanston me disse que o dono estava procurando um jeito de me fazer pagar.
─ Puxou as algemas. ─ Ele é que deveria ser preso por deixar uma criança
conduzir um bicho daquele sem coleira e focinheira adequadas. ─ Puxou o braço ─
Essas algemas são mesmo necessárias? ─ Olhou os dois. ─ Vocês podem imaginar o
que é ver um bicho daquele em cima de sua esposa? Matando seu filho? Eu matei o
cão e não me arrependo.
─ Sua prisão não tem nada a ver com isso. ─ Matt
respondeu sério. Sabiam do que ele falava.
─ Não? Então do que sou detido? ─ Puxou a mão.
─ Não sou uma ameaça. Isso é mesmo necessário? ─ Estava realmente
incomodado.
─ Solte-o. ─ Matt mandou. Dennis obedeceu
contrariado.
Leigh agradeceu aos dois. Blake
bufou e sentou novamente.
─ Quer um cigarro senhor Lescaut? ─ Matt
perguntou acendendo um.
─ Não obrigado. Prometi a minha esposa que ia
parar. Mas aceitaria um copo d’água, por favor. ─ Matt olhou para Dennis que
levantou e saiu sem disfarçar a raiva. ─ Ele realmente não gosta de mim.
─ Tem motivos para isso.
─ Tem? ─ Olhou para ele intrigado. ─ Quais?
─ Lembra-se de Penélope Ives?
─ Não. ─ Pensou um pouco. ─ Nunca conheci
nenhuma Penélope.
─ Não? Ela o conheceu. E intimamente por assim
dizer.
─ Desculpe. Não me lembro.
─ Onde estava entre os meses de agosto e
setembro do ano passado?
─ O que? ─ paciente Matt
repetiu a pergunta. ─ Estava no oriente. Era aluno em um navio-escola.
─ O senhor é estrangeiro. De onde é?
─ Nasci em uma antiga colônia russa chamada
Koryakia.
─ Mora nos Estados Unidos há quanto tempo?
─ Há pouco mais de um mês. Cheguei no começo
de novembro.
─ E antes disso onde morava?
─ Tinha residência em Paris.
─ Esteve aqui entre agosto e setembro do ano
passado?
─ Não. Só estive aqui há... ─ Pensou ─ ...há
mais de doze anos. Morei com minha mãe em São Francisco, quando ela morreu fui
levado de volta ao meu país. Só voltei agora.
─ Não esteve na cidade no ano passado? Mais
precisamente nos meses de agosto e setembro?
─ Não. E nem poderia. Estava interno no navio
escola Karnikowski. Só dei baixa em outubro deste ano. Fui direto para Paris
encontrar minha noiva. Nos mudamos para Cupertino em novembro. ─ Blake voltou.
Soltou o copo com água na frente de Leigh.
─ Obrigado. ─ Bebeu a água em um só gole. ─ Escutem,
eu já deveria estar em casa. Minha esposa deve estar preocupada. Me deixem
ligar para ela.
─ Ainda temos algumas perguntas. Colabore
conosco e logo vai falar com sua esposa. ─ E as perguntas começaram e
continuaram por mais de uma hora.
Perguntaram tudo sobre sua vida.
Seu casamento, seus amigos. Leigh pediu para falar com Ruth três vezes. Foi
ignorado. Insistiam em afirmar que ele havia estado na cidade entre agosto e
setembro do ano anterior. Citavam datas, lugares, nomes de pessoas que ele não
conhecia. Respondeu a tudo com paciência.
─ Vou repetir. Estive nessa cidade com doze
anos de idade. Depois voltei para a Rússia, onde vivi mais oito anos. Depois me
mudei para Paris. Passei mais quatro anos com residência lá, mas a maior parte
do tempo estava em um navio escola viajando pelo oriente. Deixei o navio em
outubro deste ano e fui para Paris. Coloquei os pés na América em novembro. Não
estive aqui antes disso. Agora, quero falar com minha esposa e quero saber do
que sou acusado. Se não me atenderem nisso então me calo até falar com ela.
Matt inclinou-se para ele.
─ Sua esposa já sabe que está aqui. ─ Leigh o
olhou chocado. ─ Venha, vamos levá-lo para ligar para ela. ─ Avisou levantando.
Leigh o seguiu.
As freadas bruscas no jardim da
casa dos Lescaut levou Annette para a janela. Chocada viu vários homens com
coletes da polícia saltarem apressados dos carros. A Senhora Lanfond abriu a
porta e eles irromperam casa adentro. Ruth desceu as escadas assustada com a
movimentação dos policiais que passaram por ela apressados. Ela gritou e se
encolheu como se fosse ser atacada.
Matt Dowling subiu rápido para
ampará-la.
─ Calma senhora. Polícia. ─ Ruth não se deixou
tocar.
Desceu indo parar ao lado da
governanta que estava tão assustada quanto ela.
─ O que querem aqui? ─ Perguntou vendo a casa
ser invadida. ─ O que estão procurando? Não podem fazer isso. ─ Disse ao ver a as
estantes sendo reviradas.
─ Podemos. Temos um mandado senhora. ─ Dowling
informou penalizado. A garota era mais jovem do que esperava.
─ Mandado? Por quê? O que querem?
─ O que está acontecendo? ─ Annette perguntou
da porta. Vinha acompanhada por Hope que foi direito para o lado de Ruth.
─ O que pensam que estão fazendo? ─ Hope
perguntou fazendo Ruth sentar.
─ Temos um mandado. ─ O homem informou
sério.
─ Deixe-me ver
─ Quem é a senhora?
─ Hope Kanston, esposa do chefe de polícia da
cidade e também assistente social. Qualquer que seja seu mandado e suas ordens
está assustando esta jovem que passa por uma gravidez de risco. Responderá por
dano que venha a causar por sua total falta de tato. Quero ver o mandado. ─ Ele
a atendeu.
Hope leu o documento. Annette
levou Ruth para um canto na sala e a Senhora Lanfond lhe entregava um copo com
água.
─ Há alguma acusação contra ela?
─ Por enquanto não. ─ Disse frio.
─ Se estão aqui já o prenderam.
─ Há dez minutos no centro. ─ Olhou para a
jovem assustada. ─ Sabemos que estão casados há um mês. Só não sabia que a
gravidez estava tão adiantada.
─ Está. ─ Pensou um pouco ─ Tem certeza de que
está na casa certa? De que está acusando o homem certo? Leigh Lescaut nos disse
que esteve na Ásia nos últimos quatro anos. ─ Olhou para Ruth ─ Ele não parece
um assassino.
─ Eles nunca parecem. ─ Olhou a jovem ─ Conhece
alguém da família dela? Se conhece é melhor chamar. Os dias serão duros daqui
para frente.
─ O que está acontecendo Hope? Quem são estes
homens? Porque estão aqui? ─ Ruth disse se aproximando ─ Eles podem fazer
isso? Revirar minha casa?
─ Ruth, venha é melhor conversarmos na
cozinha.
─ Me diga o que houve!
─ Leigh foi preso.
─ Vocês estiveram em minha casa!
─ Tínhamos um mandado. ─ Dennis satisfeito ao
vê-lo irritado.
─ Assustaram minha esposa. ─ Leigh disse nervoso. O
guarda que o acompanhou até a sala de interrogatório saiu fechando a porta.
─ Sente-se senhor Lescaut. ─ Matt disse serio.
─ O que pensam que estavam fazendo? ─ Caminhou
na direção de Blake que levantou pronto para uma briga.
─ Senhor Lescaut, sente-se agora ou vamos algemá-lo!
─ Matt mandou firme interrompendo os passos de Leigh.
─ Ouçam bem o que vou lhes dizer. ─ Virou-se
para Matt e sem considerar a mão no coldre caminhou na direção dele com dedo em
riste ─ Se minha esposa ou minha criança sofrerem qualquer dano por conta dessa
situação vocês irão responder por isso. Eu prometo que...
─ Que fará o que? ─ Dennis perguntou
debochado.
─ Sente-se senhor Lescaut. ─ Matt ainda mais
firme.
─ Tenho o direito de saber do que sou acusado
droga! ─ Recuou e sentou ─ Minha esposa gesta. Não deve ser incomodada. ─ Disse
tenso.
Baixou a cabeça tenso. Era a pura
imagem do inocente desolado. Dennis voltou ao lugar, mas não sentou. Leigh
levantou os olhos para os dois. Respirou fundo.
─ Desculpem. Eu não deveria ter feito tal
coisa. Foi inadequado.
─ Não dê uma de bom moço Lescaut. Não vai
adiantar. ─ Dennis ferino.
─ Eu não... Por favor, do que sou acusado? ─ A
pergunta foi para Matt.
Ele abriu a pasta que ficou
fechada sobre a mesa durante todo o tempo.
─ Alexius Leigh Lescaut, você é suspeito de
oito homicídios ocorridos na cidade de São Francisco entre 08 de agosto e 01 de
setembro de 2010, vitimando: Solange Roupem e Paul Galvin, assassinados em 08
de agosto, Helena Robson e Daril Osbourne, no dia 17 de agosto, Sophia Anello e
Edmund Treneham no dia 24 de agosto e Penélope Ives e Kyle Wiltakher em 01 de
setembro.
─ Estou sendo acusado de matar oito pessoas? ─
Perguntou chocado.
─ Sim.
─ Em agosto e setembro?
─ Sim.
─ Aqui? Na cidade de São Francisco? ─ Matt
acenou concordando ─ Vocês se enganaram. Isso é impossível.
─ Não nos enganamos Senhor Lescaut. Portanto
tudo fica mais fácil se confessar e se entregar seu cúmplice.
─ Não posso confessar algo que não fiz. ─
Inclinou-se para Matt ignorando Dennis completamente. ─ Eu já disse a vocês. Não
estava na América nessas datas.
─ Certo! Não estava. ─ Dennis concordou
irônico. ─ Então nos explique qual o truque para estar em dois lugares ao mesmo
tempo. ─ Leigh recuou empalidecendo um pouco. Matt notou a leve alteração. ─ Por
que o senhor estava aqui nessas datas. O senhor matou oito pessoas. O senhor
estuprou, mutilou e assassinou cada uma delas.
─ Não fiz isso. Jamais faria algo assim. ─ Respirou
─ Se receberam uma denúncia concordo que devam averiguar, mas isso é ridículo.
Seja lá quem foi que me acusou está enganado. Eu não sou um assassino. Não
estive aqui. Estava no oriente.
─ Temos evidências de que o senhor é o
assassino. ─ Matt observando-o.
─ Que evidências? ─ Confuso ─ Alguém disse que
me viu? Essa pessoa se enganou. Eu não matei oito desconhecidos.
─ Matou senhor Lescaut. ─ Dennis afirmou
sério.
─ Por que diz isso com essa certeza? Eu estava
do outro lado do mundo. E mesmo que estivesse aqui, mesmo que morasse aqui
nessas datas, jamais faria algo assim. Lamento, mas está perdendo tempo comigo.
Essa testemunha se enganou.
─ Não temos uma testemunha senhor Lescaut. ─ Matt
começou.
─ Nossa evidência é DNA. ─ Dennis completou
satisfeito
─ DNA?
─ É. O seu. ─ Dennis sorriu vitorioso ─ Você
foi muito descuidado. Achou que morando fora do país nunca seria apanhado, não
é? Deixou muitos rastros nas vítimas e nos lugares onde as matou.
─ Não matei essas pessoas. ─ Leigh disse
pensando no que ouvia.
─ Seu DNA estava em cada vítima. Sua pele
debaixo das unhas deles. Seu sêmem... em todos eles. Paul Galvin tinha o seu
esperma até nos pulmões. ─ Parou para olhá-lo bem ─ Cada amostra coletada e
catalogada e agora comparada à que conseguimos na sua casa na semana passada. E
sabe qual a surpresa. Elas conferem. Cada uma delas. 100%. Totalmente.
─ Isso é uma imoralidade. Seus testes estão
errados. Jamais um homem teria... ─ A expressão de asco era nítida. Tenso ─ Refaçam
seus testes. Estão errados.
─ Foram feitos e refeitos tantas vezes que a
lei nos diz que é necessário. Não há nenhuma dúvida. O DNA é seu. Você é o
assassino das bonecas. ─ Matt sério.
─ Assassino do que? ─ Perguntou sem entender.
─ Das bonecas! Foi como a imprensa o apelidou.
─ Não matei essas pessoas. Meu
Deus isso é uma insanidade. Eu estava do outro lado do mundo. Cheque se quiser.
─ Não temos porque fazer isso. Sabemos que
está mentindo, portanto, se nos disser o nome do cúmplice e confessar todos os
crimes a promotoria pode lhe oferecer um acordo e talvez o senhor pegue prisão
perpétua em vez de pena de morte. ─ Matt
─ Vocês se enganaram. Não sou a pessoa que
procuram!
─ Não nos enganamos. ─ Matt observando as
transformações nas feições de Leigh Lescaut. Ou ele falava a verdade ou não
tinha qualquer conhecimento do que havia feito. ─ É melhor parar de insistir
nessa história. Sua situação só tende a piorar se continua negando.
─ Só posso negar, pois não matei essas pessoas
─ Tenso. Pensou um pouco. Olhou as próprias mãos. ─ Disse que meu... meu DNA
estava nas vítimas?
─ Sim. ─ Matt respondeu. Ele sabia do que
falavam.
Leigh levantou os olhos. Havia
dor e incredulidade neles.
─ Quero um advogado. ─ Disse em um fio de voz.
Michael Melton voltou ao
escritório no fim da tarde depois de uma escapada do escritório com Ângela, uma
bela executiva de corpo perfeito e libido apurada. Haviam se conhecido no fórum
e foi uma tarde agradável. Uma boa comemoração para mais uma vitória. Então
porque se sentia tão vazio? Lembrou da esposa e seu corpo rechonchudo. Ela
estava uns dez quilos acima do peso, mas sua falta de desejo por ela era apenas
por isso? Justificava a si mesmo dizendo que sim, mas acabara de fazer sexo por
três horas com uma mulher escultural e ainda se sentia vazio.
Apertou o botão do elevador. O
que estava acontecendo? O que lhe faltava?
Tinha direito a duas semanas de
folga. Merecidas após quatro anos de trabalho árduo. Talvez essa última vitória
no tribunal o levasse a ser sócio. Ser sócio era tudo o que desejava. Talvez
fosse a falta de reconhecimento do seu trabalho que gerava toda aquela sensação
de insatisfação. Usou a entrada privativa de funcionários evitando a recepção.
Sua sala era ampla e confortável, mas ainda uma sala de contratado. Iria apenas
pegar alguns papéis, deixar o relatório de horas e ir para casa. Prometeu para
o filho que iriam pescar. Tinha uma cabana fora da cidade. Acomodou-se na
cadeira, abriu a maleta e antes que pudesse organizar seu relatório Holly
entrou na sala.
─ Ia viajar sem se despedir? ─ Ela perguntou
irônica.
─ Claro que não. Ligaria de casa para dar um adeus.
─ Levantou ─ Quando você vai me explicar como sempre sabe que cheguei?
─ Já disse que isso é segredo de estado. ─ Sorriu.
─ Pronto para a folga?
─ Prontíssimo. Mitch está me esperando com as
iscas prontas. ─ Olhou para ela. Conhecia aquela cara. Balançou a cabeça em
negativa. ─ Não. De modo algum. Seja lá o que for vai ter que me esperar
voltar.
─ Não dá para esperar.
─ Então mande para o Harrison. Eu vou sair de
férias.
─ Se eu fizer isso você vai me degolar.
─ Nada é mais importante do que minhas férias.
Mande para o Harrison.
─ Michael, apenas converse com ela.
─ Conversar com quem?
─ Com a garota que está te esperando há uma
hora. ─ Sorriu de novo ─ Tenho certeza de que vai gostar.
─ Não. Definitivamente não estou interessado.
─ Não quer mesmo atender uma jovem que não
deve ter mais do que vinte anos, vestindo um Dior moderníssimo, duas esmeraldas
em cada orelha e uma aliança que deve pagar nossos salários por um ano? ─ Sorriu
amplamente.
─ Outro divórcio complicado? ─ Perguntou
irônico. Divórcios complexos eram sua especialidade. Holly acenou que não. ─ Não?
Então mande para o Harrison.
─ Se é o que quer vai para Harrison. Mas a
jovem insiste em ver você. Não sei se ela vai aceitar. Vamos perder a cliente.
─ Insiste em me ver? ─ Sorriu. ─ Disse por
quê?
─ Disse que você é o único capaz de ajudá-la.
─ Ele levantou as sobrancelhas satisfeito. Ter a preferência de clientes era
essencial para conseguir a sociedade. ─ Quer falar com a moça?
─ Não. ─ Sentou. ─ Me diga antes do que se
trata.
─ Ela não disse, mas eu acho que será muito
interessante escutá-la.
─ Desembucha Holly. Sei que você já sabe.
─ Lembra por qual motivo foi a uma delegacia
da última vez?
─ Acompanhei Martin quando ele foi ouvido no
caso do assassino das bonecas.
─ Ainda não foi divulgado, mas prenderam um
suspeito hoje. Será apresentado à imprensa, às nove da noite.
─ Até que fim. E a moça é parenta de uma das
vítimas quer que eu intermedeie as informações junto ao promotor? Martin me
indicou?
─ Não. É a esposa do acusado e quer que você o
defenda.
─ O que?
─ É a esposa do acusado e quer que você o
defenda. ─ Repetiu sentando.
─ Esposa do acusado? ─ Riu incrédulo. ─ Não
sou mais criminalista.
─ Já foi. E sabe que com um caso dessa
proporção isso não seria problema. Se aceitar pode dividi-lo com Liam ou
qualquer outro. Ela está procurando você. Só quer falar com você. Eu até
expliquei que não atua mais na área.
─ Se ela não disse nada como sabe que...
─ Ela deixou escapar que o marido estava detido
na central de homicídios. Liguei, falei com um contato e juntei dois e dois. E
tem mais. Lembra do que ele fazia com o útero das vítimas?
─ Sim...
─ A jovem está grávida. ─ Deixou-o pensar ─ Vai
falar com ela?
─ Não. Não posso pegar este caso. O que vou
dizer a Martin?
─ Martin é apenas um ex colega de faculdade. E
ele sabe que todos têm direito a defesa. Este é um caso que qualquer escritório
do país iria agradecer aos céus. Qualquer advogado iria amar se caísse em sua
mesa.
─ Mesmo assim...
─ Pense Michael. Esse caso terá repercussão.
Fale com a moça, conheça o suspeito. Se inteire dos fatos antes de decidir se
aceita ou não. Se aceitar o caso, perdendo ou ganhando tenho certeza de que
terá a sociedade. ─ Michael refletiu.
─ Me dois minutos, depois a faça entrar. ─ Ela
ia saindo ─ Ah e, por favor, ligue para Mitch e diga a ele que...
─ Eu sei o que dizer. Vá em frente. Esse é o
seu caso.
Era meio da tarde quando a porta
se abriu e Ruth entrou na sala. Correu para os braços do marido e antes de
abraçá-lo apalpou-o todo em um exame nervoso. Leigh ficou repetindo estou bem,
estou bem até que ela o calou com um beijo apaixonado. Quando se separaram
ficou agarrada a ele.
─ Vocês têm cinco minutos ─ Matt
disse seco e saiu.
Leigh pegou as mãos da esposa,
ajoelhou-se. Beijou o punho direito, depois o esquerdo, virou, beijou a palma
esquerda depois a direita, juntou ambas as mãos e descansou o rosto sobre elas
por alguns segundos. Beijou-as novamente no dorso.
─ Peço-te perdão por fazê-la
sofrer. ─ Os olhos de Ruth lacrimejaram.
─ O que esta acontecendo Leigh?
─ O inimigo de todos encontrou
uma forma legal de me matar.
─ Leigh? ─ tremeu assustada.
─ Salastiel esteve aqui e
disse que há um Koryak oculto que pode nos ajudar. Ele nos mandou procurar por
um advogado que responde hoje pela alcunha de Michael Melton. E que você terá
que se esforçar para convencê-lo a assumir este caso.
─ Por que eu?
─ Por que ele pertence a sua
linhagem.
Às vezes Michael odiava Holly,
outras a amava. Ela era sua assistente desde que começara a advogar aos vinte e
seis anos e agora aos trinta e oito anos não imaginava como seria sua carreira
sem as intervenções dela. Terminou de ajeitar a mesa no momento em que a fiel
assistente abriu à porta dando passagem a cliente.
Ele não estava preparado para a
imagem que viu. A mulher era realmente jovem. Tinha os traços delicados como
porcelana e os olhos mais azuis que ele já vira. Estava elegantemente vestida
exatamente como a assistente descreveu, mas ela deixou de mencionar o longo véu
que cobria os cabelos e parte do rosto de sua visitante. Um sinal claro de
problemas maiores do que previra.
─ Michael, esta e a Senhora Ruth Lescaut.
Senhora Lescaut, este é o Michael Melton. ─ Educado Michael estendeu a
mão.
Ruth a aceitou olhando-o nos
olhos. Enquanto as mãos se tocavam Michael viu todo o seu passado e mergulhou
em um mundo que nunca pensou existir. Tomou conhecimento de suas origens e
ofegou sem entender. Quando o soltou Ruth sorriu levemente e murmurou ‘bem-vindo’
no idioma Koryak.
─ Desculpe. ─ Michael meio confuso. Deixou de
lado acreditando ser apenas cansaço. ─ Por favor, sente-se senhora Lescaut. ─ Sério.
A jovem sentou e baixou o véu sem
deixar de encará-lo. Holly fez as cortesias de praxe oferecendo água e café que
foram recusados. Estrategicamente sentou em uma cadeira ao lado com o bloco de
anotação. Nervosa Ruth a olhou.
─ Prefere que falemos a sós? ─ O advogado
perguntou.
─ Por favor. ─ A voz era uma melodia suave.
Ele não precisou dizer nada. Holly se levantou contrariada e da porta sussurrou
um ─ você me paga─ antes de sair.
─ Estou a sua disposição senhora.
─ Obrigada. Acho que sua assistente já lhe
explicou do que se trata.
─ Ela mencionou algo que me despertou meu
interesse, no entanto gostaria de ouvir sua versão dos fatos.
─ Tudo o que conversarmos aqui ficará entre
nós?
─ Sigilo absoluto. Privilégio cliente
advogado.
─ Não vai falar com a imprensa?
─ Somente se a senhora permitir.
─ Nada de imprensa. Não podemos nos expor. A
família de Leigh é importante e ele não quer que fiquem sabendo desse
mal-entendido.
─ Não se preocupe. Me conte o que aconteceu.
─ O que sei é que meu marido foi preso. Estão
esperando apenas que ele nomeie um advogado para anunciar a prisão.
─ Do que acusam seu marido Senhora Lescaut?
─ De matar oito pessoas aqui em São Francisco.
O chamaram de... assassino das bonecas. Mas isso é impossível. Meu marido não
estava aqui. Leigh era aluno do navio escola Karnikowski e estava circulando o
oriente a bordo. Neste período em que dizem que ele matou essas pessoas o navio
estava no mar da China.
─ Não poderia ter passado por aqui?
─ Não. É um navio oriental. Não circulava por
águas ocidentais.
─ E tem certeza de que ele estava a bordo?
─ Sim tenho.
─ O que a polícia disse?
─ Disse que tem evidências concretas de que
meu marido esteve aqui e que matou essas pessoas. Mas eu sei que isso é
impossível. Estão pressionando para que Leigh confesse algo que não fez e... Por
favor, podemos ir até lá?
─ A polícia disse que tem evidências
concretas? Usou esta frase?
─ Sim. Afirmam que não estão enganados, mas eu
sei que estão. Irão apresentá-lo a imprensa hoje à noite. Me deram até às seis
para conseguir um advogado que o represente ou nomearão um do estado. Estou a
pouco tempo na cidade, mas acredito que o senhor possa resolver esse engano. ─ Melton
pensou por alguns minutos.
─ Senhora Lescaut, no ano passado, entre
agosto e setembro toda a polícia do estado se mobilizou a caça de um homem
cruel. Ele escolhia uma jovem modelo, cortejava, insinuava-se e se fazia ser
convidado à casa dela. Lá a rendia, violentava e a mantinha presa. Saia à
noite, escolhia um homem em um bar gay. O levava para a casa da jovem, também o
violentava e depois torturava os dois com agressões e mutilações terríveis. Por
fim os matava. Foram quatro casos com duas vítimas em cada caso. Oito pessoas
que não tiveram chance alguma de defesa. A imprensa logo o chamou de Assassino
das Bonecas. ─ Observava a reação da jovem. Ela tremia com as informações. ─ Este
criminoso foi descuidado. Deixou uma série de evidências que tornavam possível
sua identificação. Pele, amostra de cabelos... esperma. Todas as amostras
deixaram claro que se tratava do mesmo homem em todos os casos por que continham
DNA. A polícia até prendeu alguns suspeitos, mas nenhum deles foi acusado
formalmente porque os testes sempre davam negativos. Se a promotoria vai acusar
seu marido, não há dúvidas quanto a ele ser o assassino porque as evidências
são incontestáveis. Lamento. Seu marido é culpado.
─ Eles estão enganados. Os testes falharam. ─ Afirmou
calma.
─ Senhora. ─ Michael reconhecia os sinais
claros de negação ─ A perícia não cometeria um erro assim. Se estivéssemos
falando que uma pequena amostra de sangue ou pele, ou de um único fio de cabelo
do acusado que fosse compatível com a do seu marido ainda assim seria
impossível um engano. Mas como a senhora mesmo disse eles têm várias evidências
que comprovam que seu marido é o homem que procuraram.
─ Não é. Leigh estava em alto mar neste
período.
─ Senhora, as provas são irrefutáveis.
─ Não são. Leigh estava no navio. Também temos
provas disso.
─ Quais?
─ Documentos. ─ Tirou um documento da bolsa. ─
Este é o passaporte de Leigh. Olhe as datas.
─ Lamento senhora. Há meios de este documento
ser falsificado. ─ Disse sem sequer tocar no passaporte.
─ Ligações. ─ Pensou um pouco. ─ Podem
verificar a companhia telefônica. Leigh me telefonava todos os dias.
─ Nada disso pode contestar um exame de DNA.
Lamento.
─ Leigh ficou no navio por quase quatro anos.
Eu sou testemunha de que ele não esteve na América.
─ É esposa dele. Seu testemunho não
vale.
Michael já pensava o que valeria
a pena naquele caso. Um julgamento um ou acordo rápido. Uma alegação de
insanidade provavelmente salvaria o acusado da pena de morte e tornaria o
desfecho rápido e notório.
─ Temos outras testemunhas. ─ Michael parou o
que anotava. Hesitou.
─ Há outras pessoas que possam testemunhar que
ele estava no navio?
─ Cento e oitenta pessoas. Acha que isso pode
contestar o tal exame?
─ Isso sim é interessante. ─ Fechou o bloco
com o interesse renovado.
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