CAPÍTULO 11
Michael chegou à delegacia
acompanhado pela jovem Ruth Lescaut. Conversou com os policiais que informaram
as acusações. A promotoria já as havia formalizado e o suspeito seria
apresentado à imprensa às nove da noite. A audiência de acusação marcada para
dali a dois dias.
─ Quem é o promotor do caso? ─ Michael
perguntou curioso com a pressa.
Estava na ante sala da carceragem
assinando o registro de entrada.
Ruth Lescaut o aguardava na
recepção.
─ Eric Asher. ─ Matt informou satisfeito.
Michael Melton não era uma figura
conhecida nos meios policiais. No tempo em que atuou como criminalista ganhou
alguns casos, geralmente se aproveitando de falhas nos trabalhos de
investigação. Até que representou e liberou um jovem acusado de assalto, que no
crime seguinte matou uma criança. Depois disso passou a atuar com divórcios e
casos de família. Era um bom advogado, mas não atuava na área há anos e nunca
em um caso de homicídio. Dowling riu satisfeito. Eric Asher intimidava o mais
experiente advogado criminalista. Imagine o que faria com Melton.
─ Eric Asher. ─ Michael repetiu meio irônico.
Um adversário respeitável, teve que admitir. ─ Preciso falar com meu cliente
pelo tempo que julgar necessário, assim diga ao promotor Asher que suspenda a
coletiva por tempo indeterminado. E que não haverá nenhuma divulgação do caso
até que não paire nenhuma dúvida sobre a identificação correta do suspeito.
─ Você tem até amanhã. Adio a entrevista por algumas
horas. ─ Eric disse surgindo na porta. ─ Converse com seu cliente. Faça-o
confessar, entregar quem é o cúmplice e oferecemos um bom acordo. Podemos
mandá-lo para a prisão estadual cumprindo sentença de perpétua e tudo se
resolve em uma semana.
─ E isso será muito bom para você às vésperas
de uma eleição não é?
─ Será bom para a sociedade ter mais um louco
foi trancafiado.
─ Você pode estar se precipitando. ─ sorriu
frio ─ Vou ver meu cliente. ─ caminhou para a porta ─ Quero privacidade.
Antes de ir encontrar o cliente,
Michael voltou à recepção.
─ Já estou inteirado do caso do
seu marido Senhora Lescaut.
─ Então podemos ir falar com ele?
─ perguntou levemente aliviada.
─ A senhora já esteve com seu
marido hoje. Só o advogado terá contato com ele daqui para frente. ─ o policial
avisou seco. Olhou o ventre dilatado. ─ Aconselho que a senhora vá para casa
descansar.
─ Só vou sair daqui quando Leigh
for liberado. ─ retrucou levantando a cabeça em sinal de desafio. Michael tomou
ar antes de intervir.
─ Senhora Lescaut, seu marido não será
liberado esta noite.
─ Não? ─ Chocada.
─ Não. Essas coisas demoram.
─ Mas...
─ Antes de conseguir liberar seu marido terei
que provar que eles estão enganados. Preciso analisar todos os detalhes
necessários para provar que ele esteve em outro lugar nas datas dos crimes, e
isso tende a demorar. O melhor é que volte para casa. Descanse esta noite e
amanhã cedo entro em contato com a senhora para colocá-la a par dos fatos.
─ Então vai assumir o caso? ─ ela perguntou
olhando-o diretamente nos olhos.
─ Vou. ─ Michael concordou perdido nos
profundos olhos azuis.
Leigh Lescaut estava ajoelhado em
um canto de cabeça baixa. Por um minuto Michael pensou que o tinham ferido de
alguma forma. Seu primeiro impulso foi de ir até ele levantá-lo, mas Matt
Dowling o impediu e só então percebeu que ele rezava.
Esperou por quase dois minutos. O
rapaz levantou devagar. E Michael pode observá-lo. Tinha entre um metro e
oitenta e cinco a um metro e noventa. Correspondia a suposta altura do
assassino. O corpo era magro com músculos definidos. Parecia forte o bastante
para carregar um corpo sem esforço. Os cabelos tocavam o colarinho, eram negros
e cacheados. Estranhou. Pela descrição das testemunhas o acusado usava cabelos em
estilo militar. Lógico que nada impedia que ele os tivesse deixado crescer. Sua
análise demorou dois segundos. Foi o tempo gasto para ser deixado na sala
sozinho com um homem suspeito de matar oito pessoas a sangue frio.
─ Prazer em conhecê-lo senhor Melton. ─ o rapaz
disse estendendo a mão. Michael a aceitou e o aperto foi firme. Desta vez não
viu nada e sentiu certo alívio. ─ Lamento que este encontro não tenha ocorrido
em condições mais favoráveis.
─ Vamos conversar ─ sentaram.
─ O senhor esteve com minha
esposa?
─ Foi ela que contratou meus
serviços. Pode me dizer como chegaram a mim?
─ O senhor nos foi recomendado
por alguém influente em nosso convívio. ─ ele disse sem maiores detalhes. ─
Estamos em suas mãos.
─ Veremos o que podemos fazer a
respeito ─ limpou a garganta seca. Estava com fome e com sede. ─ O senhor matou
aquelas pessoas?
Leigh se aprumou para
olhá-lo.
─ Não, senhor Melton, não matei. ─ afirmou
sério.
Michael o encarou por vários
segundos. Acreditou.
─ A que horas foi detido?
─ Por volta das dez da manhã.
─ Onde estava?
─ Saindo de uma loja em Cupertino.
─ Não estava em São Francisco? ─ estranhou.
─ Não. Estava em Cupertino. Eles me trouxeram
direto para cá e depois de umas três horas começaram a fazer uma série de
perguntas.
─ Você deveria ter sido levado para a
chefatura de polícia em Cupertino. Sabe por que não o fizeram?
─ Não.
─ Isso já nos favorece! ─ anotou. ─ Antes de
começarmos quero saber se seus direitos básicos foram respeitados.
─ Não entendi.
─ Foi-lhe servido algo para comer durante o
dia?
─ Não. ─ Sorriu divertido. ─ o agente Blake
disse que um dia de jejum iria clarear minha memória.
─ Por que ele disse isso?
─ Porque eu disse a ele que não me lembrava de
ter estado aqui no ano passado. ─ Michael fechou o bloco.
─ E você não se lembra?
─ Eu não estive aqui. Estava do outro lado do
mundo.
─ Tem certeza disso?
─ Tenho. Disse isso por que não sabia mais o
que dizer.
─ Já teve alguma doença neurologia? Algum
trauma? Alguma fratura craniana?
─ Não sei. ─ pensou ─ Talvez.
─ Talvez?
─ Sofri um acidente grave na infância. Não sei
a extensão dos ferimentos, mas sei que foram na cabeça.
─ Você tem brancos Leigh? Posso te chamar de
Leigh não posso?
─ Pode. ─ ele ficou em silêncio.
─ E então? Você tem brancos? Sabe o que é?
Quando a pessoa...
─ Eu sei o que é. ─ o encarou ─ Não. Eu não
tenho brancos.
─ Já teve alguma vez?
─ Não.
─ Tudo bem. ─ levantou. ─ Também não comi hoje,
então vou buscar algo para comermos. O que prefere? Café? Refrigerante? Chá?
─ Chocolate seria bom. ─ o rapaz respondeu em
um fio de voz.
Michael deixou a sala pensativo.
A negativa do rapaz para os brancos não o convenceu. No corredor pegou o
celular e ligou para a assistente.
─ Holly, por favor, contate o doutor
Patterson. Diga para ele me encontrar amanhã de manhã na central de homicídios.
─ desligou e foi buscar a comida.
Na única lanchonete próxima viu
os dois agentes responsáveis pela prisão de seu cliente. Manteve-se oculto por
uma coluna observando os dois. Discutiam.
─ Você quer perder todos estes meses de
trabalho? Não pensa que atitudes como esta podem fazer qualquer juiz afastá-lo
do caso? Se ela der queixa... Você estava esperando por ela na garagem?
─ Não. Desci para fumar. ─ Blake rebateu. O ar
descrente do parceiro o fez admitir. ─ Droga, fiquei esperando sim. Pensei em
contar a forma como o marido matou oito pessoas e ver se ela se decidiria a nos
ajudar. Ela deve saber quem é o cúmplice, no mínimo o conhece.
─ A promotoria vai intimá-la e ela vai dizer o
que sabe e o que não sabe. Não vai conseguir nada a interpelando em uma garagem
escura.
─ Ela não vai falar. Pode saber o que for mas
não vai falar. ─ Dennis acendeu outro cigarro. ─ E esse advogadozinho de
divorcio não vai nos deixar intimá-la. A gravidez, a juventude, essas
baboseiras que caras como ele sabem usar bem.
─ Você não acha estranho a mulher dele estar
grávida? As amostras indicavam um homem estéril. Por isso a extirpação do
útero. Os analistas deduziram que ele queria ver se tinha conseguido
engravidá-las.
─ Andou coagindo a esposa do meu cliente
agente Blake? ─ Michael disse surgindo detrás da coluna. Ficou satisfeito com a
palidez que provocou nos dois.
─ Não fiz nada demais. Apenas a encontrei na
garagem. ─ Dennis disse dando os ombros. ─ Matt estava lá e viu tudo o que
aconteceu.
─ Vou averiguar este episódio. Tomara que
tenha sido apenas um encontro casual. E você está certo. Não vou permitir que a
intimem. ─ a senha foi chamada. Michael foi até o atendente e recebeu os
lanches que esperava. Voltou. ─ Também vou oficializar uma queixa por deixarem
meu cliente sem alimentação o dia todo. Espero que isso não se repita. ─ se
virou para a saída
─ Me diga uma coisa Michael, você não se sente
mal em defender gente como esse tal de Lescaut? Você viu as fotos, conhece o
caso. Uma das vítimas não foi seu colega de faculdade?
─ Não. A vítima vivia com um conhecido dos
tempos de faculdade.
─ Ah, sim, o doutor Martin Penn, o companheiro
de Daril Osborne. O que ele vai dizer quando souber que está defendendo o
assassino do namorado dele?
─ Martin sabe que todos têm direito a defesa.
─ Está com a pasta do caso não está? Olhe as
fotos de Osborne. Pergunte a seu cliente o que ele sentiu enquanto fatiava o
pênis do rapaz. Seu cliente amarrou o cara ajoelhado na frente da banheira,
ajeitou o pênis na borda e o cortou como se cortasse um pepino para a salada.
Quando terminou abriu o saco escrotal de forma circular e retirou os testículos
como se abrisse uma alcachofra. Fez tudo isso com Osborne vivo e de mãos
limpas. Enquanto a vitima esvaia-se em sangue juntou tudo e jogou no sanitário.
As digitais ficaram marcadas com o sangue do namorado de seu amigo na beirada
da banheira, no vaso, em toda parte.
─ Tenho conhecimento do fato. ─ mentiu
engolindo em seco. Voltou e parou ao lado dos dois. ─ Vocês pensam que podem
fazer qualquer coisa, mas sugiro que tentem respeitar os direitos do meu
cliente. Isso vai garantir que este mal-entendido seja esclarecido de forma
rápida e sem maiores prejuízos. E... nem pensem em intimar Ruth Lescaut. Ela é
jovem demais, está grávida e não deve ser incomodada.
Deixou o local com passos firmes,
mas se recostou na parede do elevador quando se viu sozinho. Era advogado de
divórcios. O que estava fazendo naquele caso?
Quando Michael voltou Lescaut
estava novamente ajoelhado. Enquanto esperava ele terminar sentou, abriu os
sanduíches e começou a comer. Logo o rapaz juntou-se a ele. Fez uma pequena
oração antes de se servir.
Mantinha a cabeça baixa e parecia
cansado e tenso.
─ Está tudo bem?
─ Não sei. Diga você. ─ Michael suspirou.
─ Acho que não. ─ abriu a pasta. Folheou as
páginas do inquérito. Viu as fotos. Fechou. Tirou um gravador da pasta e ligou ─
Vamos começar. Seu nome completo?
─ Alexius Leigh Lescaut.
─ Onde nasceu?
─ Nasci em uma ex-colônia russa
chamada Koryakia.
─ Qual a sua idade?
─ Completei 24 anos em 13 de
outubro.
─ Quando chegou à América?
─ No começo de novembro.
─ Já havia estado aqui antes?
─ Meus pais se separaram quando
eu tinha dez anos. Morei aqui por dois anos com minha mãe. Ela morreu e eu fui
levado de volta para Koryakia.
─ Não estava aqui nos meses dos crimes?
─ Não. Estava a bordo do navio Karnikowski.
Fui aluno por quatro anos.
─ O que estudava?
─ Línguas orientais.
─ Sua situação aqui, como estrangeiro, está
regular?
─ Tenho cidadania americana. Minha mãe era
americana.
─ Me fale de sua vida.
─ O que quer saber?
─ Antes de tudo quero saber se tem um irmão
gêmeo.
─ Não. ─ a resposta foi rápida.
─ Tem certeza?
─ Sim. Não tenho irmãos.
─ Mas já teve? ─ perguntou sem entender o tom
contrariado.
─ Tive. Um irmão mais velho e uma irmã mais
nova. Ambos morreram.
─ Certeza absoluta de que não tem um irmão
gêmeo?
─ Já disse. Não tenho irmãos.
─ Me conte por que seus pais se separaram.
─ Não me lembro. ─ Michael percebeu que ele
mentia ─ O que isso importa?
─ Importa na maneira como o afetou. Nos
traumas que causou em você.
─ Não houve traumas. Um dia estávamos em casa
e no outro viemos para a América. Eu só tinha dez anos, não sei o que
aconteceu. Dois anos depois ela morreu em um incêndio enquanto eu estava na
escola. Meu pai apareceu e me levou de volta.
─ E como foi seu relacionamento com ele depois
disso?
─ Relacionamento com meu pai? Nunca houve. Ele
me colocou em um mosteiro para estudar e só saí de lá com vinte anos.
─ E como foi sua vida... neste mosteiro?
─ Oração e jejum. ─ riu tenso ─ Oito anos de
oração e jejum.
─ Era um local apenas masculino não era? Ou
havia mulheres lá?
─ Não. Apenas homens.
─ Teve seu primeiro namorado lá? ─ os olhos
verdes ficaram frios.
─ Nunca tive... um namorado. ─ respondeu
gélido.
─ Alguma experiência homossexual? Uma vez... Algumas
vezes... Alguém o tocou? Ou você tocou alguém? Outro interno, ou até um dos
professores?
─ Não. ─ mexeu-se inquieto na cadeira.
─ Nunca aconteceu? Nada?
─ Não.
─ E para onde foi depois?
─ Para o navio.
─ Outro local só com homens.
─ Sim.
─ E no navio, o que fazia lá?
─ Já disse. Estudava línguas.
─ Só?
─ Também tinha as obrigações como tripulante.
─ Um navio... conheceu alguém nessa fase?
Alguém especial?
─ Conheci. ─ cansado ─ Ruth.
─ Certo. Ruth, sua esposa. Me conte sua
história com ela.
─ Conheci Ruth em uma biblioteca em Macau dois
meses depois que comecei no navio. Ficamos juntos uma semana. Depois... ela me
seguiu até o próximo porto e daí para frente foi assim até... até setembro
quando ela foi me esperar em Paris.
─ E você passou esses quatro anos circulando
pelo mar da China?
─ Pelos mares do oriente.
─ Não esteve na América?
─ Não.
─ Nenhuma vez?
─ Não.
─ Por quê? Tinha cidadania americana. Por que
nunca voltou aqui?
─ Para vir para cá precisava da autorização do
meu pai e ele nunca me deu.
─ Por que não?
─ Por que ele acha que os americanos deturpam
os bons costumes. Diz que a América é uma terra de bárbaros.
─ É bom não mencionar a opinião do seu pai
quando formos à corte. ─ ele sorriu ─ Por que ora tanto?
─ Passei oito anos em um colégio religioso.
Tenho forte formação cristã.
─ Cristã? Pensei que fosse muçulmano.
─ Não. Sou cristão...
─ Mas sua esposa...? A forma como se veste...
─ Sei que os trajes que usamos e boa parte de
nossos costumes lembram os ritos muçulmanos, mas não o somos. Somos cristãos.
─ Então tem o hábito de se confessar?
─ Às vezes.
─ Se eu fosse seu confessor o que me contaria que
justificasse você estar nessa situação?
─ Não fiz nada que justifique
esta situação.
─ Você passou sua vida vivendo apenas entre
homens. Pode mesmo dizer que nunca participou de uma brincadeira íntima ou que
nunca teve um amigo mais chegado, viveu uma paixão proibida ou até um simples momento
de fraqueza?
─ Paixões e fraquezas como estas em meu povo
são crimes punidos com morte. Vergonha familiar. Morte eterna. ─ levantou e começou
a andar pela sala.
─ Em seu país homossexualidade é punida com
execução? ─ assombrado.
─ Morte Eterna. Morte do corpo e da alma. ─ informou
seco. ─ Mas, mesmo que não fosse... eu nunca faria. Morreria antes.
─ Então não sente atração por homens?
─ Não.
─ Não iria gostar de fazer sexo com um homem?
Ou deixar um homem tocá-lo?
─ Nunca aconteceria. ─ Leigh parou. Se voltou
devagar. ─ Aonde quer chegar com esse tipo de pergunta?
─ Sabe do que é suspeito?
─ Me disseram que é de matar oito pessoas.
─ Exato. Quatro mulheres e quatro homens. ─ empurrou
a pasta sobre a mesa ─ Quatro homens gays. ─ informou observando a reação.
Lescaut voltou e sentou. Abriu a
pasta devagar. Folheou as página das informações registradas pela polícia.
Michael observava cada reação.
Na primeira foto ele fechou a
pasta e a empurrou a pasta de volta.
─ Não fiz isso. Estava no navio nestas datas.
─ Sua esposa diz que tem 180 testemunhas deste
fato.
─ Sim. Este era o número de tripulantes. Entre
alunos e tripulação.
─ Me de nomes e formas de contatá-los. Os
principais. Pessoas de reputação.
─ Tem o capitão do navio, o camarada Nienczewski
...
Lentamente Leigh foi recitando
nomes e nomes. Alguns ele mesmo precisou escrever. Depois Michael retomou as
perguntas. Sobre sua infância, sua vida, sua rotina no mosteiro e fora dele.
Perguntou várias coisas e mudava de assunto subitamente.
─ O que sente ao ver a barriga de sua esposa
crescer?
─ Prazer. Orgulho. Ela gesta minha criança, o
que mais deveria sentir?
─ Se sente isso, por que pediu um exame de
DNA?
─ Como sabe disso? ─ pela primeira vez Leigh
se alterou.
─ Foi assim que chegaram até você. Quando
pediu o exame seu DNA foi comparado com as amostras do CODIS. Sabe o que é?
─ Não.
─ Um banco de dados com o DNA de todos os
criminosos do país, identificados ou não. O seu esta lá sob nº 3245.9621 levantado
em mais de cem amostras coletadas nas vítimas do homem que a imprensa chamou de
“O Assassino das Bonecas”. Quando duvidou da fidelidade de sua esposa, se
entregou a justiça de bandeja. Não sabia?
─ Não. Eu não queria o exame. Foi
Ruth que... ─ interrompeu a frase.
─ Por que sua esposa pediu um
exame de DNA? Ela não sabe quem é o pai?
─ Não quero falar sobre isso.
─ Se não contar para mim, vai
contar no tribunal. E garanto que qualquer que seja a verdadeira história irão
distorcê-la para que a maior prejudicada seja sua esposa.
Lescaut abriu e fechou a
boca. Por fim virou o rosto e falou devagar.
─ Ruth foi violentada e não
sabíamos se... a gravidez era fruto dessa violência.
Michael aprumou-se na
cadeira.
Pensar naquela pequena flor
submetida a um estupro o fez tremer por dentro.
─ Quando foi isso?
─ Em... setembro. No dia 9 de
setembro. ─ Lescaut abaixou a cabeça.
─ Onde?
─ Em Taipei. ─ respondeu abalado.
As mãos tremiam.
─ Me conte o que aconteceu.
─ Não acho que isso seja
relevante e...
─ Eu digo o que é ou não
relevante. Me conte o que aconteceu.
Leigh respirou fundo, fechou os
olhos e começou a falar.
─ Ruth me seguia pela Ásia. Isso
despertava a inveja de alguns ... colegas de turma. Na noite que aportamos em
Taipei fui convidado para uma festa. Era aniversário de um dos alunos e poucos
foram convidados... liguei para ela do navio e avisei que iria ficar e ela
disse tudo bem. A convidei para ir se encontrar comigo, mas ela riu e disse que
era coisa de homens. E ela estava certa. Foi uma festa de homens. Bebemos.
Bebemos muito. No meio da madrugada fui para o hotel. ─ apertou as mãos tenso.
─ No navio havia um aluno que sempre fez piadas e insinuações sobre meu
envolvimento com ela. Ele não estava na festa. Não pensei nele até chegar ao
hotel e... encontrá-lo saindo do quarto dela. Ainda estava se vestindo...
─ O que fez?
─ Trocamos alguns socos no corredor, mas ele
ficou gritando que ela o tinha convidado quando soube que eu não iria aquela
noite. Disse que... ela... vinha dando em cima dele há anos e que ele... não
tinha resistido mais.
─ Acreditou nele?
─ Não. ─ levantou os olhos
angustiado. ─ Talvez por um momento... Não sei. Eu o empurrei quarto adentro...
para confrontá-los... e a vi... no chão.
─ O que viu? ─ Michael mandou
sentindo ódio mortal por tal desconhecido.
─ Ele a surrou de tal forma
que... Ruth passou seis dias no hospital. Dois em coma. Depois meu preceptor a
levou para meu apartamento em Paris, a deixou com uma governanta até que eu
pudesse ir me encontrar com ela.
─ E o que aconteceu com o homem
que a agrediu?
─ Eu o matei. ─ contou depois de
respirar fundo.
Michael saiu e foi direto para a
máquina de café. Já passava de uma da manhã e o local estava calmo. Ele
preparou dois expressos. A cabeça latejava. Nada bom nada bom, repetia
preocupado. Voltou para sala de interrogatório e novamente encontrou o rapaz orando.
Leigh agradeceu o café com um murmúrio fraco.
─ Sei que está cansado, mas
precisamos continuar e eu quero saber... ─ falava e abria a pasta novamente
─ Quando vou sair daqui? ─ Leigh
interrompeu tenso.
─ Não sei. ─ fechou a
pasta. ─ Depende.
─ Do que? O que vai acontecer
daqui para frente?
─ Vou entrar em contato com as
pessoas que me indicou e pedir que confirmem seu álibi. Sua audiência de
acusação será em dois dias, assim vamos ver quem poderá vir depor a seu favor.
O promotor tem pressa, mas acho que isso vai nos ajudar em vez de atrapalhar.
─ Depois que provarmos que eu
estava em outro lugar poderei ir para casa?
─ Sinceramente? Vai depender do
entendimento do juiz. Não me lembro de um precedente assim. Você diz ter provas
sólidas de que estava do outro lado do mundo no período em que os crimes
ocorreram, mas seu DNA estava em cada vítima... O que vale mais? O juiz dirá se
aceita ou não a acusação contra você ouvindo os dois lados.
─ Se não aceitar?
─ Você vai para casa com um
pedido formal de desculpas da promotoria.
─ Se aceitar?
─ Você será julgado e provavelmente
condenado por oito homicídios.
Ruth chegou cedo na manhã
seguinte. Foi informada que o marido estava em avaliação psiquiátrica. Em uma
mesa Michael Melton analisava a pasta do inquérito. Levantou logo que a viu e
se aproximou com as mãos estendidas.
Ruth baixou o véu e juntou as mãos as
dele.
O sorriso que lhe deu
resplandeceu os olhos azuis.
─ A Senhora não deveria ter vindo
tão cedo.
─ Por favor, me chame de Ruth. ─ tensa.
Michael sentiu o peito arder pensando nela quase morta. O mundo seria mais feio
se fosse privado daquela pequena flor. ─ Preciso do meu marido Michael. Não
posso voltar para casa sem ele.
─ Venha, sente-se aqui.
A conduziu para uma cadeira próxima
a máquina de café e sentou ao lado dela.
─ Quando meu marido irá para
casa?
─ Talvez depois da audiência.
─ Ele não pode esperar esta
audiência em casa?
─ Não. Irão usar estes dias para
interrogá-lo.
─ Mas...
─ Se ele fosse culpado não aconselharia
a falar com a policia, mas como é inocente responder o que lhe for perguntado
vai ajudar.
─ Michael, por favor...preciso
dele em casa.
─ Lamento, não tenho como
libera-lo antes de comprovar o álibi. Mas já falei com o capitão Nienczewski e
ele chega amanhã à tarde. Trará o imediato, dois professores e um aluno, amigo
de seu marido. Além do diário de bordo e as listas de embarque e desembarque de
cada porto. São documentos oficiais que não poderão ser ignorados.
─ Quero Leigh em casa Michael.
Por favor.
─ Farei o que for possível, não
se preocupe.
─ Obrigada. ─ Ruth levou a mão
dele ao rosto em um gesto fraterno.
Michael perdeu o ar sem entender
porque ela lhe despertava o mais absoluto senso de proteção.
─ Como se tornaram íntimos em tão
pouco tempo. ─ Dennis Blake debochou surgindo de um porta no corredor. Michael
e Ruth levantaram-se com o susto. Ela se virou resguardando-se as costas de
Michael para ajeitar o véu e cobrir o rosto. ─ Acho que sua mulher não iria
gostar de saber que...
─ Pense no que vai dizer agente
Blake. Calúnia e difamação são crimes graves para um agente da Lei.
─ E seria calúnia? Difamação? ─ mirou
os dois. A forma íntima como a mulher se mantinha próxima ao advogado. ─ E o
que seu marido diria Senhora Lescaut? Alguns vizinhos nos contaram que ele é
bem ciumento...
─ Michael, por favor, informe a
este senhor que sou uma mulher casada e por isso ele sequer deve me dirigir a
palavra. Informe que as mulheres Koryak não falam com homens que não pertençam
a família. Principalmente não falamos com reles imitação de humanos. ─ fuzilou-o
com o olhar.
─ Não falam com homens que não
são da família? Foi bem simpática quando estive em sua casa...
─ Posso me dirigir a ele Michael?
─ O que?
─ Meu marido não está. Peço sua
permissão para me dirigir a este... bárbaro.
─ Ah... sim claro. ─ Michael concordou
sem entender.
─ O senhor esteve em minha casa.
Em minha casa posso e devo tratar bem todos os que para ela são convidados. Mas
sua atitude traiçoeira daquele dia nos trouxe a esta situação, portanto não
posso me dirigir ao senhor, sequer por caridade.
─ Eu apenas fazia o meu trabalho.
─ o agente sorriu sarcástico.
─ Não. O senhor não fazia seu
trabalho. O senhor cometia o maior erro de sua vida. Quando este caso acabar o
senhor terá que pedir desculpas a uma nação e não apenas ao meu marido ─ afastou-se
com passos firmes. Michael a seguiu confuso.
─ Por que me pediu permissão para
falar com ele? ─ perguntou quando se afastaram o suficiente para não serem
ouvidos.
─ Como disse meu marido não está
presente para me dar permissão para falar com um estranho.
─ E eu posso? Por quê?
─ Porque você é meu pai.
Ela tinha 20 anos e ele 38. Sim,
eles tinham idade para serem pai e filha. Mas como? Filha dele com quem? Aos
dezessete anos... fim do colégio... Quem? Dormirá com três mulheres nessa fase.
Duas namoradas do colégio e a irmã de um amigo. Não...quatro. Houve a vizinha.
A vizinha de fartos cabelos
negros e olhos azuis. O mesmo tipo físico de Ruth. A vizinha que foi embora com
os pais para a... Inglaterra! Como era o nome dela? Perdeu o ar. Ela o chamava
de cerejinha, mas como ele a chamava... Não lembrava.
Juntou os papéis sobre a mesa. O
relatório do psiquiatra não trazia nada de anormal. O interrogatório estava
marcado para dali a uma hora. Ele deveria ir falar com seu cliente para
instruí-lo, mas antes precisava esclarecer aquela história. Atravessou o
corredor e abriu a porta da sala onde a jovem o aguardava.
─ Senhora Lescaut precisamos
conversar? ─ ela se levantou para segui-lo.
Ah! Se ela fosse sua filha, em
breve seria avô!
Caminharam em silencio até a
lanchonete. Como no dia anterior ela estava coberta dos pés à cabeça por
tecidos finos e esvoaçantes. Acomodou-se de costas para a porta e só então
baixou o véu. Linda.
─ Me conte.
─ O que?
─ O que? ─ riu nervoso. ─ A
história de eu ser seu pai.
─ Você é. ─ sorriu ─ Pode pedir
uma xícara de chá, por favor? ─ Michael fez o pedido. Esperou o atendente
servi-la. Ela bebericou o chá e vendo-o sem fala continuou. ─ Minha mãe
biológica foi sua vizinha. O nome dela era Carrie Field.
Os Fields!! Michael se lembrava.
Estranhos.
Carrie devia ter uns dezesseis
anos quando o convidou para ir ver um filme na casa dela. O recebeu apenas de
lingerie. Passaram três meses transado todas as tardes. Ela nunca quis namorar
como a maioria das adolescentes. Queria apenas sexo. Até que foi embora sem
sequer se despedir.
─ Ela foi embora grávida. ─ Ruth
disse completando sua linha de raciocínio. ─ Os pais dela morreram antes do meu
nascimento. Não deixaram nada e... como era menor foi recolhida para um abrigo.
Eu nasci lá. Não tínhamos condições então ficamos ali. Ela trabalhava,
estudava, tentava criar condições de um dia termos nossa casa, mas ela morreu
quando eu tinha cinco anos. ─ respirou fundo. ─ Ela me deixou uma carta onde
contava como tinha engravidado e quem era meu pai biológico. Disse na carta que
você não sabia que eu existia e que ela teve medo de contar depois que os pais
dela morreram. Pouco depois fui adotada. ─ baixou a cabeça ─ Minha mãe adotiva
me deu a carta quando fiz quinze anos. Eu não reagi muito bem. ─ Michael
procurou a mão dela. Um calor agradável subiu por seu corpo quando os dedos se
enlaçaram. ─ Eu banquei a rebelde e fiz coisas horríveis. ─ Ela tirou a mãos
das dele e se recostou. ─ Minha mãe... minha mãe adotiva não suportou... e teve
um infarto quando pegou um garoto em meu quarto. Depois disso... fiquei mais
perdida, meu pai voltou a se casar eu fugi de casa. Fui parar em Macau onde
conheci Leigh. Ele me amou do jeito que eu era, me aceitou sem perguntas e ...
me ensinou a ser uma esposa Koryak. Ele me salvou. ─ desta vez ela procurou a
mão dele. ─ Michael, quando contei a ele... ele te localizou e... nós viemos
para a América, para a Califórnia para que eu...para que eu pudesse
encontrá-lo. Eu queria te conhecer, me apresentar, saber se... você me
perdoava. ─ os olhos de ambos estavam rasos de lágrimas.
─ Perdoar de que? ─ perguntou sem
entender.
─ Carrie queria que eu te
contasse. Ela deixou uma carta para você, mas eu rasguei na minha raiva boba e
isso me perturbava muito. Quando engravidei e... vi como Leigh ama meu bebê...
fiquei pensando... no que nós dois perdemos...
─ Isso tudo é verdade? Você é
minha filha? ─ algo queimava por dentro.
─ Sou.
Sua filha! Linda! Frágil! Grávida!!
Casada com um assassino!
─ Acho que até resolvermos essa
situação toda devemos manter isso entre nós.
O interrogatório começou no meio
da manhã. Eric Asher, Matt Dowling e Dennis Blake se posicionaram lado a lado
na mesa, em frente a eles. Michael sorriu com a manobra sem se impressionar,
mas preocupou-se com seu cliente.
O rapaz estava cansado, abatido e
tenso. Haviam conversado até às quatro da manhã, depois Michael o acompanhou
até uma cela pequena com apenas um catre e um sanitário no canto. Quando a
porta de vidro foi fechada Leigh estava sentado na cama. As sete o encontrou na
mesma posição.
Tinha certeza que o rapaz sequer
deitou um pouco.
As perguntas não foram muito
diferentes das que ele mesmo havia feito. Leigh contou sua vida da infância até
a chegada à América. Negou estar na cidade nas datas dos crimes. Negou ter
tido, consentida ou forçada, qualquer experiência homossexual. Negou qualquer
ação de tortura ou crueldade com homens, mulheres, crianças ou animais em
qualquer fase da vida. Nas perguntas relacionadas às vítimas, respondia que não
sabia, pois não tinha conhecido nenhuma delas.
Michael notou satisfeito que em
nenhum momento ele entrou em contradição. Quando repetia uma história era
exatamente igual a primeira vez. Isso irritava Eric Asher e Dennis Blake
profundamente. Dennis foi o primeiro a notar que mencionar a esposa o provocava
alguma reação, coisa que nenhuma pergunta fazia.
─ Encontrei sua esposa ontem à
noite na garagem Lescaut. É uma jovem muito bonita. Dá para perceber mesmo com
ela coberta daquele jeito. ─ fez um gesto no ar zombeteiro. ─ Muito, muito
bonita. ─ a expressão de Leigh fechou e ele trincou os dentes. Depois de passar
horas sentado estava de pé em um dos cantos da sala. ─ Seus amigos contaram que
você é muito ciumento. Que a obriga a andar vestida daquele jeito porque…
─ Comentários pessoais a respeito
da Senhora Lescaut são desnecessários, Blake. ─ Michael falou firme quando
Leigh inclinou a cabeça para ouvir o detetive.
─ ...ela não vale nada. É seu
filho? ─ Dennis continuou indiferente. ─ Qual foi o resultado do exame de DNA
que pediu porque sua linda mulherzinha te traiu?
─ Agente Blake ─ Michael retrucou
entrando na frente do cliente que se virou devagar. ─ Retire o que disse!
Agora! ─ mandou pousando a mão no ombro de Leigh.
Dennis levantou e continuou
sarcástico.
─ Ela te traiu? Quem diria! Trair
um cara certinho como você! Não é mesmo uma grande vadia mentirosa?
As feições de Leigh se
transformaram, os lábios se contraíram em uma linha fina.
─ Pare com isso Dennis! ─ Dowling
mandou quando o suspeito deu um passo.
─ E por isso que você fez o que
fez! ─ o agente continuou implacável. ─ Por que ela sempre te traiu. Aquela
flor de candura é uma puta. Sabe que ela já está de graça com o seu advogado?
Leigh baixou a cabeça, cerrou os
punhos.
Estava claro que lutava para se
conter.
─ Calma Lescaut. ─ Michael pediu.
─ Agente Blake pare agora!
─ Com certeza o filho não é seu.
Por que você não arrancou do ventre dela a prova da traição? O que mudou? Você
fez isso com as outras. Ela deve ser mesmo uma vadiazinha especial. A poupou
porque ela aceita seu lado gay e assassino?
Leigh deu dois passos e esbarrou
no advogado que sussurrava calma, calma. Virou as costas para o policial e foi
para o canto da sala. Tremia com os punhos cerrados, cabeça levantada, sussurrando
algo. Dennis prosseguiu cruel.
─ Sua esposa é uma grande puta!
Ela sabe de tudo não sabe? ─ gritou como se houvesse feito uma grande
descoberta. ─ Ela aceita seus fetiches assassinos e por ela você se sente
amado! Arrancar o filho de dentro dela é seu maior desejo, mas não pode fazer
isso, não é? Sabe que acho que seria justo acertar as contas com a piranha...
─ Faça isso parar Asher! ─
Michael gritou indignado.
Leigh tremia visivelmente. Levou
os punhos cerrados aos ouvidos.
─ Chega Blake! ─ Eric mandou e
Dennis se calou sem perder o risinho irônico.
Michael ficou pedindo calma a
Leigh por alguns segundos até ele baixar as mãos. O segurou pelo ombro e o
guiou de volta para sentar. Ele passou a mão direita na cabeça afastando o
cabelo em um gesto nervoso. Ao lado da cadeira, em vez de sentar caiu no chão de
joelhos e baixou a cabeça.
─ Senhor! Deus!! ─ gemeu alto. ─
Se minhas faltas justificam tal punição a aceito de coração aberto. Se não
Senhor, clamo a Ti justiça! Faça justiça a teu servo. Tua criatura clama por
Teu socorro! Não me falte nesta hora de provação. Me de forças para perdoar
este ser que a Ti não conhece e que profere palavras vãs, ofendendo as
criaturas e os anjos dos céus com suas blasfêmias. Faça-me justiça Senhor. Dai-me
forças para relevar, perdoar, esquecer. Abra os olhos de este ser que de Ti se
afastou ao nascer. Porque eu sei Senhor, que se ele um dia tivesse andado
Contigo jamais macularia a honra de um dos seus anjos nesta terra. Senhor sei
que estas a ouvir as injurias...
O som da porta batendo
interrompeu a oração. Dennis Blake deixava a sala.
Michael se aprumou fuzilando Eric
Asher com o olhar.
─ Vamos fazer uma pausa. ─ o
promotor disse levantando. ─ Melton acalme seu cliente. Retomamos em duas
horas.
Blake não estava presente na
segunda parte do interrogatório que prosseguiu até a noite. Todos perceberam
que o episódio fez Leigh deixar de ser cooperativo. Ele passou a responder as
perguntas com apenas sim ou não ou até a dar os ombros para algumas. Mantinha
um ar distante como se nada daquilo fosse com ele.
Não tentava mais convencê-los.
Não importava mais se acreditavam ou não. Interrompeu o interrogatório várias
vezes alegando cansaço e pedindo recesso. Pediu água, café, chocolate e foi ao
banheiro três vezes. Michael considerou as implicações daquele comportamento,
mas como sabia que Holly seguiu suas instruções já estavam preparados para a
audiência. A coletiva com o promotor estava marcada para às oito da noite.
Eric queria entrar ao vivo em rede nacional, mas Michael tinha no bolso uma
surpresa para ele. Entregou quando o promotor se dirigia a sala de imprensa do
prédio. Era uma ordem judicial proibindo-o de mencionar o nome do suspeito e
qualquer informação que pudesse identificá-lo. Sorriu satisfeito da cara
contrariada do oponente.
Havia vencido a primeira batalha.
Eric Asher sorriu para as câmeras.
Gostava da sensação de poder que o aglomerado de repórteres ao redor lhe dava.
Todos aos seus pés sequiosos das informações que apenas ele detinha. As
eleições estavam próximas. Tornar seu nome conhecido era o primeiro passo antes
de ser candidato.
E aquele caso iria tornar isso
possível.
─ Senhoras e senhores ─ começou
com voz firme e todos fizeram silêncio ─ Depois de um exaustivo trabalho desta
promotoria e dos eficientes oficiais da Central de Homicídios, ontem detivemos
o responsável por oito assassinatos ocorridos em nossa cidade no ano passado.
─ O senhor está falando do
assassino das bonecas? ─ um repórter gritou.
─ Esta é a forma como o criminoso
se tornou conhecido. ─ ele respondeu sério.
─ Quem é ele?
─ Como chegaram a ele?
─ Quando ele será apresentado à
imprensa?
─ Ele cometeu outros crimes? Há
mesmo um cúmplice?
─ Estamos com o suspeito sob
custódia e o interrogamos incansavelmente. Infelizmente ele ainda não nos
revelou a identidade do cúmplice, mas já dispomos de pistas sólidas e logo
estaremos efetuando mais esta prisão. No momento, por uma manobra jurídica da
defesa, estou impossibilitado de lhes fornecer o nome do assassino, mas posso
garantir que prendemos o responsável por crimes bárbaros e que nossa sociedade
pode finalmente relaxar ciente de que mais um anormal foi encarcerado.
Principalmente nossa comunidade gay que não está mais ameaçada por este
predador. Amanhã terminaremos os interrogatórios e na quarta-feira o inquérito
e o acusado serão apresentados a corte para formalização da acusação.
─ Mas há dúvidas quanto ao
suspeito? E ele mesmo?
─ Dúvida alguma ─ ajustou a
altura o microfone e continuou de seguro. ─ Como os senhores sabem nosso
trabalho consiste em reunir o máximo de informações que nos leve a captura do
assassino. Em alguns crimes seriais como foi o caso em questão, o assassino
dotado de certo nível de inteligência se resguarda de forma a não deixar na
cena do crime, e principalmente nas vítimas, evidências orgânicas que possam
identificá-lo. Neste caso felizmente lidamos com um assassino claramente
ignorante e descuidado. Comparamos uma amostra do suspeito com as cento e vinte
e oito amostras que recolhemos nas vítimas e nas cenas de crime e em nenhuma
delas houve divergência quanto à identificação do acusado. Foi um
inquestionável e brilhante trabalho de perícia. Portanto hoje me sinto satisfeito
em ter contribuído para tirar das ruas de nossa cidade este psicopata. Trata-se
de um estrangeiro de origem eslava. Um russo. Ele tem 24 anos e é casado. Vivia
em uma cidade do interior de nosso estado e tem amigos influentes. Creio que
entre eles, em breve, localizaremos o cúmplice.
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