sábado, 29 de agosto de 2020

CAP 13

 

CAPÍTULO 13

 

Mesmo com o rosto voltado para a janela, Leigh não viu o trajeto até a prisão de Santa Fé. Boa parte do caminho foi feito na escuridão da madrugada e agora na chegada o sol nascia no horizonte. Mas ele nada via. O que desfilava em seus olhos eram seus últimos dias com Ruth. Sentia a suavidade da sua pele, a candura de seu sono, as mãos pequenas tocando o ventre que começava a se desenvolver. Os gritos na corte ainda ressoavam em seus ouvidos dolorosamente. 

Ela estava sofrendo e ele não tinha como evitar.

Culpa sua. Sabia que ainda era uma ameaça mesmo após ter sido renegado, e mesmo assim, não previra que Meneslaups agiria tão cedo e de forma tão incisiva. Estivera mergulhado em um mar de ciúme e tolas desconfianças que esqueceu que “seu pai” não perdoava. Agora usava uma corrente invisível, mais grossa do que as que arrastavam nos pés e lhe prendiam as mãos. Quando fosse condenado, sua família ficaria sob a guarda do Chanceler que teria sobre ela poder de vida e morte. 

Michael não poderia assumir a guarda de Ruth até que tomasse conhecimento de suas origens. Se ao menos Sarkivon pudesse se revelar... Como não podia a única chance de mantê-la a salvo era se divorciar e fazê-la se casar antes que a sentença fosse proferida. 

O furgão parou e o guarda veio buscá-lo. Soltou o cadeado que o mantinha preso no banco e o fez andar até a saída. O sol o ofuscou por segundos. Descer não foi difícil, mesmo assim recebeu um empurrão. Não reagiu. Quando se acostumou com a claridade, a primeira coisa que viu foi a cerca alta que rodeava o prédio. Mais adiante outra cerca. E mais nada. Estava no meio do nada.

Só havia areia por quilômetros e quilômetros. 

Foi puxado e teve que caminhar ao longo da cerca até uma entrada lateral.

Atravessou dois portões e outras duas cercas até chegar à recepção. 

Papéis trocaram de mãos e outro guarda assumiu sua custódia levando-o para o dentro do prédio. Em outro recinto teve que se despir e foi vistoriado de forma humilhante. Depois o mandaram tomar banho e na entrada do banheiro recebeu uma camiseta branca, um macacão e casaco azuis. Para sua higiene pessoal, uma escova de dente, papel higiênico e uma lâmina de barbear. Depois do banho, seus pertences foram colocados em um saco transparente e entregues em um depósito. Teve que tirar o relógio e a aliança de casamento. Durante o processo ouviu piadas dos guardas, levou um soco no estômago, foi provocado e humilhado. Não disse uma única palavra. 

No consultório medico foi examinado de forma superficial. Outro guarda o recebeu e o encaminhou até a entrada da lavanderia, onde recebeu roupa de cama e cobertores. Passou por vários corredores, subiu dois lances de escada até ser deixado em uma pequena cela com uma cama beliche, uma pequena mesa com livros com um banquinho embaixo dela e um vaso sanitário ao fundo.

─ A cama de cima esta vaga. ─ o guarda avisou antes de sair ─ Como sabemos que você gosta de diversão te colocamos com alguém especial. Espero que se entendam. ─ a cela não foi fechada.

Leigh deixou o que carregava sobre a cama indicada e olhou ao redor.

O espaço não devia ter mais do que dois metros quadrados. Respirou. O local estava limpo, e tinha um leve aroma adocicado no ar. Reparou na cama de baixo. Seu ocupante era organizado. Os lençóis estavam alinhados e os travesseiros dispostos simetricamente. Estranhou. 

 Um urso branco de pelúcia com um laço rosa enfeitava a cama. 

Alguém parou na porta e deu um assovio admirado. Leigh se virou devagar.

Parado na entrada da cela estava um homem de altura mediana e corpo magro. Era loiro e os cabelos compridos estavam presos em um coque frouxo. O macacão azul estava vestido apenas até cintura. O que sobrava da peça estava enrolado na cintura como um cinto. A camiseta branca tinha um nó que deixava a barriga exposta. Completamente maquiado o homem sorria olhando-o extasiado.

Leigh trincou os dentes. Não estava preparado para aquilo.

─ Meu bem você é um mesmo um deus grego... As meninas vão morrer de inveja quando virem o presente que recebi! ─ o homem de voz fina e trejeito afeminado falava e se aproximava. Parou a dois passos de Leigh olhando-o bem. O sorriso murchou de repente. ─ Quem é você? ─ Leigh não respondeu. Sem perceber fechou ainda mais a expressão. ─ Meu Deus, você é o assassino das bonecas. ─ mal terminou de falar, a criatura gritou como se visse um fantasma. 

 

Leigh descobriu na sala do diretor que seu companheiro de cela era Andrew Kolpher. Um travesti, conhecido pelo nome de Andréa, que cumpria perpétua por ter participado da morte de um cliente. Estava com mais de trinta e sete anos e já estava preso há cinco. Tinha a fama de ter a proteção de alguém influente e não era muito querido por onde passava, sendo transferido com frequência. Havia chegado há duas semanas. Quando encontrou Leigh na cela, logo o reconheceu por conta de uma reportagem sobre a prisão do Assassino das Bonecas onde o nome e o rosto de Leigh foram divulgados. Agora tremia sentado ao lado dele enquanto implorava ao diretor que não o colocasse em sua cela. O homem apenas sorriu e disse que nada podia fazer. Mandou que os dois saíssem e para tripudiar disse para Andréa que acompanhasse Leigh e lhe explicasse todas as rotinas da prisão.

Andréa andou apressado pelos corredores, olhando de vez em quando por cima do ombro para ver se Leigh o seguia. Aprumou o corpo, ajeitou o coque frouxo quando chegou ao refeitório. Fez um gesto para Leigh se aproximar mais e começou a falar rápido.

─ Este é o refeitório. O café é as oito, o almoço as treze e o jantar às seis. Antes do café somos levados ao pátio para o banho de sol, e depois vamos para a sala de TV. Foi lá que eu te vi no jornal ontem. ─ disse fitando-o bem. Afastou-se assustado com a carranca de Leigh. ─ Depois do banho de sol, aqueles que não trabalham podem ir para a biblioteca ou podem ficar lá fora no pátio. As celas só são fechadas às dez da noite. Eles fazem contagens diárias. De surpresa. ─ falava e pegava a bandeja para se servir. Leigh o seguiu imitando-o apesar de não estar com a menor vontade de comer. ─ Na parte da tarde você fica livre pelos salões internos. Tem o salão de jogos e a academia. O banho é às cinco. É coletivo. ─ riu malicioso. Passavam pelo balcão onde os presos responsáveis pela cozinha serviam o café da manhã. ─ Também pode ficar na sua cela desde que esteja lendo ou fazendo algo... que possa ser feito com a porta aberta. Aqui o domínio é dividido por três grupos. E fácil identifica-los. Apontou os grupos separados. ─ Nenhum deles vale nada. ─ disse com desdém. Mirou outro grupo, sorriu e acenou ─ Ali tem as minorias. Minhas amigas, ─ Um grupo de travestis acenaram excitados. ─ No canto os nerds. ─ apontou alguns rapazes com expressões aéreas ─ As vítimas preferidas. Toda noite um deles virá mocinha para animar a galera. Lá no melhor espaço estão os chefões. Máfia, ricaços. Eles compram o que precisam. Os demais são desgarrados que já estão aqui há tanto tempo que já foram deixados em paz. ─ Leigh parou de segui-lo. ─ O que foi? Não vai se sentar conosco? ─ perguntou debochado sentando à mesa das amigas. Leigh procurou uma mesa vazia e foi sentar. ─ Ótimo. Você é a carne fresca hoje.

 

Quando Andréa se afastou Leigh se acomodou. Não estava com fome, mas sabia que precisava se alimentar. Baixou a cabeça, fez sua oração e mesmo sem apreciar a aparência da comida começou a comer. Os demais presos foram se acomodando e logo a mesa que Leigh ocupava estava cheia. Observou tudo calado, mantendo a cabeça baixa. Sentiu quando os dois que sentavam ao seu lado foram induzidos a sair. Os dois líderes principais sentaram um de cada lado. 

─ Bem-vindo. ─ um cumprimentou.

─ Bom ter você aqui. ─ Lyon Goinne disse frio. Leigh manteve-se calado. ─ A imprensa soltou sua história. Cara, você se divertiu.

Leigh levantou. Os dois fizeram o mesmo.

Ele deu dois passos, e teve o caminho cortado. Uma plateia se formou. 

─ Há uma regra para viver em paz aqui. Você tem que colaborar... você sabe... você curte. ─ Goinne esticou a mão para tocá-lo no rosto. Leigh desviou do contato. A expressão ainda mais fechada. ─ Será mais fácil se você não tentar nenhuma tolice.

Leigh apenas o encarou sem medo. O homem riu, girou o corpo fazendo que ia se afastar e tentou acertá-lo. Ele se desviou para a direita ao mesmo tempo em que levantou o ombro atingindo o rosto do segundo preso que estava atrás dele e pretendia agarrá-lo. Enquanto o homem desmoronava no chão Leigh virou o corpo saindo da mira de um novo ataque. 

Deixou o pé fazendo o primeiro agressor cair sobre o segundo. A confusão se generalizou. Mais três investiram contra Leigh. Ágil ele se esquivava dos golpes. Os presos socavam o ar. Não durou muito. Com gritos e ameaças os guardas deram a ordem e tudo parou. Os vencidos voltaram a seus lugares com ar de poucos amigos. 

A plateia permaneceu em silêncio. Leigh aprumou o corpo, deu as costas e começou a voltar para a cela. Estava no meio do corredor quando Goinne se aproximou e sussurrou em seu ouvido.

 ─ Vamos te dar um tempo até você se acostumar. Depois, se não quiser colaborar vai ter que vencer o nosso amigo ali. O apelido dele é Golias. ─ indicou o homem em um canto. ─ Se o vencer em uma luta nós te deixamos em paz. ─ riu ─ Pena que até hoje ninguém conseguiu. Vai ser interessante te ver tentar.

Leigh olhou para o homem. Tinha perto de dois metros e mais de cem quilos de músculos. Apertou os olhos analisando-o. Era forte e violento. Pela maneira que se movia faltava agilidade. Não tinha o que temer. Deixou o refeitório e foi para a cela. Enquanto percorria o caminho sentiu que todos os olhares estavam sobre ele. A demonstração de suas habilidades em uma briga foi pequena, mas suficiente para saberem que ele não seria alvo fácil.

Na cela andou pelo pequeno espaço procurando o melhor lugar para se ajoelhar. Queria fazer suas orações. Teria que se acostumar. Provavelmente passaria em lugares como aquele os últimos anos de sua vida. Leigh sentou no chão cruzando as pernas em posição de meditação de frente para a cama. 

Concentrou-se. Em segundos a imagem se Sarkivon surgiu na cela. 

─ Shalon, meu senhor. ─ o homem se reclinou. 

─ Shalon, Mestre Mor. ─ respondeu de olhos fechados. Via Sarkivon mais claramente em sua mente. ─ Agradeço por ter vindo.

─ Cumpra apenas minha obrigação de servi-lo.

─ Meu inimigo já brindou minha derrota?

─ Nosso Chanceler não tem nada a ver com sua prisão, meu senhor.

─ Ele não agiu?

─ Não contra o senhor. 

─ E ele já tomou conhecimento dos fatos? Já sentiu que fui preso?

─ Nada do que lhe acontece nosso Chanceler é capaz de sentir. Como renegado seus laços com nosso povo foram cortados.

─ Como se ainda tenho dons? Há pouco pude me livrar de quatro agressores sem sequer tocá-los. 

─ Dons que lhe são cedidos por Koryak aliados. Não herdados. Está oculto. Assim como estão ocultos todos aqueles que foram perseguidos pelo usurpador.

─ Se é assim o que acontecerá com minha esposa e filha se este corpo vier a perecer? Elas ficaram sob a guarda do Chanceler?

─ Sim. Foi renegado apenas por este ciclo. Com a morte do corpo que ocupa, sua família seria novamente reagrupada a nosso povo, uma vez que sua essência estaria livre para retornar. Ficariam então sob guarda do Chanceler até seu retorno.

─ E eles as mataria.

─ Talvez esperasse alguns anos para tornar o reencontro mais difícil. Como conseguiu fazer nos últimos ciclos. Mantê-los afastados lhe garante a continuidade de seu domínio.

─ E o que acontece se eu for condenado aqui?

─ Vidas inocentes foram ceifadas. Condenado como o assassino que descrevem será banido dos Koryak. Declarado desonrado. Terminaria este ciclo sentenciado à morte eterna.

─ Não voltaria?

─ Não.

─ E minha família?

─ A vontade do Chanceler. ─ Leigh estremeceu ─ Lamento, meu senhor. Estas são leis que o senhor...

─ ...Escreveu. Eu sei. ─ completou desolado. ─ Como posso escapar disso?

─ Apenas provando que não foi o senhor o autor dos crimes.

─ Ninguém acreditaria. Como vou explicar que Anton Leigh morreu na prisão em Taiwan e que eu assumi o lugar dele? Não há como revelar ou explicar tal coisa aos comuns. ─ voltou a respirar. ─ Há como evitar que o Chanceler saiba?

─ Ele saberá pela mídia cedo ou tarde. Não tenho como evitar isso.

─ Não podemos voltar e modificar estes últimos acontecimentos? Como foi feito naquela noite... naquela noite em que Hannya quase deixou o corpo de Ruth?

─ Não posso interferir na vida de tantos comuns. Todos os eventos que o trouxeram para este momento se iniciaram muito tempo atrás. E tempo demais para ser alterado. Não sei o que aconteceria se tentasse. Lamento, meu senhor.

─ Então terei que morrer. ─ soltou o ar frustrado ─ Quando me deu este ciclo, desconhecia que Anton Leigh havia cometido tamanhas atrocidades? ─ intrigado.

─ Ele não as cometeu meu senhor! ─ Sarkivon contou sério. 

─ Não? ─ Leigh abriu os olhos surpreso.

─ Não.

─ Então como há tantas evidências? Se o usurpador não agiu neste caso...

─ Eu não disse que ele não agiu. Eu disse que ele não agiu contra meu senhor. ─ Sarkivon se aproximou e pousou a mão na ombro dele. ─ Terá que ser forte novamente, meu senhor. Forte para mais uma vez mantê-lo a salvo.

 

─ O que acontece agora? ─ Ruth perguntou ainda no tribunal. Estavam em uma sala de espera, aguardando Hope e Patrícia retornarem com o carro. A aglomeração de repórteres tornou a saída dela impossível. Eles se acotovelavam na porta querendo entrevistá-la. Havia parado de chorar, mas apertava as mãos, nervosa. 

─ Ele será transferido amanhã para a prisão onde deve ficar até o julgamento.

─ Quanto tempo?

─ Natal, ano novo. ─ Michael pensou para responder ─ Avaliação psiquiátrica... talvez os trabalhos de seleção de júri começam em fevereiro ou março. Nada se resolve definitivamente antes do meio do ano.

─ Não. ─ ela baixou a cabeça ─ Por favor, Michael... Não posso ficar sem ele... Não posso... Por favor...

─ Lamento Ruth não há nada que eu possa fazer. ─ ela enxugou o rosto. Michael pegou as mãos dela e apertou ─ vou tentar uma autorização para que possa vê-lo antes da transferência. Talvez você o convença a se declarar culpado e assim esse pesadelo termina.  

─ Nunca vou dizer a ele para assumir a culpa por coisas que não fez.

─ Não fez mesmo? ─ Michael perguntou com tato. A expressão dela mudou exatamente como a do marido. ─ Ruth, não há explicação para as provas materiais.  

─ Estão erradas. Os testemunhos... ─ rebateu fria largando a mão dele.

─ As pessoas que testemunharam trabalham para o pai dele.

─ Meneslaups não se envolveu. E não se envolverá.

─ Não? Ele já pagou para tirar o filho da cadeia.

─ Leigh estava morrendo.

─ E vai morrer aqui se for condenado.

─ Mas agora é o que ele quer. ─ levantou. ─ Ele quer que Leigh morra...

─ O que?

─ Nada. ─ desconversou. ─ Vou para um hotel. Preciso comer, descansar. Minha criança está muito agitada. A que horas acha que vou poder ver meu marido?

─ Eu telefono se conseguir a autorização. 

─ Está bem. ─ começou a sair. Se voltou pensativa. ─ Michael, eu entendi ou... você sugeriu que as testemunhas mentiram? ─ ele demorou a responder.

─ 100% de compatibilidade em DNA. Nada vai conseguir derrubar isso.  

─ Você não me respondeu.

─ Ruth... lamento, eu acho que mentiram sim. Eu acho que Leigh é culpado.

─ Você acha que estou mentindo?

─ Você o ama.

─ Acha que menti para você?

─ Ruth... ─ fez um gesto impotente. ─ Você o ama demais e...

─ Acha que menti sobre ser sua filha?

─ Eu... Eu não sei. ─ declarou confuso. 

─ Minha mãe escreveu que isso... ─ puxou a manga direita da roupa que usava. ─ Provaria quem sou. ─ mostrou a pequena mancha marrom em forma de cereja no meio do antebraço. ─ Eu não pensei que tivesse que mostrá-la para provar que não minto. Suas horas estão pagas até o fim do dia. Consiga a autorização para eu possa ver meu marido. Depois disso está despedido.

─ Seu marido já me despediu.

 

Depois de amargar a derrota em um bar, Michael voltou para casa levemente embriagado. Passou pelo quarto do filho arrependido por sempre tê-lo decepcionado. Mitch tinha onze anos e era uma pequena réplica sua. Os mesmos olhos cinzentos, a mesma boca rasgada, os mesmos cabelos acobreados, o mesmo nariz afilado. 

E a mesma mancha em forma de cereja no antebraço direito. 

Rita costumava brincar dizendo que havia sido apenas uma incubadora. 

Alto para idade o filho jogava basquete e tocava piano. Um menino de ouro que ele esquecia de ver crescer envolvido em uma rotina de trabalho desgastante. Estava lamentando não ter visto Ruth crescer, mas vivia com Mitch e também não acompanhava a vida dele. Ajeitou as cobertas sobre o garoto e agitou-lhe os cabelos. 

Precisava repensar sua vida. 

Seguiu para o quarto e relaxou em um longo banho quente. Pensou em ir para o escritório reler alguns documentos, mas, se o fizesse, dormiria lá como acontecia nos últimos meses. Dormir longe da esposa era proposital. Uma maneira de afastá-la sem realmente rejeitá-la. E por que fazia isso? Porque se sentia vazio. O que lhe faltava? O que era importante? Percebeu que tudo o que era importante estava ali.

Sua família.

Deitou-se ao lado da esposa. Rita estava acordada, mas não se moveu quando ele colou o corpo ao dela. Nem quando mergulhou o rosto na curva do pescoço. Aspirou o perfume suave de lavanda, passou o braço por sua cintura e a puxou para mais perto. Rita se virou devagar e o abraçou confortando-o.

A carência o moveu e ele a amou devagar.

 

Era madrugada quando Michael chegou à delegacia. Estava com a autorização para Ruth ver o marido. Assim que clareasse o dia iria buscá-la no hotel. Havia ido antes para falar com Leigh sem a presença dela. Tentar arrancar dele a verdade sobre os crimes. Se ele confessasse poderiam conseguir um acordo que o manteria vivo. O acidente que sofreu quando criança poderia lhe dar condições de ser considerado incapaz de responder por seus atos e assim ele passaria a vida em um hospital psiquiátrico. Mal estacionou e viu o furgão que transportava presos saindo do subsolo com forte escolta. Fez a volta frustrado. Deveria ter previsto que a transferência seria antecipada para evitar a imprensa. Seguiu para o hotel. Precisava falar com a filha.

Precisava deixar claro que não a abandonaria. 

Michael a viu logo que ela saiu do elevador. Vestia com um conjunto de bata e calça em tons de azul. O véu que cobria os cabelos e o rosto era branco e a rodeava como um sári indiano. Jamais passaria despercebida. 

─ Ruth. ─ ele a chamou e ela parou. Virou-se devagar. ─ Como você está?

─ Bem.

─ Eu trouxe a autorização para que possa ver seu marido. Mas teremos que ir até Santa Fé.

─ Ele já foi transferido? ─ arfou assustada.

─ Durante a madrugada. Fizeram isso para evitar a imprensa.

─ Este documento é válido? ─ perguntou pegando o papel.

─ Talvez. Vai depender do entendimento do diretor da prisão.  

─ Obrigada. Eu vou sozinha. Seus serviços já foram dispensados. ─ Ruth se virou para sair. Michael a segurou pelo braço. ─ Não permito que me toque.

─ Sou seu pai. ─ afirmou sério.

─ Ontem não tinha certeza.

─ Perdoe-me por isso! Ruth, por favor, não quero me afastar do caso. Não quero me afastar de você. Quero ajudar.

─ Vai defender meu marido?

─ Sim. Se você me permitir.

─ Acredita que ele é inocente? ─ Michael hesitou. 

─ Sim. ─ respondeu tenso. Se houvesse uma razão psíquica para tal instinto assassino ele realmente era inocente e poderia usar isso. A filha estava tensa. Queria ser forte, mas estava abalada. Não podia abandoná-la. ─ Posso acompanhá-la?

─ Por favor. ─ Ruth disse com voz fraca. 

Michael a envolveu pelos ombros e saiu para a portaria. Pediu seu carro ao manobrista. Enquanto esperam a van de uma emissora de TV parou em frente ao hotel. Ruth logo foi reconhecida. Por sorte o carro de Michael chegou antes que o repórter conseguisse se organizar para falar com eles.

─ Como esta meu neto? ─ Michael perguntou para puxar assunto. 

Já estavam rodando há quinze minutos e ela não dissera nenhuma palavra.

─ Neta. Ela está bem. Preocupada como eu, mas bem. Ficará menos agitada quando ouvir a voz do pai.

─ É uma menina?

─ Sim. O nome dela é Olga.

─ Leigh não se incomodou por não ser um menino?

─ Não. Ele a ama. Meninas são muito bem vindas entre os Koryaks.

─ Que bom. Então ela nasce em abril?

─ Sim. No dia 23. ─ olhou para ele. Baixou o véu. ─ Leigh tem que estar livre até esta data. Não posso ter minha filha sem ele.

─ Ruth não quero mentir para você. Será muito difícil Leigh ficar livre até lá. O que quero é tentar um acordo com a promotoria e assim... Talvez ele receba autorização para vê-la no hospital depois que a criança nascer.

─ Nenhum Koryak nasce em hospital Michael. Olga nascera em casa. É o costume. ─ algo no tom dela o fez tirar os olhos da direção e encará-la. ─ E tem que ser pega pelo pai. Se ele não for o primeiro a pegá-la, ela não viverá.

─ Pretende ter o bebe em casa?

─ Sim.

─ E quem tem que fazer o parto é o pai?

─ Sim.

─ Se ele não o fizer a criança morre?

─ Sim. Leigh tem que estar presente no parto. Preciso dele.

─ São apenas crendices. Nada vai acontecer ao bebê se ele não estiver na hora.

─ Minha filha é uma Koryak. Tem que nascer como todos os Koryak ou não conseguirá viver neste mundo.  

─ Você assimilou bem os costumes desse povo, não é? ─ perguntou analisando a forma como ela se vestia.

─ É o meu povo também. Descobrir que pertencia a ele apenas depois que conhecia Leigh não me tirou o direito e deveres que tenho.

─ Sua mãe era Koryak? ─ perguntou irônico. Carrie Field não era recatada... 

─ Não Michael. Você é. ─ ele riu sem entender.

─ Não. Não sou.

─ É sim. Apenas não sabe ainda. ─ pegaram a estrada.

─ Ruth não sei quem lhe disse que pertenço a este povo. Não pertenço. Nasci em um rancho há uma hora daqui. Para aquele lado. ─ apontou para leste. ─ Meus pais não tinham nada de russo ou de árabe ou de qualquer povo antigo.

─ Você foi deixado no rancho. Sua mãe o fez para protegê-lo da fúria de seu irmão paterno que não gostou da ideia de ter que dividir seus dons e bens com o filho de uma estrangeira. Logo após o parto ela o entregou aos comuns que você conhece como pais. Ao seu pai disse que você morreu por que ele não estava presente no seu nascimento. Ele acreditou por que isso acontecia. Se ela não tivesse mentido seu irmão o mataria.

─ Se meu pai não estava presente no meu nascimento, como sobrevivi?

─ Sua mãe e seu pai gestaram você juntos. Faltava apenas o sopro de vida para você conseguir sobreviver neste mundo. A matrioska o pegou quando nasceu e lhe deu este pequeno sopro.

─ Você está me dizendo que eu...? Não. Sou americano. Dos pés à cabeça.

─ E eu sou inglesa. Onde nascemos não determina se somos ou não Koryaks. Para entender melhor pense em nós como judeus... ou como ciganos...

─ Meus pais não são Koryak.

─ Seus pais adotivos não. Seus pais biológicos sim. ─ o fitou séria. ─ Suponho que a mãe que conheceu contou que era filho adotivo.

─ Contou. ─ Michael murmurou sério. Essa era uma informação que poucos conheciam. ─ Mas disse também que eu era filho de uma empregada do rancho com um vaqueiro irresponsável. Não falou nada sobre ser filho de uma estrangeira.

─ Eles não sabiam. O filho da empregada nasceu sem vida. Sua mãe trocou você pelo filho dela. Dessa forma o ocultou.

─ Está me dizendo que essa... Koryak, veio até o rancho é trocou as crianças? E ninguém viu isso?

─ Michael, vai descobrir que um Koryak pode fazer coisas inacreditáveis.

─ Como o que, por exemplo?

─ Você saberá quando seus olhos foram abertos.

 

Como ainda não havia instruções específicas quanto ao preso, foram levados para a sala de visitas. Demorou quase meia hora para que Leigh fosse trazido até eles. Assim que o viu, Ruth correu em direção ao marido que abriu os braços para recebê-la. Um guarda surgiu ao seu lado e impediu que os dois se tocassem. 

─ Sem contato físico. ─ mandou sério.

Leigh apenas assentiu e ao lado dela caminhou até Michael. Sentaram. 

─ O que faz aqui? Eu o demiti.. 

─ Quem me contratou foi sua esposa. Só ela pode me demitir.

─ Despeça-o. ─ disse para a esposa.

─ Seria uma grande tolice. Eu já estou inteirado dos fatos e...

─ Despeça-o Ruth. ─ Ruth abriu a boca e fechou confusa.

─ Lescaut desculpe por ontem. Quero ajudar.

Ruth, se ele for envolvido o colocaremos em risco. ─ Leigh argumentou serio. ─ Ele deve permanecer oculto. Se o Chanceler souber dele, saberá de você e este é um risco que não podemos correr.

Como vai evitar que o Chanceler me descubra? Pode demorar, mas logo de um jeito ou de outro ele saberá.

Há um modo. Vamos nos divorciar o mais rápido possível. Aliás. ─ virou-se para o advogado que permanecia perdido na conversa. ─ Michael, quero me divorciar de Ruth. Acho que disso você pode cuidar. Me procure quando estiver com os papéis prontos. E tome conta dela até que se case novamente. ─ levantou dando a conversa por encerrada. ─ Eu mesmo vou providenciar outro advogado para a minha defesa. Ruth não quero mais vê-la.

─ Não vamos nos divorciar. ─ Ruth levantou enfrentando o marido. 

─ Por favor! Sentem! Os dois! Vamos conversar sobre isso.

Michael os segurou pelos punhos para fazê-los sentar. Uma luz dourada o cegou seguida por um mar vermelho aberto a sua frente. Uma avalanche de imagens, sons e conhecimento passou entre eles e Michael arfou sem perceber.

Quando os largou as mãos estavam em brasa. 

─ Meu Deus!!

─ Você está bem? ─ Ruth perguntou preocupada.

─ Céus! Por um momento... ─ balançou a cabeça clareando os pensamentos. ─ Vocês não podem brigar agora. ─ os dois olhavam para ele. ─ Leigh, eu posso cuidar da sua defesa. Já estou inteirado dos fatos e será mais fácil para mim do que para qualquer advogado que assuma agora. Eric Asher sonegaria informações importantes e eu já tive acesso a todo o processo. ─ Leigh desviou o olhar pensativo. ─ Assumo todos os riscos da minha decisão, quaisquer que sejam. Ruth é minha filha e não vou abandoná-la. Não quero mais permanecer oculto.

Eu já contei a ele. ─ Ruth séria.

E ele não entendeu o que são os Koryaks. É melhor que continue assim. Quando ele chegar à maturidade entenderá como acontece naturalmente. ─ segurou as mãos dela com carinho. ─ Me perdoe. ─ pediu. Respirou. ─ Eu me divorcio de você.

─ Cala a boca! ─ assustada.

─ Eu me divorcio de você! ─ repetiu apertando as mãos delicadas. ─ Eu me...

─ Cala a boca. ─ Ruth gritou puxando a mão e esbofeteando-o com força. Foi tão rápida que Leigh não teve como impedi-la. ─ Não faça isso, por favor... ─ suplicou.

─ Esta tudo bem. Está tudo bem. ─ Michael disse levantando as duas mãos para impedir os guardas de arrancarem Leigh da mesa. ─ Apenas um desentendimento de casal. ─ baixou o tom ─ Controlem-se. Aqui não é local para este tipo discussão.

Não se divorcie de mim. Juramos ficar juntos pela eternidade. Na alegria e na dor. Se quebrar esta promessa nunca mais nos encontraremos. Nem agora e nem em qualquer outro ciclo. ─ ela o encarou tensa. ─ Não posso perder você eternamente.

Você corre riscos. ─ Leigh murmurou tão abalado quanto ela.

Enquanto Meneslaups for regente estaremos sempre em risco.

Eu não posso continuar a perdê-la sempre que nos encontramos. Eu nunca soube protegê-la. Renunciar a você é o certo a fazer!

Não faça. Por favor.

Você pode morrer outra vez.  

Não se perde ninguém para a morte. ─ tensa respirou ─ É a primeira vez que gerarmos juntos. Ela não vingara se me renegar...Vai deixar isso acontecer?

─ Pare Lescaut. ─ Michael apertou o pulso dele. ─ Trataremos disso outra hora. Ruth, por que não me deixa falar com ele sozinho? Temos muitos detalhes a tratar para a defesa e...─ não o ouviam. Concentrados um no outro se levantaram. 

No minuto seguinte estavam enlaçados beijando-se apaixonadamente. Por alguns segundos os guardas não se envolveram surpresos demais, até que um se moveu indignado e foi separá-los, agarrando os braços de Leigh e puxando-os para as costas. Outro guarda chegou e ajudou a algemar o preso que não reagiu. Michael afastou a filha com cuidado. Enquanto era arrastado Leigh falava em seu idioma natal e Ruth respondeu concordando. 

 

─ O que ele lhe disse quando foi levado? Algo que eu deva saber? ─ Michael perguntou quando pararam na estrada para abastecer o carro.

─ Ele disse que vai estar comigo quando o bebê nascer. Disse que nada vai impedi-lo de estar lá. ─ o fitou séria. ─ disse que cercas não irão detê-lo.

─ Excelente. Fuga marcada. ─ bufou frustrado. ─ E o que você respondeu?

─ Disse que estarei esperando por ele. ─ Michael revirou os olhos. Respirou.

─ Querida, se ele fugir estará colocando a vida de todos em risco.

─ Preciso dele.

─ Se ele fugir e você o acolher será presa e sua filha tirada de você.

─ Se ele não estiver comigo minha filha morrera.

 

O tumulto em frente à casa era grande quando chegaram. Havia vários carros de emissoras estacionados. Os repórteres se amontoavam nos jardins.

 O carro logo foi cercado. Michael soltou o cinto preparando-se para descer. 

─ Tem certeza de que não quer dar uma entrevista? ─ Michael perguntou tenso. Um helicóptero sobrevoava a casa mostrando a chegada deles. ─ Pode repetir que Leigh é inocente e que tudo é um erro da polícia e da promotoria. Isso talvez ajude.

─ Não. ─ ela soltou o próprio cinto. ─ Não posso falar com a imprensa.

Michael desceu primeiro e quase não conseguiu contornar o carro para abrir a porta para Ruth. A envolveu pelos ombros repetindo “Nada a declarar” enquanto andavam. Dois policiais que estavam apenas observando se aproximaram e os ajudaram a entrar na casa. Michael a soltou no hall fechando a porta com certa dificuldade. Só então percebeu a mulher ao lado da filha.

─ Bem vinda Madame! Como está monsieur? ─ Nice perguntou recolhendo o véu e o casaco de Ruth. 

─ Bem, na medida do possível. A confusão lá fora começou cedo?

─ Começou ontem senhora. Passaram a noite nos jardins. ─ Ruth deu dois passos e a mulher a interceptou. ─ A senhora tem visitas. ─ Ruth parou. Voltou-se para a governanta assustada. ─ Eles chegaram muito cedo. Tinham a chave da casa e a senha do alarme, pois quando levantei já estavam aqui.

─ Quem? ─ Perguntou tensa.

─ Ele disse ser seu pai. ─ Nice falou enquanto Ruth ia para a sala devagar. 

Em segundos ela avistou o homem moreno e atarracado de costas para a porta. A longa batina girou quando ele se voltou. Com um sorriso abriu os braços e Ruth correu para ele feliz. O som da palavra “Ady” cheia de amor que ela disse doeu nos ouvidos de Michael. Um dia ela o chamaria assim?

Salastiel a embalou nos braços por alguns segundos a deixando chorar. Depois a beijou nos lábios, no rosto, na testa. De forma reverenciada curvou-se a frente dela e beijou-lhe as mãos. Michael assistiu a tudo intrigado. Falavam baixo, mas ele podia jurar que falavam a mesma língua que Ruth e Leigh usavam. 

─ Minha filha, Yuri e Kalih são voluntários para resguardá-la neste tempo obscuro. ─ apontou para um homem e uma mulher que se aproximaram com as mãos juntas. Os olhos, a maneira de vestir não negava as origens orientais. 

─ Shalon Yuri. Shalon Kalih. ─ Ruth cumprimentou o casal juntando as mãos e inclinando-se levemente.

 Ambos corresponderam dobrando-se a frente dela e reclinando a cabeça. 

─ É aconselhado que usem apenas dialeto Souvk. ─ Salastiel disse e com surpresa Michael viu Ruth repetir o cumprimento em outra língua, tocando as cabeças do casal. Eles levantaram e uma leve conversa se estabeleceu. Depois ela voltou a atenção para o pai. ─ Você viu seu marido?

─ Sim. Vim da prisão de Santa Fé. Um lugar horrível. Me deixe apresentá-lo ao Senhor Michael Melton, nosso advogado. ─ se acomodou no sofá. 

─ Salastiel Coombs. É um prazer senhor Melton. ─ cumprimentou formal sem oferecer a mão.

Michael o fitou enciumado. Um reverendo. Os olhos negros eram tão penetrantes que pareciam poder varrer uma alma. Aquele era o homem que havia criado sua filha.

Ruth acomodou-se no sofá e imediatamente Kalih ajeitou almofadas às costas dela. A jovem pediu algo e a pequena oriental saiu direto para a cozinha. 

─ Não posso me demorar minha filha. Tenho muitas coisas a resolver aqui e ainda preciso ir até Santa Rosa.

─ Também tenho que ir Ruth. ─ Michael disse entendo a deixa do reverendo. 

─ Claro. Obrigada por tudo senhor Melton. ─ Ruth respondeu formal. 

─ Nós falamos amanhã? ─ Perguntou estranhando a formalidade. 

Lógico que o pai não sabia quem ele era. 

─ Sim. Por favor. Quero ser informada de cada passo da defesa.  

Michael concordou com um aceno. Sem se conter aproximou-se para beijá-la. No mesmo instante Yuri se moveu impedindo-o. Michael o fitou com raiva. O homem não se intimidou. Postou-se a frente dele. Ruth falou no estranho dialeto. Ele a ouviu, depois consultou o reverendo com o olhar. Só com a leve concordância do padre foi que ele se afastou. Intrigado Michael a beijou levemente na face.

 ─ Cuide-se! ─ disse baixo e saiu.

 

─ Isso não é russo. ─ o intérprete disse depois de analisar as fitas de Ruth e Leigh conversado. ─ Não é nenhuma língua que eu conheça. Lembra o ucraniano, mas não é. ─ tirou os óculos franzindo a testa. ─ Isso parece mais um dialeto. Vai precisar de um nativo para traduzir o que eles estão dizendo. De onde são?

─ Ela é inglesa. Ele nasceu em uma ex-colônia russa chamada Koryakia. ─ Dennis respondeu depois de consultar alguns papéis. 

─ Se é inglesa, aprendeu o idioma na infância. Observem a desenvoltura no falar. A meu ver ela é tão nativa quanto ele. ─ o linguista pensou um pouco. ─ Esta região que mencionou pertenceu à Rússia, terra de inúmeros dialetos. Lamento, dificilmente encontrará na América alguém que possa traduzir isso. 

─ Obrigado. ─ Matt agradeceu dispensando-o. ─ O que acha?

─ Vamos continuar procurando.

─ Concordo. Melton requereu acesso as provas encontradas na casa de Lescaut. Vou acompanhá-lo e você procura o tradutor.

─ Quero ver onde ele vai colocar a alegação de inocente depois de ver o que achamos. ─ Dennis debochou. ─ Vou te acompanhar. Preciso ter esse prazer.

Michael já os aguardava no corredor. Na verdade, esperava apenas Matt Dowling, com quem, já havia percebido, era mais fácil de lidar. Dennis Blake estava muito mais envolvido no caso e parecia pessoalmente atingido. 

─ Boa tarde. ─ Matt cumprimentou educadamente. 

Michael apenas acenou com a cabeça sem esconder o desprazer de ver o outro agente. Dennis riu um tanto debochado e indicou o caminho até a sala de provas.

Tudo o que havia sido apreendido na casa de Leigh estava sobre uma mesa grande devidamente embalado em plástico. Michael se aproximou preocupado. O material seria usado como prova no processo, por que de alguma forma estavam ligados aos crimes. Havia peças demais para serem enganos. Dennis Blake pegou a primeira peça. Um par de botas.

─ Tamanho 43. O solado é idêntico aos das pegadas deixadas na casa da terceira vítima. ─ O prazer no tom era inconfundível. Pegou outra peça. ─ Esta camisola é idêntica às usadas por todas as vítimas femininas. ─ pegou um martelo antigo. ─ Esta arma tem este encaixe...observe. ─ aproximou a peça dos olhos de Michael. ─ Este encaixe cabe perfeitamente na fissura feita no peito da sexta vítima. ─ deixou de lado e pegou uma tira larga de couro. ─ Encontramos alguns pares destas. Tem a mesma medida e do mesmo material das usadas nos crimes.

─ Algum objeto pessoal das vítimas? ─ Michael perguntou desejando poder apagar o sorriso vitorioso do agente. A cada minuto a situação se complicava. 

─ Não. ─ Matt respondeu rápido.

─ O assassino sempre levava algo das vítimas. Ou não levava?

─ Tudo indica que sim. Parentes relataram a falta de correntes, anéis, lenços, peças de roupas, coisas assim. ─ Matt respondeu.

─ Encontraram algo deste tipo na casa de Lescaut? 

─ Não.

─ Seu cliente já lhe disse onde os guardou? ─ Michael ignorou a pergunta. ─ Não, se preocupe, não vamos precisar destes souvenires. Já encontramos a principal arma dos crimes. Este aqui. ─ Dennis continuou sem se importar com o ar chocado do advogado. Estendeu um punhal devidamente embalado. ─ Esta peça foi usada para perfurar o coração das vítimas. E está lâmina ─ Levantou outra peça. ─ Com esta ele retirou os úteros e fatiou os órgãos sexuais dos homens. Com esta ele extirpou o bebê de Penélope Ives. Usou um prego comum, mas foi com aquele martelo que ele pregou... o feto na parede. Os médicos disseram que como ela já estava no quinto mês é possível que o bebê tenha sobrevivido por uns cinco minutos. O que nos leva a crer que foi pregado ainda vivo.

─ Chega! ─ Michael levantou a mão. 

Ruth. Sua Ruth. Casada com um monstro. Grávida de um monstro. Será que ele pretendia fazer o mesmo com ela? Olhou os dois agentes tomado por gratidão.

A prisão de Lescaut podia ter salvado a vida de sua filha. 

─ Em alguns dias vou apresentar uma proposta de acordo ao promotor Asher. ─ murmurou vencido. Com passos lentos deixou o local. 

 

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