CAPÍTULO 02
A temperatura em Cupertino era
amena naquela manhã de outono.
Annette Keller aceitou a
convocação da cunhada e ficou atenta aos novos vizinhos. Mal terminou de
despachar as crianças para escola quando viu o caminhão de mudança estacionar,
seguido por um luxuoso carro branco. Fiel às instruções recebidas avisou a
cunhada e logo Nancy chegou acompanhada por Hope Kanston, esposa do xerife da
cidade e assistente social.
─ São eles? ─ Hope perguntou
observando a movimentação na casa vizinha pela janela lateral da sala, de onde
tinha uma boa visão da entrada do que agora era a casa dos Lescaut. O motorista
do caminhão fechava a porta traseira encerrando os trabalhos. Os novos
moradores estavam à porta conversando.
─ São ─ Nancy respondeu olhando
também. ─ É ela sim. A senhora deve ser a governanta que ela disse que trabalha
com eles. Ele está saindo.
─ Onde acha que vai? ─ Annette
perguntou admirando o rapaz que caminhava com passos firmes até o carro.
─ Provavelmente fazer algo mais
divertido do que organizar a casa. ─ Nancy disse em tom de deboche ─ Vamos
esperar alguns minutos e depois iremos dar as boas-vindas.
─ Acha mesmo que ele bate nela
Nancy? ─ Annette perguntou de olhos fixos no novo vizinho acabara de entrar no
carro e fazia o retorno sentido centro da cidade.
Assim que o carro sumiu do campo
de visão, as três sentaram a mesa.
─ Não dá para ter certeza, mas
ela treme perto dele. O homem é um troglodita. Só fala com ela na língua dele,
a gente não entende mais é sempre ríspido. Não a toca, não a ajuda em nada. E a
olha de um jeito... Se não bate, no mínimo a oprime.
─ Pode até ser, mas deu a casa a
ela. Além de sete milhões. ─ Annette contou.
─ Como é que você sabe disso? ─ Hope
perguntou intrigada.
─ Jeffrey fez a transação do
registro do imóvel. E vai levar a escritura hoje à tarde para ela assinar. ─
Tomou um gole de suco. ─ E Paul disse que aquela transferência de 15 milhões
recebida na semana passada, foi para ele e que no dia que se apresentou no
banco passou metade do dinheiro para o nome dela. Sete milhões e quinhentos mil
─ Comeu um biscoito. ─ E ontem ele pagou da parte dele quase três milhões pela
casa.
─ E deu para ela? ─ Hope perguntou
surpresa.
Agressores não enchiam a esposa
de bens.
─ Sem sequer piscar.
─ Isso eu não sabia ─ Nancy disse
meio irônica.
─ Ele não contou para mim, contou
para Paul. Disse também que você ficou com tanta implicância com o cliente que
ele preferiu não falar mais sobre ele com você ─ Justificou mirando a cunhada.
─ Disse que ele fez o negócio sem barganhar. Achei que os árabes tivessem o
hábito de pechinchar tudo. ─ Annette continuou. ─ Meu irmão vai receber uma
bela comissão com essa venda.
─ Ele não é árabe. É russo. ─ Nancy
contou.
─ Russo? Mas é muçulmano, não é?
─ Hope estava cada vez mais intrigada.
─ Não. Ruth disse que são
cristãos, mas que os costumes do povo dele são muito parecidos com os dos
muçulmanos. Foi muito bom eu ter ido com Jeffrey enquanto eles estavam
procurando casas. Acho que ela não falava com outra pessoa há dias.
─ Talvez sim, talvez não. Vamos averiguar.
─ Hope disse seria.
A senhora Lanfond não gostou da
forma como a campainha foi tocada. Aqueles americanos eram mesmo impacientes.
Deixou o serviço na cozinha e foi atender a porta certa de que ou era o pessoal
contratado para limpeza, ou os outros pertences que monsieur avisou que
chegariam. Conforme recomendado olhou pela janela lateral e estranhou o grupo
de senhoras. Hesitou um segundo antes de abrir a porta.
─ Pois não? ─ Perguntou com forte
sotaque francês e expressão impassível. Manteve-se no umbral impedindo a
entrada.
─ Bom dia. ─ Nancy começou. ─ Sou
Nancy Morris. Estou procurando a Srta. Coombs. Esta é minha cunhada Annette
Keller e esta é Hope Kanston. Fazemos parte do grupo de senhoras da cidade. Viemos
dar as boas-vindas.
Estendeu o cesto de guloseimas
que trazia e deu seu melhor sorriso.
─ Mademoiselle Coombs está
inventariando a casa. ─ A Sra. Lanfond replicou fria. Olhou para trás. Ruth
estava parada na escada visivelmente assustada. ─ Aguardem um momento, por
favor. ─ Entrou e fechou a porta.
As três mulheres olharam-se.
─ Essa está do lado dele. ─ Hope
murmurou.
─ Ele tem quem a vigie sempre. ─
Nancy concordou com raiva contida. ─ Explicado porque não foge. ─ Sorriu
disfarçando o sentimento quando a porta se abriu novamente e uma Ruth temerosa
surgiu. ─ Olá Ruth!
─ Oh, olá Nancy. Eu não a
esperava.
Tensa a garota aceitou a cesta
ofertada tentando sorrir. Hope se encantou com o sorriso trêmulo. Nancy sorriu
admirando os cabelos longos, negros e muito lisos. Formavam uma bela cascata
negra que passava do meio das costas da garota. Ainda não os tinha visto
soltos. Nas poucas vezes que se encontraram a jovem os manteve cobertos por um
lenço.
─ Podemos entrar? Eu vim com
minha cunhada e uma amiga para lhe dar as boas-vindas e ajudar no que for
preciso. Também convidei algumas das mulheres do nosso grupo que lhe falei
ontem.
Ruth mordeu os lábios, nervosa
sem saber o que dizer. Era claro que considerava o que o noivo poderia dizer.
─ Mademoiselle precisa de ajuda?
─ A governanta disse parando ao lado dela. Pegou o cesto e encarou as mulheres,
pronta a dispensá-las.
─ Seremos apenas mulheres, Ruth.
─ Nancy disse simples. Uma coisa já havia ficado bem clara para Nancy, esposa
do corretor que os ajudou a encontrar a nova morada. Ruth era proibida de falar
com qualquer homem que não fosse o futuro marido.
─ Claro. Entre, por favor. ─ Abriu
passagem e as mulheres entraram. ─ Acho que passei muito tempo... longe...
esqueci as boas maneiras.
─ Ruth esta é Annette Keller,
irmã do meu marido ─ Nancy contou apontando na direção da casa. ─ Ela mora na
casa da esquina do outro lado da rua.
─ Muito prazer Sra. Keller. ─ Ruth
sorriu correspondendo o aceno leve da mulher.
─ Me chame de Annette. Ninguém me
chama de Sra. Keller.
─ E esta é Hope Kanston.
─ Muito prazer sou Ruth Coombs. ─
Ruth sorriu e apresentou a governanta que manteve a expressão fechada,
permanecendo na sala.
─ Viemos lhe dar boas-vindas
Ruth. Conhecê-la. ─ Hope disse analisando a expressão corporal da jovem. Ela
parecia um pouco tímida, mas feliz com a visita.
─ Eu agradeço muito. ─ A
campainha tocou interrompendo-a.
A Sra. Lanfond adiantou-se.
Observou quem era antes de abrir a porta.
─ São os funcionários da empresa
de limpeza mademoiselle. E há homens entre eles. ─ Informou crítica.
─ Importam-se de irmos para a
cozinha? Estou faminta. Gostaria de provar uma dessas tortas. ─ A jovem disse
rápida. As quatro mulheres saíram da sala e do outro cômodo ouviram a
governanta receber os empregados. ─ Me deem licença, um minuto por favor. Volto
já. ─ Ruth disse e as deixou sozinhas.
─ Para onde ela foi? ─ Hope
perguntou vendo-a sumir em um corredor lateral.
─ Para os quartos, pela escada de
empregados. ─ Annette disse simples. Conhecia bem a casa. A frequentava no seu
tempo de garota.
─ Por quê? ─ Hope quis saber.
─ Homens não podem vê-la com o
cabelo descoberto. ─ Nancy explicou. ─ Qual sua primeira impressão Hope?
─ Ela é muito assustada. ─ Respondeu olhando o
ambiente.
A campainha tocou novamente.
Ouviram a governanta atender e mandar que esperassem. Mas ninguém fazia
Patrícia Johnson esperar. Sem ter como detê-la a Sra. Lanfond apenas a seguiu
até a cozinha ao mesmo tempo em que Ruth retornava com os cabelos
cobertos.
─ Olá Patrícia ─ Hope cumprimentou quase rindo
da expressão da governanta.
─ Onde está essa nova joia da nossa
comunidade?
Patrícia sorriu para Ruth.
Segurou as mãos dela, lhe deu dois beijos estalados na face e arrancou um riso
leve da moça com a careta que fez quando reparou a forma que estava
vestida.
─ Quanta beleza escondida nestas roupas. Quem
escolheu isso?
─ Meu futuro marido. ─ Ruth riu novamente da
expressão.
─ Muito elegante, mas totalmente desfavorável
à seu tipo físico. Seu marido não tem gosto para roupas. ─ O riso de Ruth foi
alto e suave. ─ Não me apresentei, não é? Sou Patrícia Johnson. Sou a
presidente do clube de senhoras da cidade. E não se preocupe, não importa o que
esteja acontecendo. Nós vamos cuidar de você.
Leigh estacionou o carro em
frente à casa surpreso com a movimentação. Havia homens limpando as janelas,
outros cuidando do jardim, outro pintava os canteiros. Dentro da casa o fluxo
de pessoas continuava arrumando, limpando, organizando. Entrou sem ser impedido
ou questionado. Apertou os lábios. Teria que pensar em um sistema de segurança.
Caminhou pela casa aprovando o serviço. Sentiu um aroma de assado no ar. A Sra.
Lanfond estava caprichando no almoço. Estava faminto. Entrou na cozinha e a
encontrou vazia. Seguindo o aroma e foi parar nos jardins dos fundos. A grande
churrasqueira perto da piscina estava em pleno funcionamento e próxima a ela um
grupo de mulheres de todas as idades rodeava Ruth.
A noiva sentava em uma cadeira
alta, com os pés pequenos descalços apoiados no suporte. O vestido cinza havia
sido levantado e preso por baixo das coxas e boa parte das pernas torneadas
estava à mostra. As mangas longas haviam sido dobradas e os botões da gola
abertos por conta do surpreendente calor que fazia.
Os cabelos estavam soltos e se
agitavam na brisa suave. As mulheres que a rodeavam colocavam flores nos
cabelos dela e as prendiam formando uma coroa. Ela parecia uma fada. O riso era
livre. Sem medo. Sem culpa. Sem terror. Naquele breve momento estava
encantadora como a flor que fora antes de tanta dor lhe roubar a paz.
Um nó se formou no mais íntimo de
seu peito e doeu.
Ela estava linda. Mais linda do
que em qualquer outro ciclo em que vivera.
Salastiel avisou que ela
esqueceria as dores com o tempo. Que na América, longe da crueldade do
Chanceler a influência na mente dela seria menor. Apenas Deus sabia o quanto
ele desejava que ela se recuperasse. Apenas Deus sabia o quanto queria tocá-la,
amá-la, tê-la como suas lembranças da vida com ela o impeliam. Mas não podia.
Ela estava gestando.
A lembrança trouxe o amargor da
traição como acontecia desde que descobrira.
─ Seu noivo chegou Ruth. ─ Annette avisou
observando Lescaut se aproximar com passos firmes. ─ E não parece nada
satisfeito. ─ Murmurou sem jeito.
Ruth desceu da cadeira tensa.
Tirou algumas flores do cabelo e esperou.
─ O que está acontecendo aqui? Onde está
seu lenço? Há homens circulando na casa! ─ Olhou ao redor apertando os
lábios. ─ Quem são estas pessoas? E o que você faz fora de seu quarto com
estranhos entrando e saindo desta forma?
─ Sinto muito. ─ Ela disse em inglês. Ele se
aproximou um passo ameaçador.
─ Já a avisei que nossos assuntos pertencem
apenas a nós.
─ Sinto muito. Só há mulheres aqui ─ Murmurou
de cabeça baixa. ─ Todas são do clube de senhoras da cidade e vieram nos dar
as boas-vindas. Ficaram comigo o tempo todo. Não falei com homem algum e
nenhum me viu ou falou comigo.
─ Seus cabelos deveriam estar cobertos!
─ Só havia mulheres aqui Leigh. ─ Repetiu
sem entender.
─ Você pode ser vista pelas janelas!
─ Patrícia disse que não dava. Eu expliquei
a elas e Patrícia trouxe todas para o jardim e deu ordem que nenhum homem
entrasse aqui. Eu fiquei entre mulheres que é o que a lei permite.
─ Não quando gesta um enjeitado! ─
Leigh sibilou furioso. As lágrimas brilhantes como pérolas que viu brotar nos
olhos dela inundou seu coração de compaixão, mas a dor que o consumia era muito
maior. ─ Deveria estar em seu quarto rezando para que a matrioska venha
pegar seu filho ao nascer. Por que eu não o farei! ─ As duas pérolas
desceram silenciosas pela face pálida. Todo o brilho e frescor daquela manhã
desapareceram. Havia apenas silêncio ao redor. Ruth recuou e baixou a cabeça
ainda mais. ─ Cubra seus cabelos e recolha-se a seu quarto. Vou mandar
essas pessoas embora
Ela acenou concordando e pegou o
lenço sobre a cadeira com mãos trêmulas.
Uma dose de remorso ameaçou
desarmá-lo. Antes que o dominasse ele se virou para as mulheres e quase
esbarrou em Patrícia Johnson.
Ela era tão alta quanto ele e o
fitou diretamente nos olhos. Os braços estavam cruzados sobre o peito e os
olhos eram dois cubos de gelo e desafio. Os cabelos cor de fogo estavam
desalinhados pelo vento. Ela parecia uma leoa.
─ Não sei o que disse a esta criança meu
jovem, mas talvez fosse gentil pedir desculpas. ─ Ela disse baixo de forma que
só ele pudesse ouvi-la.
─ Não a conheço, não a convidei para minha
casa, portanto não se meta onde não é chamada. ─ Ele respondeu no mesmo tom. ─
Senhoras, agradeço a visita e as boas vindas, mas eu e minha noiva temos que
nos ausentar. O reverendo nos espera para acertar o casamento. ─ Disse em tom
amigável e descontraído para o grupo.
Houve um aclamado geral. Leigh
pegou Ruth pelo braço como a uma criança malcomportada. ─ Senhora Lanfond, por
favor, conduza as visitas até a saída. ─ Disse frio e com passos firmes levou a
jovem dali sem sequer olhar para trás.
─ Tem razão Nancy. Ele é um monstro ─ Patrícia
reclamou jogando a bolsa no sofá da sala da casa de Annette. ─ O que acha que
ele disse a ela?
─ Não sei. Quando os vi, eles conversaram
pouco, mas acho que só sobre a casa. O tom dele não era gentil, mas não foi tão
duro, tão ferino.
─ Sempre naquela língua horrível?
─ Sempre. Ele ficou furioso porque estávamos
lá.
─ Não sei. Eu o observei quando chegou. Ele
parou na porta e a fitou por alguns minutos. Olhava como se estivesse tendo uma
visão. ─ Hope lembrou. ─ As feições dele foram se transformando como se algo o
consumisse. Ai veio à raiva e ele foi até ela pronto para magoá-la tanto quanto
estava magoado.
─ Não vi nada disso. ─ Annette disse
impaciente.
─ Você não vê nada Annette ─ Nancy
debochou.
─ Ah, vejo sim. ─ Fechou os olhos. E como via.
Viu o homem jovem e elegante, de feições másculas, corpo perfeito e andar
felino se aproximar. Ficar tão próximo que podia sentir o cheiro de sua pele.
Reparou nas mãos, no braço forte quando ele pegou no braço da noiva. Observou-o
o bastante para notar os músculos firmes e bem delineados. A barriga era lisa e
perfeita. Imaginou-o sem camisa
Abriu os olhos assustada com o
curso dos pensamentos. Estava louca.
─ Eles foram ver seu pai Patrícia. ─ Nancy
disse simples e sorriu.
─ Então não temos com o que nos preocupar.
Pelo que conheço do meu pai, ele vai descobrir o que há de errado.
O Pastor Johnson era conhecido
como um homem firme e justo. Bem visto por toda a comunidade era sempre
procurado para conselhos em momentos de crise. Ele os recebeu nos jardins da
ermida com a expressão compreensiva e o sorriso límpido de quem entende a
pressa dos jovens em se casar.
─ É um prazer conhecê-la querida. Seu noivo falou
muito de você. ─ Pegou as mãos dela e Ruth quase arquejou esperando a reação
brusca do noivo que não veio.
Ele permaneceu sério. Há duas
semanas que Leigh não sorria.
─ O prazer é meu reverendo. ─ Respondeu
baixando os olhos.
─ Venham, podemos conversar ali.
Guiou-os até um ponto do jardim
onde havia mesas espalhadas e flores ao redor. Sentaram em volta de uma mesa
redonda e o reverendo apenas esperou. Observou os dois. As mãos nervosas dela.
A distância dele. A falta de toque, olhares e carinho. Preocupou-se.
─ Leigh esteve aqui pela manhã para marcar o
casamento de vocês. Quer que seja o mais breve possível. E é isso que você
quer? ─ Ruth olhou furtivamente para o noivo e acenou concordando.
─ Talvez não seja o que queremos reverendo e
sim o que precisamos. ─ Leigh cortou sério. Ruth sentiu o rosto queimar.
─ Gostaria de ouvir a opinião dela, se não se
opor. ─ O reverendo disse incisivo.
Leigh engoliu as palavras. ─ É isso que você quer? Quer se casar com ele? ─ Ela
apenas baixou os olhos. ─ Filha....
─ Responda a pergunta Ruth. ─ Leigh
mandou apertando os lábios.
─ Por favor, Leigh eu já o ouvi e sei o que
pensa sobre este casamento, agora quero conversar com esta jovem a sós. ─ O
pastor informou levantando e apontando a porta que levava ao escritório. ─ Se
puder nos dar licença...
─ Disse que iria conversar com os dois ─ Leigh
ficou sentado sem entender.
─ Sim, mas já conversei com você e agora quero
falar com sua noiva a sós.
─ Mas...
─ Não há mas.
─ Ela não pode ficar a sós com um homem. ─ Leigh
sibilou levantando.
Entrou na sala, não sem antes dar
a Ruth um olhar mordaz. O reverendo fechou a porta. Em silêncio a levou de
volta ao jardim. Sorriu calorosamente para a jovem.
─ Cão que muito ladra não morde! ─ Ruth sorriu
por um instante. Em seguida caiu em um pranto silencioso. O reverendo esperou
que se acalmasse oferecendo lenços e um copo d’água. Quando ela parou de chorar
apenas sorriu novamente deixando-a tomar coragem. Como a moça ficou em silêncio...
─ Fale.
─ O que? ─ Perguntou confusa.
─ O que quiser. Apenas fale.
─ Não tenho o que dizer... ─ Murmurou
constrangida. ─ Precisamos nos casar.
─ Precisam? Ele me disse que querem se casar.
Não é isso? ─ Ruth ofegou tensa. ─ Apenas uma coisa importa: Você o ama? ─ Os
olhos azuis voltaram a lacrimejar.
─ Mais do que a minha própria vida. Sempre
amei. Sempre. Até quando não sabia que ele existia, eu já o amava.
─ Ele me disse exatamente a mesma coisa. ─ Outro
lenço. ─ Com as mesmas palavras. ─ Ela ficou surpresa. ─ Eu vou marcar o
casamento de vocês.
─ Reverendo... eu...eu... tenho medo. Não sei
se devo... ele está muito magoado. Eu... eu estou grávida e.. não é...
não.....eu...fui... o bebê não é...
─ Ele me contou querida. Não é necessário que
fale sobre isso.
─ Eu o amo, mas não vou abrir mão do meu
filho. ─ Disse firme.
Era a única certeza que
tinha.
─ E você está certa quanto a isso. Ele não
pode obrigá-la.
─ Então...
─ Sabe por que vou casar vocês? Por que.. ─ Pegou
a bíblia e começou a ler: ─ O amor é paciente, o amor é prestativo, não se
irrita, não guarda rancor. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Permaneçam então estas três coisas. A fé, a esperança e o amor. ─ Fechou o
livro santo. ─ Alguns versículos da primeira carta aos coríntios. ─ Explicou. ─
Hoje de manhã eu vi em Leigh a fé, agora vejo em você a esperança e vi nos
dois, o amor. ─ Pegou novamente as mãos dela. ─ Seja paciente. Ele vai aceitar
e amar seu filho, pois a ama.
O casamento se realizaria em dez dias. Leigh protestou, questionou, exigiu, mas o reverendo não concordou em casá-los antes da emissão de uma licença oficial. Voltaram para casa em silêncio já no fim da tarde. E pela primeira vez em dias ele desceu do carro, deu a volta e estendeu a mão para ajudar Ruth a sair.
─ Obrigada. ─ Ela murmurou tímida levantando
os olhos.
O azul daquele olhar estava
nublado. A porta do céu lhe fora fechada, deixando-o em um mar revolto de dor e
angústia. Apertou levemente a mão delicada que estava fria. A lembrança não
vivida do toque suave por seu corpo o fez estremecer. Sem notar aproximou-se um
passo. Ruth ofegou e entreabriu os lábios para dizer algo que não saiu. Ele
interpretou o gesto como uma reação de medo. Sentiu-se mal. Havia jurado que
ela nunca mais teria medo e agora ela o temia tanto quanto aos que a feriram.
Recuou. Ajeitou o casaco que ela vestia, protegendo-a do frio que estava
chegando com a noite.
─ Você não pode se resfriar ─ Murmurou depois
de procurar o que dizer.
Um novo agradecimento veio como
um leve sussurro.
─ Tente descansar. ─ Leigh gentilmente a
conduziu até a porta
─ Você vai sair? ─ Perguntou assustada.
─ Estamos comprometidos agora. Não podemos
dormir sobre o mesmo teto.
─ Não... por favor... é uma casa estranha. Há
o portal...
─ Está selado. Salastiel já tomou
providências. Você está segura aqui
─ Mesmo assim... por favor... Não posso dormir
sozinha nessa casa.
─ Peça a Sra. Lanfond para ficar estas noites
no quarto de hóspedes. ─ Ruth balançou a cabeça de um lado para outro tensa. ─
Não posso dormir aqui não sendo seu marido aos olhos da lei e de Deus. É o
preço da noiva. Não posso usufruir dele antes do casamento. ─ Explicou com
calma.
─ Por favor... ─ Pediu segurando-o pela lapela
do casaco com as duas mãos. Leigh as cobriu com as deles gentilmente.
─ Não posso. Se quero
reconquistar meus direitos terei que fazer tudo como se deve desta vez. Não
posso macular nada neste ciclo. ─ Tirou as mãos dela da roupa dele. Havia
carinho e pesar no gesto. ─ Você entende?
─ Entendo. ─ Ela murmurou.
─ É melhor entrar. Eu pedi a Sra.
Lanfond que lhe preparasse uma sopa. Procure se alimentar e descansar. Amanhã o
dia será cheio. Alguns bens de família vão chegar e teremos muito trabalho.
Ligue para o hotel se precisar, a hora que precisar.
Ruth concordou silenciosa e um
leve sorriso deslizou por seus lábios. Leigh não sorriu, mas a expressão
abrandou. Inesperadamente a beijou na testa e se afastou.
Logo que voltou para o hotel
Leigh trocou o terno por um agasalho e saiu para correr. Precisava de atividade
física para limpar a mente. Durante os três anos que esteve pelo mundo, correr
sempre o ajudou a pensar e a colocar as coisas em ordem.
Primeiro experimentou a esteira
do hotel, mas ficar parado não o ajudou. Ganhou as ruas em ritmo acelerado
deixando o centro em poucos minutos. Sem perceber pegou o caminho que deixava o
centro.
Já era noite quando parou em
frente à casa. As luzes estavam acesas no andar superior. Ruth já se recolherá.
Provavelmente com medo. A noite a assustava. Queria estar com ela, abraçá-la,
protegê-la, fazê-la esquecer. Mas não havia como agora, que por seus atos
impensados, fazia parte dos pesadelos dela.
Olhou a bela construção onde
viveria como um homem casado.
Casado com uma esposa que não era
sua. Pai de um filho que não era seu. O Chanceler conseguirá lhe tirar tudo. Os
pais, os irmãos, o amor de adolescente e agora seu amor de homem. Esperar. Tudo
o que podia fazer era esperar.
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