CAPITULO 07

CAPÍTULO 07

 

Leigh observou Saul Tisdale enquanto jogava. O rapaz tinha ar de menino e riso fácil. Conversaram e soube que ele era recém-formado em bioquímica. Acreditava que os médicos passavam remédios demais e estava trabalhando na farmácia da família para conhecer medicamentos. Falava sem parar e fazia sempre piada de alguma coisa. 

Entendeu porque Ruth gostou dele. Talvez fosse uma boa escolha para marido. 

A ideia doía. 

 ─ E você flerta com suas clientes? ─ Perguntou pegando o taco. Preparava sua primeira jogada. Jogou e acertou.

 ─ Ah só com as mais bonitas. Essa semana vi uma encantadora. 

 ─ É? ─ Jogou de novo e acertou outra vez. ─ Encantadora?

 ─ Linda. Olhos bem azuis, cabelos negros e longos. Pequena sabe? Tímida, mas com um sorriso de derreter iceberg. Parecia uma princesa.  

 ─ De certo é uma princesa. ─ Jogou e acertou. Não conteve o tom seco na voz. 

Em mais uma tacada encaçapou as bolas que faltavam.

 ─ Poxa, para quem nunca jogou você é fera. ─ Sorriu para ele ─ Oh, lá vem....

 ─ Olá Saul. ─ Becky sorriu, mas os olhos fuzilavam Leigh ─ Pode nos dar licença?

 ─ Claro. ─ Saul respondeu notando a tensão entre os dois. Se afastou.

Becky foi na direção de Leigh para pegar um dos tacos. Ele ficou parado enquanto a garota passava quase roçando o corpo no dele, perto o bastante para ele aspirar o perfume dela. Engoliu seco. Ela o excitava e sabia disso.

Com um sorriso malicioso Becky foi para o outro lado da mesa e abriu um jogo. 

Reclinou para realizar a tacada. Acertou. De a volta e parou ao lado de Leigh. 

 ─ Eu o esperei por horas. ─ Jogou e errou.

 ─ Tive problemas em casa. ─ Disse jogando. Acertou. 

 ─ A esposinha ficou doente de novo? 

 ─ Algo assim. ─ Jogou. Errou. A garota o desconcentrou.

 ─ E por que não me procurou mais? ─ Ela parou confrontando-o.

 ─ Não pude. ─ Respirou fundo. A garota estava a frente dele inclinando o corpo de forma sensual. Sim, era bonita e sabia usar isso. 

 ─ E vai? ─ Lânguida deslizou a mão pela lapela da jaqueta que ele usava.

 ─ O que? ─ Leigh segurou a mão dela.

 ─ Me procurar? ─ Foi um sussurro enquanto se aproximava oferecendo a boca.

 ─ Não. ─ A afastou um tanto brusco. ─ Estou casado agora.  

 ─ Não me importo. Não sou ciumenta ─ Becky respondeu debochada.

 ─ Acho que você não entendeu. Tudo o que eu queria era uma despedida de solteiro. ─ Deitou o taco sobre a mesa, ignorando a expressão ultrajada dela. ─ O que aconteceu foi um erro. Vou mandar um cheque para compensá-la pelo tempo que perdeu me esperando. 

 ─ Um cheque? ─ Riu ofendida. ─ E que tal eu mandar para sua esposa os presentes que me deu com o cartão com sua letra e assinatura? Acho que ela vai gostar do vestido... ou talvez ela aprecie mais a lingerie. Quem sabe ela usa para você. ─ Falava alto. As pessoas pararam para olhar os dois.

 ─ Não se atreveria. ─ Leigh a pegou pelos braços com raiva. 

 ─ Não? Você não sabe com quem se meteu.  

 ─ Você é que não sabe. Chegue perto da minha esposa e eu... ─ Apertou os braços dela irritado. 

 ─ Faz o que? ─ Olhou ao redor satisfeita. Todos os olhares estavam nos dois. Ele seguiu seu olhar e a tirou dali. Foram para um canto pouco iluminado nos fundos. 

 ─ O que quer? ─ Ele perguntou tenso.

 ─ Não é o que eu quero, mas o que posso te dar! ─ disse agarrando-se a ele. 

Leigh tentou resistiu ao beijo atrevido. Ela moldou o corpo ao dele prendendo-o pela lapela da jaqueta. Ele gemeu, a abraçou e correspondeu ao beijo. Ela se esfregava nele incitando-o. Agarram-se em frenesi. Apoiaram-se na parede. Leigh deslizava a mão pelo corpo moreno completamente excitado. Rápida e atrevida Becky enfiou a mão nas calças dele e acariciou firme. Ele parou ofegante, se deixando tocar.

 ─ Sua esposinha faz isso com você?  

 ─ Não ─ Gemeu. Ela continuava a massagem sabendo o que fazia. 

O beijou mordiscando o lábio inferior.

 ─ Vamos terminar isso onde eu possa trocar a minha mão pela minha boca. ─ Sussurrou continuando a massagem de forma rítmica. ─ Vamos antes que sua esposinha fique doente de novo ─ Sugeriu

 ─ Doente de novo... ─ Se afastou de vez e se recompôs rápido. Passou a mão pelos cabelos. Olhou para Becky com raiva. ─ Não. Isso não está certo. Não vai acontecer. Nunca mais entendeu? Nunca mais! 

A deixou ali e voltou para o bar. Respirou fundo, indo direto para o balcão. Pagou a conta e sem dar atenção a James que o seguia tentou pegar um táxi na saída. O amigo alcançou.

 ─ Hei... espera...  

 ─ Eu não devia ter vindo. Tenho que ir para casa. Agora.  

 ─ Tudo bem. Eu te levo. ─ Caminharam para o estacionamento. Entraram no carro e James acelerou. ─ Quer conversar? ─ Leigh acenou que não. 

Rodaram em silêncio. Leigh fumou nervoso. James estacionou o carro em frente à casa dele. A luz do quarto de Ruth estava acesa. Leigh olhou as cortinas balançando preocupado. Hesitou em descer.

 ─ Antes de subir é melhor se ajeitar. Não a deixe ver essas roupas. ─ Deslizou os dedos no ar na frente da própria boca. ─ Tem batom nos lábios e na gola da camisa.

 ─ Ah... droga...

 ─ Tome um banho antes. Você está impregnado de perfume. Conselho de homem mais velho ─ Sugeriu solidário.

 ─ Obrigado. ─ Disse saindo. 

 ─ E Leigh? Não precisa se preocupar. Ninguém vai comentar o que viu. O que acontece no bar fica no bar.

Acenou agradecido e entrou em casa com passos rápidos. 

 

Assim que entrou Leigh tomou um banho rápido e vestindo apenas um roupão foi até quarto de Ruth. Encontrou a senhora Lanfond sentada na poltrona ao lado dela. 

 ─ Aconteceu alguma coisa? ─ Sussurrou tocando a face da esposa adormecida.

 ─ Ela teve um início de pesadelo, mas logo voltou a dormir. ─ A senhora disse olhando-a com carinho. ─ Por sorte eu ainda estava lá embaixo e ouvi os primeiros gemidos. Monsieur demorou hoje mais do que o normal.

 ─ Acabei saindo com o Sr. Keller. ─ Sentou na cama ao lado da esposa. ─ Pode ir, Sra. Lanfond. Eu fico com ela.

 ─ Pois não. Boa noite.

 ─ Boa noite. Sra. Lanfond, por favor, pegue a roupa que usei hoje e leve para a lavanderia.

 ─ Pois não monsieur. ─ Estranhando o pedido deixou o quarto. 

Antes de ir para o seu chalé foi atrás das roupas que o patrão pediu para recolher. O perfume barato nelas e as manchas de batom denunciaram o que havia feito. Hesitou um segundo. Madame precisava tomar uma atitude.

 

Na penumbra Leigh ficou apenas olhando a esposa dormir. Ruth o rejeitava sistematicamente e isso o consumia dia-a-dia. A queria como esposa, como companheira, como aliada na longa batalha que teria pela frente. Ninguém sabia que ela havia sido uma Koryak. Salastiel garantiu que apenas ambos conheciam sua verdadeira origem. Garantiu que ela estava oculta e que o Chanceler não a sentia. 

Assim como não sentia... Não. Não devia pensar nele. 

Se Ruth ficasse ao seu lado seria mais fácil derrotar o inimigo de todos. Mas ela não queria arriscar a vida do filho que carregava. Filho da violência daquele contra qual lutaram durante anos. Como podia amar um ser fruto do pior momento em sua vida? Como aquele ser podia ser um presente? Ruth se moveu na cama. Leigh deitou e se ajeitou ao lado dela. A envolveu nos braços com cuidado. Um leve estremecimento de prazer o percorreu quando ela se chegou a ele murmurando algo.

Era muito bom tê-la como rosto roçando em sua pele. Beijou os cabelos sedosos. Dormindo ela roçou os lábios no tórax que a aconchegava. Leigh perdeu o fôlego e esperou. O toque se repetiu. Ruth deslizou na cama e a boca trilhou um caminho suave de um lado para outro em seu corpo. Leigh ofegou levemente se deixando beijar. Devagar ela mordiscou um mamilo, depois o outro. As mãos pequenas afastaram o roupão e ele não se opôs a tirá-lo. Ficou nu, reclinado sobre ela sentindo a boca suave deslizar por seu tórax, enquanto as mãos delicadas exploravam os músculos de suas costas. 

O baixo frente latejava. Ela impulsionou o corpo levemente e a boca começou a explorar o pescoço. Uma, duas, três vezes e o fez delirar. Impulsionou o corpo um pouco mais e encontrou os lábios dele. Trêmulos. Sedentos.

O beijo foi longo, suave. A ternura do toque o emocionou. 

Transbordando de felicidade foi incapaz de permanecer mais tempo imóvel. 

Devagar desceu a mão pelo corpo pequeno. A camisola simples de algodão era curta. As coxas firmes aceitaram seu toque. Ele puxou a camisola para cima e escorregou a mão para frente. Queria tocá-la, sentir sua feminilidade, senti-la úmida e quente para ele. Ela parou de beijá-lo quando dedos ternos começaram uma lenta e delicada exploração. Gemeu separando as pernas. Ousando ele a invadiu com os dedos vagarosamente. Ela soltou o corpo e se esparramou na cama sentindo o prazer do toque. 

Feliz com aquela rendição ele quis levá-la ao paraíso. Devagar ajoelhou sobre a cama, afastou as pernas dela gentilmente e substituiu os dedos por lábios famintos. Por vários minutos sugou, lambeu, explorou cada dobra, cada recanto secreto. Ela gemeu e arquejou. Concentrou-se no ponto principal. Depois de alguns minutos ela estremeceu em um longo e deleitoso orgasmo. Senti-la estremecer preencheu seus vazios.

Parou extasiado. 

O corpo estava teso. Ajeitou-se ao lado dela e a puxou para si. Ruth aconchegou-se a ele e ... ressonou. Surpreso voltou a beijá-la. Não foi correspondido. Sem se movimentar muito acendeu a luz do abajur. Ela dormia. 

Ele a chamou várias vezes com carinho. A sacudiu levemente. Nada. Ela dormia. E pelo movimento dos olhos estava na fase mais profunda do sono. A fase dos sonhos.

 

Depois do banho Ruth parou em frente ao espelho e deixou a toalha cair. Nua observou o corpo. Algo estava diferente naquela manhã. Não tinha mais de um metro e sessenta. A pele era branca, mas não leitosa. O cabelo muito negro e liso chegava ao meio das costas. Há anos não os cortava porque Leigh gostava deles longos. As pernas eram bem torneadas, as coxas firmes. 

Os seios estavam túrgidos e os mamilos antes rosados, mais escuros. 

Tocou o ventre. Um pequeno ser estava ali. Sorriu. Sentia-se bem. Ficou de perfil, observando as nádegas. firmes e roliças. Surpresa notou uma pequena tatuagem no final da coluna. Não conseguiu vislumbrar o que estava desenhado ou escrito. Estranhou. Era contra a lei dos Koryaks serem marcados como escravos ou... Como ela... Não aquele corpo não era dela. Não lhe fora cedido pela natureza e sim por uma partida violenta.... Que surpresas mais aquele corpo lhe traria? Virou novamente. O ventre parecia ter uma leve ondulação. Tocou-o reverenciando. Teria aquele filho. Não importava como ele havia ido parar dentro dela. Era seu filho e nada a impediria de tê-lo. Deixou a mão descer e tocou o sexo. 

Sentiu-o túrgido, levemente inchado e saciado. Ofegante fechou os olhos.

Sonhou com Leigh. Teria sido apenas um sonho ou esteve revivendo mais uma lembrança que não era sua? E eram tantas, tão nítidas e intensas. Ruth e Anton Leigh se amavam demais. Não era justo com eles o que havia acontecido. 

Tocou o corpo novamente. Um sonho. 

 

Leigh já havia saído para correr quando desceu para o café. A mesa posta para dois estava enfeitada com flores como gostava. Tomou um suco olhando o relógio. Ele estava para chegar. Tomariam o café juntos, falariam sobre a casa, sobre o jardim, sobre qualquer coisa. Depois ele iria tomar banho e em seguida descia para a biblioteca para seus estudos. Ela iria para o jardim. Depois do almoço ele saia e ela ia descansar. Essa era a rotina dos dois. Ele saia toda tarde e nunca disse onde ia.

Deixou a desconfiança de lado. Hoje não queria cuidar do jardim. Queria ficar perto dele. Leigh dominava seus pensamentos. Precisava dele. Da presença, do toque, dos beijos. As lembranças a estavam dominando dia-a-dia. Tirava qualquer sensação de medo ou insegurança. Ao mesmo tempo em que o corpo estava saciado pedia mais. Balançou a cabeça sem entender. Havia sido um sonho. Ou não? Estava a ponto de relembrar cada segundo da noite anterior quando a porta da frente se abriu e ele entrou. 

O sorriso morreu com a expressão fechada dele. 

 ─ Bom dia.

 ─ Bom dia. ─ Ele respondeu seco entrando apressado.

Contrariando os hábitos em vez de ir para a sala de jantar ele subiu correndo.

 ─ Não vai tomar café? ─ Ruth quase teve que gritar.

 ─ Não estou com fome. ─ Foi a resposta seca já do andar superior. 

Nice chegou com a bandeja com café recém passado, panquecas e ovos quentinhos. Ruth foi para a mesa.

 ─ E monsieur?

 ─ Ele não vem. Disse que está sem fome. ─ Começou a comer aborrecida. 

Leigh desceu em minutos. Estava pronto e carregava uma pequena mala.

 ─ Não me esperem. Não volto hoje. ─ Disse frio. Saiu sem olhá-las.

 ─ Leigh ─ Ruth ainda chamou indo atrás dele.

O carro partiu cantando os pneus. 

Ruth voltou para dentro de casa trêmula. Um amargor lhe deu a sensação que iria ter uma crise de enjoos. Voltou à mesa. Precisava se alimentar. Não conseguiu. Respirou e o mal-estar aumentou. Chocada percebeu que não era físico. 

Sentia o corpo tenso, o peito ardeu em uma dor que não conseguia identificar. Imaginou-se nos braços do marido. Aos poucos a própria figura foi substituída por outra sem rosto definido. Recordou o leve odor que vinha do quarto dele pela porta de comunicação.

 ─ Sra. Lanfond a senhora já arrumou o andar superior?

 ─ Ainda não. A senhora precisa de algo?

Sem responder Ruth subiu devagar. 

Como uma intrusa entrou no quarto de Leigh. A cama estava arrumada. Nenhum sinal de que ele houvesse dormido ali. Então, onde dormiu? Foi ao banheiro. As peças usadas pela manhã estavam no lugar de roupas sujas. Apenas elas. Havia um cheiro estranho no ar. Fechou a porta. Atrás dela a camisa branca que ele usava quando saiu na noite anterior estava jogada no chão como que tirada às pressas. 

A pegou sem saber bem por que. O odor forte e adocicado a enjoou. Jogou a camisa no cesto. Ela caiu expondo a frente e gola. As marcas de batom eram claras.

Lágrimas grossas turvaram seus olhos. 

Enquanto ela sonhava que fazia amor com ele, ele se deitava com outra mulher, explorava o corpo de outra mulher. Impregnava-se do perfume barato de outra mulher. 

A insistência em consumar o casamento, as palavras de amor, todas eram falsas. Ele queria apenas a sua força de Koryak para derrubar o inimigo de todos. Não a amava. Não a desejava. Mentia. Se a amasse, se a desejasse, se a quisesse como esposa não conseguiria se deitar com outra. Quando amavam os Koryaks não traiam. Se a amasse como dizia teria aguardado o tempo que precisava para ter o filho que gerava. Teria tentado conquistá-la e não se afastado daquela forma. Ele mentia. Sempre. Sempre mentiu. Naquele ciclo e no anterior. 

Odiava o dom de sentir quando o parceiro não era fiel. 

 

Leigh não voltou. Telefonou, mas não quis falar com a esposa. Perguntou à Sra. Lanfond se tudo estava em ordem e pediu que dormisse na casa. Passava da meia noite quando Ruth conseguiu adormecer. Acordou duas vezes para ver se ele havia voltado. Nada. Conhecia o apetite dele. Gostava de fazer amor pela manhã, Ah, como ela lembrava e como queria esquecer. Saiu para caminhar logo cedo. A ausência do carro em frente da casa revelava aos vizinhos que ele dormiu fora. 

Pensou em Annette Keller que sempre os observava. Sentia que as pessopessoas sabiam que Leigh tinha outra mulher. Já havia percebido as indiretas da vizinha. Mas ela deveria continuar a ser a esposa tola e enganada. Em um futuro próximo eles se separariam e ela seria livre para refazer sua vida ao lado do filho e até de outro marido. Sabia que pelos costumes Leigh deveria escolher um novo marido para ela. Não a deixaria desamparada financeiramente, tampouco emocionalmente.

Sentia-se feliz com isso. Era exatamente o que queria. Esquecer.

Caminhava devagar pelas ruas sentindo o frio da manhã. Leigh também ficaria bem. Teria muitas milenecs. Teria outra esposa. Se tornaria um homem poderoso e iria lutar com o pai pelo controle do próprio país. Os jornais ocidentais talvez revelassem um pouco sobre esta batalha pelo poder, sem entender na verdade o que representava para o mundo todo. Ela estaria longe. Levando uma vida pacata. 

Sorriu. E enxugou as lágrimas que banhavam o rosto. 

 

Leigh apareceu na hora do almoço. Foi para o próprio quarto. Ruth o ouviu banhar-se e realizar as orações dos Koryak. Os rituais de purificação necessários para a convivência familiar. Ele vinha de um longo e íntimo contato com uma milenec. Quem seria ela? Onde morava? Já estaria ocupando o apartamento que ele comprou e que o Sr. Morris a fez assinar a compra sem saber explicar do que se tratava? 

O pior de uma cidade pequena era isso. Sempre se sabia de tudo. 

Ele logo desceu para o almoço em silêncio.

A parca tentativa de terem uma vida harmoniosa quebrou-se novamente. Logo após a refeição Leigh se refugiou na biblioteca. Passava horas ali. Ruth pensou em cuidar do jardim, mas o frio a desanimou. Voltou para dentro de casa e sem saber bem por que foi até o marido. Pediu licença, entrou e ficou parada no meio do ambiente sem saber o que dizer. Leigh levantou os olhos dos livros e a encarou por segundos.

 ─ Precisa de alguma coisa? ─ Disse indiferente.

 ─ Não eu.... o que você está fazendo?

 ─ Pesquisando. Salastiel trouxe os livros com nossa... com a história dos Koryak para eu poder me orientar em como reaver meus direitos. ─ Ruth fez um ah, sem ter mais o que dizer. Leigh esperou. 

 ─ Podemos sair hoje? ─ Perguntou de repente.

 ─ Aonde quer ir?

 ─ Pensei em comprar algumas coisas para o bebê. Eu... Ele vai receber o enxoval como todos os Koryak? ─ Perguntou pensando nisso pela primeira vez.

 ─ Creio que sim. ─ Baixou os olhos para os livros, aborrecido. ─ Salastiel o tem como descendente deve dar a ele o nome de família.

 ─ Leigh...

 ─ Posso deixar você e a Sra. Lanfond em algum shopping. Ou se preferir tem permissão para ir com as amigas que fez. Tenho certeza de que não se importariam de acompanhá-la às compras. ─ Voltou a fazer anotações.

 ─ Queria que você fosse comigo. Queria que...

Leigh soltou o lápis que usava. Fitou-a

 ─ Não posso. ─ Sofria. ─ Tenho buscando força para aceitar que desejou um filho do meu inimigo, mas não consigo fazer nada por este ser.

─ Eu não desejei. ─ Disse com raiva. ─ Mas ele está aqui. É inocente e eu o aceito e o amo por esta inocência. Ele não tem culpa das ações do pai, assim como você não tem culpa das ações do seu.

 ─ Não desejou? ─ Levantou com um livro grande e antigo nas mãos. 

Foi até ela com a página já aberta. A inscrição era antiga e em um idioma que ela demorou a entender. 

 ─ Leia!

 ─ Não entendo.... não...

 ─ Preste atenção. É a sua língua natal. Leia.

Ruth se esforçou e aos poucos o entendimento do texto foi sendo revelando. 

 

 “ Uma Fêmea Koryak só se divide uma vez. “  

 “Ela gesta durante nove meses como uma comum. Pode se dividir sozinha e gerar seu legatário sem parceiro, mas é necessário a semente humana para que um novo ser se forme. Quando se une a um comum, pode tomar um Koryak como responsável por seu legatário e o mesmo deverá pega-lo ao nascer e soprar vida ao pequeno. Este será o responsável pelo novo ser e o acompanhará por toda a vida. Se a união for com Koryak, a semente dele deverá ter a semente humana. A fêmea poderá gestá-lo estando sob a guarda de um Koryak, podendo ser o próprio genitor ou o responsável escolhido. Este deverá pegar o novo ser ao nascer e soprar nele a parte que lhe falta para que sobreviva nesta terra. “  

Refletiu sobre o que leu e intrigada continuou.

 “ Um Macho Koryak se dividirá três vezes.“  

 “ Se a união for com uma Fêmea Koryak basta deixar nela sua semente. Dividir-se-ão juntos e formarão um novo Koryak. A semente humana deverá ser de uma fêmea humana.“

 “Um Koryak pode dar seu legado à fêmea que já gestou junto com a semente humana e juntos o gestarem, mas o legado será apenas do macho.“  

 “Se a união for com uma humana terá que manter o novo ser vivo enquanto for gerado, dividindo sua essência por pelo mais três vezes. Na concepção deixando seu legado em sua companheira, durante a gestação dando ao pequeno ser sua condição de filho, e no nascimento soprando vida ao pequeno corpo tornando-o seu descendente de corpo e essência.“  

 “Fêmeas humanas não possuem força para gestar um legatário sozinha. Se as partilhas não forem feitas até o terceiro período o novo ser deverá ser migrado para uma serva. No caso de ausência na gestação ou nascimento um responsável Koryak poderá ser aceito, mas o filho será descendência daquele que o aceitou como seu.“

 “Deve-se lembrar de que sempre é sempre necessária a semente humana para que possamos procriar neste mundo. A única que pode substituir o Koryak genitor ou responsável em soprar vida em um novo ser é a nossa matrioska Demeter.“  

 “ Sem o sopro de vida completo o pequeno ser não sobreviverá.“  

 “Convém a ambos resguardar-se das impurezas listadas em nossas leis enquanto gestam. Uma regra prevalece sobre todas. Um novo ser só virá se for intensamente desejado por um Koryak, seja ele macho ou fêmea, antes, durante e depois de sua concepção. No caso da união entre Koryaks a vontade da fêmea prevalece.

“Regra inviolável: Mau fruto não procria.”

Esta é nossa Lei para procriar. Cumpra-se! “  

 

 ─ Você desejou Ruth. Ao menos reconheça isso ─ Irritado fechou o livro voltando para seu lugar. ─ Sei que já tinha sofrido a dor de perder seu legatário por minha culpa, mas desejar o filho de meu inimigo foi uma forma cruel de se vingar.

 ─ Acredita realmente no que está escrito neste livro Leigh?

 ─ Claro que sim. São as nossas leis. É o que nos rege. Sem elas não existimos.

 ─ Em cada palavra? Não há como haver contradição?

 ─ Não. É a nossa base.

 ─ Então mais do que nunca me sinto livre em afirmar que eu não desejei conceber com seu inimigo Leigh. As leis me garantem isso.

 ─ Não vejo como...─ Ela se aproximou. A beleza resplandecia sua fúria contida. 

 ─ Leia. ─ Ela abrindo o livro novamente. Achou a página e empurrou para ele. ─ Leia e me explique como é que eu gesto agora. ─ Frente a confusão dele ela gritou ─ Leia. ─ Leigh pegou o livro leu e releu o texto. Ruth tremia ao seu lado indignada. 

 ─ Eu não entendo como a lei lhe garante que...

 ─ Você se lembra Leigh de quando fui conhecer sua família. Conhecer sua família como sua noiva? Lembra do que aconteceu na datcha.

 ─ Eu nunca vou esquecer... ─ Levantou. A lembrança o constrangia. 

 ─ Você esqueceu. ─ Ela gritou sem se conter. ─ Esqueceu completamente!

 ─ Eu nunca esqueci de que não fui capaz de protegê-la. ─ Amargo.

 ─ Então me diga o que foi que aconteceu.

 ─ Não. ─ Abriu a porta ─ Saia. Este é meu espaço. Não tem permissão...

 ─ Dane-se a suas permissões! ─ Empurrou a porta fechando-a com força. ─ Me diga o que aconteceu naquela tarde. Me conte com suas palavras o que se lembra. ─ Aproximou-se dele em desafio. ─ Seja honrado e me diga o que fez, ou melhor o que não fez quando me viu congelando e sangrando depois de me tirar do lago.

 ─ Eu.... fui buscar socorro...

 ─ O que houve Leigh.... com o meu bebe? ─ Baixo. Ferida.

 ─ Eu o deixei morrer. ─ Admitiu envergonhado. ─ Não sabia como me dividir para dar a ele força de se manter em seu corpo. ─ Havia mais do que dor. ─ Eu não sabia como.... eu não havia escutado as lições de Salastiel.... eu bebia demais, vagava demais movido pelo ciúme e pela raiva e não dei atenção às coisas que precisava saber quando a assumi como noiva. Quando a tirei do lago me desesperei. Achei que havia se afogado. Achei que morreria. Não sabia o que fazer. Precisava de ajuda.

 ─ Me deixou lá sangrando até meu filho sair de mim meses antes do tempo.

 ─ Eu não pensei.... ─ A fitou sofrendo ─ Sabia que nunca me perdoou..

 ─ Eu o perdoei Leigh. Eu sempre soube que me deixou ali para me manter viva.

 ─ Não. Nunca me perdoou e quis o filho que gera hoje para se vingar de mim. Permitiu que ele a tomasse. Desejou o filho dele.

 ─ Não desejei. Nunca quis me vingar de você. Não permiti que o monstro me tomasse. Não desejei o filho dele. Mas este ─ Tocou o ventre ─ Este ser desejo de todo o meu coração e peço a Deus que ele viva! Me deitaria com qualquer Koryak se preciso fosse para que ele possa se formar e ver a luz. Mas não desejei ter um filho quando.... e mesmo que tivesse desejado Leigh... eu não geraria, eu já havia me divido antes e não havia semente humana. ─ Encararam-se por minutos. ─ E tem mais: Mau fruto não procria! E ele, com certeza, é o pior fruto que temos em nosso povo ─ Ruth enxugou uma lágrima teimosa e saiu da biblioteca fechando a porta suavemente. 

 

Leigh passou dois dias na biblioteca. Devorava os livros tentando encontrar uma explicação para a gravidez de Ruth. Como ela poderia estar gestando sem desejar se dividir? Como ela poderia estar gestando pela segunda vez sem a semente humana? Como ele poderia tê-la engravidado se era notadamente mau fruto dos Koryaks? Não saiu para nada. Pediu sanduíches a governanta e cochilou sobre os livros. Suas limitações mortais o irritavam. Antes comia e dormia apenas por prazer. Agora mal conseguia manter os olhos abertos. Dois dias sem resposta. Fechou o livro e olhou para o relógio. Quase meia noite. Saiu para a varanda e acendeu um cigarro.

O frio de novembro o surpreendeu.

Outra fraqueza humana que não gostava. Estar sujeito a frio ou calor.

Como Ruth estava grávida?

Fumou refletindo. Como? Uma voz interna lhe questionou. E isso importa? 

Já no quarto, depois do banho sentou em frente a TV. Alternou os canais sem interesse. Parou em um telejornal interessado em notícias sobre o clima. Uma segunda reportagem relatava os crimes solucionados por um policial condecorado pela prisão de outro assassino serial. 

 ─ O agente Delegacia de Homicídios Dennis Blake tem um excelente índice de sucesso na captura de assassinos. O único caso que ele participa das investigações que ainda não foi solucionado é o do Assassino das Bonecas que agiu em São Francisco entre os meses de agosto e setembro do ano passado e acredita-se que ainda esteja ativo. O criminoso ficou assim conhecido, pois suas vítimas foram jovens modelos e homens gays. Ele O assassino das bonecas foi descrito como um dos mais cruéis já conhecidos. A polícia não revela detalhes dos crimes, mas fontes internas revelaram que ele violentava, barbarizava e mutilava as vítimas vivas, provocando uma morte cruel e dolorosa. Perguntando sobre este único caso não solucionado, Dennis Blake respondeu. (a imagem do policial surgiu na tela) ─ As investigações sobre o caso continuam. Não sabemos se ele parou ou se mudou de cidade, ou apenas a forma de agir. Os crimes continuam sendo investigados e não iremos descansar até a captura. Temos meios de identificá-lo se algum dia chegar a ser detido por qualquer contravenção, mesmo que seja uma simples multa de trânsito. Cedo ou tarde ele pagará pelas vidas que destruiu.

Leigh mudou de canal sem interesse. 

Já tinha muito com o que se preocupar para dar atenção a notícias ruins. 

Um programa de como preparar um churrasco recebeu sua atenção. Anotou alguns detalhes. Gostava de carne. Talvez pudesse receber algumas pessoas em casa com um churrasco. Ruth iria gostar. O pastor Johnson vinha insistindo para se integrarem a comunidade. O piquenique de ação de graças também era para arrecadar fundos para a construção de uma nova ala do hospital e seria no dia seguinte no parque da comunidade. Era uma boa oportunidade para começar. Sabia que a esposa e a governanta queriam ir. Refletiu um pouco. Não poderiam viver isolados como estavam. Decidiu. Iriam ao piquenique. 

Ouviu Ruth gemer. Preocupado, vestiu um robe e foi ao quarto dela. Ela tinha jogado longe os cobertores e tremia. Ele ajeitou as cobertas e ela voltou a jogá-las agitada. Gemeu outra vez. 

Despiu o robe e deitou a envolvendo nos braços. Ela se aconchegou buscando proteção. Com cuidado ele cobriu os dois. Beijou os cabelos embalando-a até que ela ressonou tranquila. Ficou parado por vários minutos para ter certeza de que ela ficaria bem. Já pensava em levantar quando ela voltou a gemer. 

O corpo ficou teso. Não era um gemido de dor. Ela colou o corpo ao dele. A mão pequena deslizou por suas costelas e desceu. Leigh perdeu o fôlego quando ela o tocou. Ela gemeu e entreabriu os lábios em uma oferta inocente. Devagar ele a beijou.

Ruth correspondeu com ardor sem abrir os olhos. Leigh a mirou sem entender. 

Novamente ela estava sonhando com ele. Era seu nome que escapava dos lábios macios. O corpo estava teso junto ao seu, as mãos pequenas deslizavam explorando-o. Leigh até tentou ficar imóvel. Sem conseguir se conter sussurrou um toque-me em seu ouvido e esperou. Ela ressonou e alguns segundos depois o obedeceu devagar. A carícia foi firme e quem gemeu baixo foi ele. Ela deslizou na cama abrindo-se para ele. Leigh a beijou. Ela ainda dormia. Conteve-se. Não podia ser daquela forma. Afastou-se mesmo ouvindo Ruth pedir que não a deixasse. 

 ─ Nunca vou deixá-la Lyubov. ─ A beijou ternamente e começou a acariciá-la explorando seus recantos suavemente enquanto a beijava. Entre um toque e outro derramava-se em juras de amor e fidelidade. A levou a um orgasmo suave. E gozou com ela. Ficou deitando ao lado dela sentindo o corpo quente e relaxado em seus braços. Sentia-se feliz por vê-la dormir. Tinha que voltar para o próprio quarto. Fechou os olhos dormitando. Estava tão cansado. Tinha que ir...quarto. 

 

Ruth ficou olhando Leigh dormir. Não o via desde a discussão na biblioteca e agora o encontrava ali em sua cama. Jogou as cobertas no chão. Não usava calcinha para dormir, mas pelo menos estava de camisola e ele de cueca.

Interessante. Ele odiava dormir vestindo qualquer coisa que fosse.... 

 ─ O que faz na minha cama? ─ Perguntou irritada. Lembrava do sonho. Havia sido um sonho? ─ Leigh. ─ O sacudiu sem cuidado. 

 ─ Aconteceu alguma coisa? Sentou na cama assustado. ─ Você está bem?

 ─ Estou ótima. Só quero saber o que faz na minha cama. ─ Ela estava furiosa e ele pensou um pouco antes de responder. A hesitação a enfureceu. ─ Leigh...

 ─ Eu vim porque você estava agitada. Achei que era um pesadelo.

 ─ Não tive nenhum pesadelo.

 ─ Eu percebi mas você ficou agitada e... eu... eu me deitei ao seu lado. Acabei adormecendo. Estava cansado. Desculpe. ─ Levantou. Vestiu o robe desajeitado tentando disfarçar a reação explícita do corpo. Ruth a ignorou apesar de sentir um calor percorrê-la. ─ Vou tomar um banho. Podemos ir ao piquenique. ─ Fugiu sem olhá-la. 

Ruth hesitou alguns segundos e foi atrás dele. 

Abriu a porta de comunicação e o pegou nu no meio do quarto.

 ─ Por que está fazendo isso? ─ Perguntou olhando-o por inteiro. 

 ─ Isso o que? ─ Leigh puxou uma toalha para se cobrir. Ainda estava excitado.

 ─ Dormindo na minha cama, invadindo meus sonhos. Você... tem me tocado?

 ─ Tenho ─ Deixou a toalha cair ─ É o que quer! É o que deseja também.

 ─ Não é. ─ Tentou recuar. Leigh a segurou pelos braços.

 ─ Você se abriu para mim. Eu a toquei e você me tocou. Você sabe!

 ─ Não tinha o direito!

 ─ Não? Tenho todo o direito do mundo. Sou seu marido e você permitiu.

 ─ Não permiti. Você abusou de mim. Não tinha o direito. Você tem uma milenec.

 ─ Não tenho milenec alguma! Tem minha palavra de príncipe!

 ─ Vou muito acreditar nisso! ─ Rebateu debochada.

Outra voz dizendo as mesmas palavras sibilou em sua mente ferindo a alma. Os olhos verdes escureceram, a expressão se transformou em uma máscara de raiva. Ela recuou um pouco. Sabia que duvidar da palavra de príncipe era uma grande ofensa.

 ─ Esqueça o que houve. ─ Ele disse abrindo a porta ─ Não vai acontecer novamente. É melhor se vestir. Vamos ao piquenique.


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