CAPÍTULO 01
2011
Da varanda da sala, a governanta Nice Lanfond viu quando a jovem
atravessou a avenida com passos rápidos. Trabalhava na casa há mais de um mês
e, durante todo este tempo, não a viu falar com ninguém. A garota morava
sozinha, quase não saia, o telefone nunca tocava, parecia estar sempre com medo
e, até aquele dia, não havia recebido visitas. Um isolamento como aquele para
alguém que não devia ter mais do que vinte anos, só podia significar uma coisa:
ela estava se escondendo.
A única saída era aquela caminhada semanal no parque Monceau, ou
uma ida rápida ao mercado para escolher as flores que enfeitavam o apartamento.
O lugar vivia sempre cheio delas. De todos os tipos e cores. Custavam uma
pequena fortuna, mas pelo que já havia percebido, dinheiro não era problema.
Talvez o rapaz no sofá fosse o problema, a razão daquele
isolamento. Ele havia chegado há mais de uma hora e usou uma chave para entrar.
Pensando ser a jovem Nice foi até a porta e se assustou quando o viu.
Ele não pareceu surpreso ao vê-la. Por alguns minutos observou o
ambiente e tocou algumas flores soltando, em um canto, a mochila surrada que
trazia. Com um francês perfeito e sem qualquer sotaque perguntou por
Mademoiselle Coombs e não gostou quando foi informado que ela havia saído. Com
a resposta se acomodou no sofá e, como se estivesse muito cansado, relaxou o
corpo tenso.
Então pôde ser observado pela governanta.
Ele era alto, magro, de ombros largos. Os cabelos estavam
encobertos por um boné cinza que logo foi deixado de lado revelando fios negros
e cacheados. Nice calculou que ele estivesse entre vinte e cinco, vinte e sete
anos. Os olhos eram verdes profundos, escuros como musco. A face demonstrava
uma força que não combinava com a idade estimada. Trajava um jeans surrado, uma
camiseta branca com mangas longas e uma jaqueta de lã crua em um tom que um dia
havia sido alaranjado. As botas foram tiradas revelando meias tão sujas quanto
o calçado antigo.
Cheirava a mar e a peixe.
Nice pensou que deveria interpelá-lo, mas quando abriu a boca
conseguiu apenas oferecer sanduíches e café, oferta aceita com um agradecimento
sincero. Ela preparou dois sanduíches grandes como costumava fazer para o
falecido marido. Afinal pescadores sempre voltavam famintos do mar e com
certeza aquele homem era um pescador. Ele tirou o casaco, devorou os sanduíches
em instantes, reclinou-se no sofá e agora dormia.
Viu a patroa entrar no prédio e sumir do seu raio de visão. Em
minutos estaria em casa. Deixou a varanda passando pelo homem no sofá. Com
cuidado recolheu os pratos vazios observando-o mais de perto. Ele dormia
profundamente. Foi esperar a garota no corredor. Avisaria sobre o visitante
antes que entrasse. Se não fosse bem-vindo, ao menos ela teria tempo de ir
embora.
Apesar dos termômetros marcarem onze graus Ruth Coombs não sentia
frio depois da caminhada. Assim que entrou no prédio, cumprimentou o porteiro
com um aceno leve. Gostaria de parar e conversar, mas não podia confiar em
ninguém. Olhou para o homem que a observava atento. Se encolheu no casaco
disfarçando o medo.
Tensa esperou pelo elevador.
Quando a porta do elevador fechou Ruth se recostou na parede
ofegante. Desceu na cobertura com passos rápidos. Queria a proteção de sua
casa. Depois de quarenta dias começava a se sentir segura, mas qualquer um
poderia ser os olhos dele. Qualquer um poderia trazer o monstro até ela. Caminhava
de cabeça baixa até a porta e parou quando viu a empregada no corredor.
─ O que houve? ─ A respiração se alterou.
─ A senhora tem visita. ─ Nice informou.
─ Visita? ─ O terror estampou a face da jovem. Nice fechou a
porta.
─ É um rapaz. Ele não se apresentou senhora.
─ Não devia tê-lo deixado entrar. ─ Assustada olhou para o elevador
já fechado. Hesitava. Começou a voltar no corredor.
─ Não deixei. Ele usou uma chave e entrou sem bater ou pedir
licença.
A frase fez a garota parar na hora. Ela se voltou devagar.
─ Uma chave?
─ Sim. Chegou, comeu, deitou no sofá e dormiu.
─ Dormiu? ─ Tensa Ruth hesitou alguns momentos. Por fim abriu a
porta da cozinha e com passos lentos entrou no apartamento. Pegou uma faca
sobre a bancada. Assustada Nice a acompanhou até a sala. Parou a alguns passos
do sofá. O lugar estava vazio. Sem entender se voltou para a governanta.
E foi o olhar espantado da senhora que revelou o visitante as suas
costas.
Virou-se rápido levantando o punho e esbarrou em um peito que
parecia rocha. Um braço longo e rápido tirou-lhe a faca da mão soltando-a no
chão. Assustada a governanta deu um grito e correu para o telefone enquanto a
patroa debatia-se, assustada demais para focalizar e ouvir quem a segurava.
─ Seu olhar é a porta do meu céu! Seu olhar é a porta do meu céu.
O rapaz disse em uma língua que a Sra. Lanfond não conseguiu
identificar, repetiu em francês e por fim em inglês, até a jovem parar e
olhá-lo.
Fitaram como se fosse a primeira vez que o faziam.
─ E o seu a esperança da minha vida! ─ Ruth respondeu com voz
fraca.
Lentamente o rapaz a soltou e se afastou.
─ Eu morri. ─ Ruth murmurou embalada pela tristeza.
─ Você morreu para viver comigo. E eu sobrevivi para viver com
você.
Sem hesitar mais Ruth gemeu e atirou-se nos braços dele.
A esquecida governanta superou a surpresa pela sequência rápida de
acontecimentos e discreta, como sabia ser, deixou a sala.
Ele a aconchegou nos braços emocionado por alguns segundos, depois
a tomou nos braços carregando-a até o sofá, onde sentou com ela no colo. Os
lábios se uniram devagar em três beijos curtos. Os corpos se reconheceram e os
beijos ficaram mais rápidos e desesperados. Sem deixar de observá-la, tirou a blusa
gasta, ficando apenas com a camiseta regata que vestia por baixo. Com dedos
trêmulos a ajudou a tirar o casaco e começou a desabotoar a fileira de pequenos
botões da blusa que ela usava.
Ruth uniu ainda mais o corpo ao dele e ele a abraçou mergulhando o
rosto na curva de seu pescoço. O toque dos lábios foi um leve roçar. Ele se
afastou um pouco e envolveu o rosto dela com as duas mãos.
─ Seu olhar é a porta do meu céu. ─ Repetiu em um murmúrio rouco.
Apressada ela mesma tirou a blusa e colou o corpo ao dele. Sentiu
o corpo girar sobre o dele enquanto a boca era outra vez dominada por beijos
longos. Precisava vê-lo, senti-lo, tocá-lo. Era um milagre reencontrá-lo em tão
pouco tempo.
Amava-o mais do que antes descobriu naquele momento. Confusa se
afastou.
O olhar dela o manteve prisioneiro por segundos. Um misto de
sentimentos atingiu-lhe a essência mudando, preenchendo, completando. O toque
em seu corpo era delicado. Mãos pequenas. Ela estava mais frágil e mais linda
do que se lembrava.
E quase sem querer uniu os lábios as dela novamente, provando,
avaliando, pedindo permissão. Ruth sentiu o corpo todo estremecer e abriu a
boca em silenciosa rendição. Permitiu a suave invasão reclinando a cabeça e
unindo ainda mais o corpo ao dele. O beijo foi leve e molhado. Da maneira como
começou, terminou.
As bocas se afastaram suavemente, buscando-se uma, duas, três
vezes até se separarem em definitivo. Ruth aninhou-se nele, sentindo-se segura
pela primeira vez deste que morrera.
─ Você voltou. ─ Murmurou sem acreditar.
─ Eu disse que voltaria ─ Estava sério ─ Você tem as
lembranças?
─ Deste novo ciclo?
─ Sim. As lembranças de Ruth Coombs e Anton Leigh.
─ Tenho. Mas as recebi quando acordei. Não recebi nada
agora.
─ Eu também não. ─ A afastou um pouco ─ Podemos tentar de
novo?
─ Claro. ─ Concordou baixo e vagarosamente os lábios se uniram.
Uma, duas, três vezes. Ruth suspirou e fechou os olhos.
Havia algo diferente em cada toque, algo que não existia antes.
Sem que percebessem as bocas passaram a se explorar. Os lábios foram sugados,
mordiscados. As línguas se descobriram e se enlaçaram em toques mais ousados.
Ela gemeu e ele correspondeu puxando-a mais para si. As mãos explorando o corpo
delicado, tocando a curva do seio. Deslizou para o chão sentando no tapete
levando-a junto.
Ruth sentiu quando a mão tremula deslizou por suas costas parando
no fecho do sutiã que usava. Ela esboçou um não que se perdeu em uma nova
invasão da boca ávida. Ruth se afastou, mas ele se moveu fazendo-a ficar sobre
ele.
Gemeu outro não. O gemido amedrontado o fez abrir os olhos. Ele
parou.
Respirou fundo e sem olhá-la a colocou no sofá e levantou.
─ Desculpe. Acho que não funciona mais. ─ Permaneceu de costas
para ela. Foi até o bar e serviu-se de uma bebida. ─ Lamento. Eu só queria
saber tudo o que aconteceu com você deste que nos separamos.
─ E eu saber o que houve com você. Mas não funciona mais assim.
Você terá que me contar. ─ Foi até ele e o abraçou por trás. Precisou ficar na
ponta dos pés para beijar o ombro nu. Ele fechou os olhos como se o leve roçar
provocasse dor. ─ Pensei que ficaríamos anos separados. Senti muito a sua
falta.
─ E eu a sua. ─ Olhou para o copo antes de levá-lo aos lábios.
Hesitou. O deixou ali. Virou-se se afastando alguns passos. ─ Você está linda ─
Murmurou tocando os longos cabelos negros. ─ Seu casulo é muito diferente do
anterior.
─ Você parece o mesmo. Só está mais velho do que me lembro.
─ Não posso mudar minha aparência. Há quanto tempo acordou? ─ Perguntou
intrigado.
─ Pouco mais de um mês. ─ Leigh reclinou para olhá-la melhor.
─ Eu vivi quase três anos. Do dia em que você... se perdeu, até o
dia que fui preso se passaram quase três anos. Salastiel me disse que se passou
poucos meses desde que parti até agora, mas eu vivi mais três anos vagando. Ele
me deu lembranças que incluem Ruth Coombs. ─ Fixou os olhos nos dela ─ O que se
lembra... de antes?
Ruth o olhou assustada.
─ Tudo. E o que eu mais quero é esquecer.
─ Em breve ─ disse sério. Com carinho tocou os cabelos dela. ─ Já
se acostumou com sua imagem no espelho?
─ Ainda não.
─ Está linda. ─ A mão deslizou suavemente pelo pescoço, braço e
parou na curva dos quadris. ─ Linda. Salastiel encontrou o casulo
perfeito. ─ Ruth estremeceu.
─ Sinto-me estranha. E como se não fosse eu. Como se estivesse
roubando.
─ É você e não precisa se preocupar com isso. ─ Tocou o coração
dela puxando-a para si. ─ Aqui você é a mesma. Nós dois somos e sempre
seremos.
Ruth aninhou-se nele sem medo.
─ É tão estranho ser humana, sentir fome, frio, sede....
─ Eu também me sinto estranho ─ Forçou um sorriso ─ E já que não
somos mais autossuficientes preciso de um banho, roupas limpas e de mais
comida. ─ Disse pegando a mochila no canto.
─ Claro. ─ Ofereceu a mão e ele hesitou em pegá-la. ─ Suas coisas
estão no quarto. Salastiel as trouxe. Vá indo que vou pedir a Sra. Lanfond para
adiantar o almoço. O que quer comer?
─ Surpreenda-me. ─ Sugeriu seguindo para o quarto.
O som do chuveiro era alto quando ela entrou no quarto. Mal havia
estado ali desde que chegou, mas tudo estava limpo e organizado. A cama larga
chamou-lhe a atenção. Se fossem coabitar aquele seria o quarto deles.
Se ele ainda a amasse... Se ele a perdoasse.
Fugindo dos pensamentos Ruth pegou a mochila no chão, a colocou
sobre a cama e começou a esvaziá-la. Do bolso lateral tirou um molho de chaves,
uma carteira gasta, algumas peças em prata no formato de cubo e dois relógios.
Um antigo e outro digital. De outro bolso tirou um crucifixo antigo preso a uma
corrente também de prata e várias moedas antigas. De outro, um passaporte e um
cartão com timbre da firma de advocacia em Londres.
Abriu o passaporte e estranhou a foto que mostrava um jovem de
cabelos curtos, olhos verdes brilhantes e expressão fechada. O documento identificava-o
como Hansalexius Antonleigh Conanlescaut Spartwalyskis Borlowish Borwoshi
Meneslaups II, cidadão russo, nascido no dia 13 de outubro de 1987. Filho de
Vladymyr Meneslaups Borlowish Spartwalyskis Borwoshi Conanlescaut e de Eva
Rollins.
O endereço residencial era o do apartamento em que estavam.
Dentro da mochila poucas peças de roupas gastas e sujas.
Deixou os pertences e documentos sobre a mesa. Recolheu a roupa
que ele jogou no chão e colocou na mochila. Verificaria com ele se podia
joga-las fora. O som do chuveiro era reconfortante e ela parou na porta
hesitante. Uma onda de lembranças que não eram suas a tomou. Viu-se aos beijos
com ele no convés de um barco de luxo. A mão atrevida afastando o minúsculo
biquíni branco e a tocando sem pudor. Arqueava o corpo sedenta pelo dele. Ela
mergulhou a mão na massa de cabelos negros sentindo a boca faminta passear por
sua pele. Em alguns minutos foi levada ao céu. Estava languida no chão duro do
convés quando sentiu o corpo ser suspenso. De olhos fechados foi levada a
cabine. Mal foi posta na cama e o recebeu de novo. E nas horas seguintes
conheceu o paraíso.
Recostou-se na parede ofegante voltando ao presente. Sentia o
corpo tremulo.
Deixou o quarto às pressas.
A água quente proporcionava alívio para o corpo cansado. Há muito
tempo não sabia o que era um banho. Debaixo do agua quente conseguia relaxar e
pensar, apesar da dor que o jato forte provocava nos ferimentos ainda recentes.
Um ciclo terminara. Estava livre para recomeçar ao lado dela. Sua
pequena Ruth. Uma onda de um amor o inundou e surpreendeu. Havia perdido Susan,
havia perdido Melissa, havia perdido sua vida, mas não iria perder Ruth.
Cuidaria dela. Ficariam juntos e ninguém nunca mais a machucaria.
Fechou os olhos lutando para esquecer sua maior perda.
Terminou o banho sentindo fome. Uma sensação pouco conhecida. Com
uma toalha em volta da cintura voltou ao quarto. Seus olhos fixaram-se na cama.
Havia nascido nela. Ainda podia se lembrar da discussão dos homens na sala
ávidos pelo poder que sua guarda traria para aquele que fosse escolhido como
seu tutor.
Da mesma forma como veio à lembrança partiu. Em breve não se
lembraria de como era ser um Koryak. Era o preço a pagar por sua liberdade.
Abriu o armário e encontrou casacos e ternos caros, gravatas de
seda, camisas de linho puro. Roupas de um príncipe que já não existia mais.
Optou por uma camiseta de manga longa e um jeans escuro. Viu seus pertences
sobre a mesa.
Pegou a carteira e abriu. Nela a foto de uma adolescente loira lhe
sorria. Uma sensação de impotência o dominou. Guardou a carteira e os pequenos
cubos no bolso, colocou o relógio digital no pulso. O restante guardou na
gaveta do criado.
Seguiu descalço para a sala onde encontrou a mesa posta.
─ Que bom que encontrou algo confortável nas suas coisas. ─ Ruth disse
─ Pedi a Sra. Lanfond que nos preparasse salada, legumes cozidos e peixe.
Espero que goste. ─ Levou-o pelo braço até a governanta. ─ Sra. Lanfond quero
apresentá-la ao dono desta casa o senhor Hans....
─ Alexius Leigh Lescaut. ─ Ele interrompeu sério reclinando a
cabeça ─ É um prazer conhecê-la, Sra. Lanfond. Lamento se a assustei quando
cheguei.
─ O prazer é meu monsieur.
─ Sei que tem nos ajudado e lhe sou muito grato por isso.
─ Tenho feito apenas a minha obrigação.
─ Claro. ─ Acomodou-se a mesa depois de puxar a cadeira para Ruth ─
Deve ter recebido algumas instruções da agencia que a contratou. ─ Continuou
sério e autoritário. O rapaz estava acostumado a comandar.
─ Sim monsieur, as recebi.
─ Depois iremos repassá-las uma a uma, mas a principal delas é
que: ninguém, absolutamente ninguém entra nesta casa sem ser autorizado por
mim. Qualquer pessoa que vier aqui, mesmo que se identifique, mesmo que já
tenha estado aqui não deve ser autorizado a entrar sem o meu consentimento.
Isso está claro?
─ Perfeitamente claro monsieur.
─ Você não foi um pouco duro com a Sra. Lanfond? ─ Ruth perguntou
assim que chegaram ao quarto que ela ocupava. Leigh deitou ajeitando os
travesseiros.
─ Não. Não fui. Você sabe o que pode acontecer se alguém entrar
aqui.
Ruth baixou os olhos. Sim ela sabia e não queria lembrar.
Leigh afastou um pouco o corpo em um convite mudo. Receosa ela
juntou-se a ele e ficaram deitados lado a lado.
─ O que vai acontecer agora? ─ Ruth perguntou com voz baixa.
Havia ansiedade e temor no tom.
─ Podemos falar sobre isso mais tarde ─ Ele murmurou
aproximando-se. A beijou levemente envolvendo-a nos braços.
─ Não posso... ─ Ela sussurrou assustada.
─ Psiu eu sei. Só a quero assim, nos meus braços.
Rebateu meigo abraçando-a mais firme.
─ Não posso ─ repetiu pálida. Se afastou de forma brusca, saindo
da cama e correndo para o banheiro. Leigh a seguiu preocupado, mas ela não
permitiu que ele entrasse. Trancou-se por dentro por alguns minutos. Ao sair
parecia um fantasma.
─ Não se sente bem? ─ Perguntou amparando-a até a cama.
─ Acho que não venho me dando bem com a comida da Sra. Lanfond. ─ Deitou
fechando os olhos. ─ Vai passar, estou apenas cansada.
─ Isso acontece sempre? ─ Não obteve resposta. Ela adormecia.
─ A senhora colocou algum condimento mais forte na comida, Sra.
Lanfond? ─ Leigh questionou em tom brando quando encontrou a governanta
trocando a água das flores. O jeans e camiseta foram substituídos por uma calça
de lã grafite, um pulôver azul marinho e camisa branca. Calçava um par do mais
fino sapato italiano e carregava um casaco preto, luvas e cachecol. Eram peças
finas e caras e Nice sabia que deviam estar na suíte principal do apartamento
onde o jovem se instalou e que até aquele dia não havia sido usada.
─ Não monsieur. ─ Nice colocou o vaso sobre a mesa preocupada. ─
Monsieur sentiu algum sabor estranho?
─ Ruth sentiu-se mal. ─ O tom era perigosamente baixo.
─ Mademoiselle já vem sentindo esse tipo de mal-estar a alguns
dias e eu posso garantir que não tem nada a ver com minha comida. ─ Parou em
frente a ele sem qualquer receio. ─ Eu como do que preparo e hoje monsieur
também comeu e ambos estamos bem.
─ Ruth é frágil. Talvez use algum tempero que o organismo dela não
aceite.
─ Não creio senhor. Mademoiselle Coombs tem esse tipo de mal-estar
mesmo quando não come nada. Já sugeri a ela que fosse ver um médico.
Ele pareceu refletir sobre a questão. A expressão ficou fria.
─ Por favor, avise-a que vou resolver alguns assuntos e que não
volto hoje.
Nice passou o recado, e mesmo assim, Ruth ficou horas na varanda
esperando por ele. Por duas vezes a jovem perguntou se Leigh havia realmente
chegado. Se não havia sido um sonho. No começo da noite conseguiu manter no
estomago um pouco de chá com biscoitos. Jantou sozinha, passando mal logo em
seguida. Nice voltou a insistir em chamar um médico. Ela recusou explicando que
iria esperar por Leigh. Passava da meia noite quando voltou à sala. A garota
dormitava no sofá. Recolheu-se ao próprio quarto imaginando qual seria a
história do casal.
Ele retornou no meio da tarde do dia seguinte, a cumprimentou com
um beijo leve e foi direto para o bar depois de depositar uma pequena mala e o
casaco no sofá.
─ Posso perguntar onde esteve? ─ Questionou enquanto ele remexia as
garrafas ─ Não temos vodca. ─ Murmurou sem jeito.
─ Não quero vodca. Quero água. ─ Levantou os olhos para ela.
Estavam sombrios ─ Não bebo mais.
─ Isso é bom. ─ Sorriu tensa. Leigh deixou o copo sobre a bancada
e se aproximou devagar. Segurou-a pelos braços com carinho. Também tentava
sorrir.
─ Você precisa sorrir mais.
─ Não consigo. ─ A voz não passava de um sussurro.
─ Tem que esquecer...
─ Não consigo ─ Lágrimas silenciosas deslizaram ─ Está tudo aqui. Todas
as lembranças, toda a dor! O tempo todo!
─ Perdoe-me! ─ A envolveu nos braços beijando-lhe levemente a
testa, os cabelos. ─ Não pude protegê-la. Não pude alcança-la a tempo. ─ Ele a
sentou no sofá e ajoelhou-se a frente dela. Voltou a olhá-la nos olhos. ─ Eu
juro a você que nunca mais vou beber.
─ Não foi sua culpa.
─ Foi. Eu a teria ouvido se não tivesse bebido. Eu a teria
alcançado se não estivesse embriagado. Eu não cumpri minha promessa de
resguarda-la e tudo o que aconteceu foi minha culpa. Eu não sei como você me
aceita por perto ainda.
─ Eu te amo. Eu sempre amei. ─ Afirmou simples.
A declaração o emocionou. Com carinho a colocou no colo
confortando-a.
Os lábios se tocaram de leve.
─ Eu estive em Londres. ─ Informou devagar. Ruth retesou o corpo
como se fosse apunhalada. Ele a segurou nos braços sem forçar. ─ Está tudo bem.
Precisei ir à firma de advocacia formalizar minha situação, assinar uns papéis.
Tomar posse da herança de minha mãe. ─ Fixou o olhar no dela para
tranquiliza-la. ─ Eu não os vi. Nenhum deles.
─ Nenhum?
─ Não.
─ Nem mesmo...
─ Não. Salastiel deixou claro que não devo me aproximar de nenhum
deles. Fui deserdado. E eles não se interessam mais por mim e por nada que eu
possa fazer daqui para frente. Fui renegado por desobediência e não existo mais
como Koryak. ─ A mantinha nos braços querendo passar segurança, mas o tom era
de decepção e frustração. ─ O conselho não se importa com o que Alexius Leigh
Lescaut fará daqui em diante. Salastiel acredita que estamos seguros. ─ Acariciou
rosto tenso dela abrandando o tom ─ Ele disse, assim que despertei, que devemos
nos casar.
─ O que? ─ Ela saiu do colo dele ainda mais assustada.
─ Ele disse que devemos seguir o plano original e nos casarmos. ─ Leigh
disse brando se colocando em pé. Ruth recuou.
─ Não! Não posso me casar com você! Não posso me casar com
ninguém. Estou suja! Eu fui... maculada! Não!
─ Você não fez nada! Tudo o que aconteceu, aconteceu com outra
pessoa e esta pessoa já não existe mais.
─ Então não há motivo para casamento!
─ O fato de nos amarmos não é motivo?
─ Você bem sabe que não ─ Disse amarga.
─ Você precisa de um guardião. ─ Leigh rebateu contendo a raiva e
impotência que sentiu. Sim, sabia que amor não era motivo de casamento entre os
Koryaks.
─ Para que? ─ Afastou-se dele. ─ Estou oca, vazia, fui maculada,
renegada. ─ O pesar surgiu profundo e doloroso. ─ Não posso gerar. Por que se
casar comigo?
Ela parecia um animalzinho ferido.
─ Salastiel disse que temos que ficar juntos. Só assim teremos a
chance de... reverter tudo o que aconteceu
─ Eu não quero. Eu não quero mais nada. Quero apenas viver essa
vida em paz. ─ o rosto foi banhado por lágrimas grossas. ─ Nós perdermos! Eu
perdi! Não quero mais lutar. Não tenho forças. Quando olho para trás e vejo
tudo o que aconteceu... Chega! Quero apenas ficar longe de todos eles. Longe do
passado. Quero esquecer os Koryaks e viver este novo ciclo. Apenas isso. Pode
entender?
─ Posso. ─ Assentiu triste.
O prédio da firma de advocacia continuava luxuoso. Leigh ficou
parado em frente, por alguns minutos, tomado por recordações dolorosas. A
finlandesa seca que o levou até ali, o indiferente advogado testamenteiro, Alan
Carter que lhe comunicou a morte da mãe. A estagiária gentil que o guiou pelos
longos corredores e lhe deu um chocolate compadecia de sua cegueira e de suas
tragédias. Tia Margie... Cortou a linha de pensamento e com passos firmes
apresentou-se na recepção sendo imediatamente conduzido à sala da Dra. Kate
Row, chefe da área de patrimônio e inventário. Leigh a reconheceu e sorriu. A
estagiária havia progredido muito. Ela tentou disfarçar o espanto quando o viu.
─ É um prazer conhecê-lo senhor Meneslaups. ─ Apertou a mão que o
rapaz lhe estendia, recuperando-se da surpresa.
─ Lescaut. O nome é Conanlescaut, mas como perdi o direito a ele,
passarei a usar apenas Lescaut. O Chanceler já sabe e não se opõe a minha
decisão.
─ Claro. Aliás, recebemos ordens expressas de auxiliá-lo no que
for necessário durante este período de transição. ─ Disse indicando a cadeira
para o jovem. Leigh se acomodou. No computador a advogada coletou alguns dados.
─ Sua falecida mãe recebeu 15 milhões de dólares como parte de um contrato
pré-nupcial quando se casou com o Chanceler. Ela nunca fez uso desse dinheiro.
E por herança hoje lhe pertence. Deste contrato também fazia parte o
apartamento em Paris que já foi transferido para seu nome quando fez 21 anos.
Mas o dinheiro só pode ser transferido quando completar 24 anos.
─ Eu os completei ontem. ─ Entregou a ela o passaporte.
─ Oh, parabéns. ─ Pegou o documento. Passou alguns minutos olhando
a foto. ─ Já lhe disseram que o senhor e seu irmão...
─ Não posso falar sobre meu irmão Srta. Row. Ele está morto e os
mortos não devem ser perturbados.
─ Eu sei, eu o conheci e lamento profundamente a forma como
morreu. Assim como lamento este desentendimento que está acontecendo entre o
senhor e seu pai
─ Senhorita, fui renegado porque a mulher que amo e com a qual
pretendo me casar não preenche os requisitos ditados por nossas leis. Assim,
infelizmente não tenho mais qualquer parente.
─ Claro. Entendo. ─ Voltou a trabalhar no computador. ─ Pronto. A
conta já foi liberada. ─ Imprimiu algumas folhas e deu a ele ─ Basta assinar
aqui e aqui e tudo está resolvido. ─ Leigh assinou tudo sem ler. Tinha pressa. ─
O senhor deve ir ao banco terminar lá os procedimentos para ter total acesso a
sua conta.
─ Obrigado. Há algo mais? ─ Questionou ao vê-la levantar-se.
─ Sim. Por favor, me aguarde um momento. ─ A advogada deixou a
sala voltando poucos depois. Trazia duas caixas de tamanho médio forradas em
veludo azul marinho. ─ Estas caixas estão em nossos cofres há alguns anos. Esta
─ Estendeu a primeira. ─ Pertenceu a sua mãe. Deveria ter lhe sido
entregue quando fez 21 anos, mas o senhor nunca esteve aqui então... Está
conosco há doze anos. ─ Leigh pegou a caixa devagar. Alisou a superfície sem
abri-la. ─ Esta ─ Ofereceu a segunda. ─ Pertencia a seu irmão. Ela foi-lhe
entregue na data certa, mas com a morte dele a recebemos de volta com ordens
expressas para que fosse repassada a você.
─ Entregue... Por quem? ─ Perguntou surpreso.
─ Pelo herdeiro dele! ─ Kate Row disse depois de alguns momentos
buscando um termo aceitável. O rapaz hesitou um pouco, até que a pegou
repetindo o mesmo gesto de antes. O agradecimento não passou de um leve
murmúrio.
Em um quarto de hotel ele abriu primeiro a caixa que pertencerá a
mãe. Como imaginara lá estavam joias de família. Peças em ouro e brilhantes que
valiam uma verdadeira fortuna e que para sua mãe haviam representado o preço
pago pelos filhos. Admirou um bracelete de brilhantes e uma tiara com
esmeraldas. Avaliou o solitário. Por direito pertenciam a Ruth. Duvidava que
ela fosse aceitá-las, mas como joias de família deveriam ser guardadas.
Hesitou em abrir à segunda. Alisou a superfície imaginando
porque ele a deixou para lhe ser entregue. Para ele não
se conheciam, nunca haviam se encontrado. Salastiel garantiu que ele não
sabia de nada então por que... Abriu a caixa empalidecendo ao examinar o
conteúdo. Não havia joias, não havia objetos de valor. Apenas fotos e mais
fotos de uma vida perdida.
Ruth dormiu a tarde toda conforme vinha fazendo nos últimos dias.
Dias calmos onde os dois sentavam e conversavam sobre as aventuras que ele
passou nos últimos anos. Evitaram falar dos acontecimentos tristes criando uma
leve descontração que desaparecia quando se despediam na porta do quarto. Ambos
sabiam que precisavam tomar decisões dolorosas. O casamento ou o afastamento
eram as únicas opções. A ideia de casamento o agradava motivado pelas
lembranças do novo ciclo.
Imaginava ter o corpo pequeno em seus braços todas as noites. O
desejo de ir além de beijos o inundava e podia jurar que ela também o queria.
Mas não iria forçá-la. Eram muitos fantasmas a serem vencidos. E para vencê-los
a mantinha nos braços o máximo possível. Saiam e passeavam juntos e ela
começava a se soltar com dele. Durante as tardes costumavam deitar lado a lado
e conversar até que ela adormecia.
Ao despertar em uma dessas tardes estava mais corada e faminta.
Aproveitando a disposição da jovem a Sra. Lanfond preparou um
reforçado chá das cinco e serviu na varanda.
─ Sente-se melhor? ─ Ruth vinha passando mal com frequência e isso
já o estava preocupando. Salastiel havia dito que nada podia fazer. ─ Talvez
devêssemos procurar uma médica.
─ Nunca precisamos de médicos.
─ Falei com Salastiel sobre isso. ─ Pegou as mãos dela. ─ Quis
saber por que você estava adoentada quando o normal era estar saudável. Ele me
disse que hoje você é uma mulher comum. Que nossos corpos não têm as proteções
dos Koryak. O meu e o seu. Eu porque fui renegado e perdi todos os dons e você
por .... ocupar um espaço que não lhe foi cedido pela natureza.
─ O que isso quer dizer?
─ Quer dizer que estamos suscetíveis a doenças, acidentes, fome,
frio, sede. Podemos ser atingidos como um humano. Você pode estar doente.
─ Não acho. Sinto-me bem. ─ Ruth deu os ombros. ─ Foi só algo que
comi. Sinto-me muito bem agora. ─ Sorriu. ─ Não tenho nada.
─ Tudo bem.. Então o que acha de irmos a ópera? Você ainda
gosta?
─ Muito. É prudente? Uma opera em Paris, com certeza haverá
pessoas de Koryakia. Vão nos ver juntos. Vão reconhecê-lo.
─ Fui renegado e serei tratado como tal. Já era para ter-me
esquecido o que é ser um Koryak, mas Salastiel ainda sustenta nossas lembranças
por um motivo próprio, mas garante que não corremos risco algum. Podemos e
vamos levar uma vida normal. Estamos livres. ─ Pegou as mãos dela sobre a mesa.
Frias.
─ Livres? Por quanto tempo?
─ Não temos como saber quanto tempo viveremos neste ciclo. Pode
ser um dia, um ano, vinte, trinta, cinquenta. Estamos em corpos jovens. Este
ciclo tende a ser longo. ─ sorriu confiante ─ Mas não importa quanto. O que
importa é que estamos juntos e vamos ficar juntos. Não há mais razão para nos
separarmos.
─ Não vai me deixar? ─ Perguntou em um sussurro.
─ Não.
─ Mais vai... ter mulheres... vai se apaixonar... vai... achar
alguém...
─ Não. Vou ficar com você!
─ Você vai querer... vai precisar...
─ Já a pedi em casamento. ─ Ela tentou se afastar, mas ele manteve
as mãos pequenas entre as suas. ─ E outro ciclo. Podemos ficar juntos. Não
temos mais laços consanguíneos ─ A fez encará-lo. ─ Ruth e Leigh foram
amantes.
─ Eu sei. ─ Puxou a mão. ─ Mais de que vale? Não posso gerar.
Nunca mais! Nem neste ciclo ou em qualquer outro. ─ Levantou brusca, andando de
um lado para outro! ─ Não. Não podemos ficar juntos! Você tem o direito de
viver esse ciclo plenamente. Ter tudo que lhe for concedido. Já que você
garante que estamos seguros, assim que eu me sentir melhor vou embora. Posso
conseguir um trabalho...vou...
Leigh quase não conseguiu alcançá-la antes que caísse
inconsciente.
Ruth recobrou os sentidos deitada na cama do quarto principal.
Estava sozinha e podia ouvir vozes que vinham da sala em uma discussão
controlada. Um tanto zonza levantou e foi na direção do som que se tornava mais
nítido conforme se aproximava.
─ Já disse que agradeço sua preocupação, madame Departieh. ─ O tom
de Leigh era frio. ─ Mas não será necessário que o seu marido examine
mademoiselle. Foi um mal-estar passageiro. Madame Lanfond precipitou-se em
chamá-lo.
─ Francamente Monsieur, mademoiselle já vem sofrendo desse
mal-estar há vários dias. ─ Antes que ele a interrompesse ela esclareceu: ─ Ela
já sofreu uma vertigem a ponto de ter que ser socorrida por nossos
funcionários. Na ocasião também se recusou a ser examinada. Acredito que seria
prudente que um médico...
─ Está me dizendo que um homem a tocou? ─ O tom era gélido.
Havia uma fúria contida nos punhos cerrados, na expressão fechada.
─ Nenhum homem me tocou Leigh! ─ Ruth afirmou entrando na sala. No
minuto seguinte toda a carranca havia desaparecido e Leigh era apenas ternura
ao lado dela. A ajudou a sentar no sofá. ─ Eu jamais permitiria que um homem me
tocasse. ─ Ruth declarou baixo.
─ Não devia ter levantado! ─ Beijou-a de leve nos lábios. ─ Como
se sente?
─ Não me sinto bem! ─ Confessou.
─ Mademoiselle Coombs, sou Oswald Departieh, sou médico.
Permita-me...
─ Não! ─ Leigh quase gritou pondo-se entre o médico e Ruth. ─ Não
precisamos do senhor aqui.
─ Não é o que parece monsieur Lescaut. ─ O médico interveio firme.
Leigh era mais alto, mais forte e mais jovem, mas o médico não se intimidou. ─
Há dias que convivemos com uma pet it assustada e adoentada. Eu a vi na manhã
que chegou acompanhada por um reverendo. Estava bastante ferida e sou médico a
tempo suficiente para afirmar que não eram ferimentos comuns em um acidente,
como nos foi dito. Faço questão de examinar mademoiselle Coombs e, se achar
necessário, levá-la ao hospital para exames detalhados.
─ Explique a eles Leigh. ─ Ruth pediu recostando no sofá.
─ Agradeço a preocupação de ambos e peço desculpas por minha
atitude. ─ Começou sério. ─ Também estou preocupado, mas não podemos permitir
que o monsieur a examine. É contra nossos costumes.
─ Contra os costumes? ─ Madame Departieh repetiu sem entender.
─ E é costume do meu povo que nossas mulheres sejam tocadas apenas
pelos homens da família, como pai ou irmão ou aquele com quem esteja
comprometida ─ Envolveu Ruth em um abraço. ─ Se eu permitir que seu marido a
toque, terei que entregá-la a ele. Essa é a nossa lei.
─ Mas sou médico!
─ Isso só é permitido em emergência, o que não é o caso agora.
Temos muitas médicas que cuidam de nossas mulheres. O problema é que aqui não
conhecemos nenhuma.
─ Vou chamar minha irmã. ─ Monsieur Departieh disse pegando o
telefone. ─ Não se preocupe criança. Ela é melhor médica do que eu.
─ Seu povo tem um costume muito estranho. ─ O médico comentou meia
hora mais tarde, depois que Leigh lhe serviu um conhaque. A irmã e a esposa
estavam com Ruth no quarto. ─ O que acontece se a mulher for tocada
acidentalmente?
─ Não há como um Koryak tocar uma mulher acidentalmente! Somos
cuidadosos e respeitosos ─ Serviu-se de água e foi sentar. Estava tenso.
─ Claro. E o que acontece se uma mulher tocar um homem
estranho?
─ O chefe da família pode renegá-la a viver como serva em outra
casa.
─ E se for casada... se ela tocar mesmo que seja apenas um simples
toque e não uma traição, o marido pode renega-la?
─ O marido tem o direito de puni-la como lhe aprouver, sem
tira-lhe a vida ou renega-la a condição de serva na própria casa ou em outra
qualquer. Também pode entregá-la ao homem que ela desejou tocar. Em troca pode
receber bens e dons que lhe definir como justo por tamanha ofensa.
─ Puxa! ─ Bebericou o conhaque. ─ E se... e se ela for agredida? Se
for...
─ Se a mulher for solteira, o agressor terá que fazê-la sua
esposa. Terminada a cerimônia ele é condenado à morte e os homens da família
podem executá-lo. A jovem então será viúva e poderá refazer sua vida com o
homem que a aceitar como esposa. ─ Tomou um gole longo de água. ─ Se a mulher
em questão já for casada, o marido pode duelar e executar o malfeitor na hora.
Com isso herdara seus bens e seus dons. Depois poderá decidir se coabita ou não
com a esposa novamente. ─ Refletiu. ─ Se perder o duelo, perdera a esposa, os
bens, os dons e tudo o que possuir, incluindo filhos e direitos de sucessão. ─
Pensou uns momentos. ─ É por isso que quando queremos dominar um inimigo,
primeiro dominamos sua mulher.
─ E se o agressor já for casado?
─ Podemos ter quantas esposas possamos sustentar em igualdade de
condições e tempo. Meu pai já teve várias esposas. Geralmente três ao mesmo
tempo.
─ Interessante. ─ O médico sorriu gostando da ideia de poligamia.
─ O que é interessante? ─ A doutora perguntou voltando a sala.
Estava sozinha.
─ Os costumes do povo do monsieur Lescaut. ─ A expressão da irmã o
fez sorrir. ─ E? É o que eu suspeitava?
─ Sim. ─ Sorriu para Leigh. ─ Parabéns monsieur, o senhor será
pai. Mademoiselle Coombs está grávida.
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