CAPÍTULO 01
Da varanda da sala, a governanta Nice Lanfond viu quando a jovem
atravessou a avenida com passos rápidos. Trabalhava na casa há mais de um mês
e, durante todo este tempo, não a viu falar com ninguém. A garota morava
sozinha, quase não saia, o telefone nunca tocava, parecia estar sempre com medo
e, até aquele dia, não havia recebido visitas. Um isolamento como aquele para
alguém que não devia ter mais do que vinte anos, só podia significar uma coisa:
ela estava se escondendo.
A única saída era aquela caminhada semanal no parque Monceau, ou
uma ida rápida ao mercado para escolher as flores que enfeitavam o apartamento.
O lugar vivia sempre cheio delas. De todos os tipos e cores. Custavam uma
pequena fortuna, mas pelo que já havia percebido, dinheiro não era problema.
Talvez o rapaz no sofá fosse o problema, a razão daquele
isolamento. Ele havia chegado há mais de uma hora e usou uma chave para entrar.
Pensando ser a jovem Nice foi até a porta e se assustou quando o viu.
Ele não pareceu surpreso ao vê-la. Por alguns minutos observou o
ambiente e tocou algumas flores soltando, em um canto, a mochila surrada que
trazia. Com um francês perfeito e sem qualquer sotaque perguntou por
Mademoiselle Coombs e não gostou quando foi informado que ela havia saído. Com
a resposta se acomodou no sofá e, como se estivesse muito cansado, relaxou o
corpo tenso.
Então pôde ser observado pela governanta.
Ele era alto, magro, de ombros largos. Os cabelos estavam
encobertos por um boné cinza que logo foi deixado de lado revelando fios negros
e cacheados. Nice calculou que ele estivesse entre vinte e cinco, vinte e sete
anos. Os olhos eram verdes profundos, escuros como musco. A face demonstrava
uma força que não combinava com a idade estimada. Trajava um jeans surrado, uma
camiseta branca com mangas longas e uma jaqueta de lã crua em um tom que um dia
havia sido alaranjado. As botas foram tiradas revelando meias tão sujas quanto
o calçado antigo.
Cheirava a mar e a peixe.
Nice pensou que deveria interpelá-lo, mas quando abriu a boca
conseguiu apenas oferecer sanduíches e café, oferta aceita com um agradecimento
sincero. Ela preparou dois sanduíches grandes como costumava fazer para o
falecido marido. Afinal pescadores sempre voltavam famintos do mar e com
certeza aquele homem era um pescador. Ele tirou o casaco, devorou os sanduíches
em instantes, reclinou-se no sofá e agora dormia.
Viu a patroa entrar no prédio e sumir do seu raio de visão.
Em minutos estaria em casa. Deixou a varanda passando pelo homem no sofá. Com
cuidado recolheu os pratos vazios observando-o mais de perto. Ele dormia
profundamente. Foi esperar a garota no corredor. Avisaria sobre o visitante
antes que entrasse. Se não fosse bem-vindo, ao menos ela teria tempo de ir
embora.
Apesar dos termômetros marcarem onze graus Ruth Coombs não sentia
frio depois da caminhada. Assim que entrou no prédio, cumprimentou o porteiro
com um aceno leve. Gostaria de parar e conversar, mas não podia confiar em
ninguém. Olhou para o homem que a observava atento. Se encolheu no casaco
disfarçando o medo.
Tensa esperou pelo elevador.
Quando a porta do elevador fechou Ruth se recostou na parede
ofegante. Desceu na cobertura com passos rápidos. Queria a proteção de sua
casa. Depois de quarenta dias começava a se sentir segura, mas qualquer um
poderia ser os olhos dele. Qualquer um poderia trazer o monstro até ela. Caminhava
de cabeça baixa até a porta e parou quando viu a empregada no corredor.
─ O que houve? ─ A respiração se alterou.
─ A senhora tem visita. ─ Nice informou.
─ Visita? ─ O terror estampou a face da jovem.
Nice fechou a porta.
─ É um rapaz. Ele não se apresentou senhora.
─ Não devia tê-lo deixado entrar. ─ Assustada
olhou para o elevador já fechado. Hesitava. Começou a voltar no corredor.
─ Não deixei. Ele usou uma chave e entrou sem bater ou pedir
licença.
A frase fez a garota parar na hora. Ela se voltou devagar.
─ Uma chave?
─ Sim. Chegou, comeu, deitou no sofá e dormiu.
─ Dormiu? ─ Tensa Ruth hesitou alguns momentos. Por fim
abriu a porta da cozinha e com passos lentos entrou no apartamento. Pegou uma
faca sobre a bancada. Assustada Nice a acompanhou até a sala. Parou a alguns
passos do sofá. O lugar estava vazio. Sem entender se voltou para a governanta.
E foi o olhar espantado da senhora que revelou o visitante as suas
costas.
Virou-se rápido levantando o punho e esbarrou em um peito que
parecia rocha. Um braço longo e rápido tirou-lhe a faca da mão soltando-a no
chão. Assustada a governanta deu um grito e correu para o telefone enquanto a
patroa debatia-se, assustada demais para focalizar e ouvir quem a segurava.
─ Seu olhar é a porta do meu céu! Seu olhar é a porta do meu
céu.
O rapaz disse em uma língua que a Sra. Lanfond não conseguiu
identificar, repetiu em francês e por fim em inglês, até a jovem parar e
olhá-lo.
Fitaram como se fosse a primeira vez que o faziam.
─ E o seu a esperança da minha vida! ─ Ruth
respondeu com voz fraca.
Lentamente o rapaz a soltou e se afastou.
─ Eu morri. ─ Ruth murmurou embalada pela
tristeza.
─ Você morreu para viver comigo. E eu sobrevivi para viver
com você.
Sem hesitar mais Ruth gemeu e atirou-se nos braços dele.
A esquecida governanta superou a surpresa pela sequência rápida de
acontecimentos e discreta, como sabia ser, deixou a sala.
Ele a aconchegou nos braços emocionado por alguns segundos, depois
a tomou nos braços carregando-a até o sofá, onde sentou com ela no colo. Os
lábios se uniram devagar em três beijos curtos. Os corpos se reconheceram e os
beijos ficaram mais rápidos e desesperados. Sem deixar de observá-la, tirou a blusa
gasta, ficando apenas com a camiseta regata que vestia por baixo. Com dedos
trêmulos a ajudou a tirar o casaco e começou a desabotoar a fileira de pequenos
botões da blusa que ela usava.
Ruth uniu ainda mais o corpo ao dele e ele a abraçou mergulhando o
rosto na curva de seu pescoço. O toque dos lábios foi um leve roçar. Ele se
afastou um pouco e envolveu o rosto dela com as duas mãos.
─ Seu olhar é a porta do meu céu. ─ Repetiu em um
murmúrio rouco.
Apressada ela mesma tirou a blusa e colou o corpo ao dele. Sentiu
o corpo girar sobre o dele enquanto a boca era outra vez dominada por beijos
longos. Precisava vê-lo, senti-lo, tocá-lo. Era um milagre reencontrá-lo em tão
pouco tempo.
Amava-o mais do que antes descobriu naquele momento. Confusa se
afastou.
O olhar dela o manteve prisioneiro por segundos. Um misto de
sentimentos atingiu sua essência mudando, preenchendo, completando. O toque em
seu corpo era delicado. Mãos pequenas. Ela estava mais frágil e mais linda do
que se lembrava.
E quase sem querer uniu os lábios as dela novamente, provando,
avaliando, pedindo permissão. Ruth sentiu o corpo todo estremecer e abriu a
boca em silenciosa rendição. Permitiu a suave invasão reclinando a cabeça e
unindo ainda mais o corpo ao dele. O beijo foi leve e molhado. Da maneira como
começou, terminou.
As bocas se afastaram suavemente, buscando-se uma, duas, três
vezes até se separarem em definitivo. Ruth animou-se nele, sentindo-se segura
pela primeira vez deste que morrera.
─ Você voltou. ─ Murmurou sem acreditar.
─ Eu disse que voltaria ─ Estava
sério ─ Você tem as lembranças?
─ Desde novo ciclo?
─ Sim. As lembranças de Ruth Coombs e Anton
Leigh.
─ Tenho. Mas as recebi quando acordei. Não recebi nada
agora.
─ Eu também não. ─ A afastou um
pouco ─ Podemos tentar de novo?
─ Claro. ─ Concordou baixo e vagarosamente os
lábios se uniram.
Uma, duas, três vezes. Ruth suspirou e fechou os olhos.
Havia algo diferente em cada toque, algo que não existia antes.
Sem que percebessem as bocas passaram a se explorar. Os lábios foram sugados,
mordiscados. As línguas se descobriram e se enlaçaram em toques mais ousados.
Ela gemeu e ele correspondeu puxando-a mais para si. As mãos explorando o corpo
delicado, tocando a curva do seio. Deslizou para o chão sentando no tapete
levando-a junto.
Ruth sentiu quando a mão tremula deslizou por suas costas parando
no fecho do sutiã que usava. Ela esboçou um não que se perdeu em uma nova
invasão da boca ávida. Ruth se afastou, mas ele se moveu fazendo-a ficar sobre
ele.
Gemeu outro não. O gemido amedrontado o fez abrir os olhos. Ele
parou.
Respirou fundo e sem olhá-la a colocou no sofá e levantou.
─ Desculpe. Acho que não funciona mais.
─ Permaneceu de costas para ela. Foi até o bar e serviu-se de uma
bebida. ─ Lamento. Eu só queria saber tudo o que aconteceu com você
desde que nos separamos.
─ E eu saber o que houve com você. Mas não funciona mais
assim. Você terá que me contar. ─ Foi até ele e o abraçou por trás.
Precisou ficar na ponta dos pés para beijar o ombro nu. Ele fechou os olhos
como se o leve roçar provocasse dor. ─ Pensei que ficaríamos anos
separados. Senti muito a sua falta.
─ E eu a sua. ─ Olhou para o copo antes de
levá-lo aos lábios. Hesitou. O deixou ali. Virou-se se afastando alguns
passos. ─ Você está linda ─ Murmurou tocando os longos
cabelos negros. ─ Seu casulo é muito diferente do anterior.
─ Você parece o mesmo. Só está mais velho do que me
lembro.
─ Não posso mudar minha aparência. Há quanto tempo acordou?
─ Perguntou intrigado.
─ Pouco mais de um mês. ─ Leigh reclinou para
olhá-la melhor.
─ Eu vivi quase três anos. Do dia em que você... se perdeu,
até o dia que fui preso se passaram quase três anos. Salastiel me disse que se
passou poucos meses desde que parti até agora, mas eu vivi mais três anos
vagando. Ele me deu lembranças que incluem Ruth Coombs. ─ Fixou os
olhos nos dela ─ O que se lembra... de antes?
Ruth o olhou assustada.
─ Tudo. E o que eu mais quero é esquecer.
─ Em breve ─ disse sério. Com carinho tocou os
cabelos dela. ─ Já se acostumou com sua imagem no espelho?
─ Ainda não.
─ Está linda. ─ A mão deslizou suavemente pelo
pescoço, braço e parou na curva dos quadris. ─ Linda.
Salastiel encontrou o casulo perfeito. ─ Ruth estremeceu.
─ Sinto-me estranha. E como se não fosse eu. Como se
estivesse roubando.
─ É você e não precisa se preocupar com isso.
─ Tocou o coração dela puxando-a para si. ─ Aqui você é a
mesma. Nós dois somos e sempre seremos.
Ruth aninhou-se nele sem medo.
─ É tão estranho ser humana, sentir fome, frio,
sede....
─ Eu também me sinto estranho ─ Forçou um
sorriso ─ E já que não somos mais autossuficientes preciso de um
banho, roupas limpas e de mais comida. ─ Disse pegando a mochila no
canto.
─ Claro. ─ Ofereceu a mão e ele hesitou em
pegá-la. ─ Suas coisas estão no quarto. Salastiel as trouxe. Vá indo
que vou pedir a Sra. Lanfond para adiantar o almoço. O que quer comer?
─ Surpreenda-me. ─ Sugeriu seguindo para o
quarto.
O som do chuveiro era alto quando ela entrou no quarto. Mal havia
estado ali desde que chegou, mas tudo estava limpo e organizado. A cama larga
chamou sua atenção. Se fossem coabitar aquele seria o quarto deles.
Se ele ainda a amasse... Se ele a perdoasse.
Fugindo dos pensamentos Ruth pegou a mochila no chão, a colocou
sobre a cama e começou a esvaziá-la. Do bolso lateral tirou um molho de chaves,
uma carteira gasta, algumas peças em prata no formato de cubo e dois relógios.
Um antigo e outro digital. De outro bolso tirou um crucifixo antigo preso a uma
corrente também de prata e várias moedas antigas. De outro, um passaporte e um
cartão com timbre da firma de advocacia em Londres.
Abriu o passaporte e estranhou a foto que mostrava um jovem de
cabelos curtos, olhos verdes brilhantes e expressão fechada. O documento
identificava-o como Hansalexius Antonleigh Conanlescaut Spartwalyskis Borlowish
Borwoshi Meneslaups II, cidadão russo, nascido no dia 13 de outubro de 1987.
Filho de Vladymyr Meneslaups Borlowish Spartwalyskis Borwoshi Conanlescaut e de
Eva Rollins.
O endereço residencial era o do apartamento em que estavam.
Dentro da mochila poucas peças de roupas gastas e sujas.
Deixou os pertences e documentos sobre a mesa. Recolheu a roupa
que ele jogou no chão e colocou na mochila. Verificaria com ele se podia
joga-las fora. O som do chuveiro era reconfortante e ela parou na porta
hesitante. Uma onda de lembranças que não eram suas a tomou. Viu-se aos beijos
com ele no convés de um barco de luxo. A mão atrevida afastando o minúsculo
biquíni branco e a tocando sem pudor. Arqueava o corpo sedenta pelo dele. Ela
mergulhou a mão na massa de cabelos negros sentindo a boca faminta passear por
sua pele. Em alguns minutos foi levada ao céu. Estava languida no chão duro do convés
quando sentiu o corpo ser suspenso. De olhos fechados foi levada a cabine. Mal
foi posta na cama e o recebeu de novo. E nas horas seguintes conheceu o
paraíso.
Recostou-se na parede ofegante voltando ao presente. Sentia o
corpo tremulo.
Deixou o quarto às pressas.
A água quente proporcionava alívio para o corpo cansado. Há muito
tempo não sabia o que era um banho. Debaixo do agua quente conseguia relaxar e
pensar, apesar da dor que o jato forte provocava nos ferimentos ainda recentes.
Um ciclo terminara. Estava livre para recomeçar ao lado dela. Sua
pequena Ruth. Uma onda de um amor o inundou e surpreendeu. Havia perdido Susan,
havia perdido Melissa, havia perdido sua vida, mas não iria perder Ruth.
Cuidaria dela. Ficariam juntos e ninguém nunca mais a machucaria.
Fechou os olhos lutando para esquecer sua maior perda.
Terminou o banho sentindo fome. Uma sensação pouco conhecida. Com
uma toalha em volta da cintura voltou ao quarto. Seus olhos fixaram-se na cama.
Havia nascido nela. Ainda podia se lembrar da discussão dos homens na sala
ávidos pelo poder que sua guarda traria para aquele que fosse escolhido como
seu tutor.
Da mesma forma como veio à lembrança partiu. Em breve não se
lembraria de como era ser um Koryak. Era o preço a pagar por sua liberdade.
Abriu o armário e encontrou casacos e ternos caros, gravatas de
seda, camisas de linho puro. Roupas de um príncipe que já não existia mais.
Optou por uma camiseta de manga longa e um jeans escuro. Viu seus pertences
sobre a mesa.
Pegou a carteira e abriu. Nela a foto de uma adolescente loira lhe
sorria. Uma sensação de impotência o dominou. Guardou a carteira e os pequenos
cubos no bolso, colocou o relógio digital no pulso. O restante guardou na
gaveta do criado.
Seguiu descalço para a sala onde encontrou a mesa posta.
─ Que bom que encontrou algo confortável nas suas coisas.
─ Ruth disse ─ Pedi a Sra. Lanfond que nos preparasse
salada, legumes cozidos e peixe. Espero que goste. ─ Levou-o pelo
braço até a governanta. ─ Sra. Lanfond quero apresentá-la ao dono
desta casa o senhor Hans....
─ Alexius Leigh Lescaut. ─ Ele interrompeu sério
reclinando a cabeça ─ É um prazer conhecê-la, Sra. Lanfond. Lamento
se a assustei quando cheguei.
─ O prazer é meu monsieur.
─ Sei que tem nos ajudado e lhe sou muito grato por
isso.
─ Tenho feito apenas a minha obrigação.
─ Claro. ─ Acomodou-se a mesa depois de puxar a
cadeira para Ruth ─ Deve ter recebido algumas instruções da agencia
que a contratou. ─ Continuou sério e autoritário. O rapaz estava
acostumado a comandar.
─ Sim monsieur, as recebi.
─ Depois iremos repassá-las uma a uma, mas a principal delas
é que: ninguém, absolutamente ninguém entra nesta casa sem ser autorizado por
mim. Qualquer pessoa que vier aqui, mesmo que se identifique, mesmo que já
tenha estado aqui não deve ser autorizado a entrar sem o meu consentimento.
Isso está claro?
─ Perfeitamente claro monsieur.
─ Você não foi um pouco duro com a Sra. Lanfond?
─ Ruth perguntou assim que chegaram ao quarto que ela ocupava. Leigh
deitou ajeitando os travesseiros.
─ Não. Não fui. Você sabe o que pode acontecer se alguém
entrar aqui.
Ruth baixou os olhos. Sim ela sabia e não queria lembrar.
Leigh afastou um pouco o corpo em um convite mudo. Receosa ela
juntou-se a ele e ficaram deitados lado a lado.
─ O que vai acontecer agora? ─ Ruth perguntou com
voz baixa.
Havia ansiedade e temor no tom.
─ Podemos falar sobre isso mais tarde ─ Ele
murmurou aproximando-se. A beijou levemente envolvendo-a nos braços.
─ Não posso... ─ Ela sussurrou assustada.
─ Psiu eu sei. Só a quero assim, nos meus braços.
Rebateu meigo abraçando-a mais firme.
─ Não posso ─ repetiu pálida. Se afastou de forma
brusca, saindo da cama e correndo para o banheiro. Leigh a seguiu preocupado,
mas ela não permitiu que ele entrasse. Trancou-se por dentro por alguns
minutos. Ao sair parecia um fantasma.
─ Não se sente bem? ─ Perguntou amparando-a até a
cama.
─ Acho que não venho me dando bem com a comida da Sra.
Lanfond. ─ Deitou fechando os olhos. ─ Vai passar, estou apenas
cansada.
─ Isso acontece sempre? ─ Não obteve resposta.
Ela adormecia.
─ A senhora colocou algum condimento mais forte na comida,
Sra. Lanfond? ─ Leigh questionou em tom brando quando encontrou a
governanta trocando a água das flores. O jeans e camiseta foram substituídos
por uma calça de lã grafite, um pulôver azul marinho e camisa branca. Calçava
um par do mais fino sapato italiano e carregava um casaco preto, luvas e
cachecol. Eram peças finas e caras e Nice sabia que deviam estar na suíte
principal do apartamento onde o jovem se instalou e que até aquele dia não
havia sido usada.
─ Não monsieur. ─ Nice colocou o vaso sobre a
mesa preocupada. ─ Monsieur sentiu algum sabor estranho?
─ Ruth sentiu-se mal. ─ O tom era perigosamente
baixo.
─ Mademoiselle já vem sentindo esse tipo de mal-estar a
alguns dias e eu posso garantir que não tem nada a ver com minha comida.
─ Parou em frente a ele sem qualquer receio. ─ Eu como do
que preparo e hoje monsieur também comeu e ambos estamos bem.
─ Ruth é frágil. Talvez use algum tempero que o organismo
dela não aceite.
─ Não creio senhor. Mademoiselle Coombs tem esse tipo de
mal-estar mesmo quando não come nada. Já sugeri a ela que fosse ver um médico.
Ele pareceu refletir sobre a questão. A expressão ficou fria.
─ Por favor, avise-a que vou resolver alguns assuntos e que
não volto hoje.
Nice passou o recado, e mesmo assim, Ruth ficou horas na varanda
esperando por ele. Por duas vezes a jovem perguntou se Leigh havia realmente
chegado. Se não havia sido um sonho. No começo da noite conseguiu manter no
estomago um pouco de chá com biscoitos. Jantou sozinha, passando mal logo em
seguida. Nice voltou a insistir em chamar um médico. Ela recusou explicando que
iria esperar por Leigh. Passava da meia noite quando voltou à sala. A garota
dormitava no sofá. Recolheu-se ao próprio quarto imaginando qual seria a
história do casal.
Ele retornou no meio da tarde do dia seguinte, a cumprimentou com
um beijo leve e foi direto para o bar depois de soltar uma pequena mala e o
casaco no sofá.
─ Posso perguntar onde esteve? ─ Questionou
enquanto ele remexia as garrafas ─ Não temos vodca.
─ Murmurou sem jeito.
─ Não quero vodca. Quero água. ─ Levantou os
olhos para ela. Estavam sombrios ─ Não bebo mais.
─ Isso é bom. ─ Sorriu tensa. Leigh deixou o copo
sobre a bancada e se aproximou devagar. Segurou-a pelos braços com carinho.
Também tentava sorrir.
─ Você precisa sorrir mais.
─ Não consigo. ─ A voz não passava de um
sussurro.
─ Tem que esquecer...
─ Não consigo ─ Lágrimas silenciosas
deslizaram ─ Está tudo aqui. Todas as lembranças, toda a dor! O
tempo todo!
─ Perdoe-me! ─ A envolveu nos braços beijando-lhe
levemente a testa, os cabelos. ─ Não pude protegê-la. Não pude
alcança-la a tempo. ─ Ele a sentou no sofá e ajoelhou-se a frente
dela. Voltou a olhá-la nos olhos. ─ Eu juro a você que nunca mais
vou beber.
─ Não foi sua culpa.
─ Foi. Eu a teria ouvido se não tivesse bebido. Eu a teria
alcançado se não estivesse embriagado. Eu não cumpri minha promessa de
resguarda-la e tudo o que aconteceu foi minha culpa. Eu não sei como você me
aceita por perto ainda.
─ Eu te amo. Eu sempre amei. ─ Afirmou simples.
A declaração o emocionou. Com carinho a colocou no colo
confortando-a.
Os lábios se tocaram de leve.
─ Eu estive em Londres. ─ Informou devagar. Ruth
retesou o corpo como se fosse apunhalada. Ele a segurou nos braços sem
forçar. ─ Está tudo bem. Precisei ir à firma de advocacia formalizar
minha situação, assinar uns papéis. Tomar posse da herança de minha mãe.
─ Fixou o olhar no dela para tranquiliza-la. ─ Eu não os
vi. Nenhum deles.
─ Nenhum?
─ Não.
─ Nem mesmo...
─ Não. Salastiel deixou claro que não devo me aproximar de
nenhum deles. Fui deserdado. E eles não se interessam mais por mim e por nada
que eu possa fazer daqui para frente. Fui renegado por desobediência e não
existo mais como Koryak. ─ A mantinha nos braços querendo passar
segurança, mas o tom era de decepção e frustração. ─ O conselho não
se importa com o que Alexius Leigh Lescaut fará daqui em diante. Salastiel
acredita que estamos seguros. ─ Acariciou rosto tenso dela
abrandando o tom ─ Ele disse, assim que despertei, que devemos nos
casar.
─ O que? ─ Ela saiu do colo dele ainda mais
assustada.
─ Ele disse que devemos seguir o plano original e nos
casarmos. ─ Leigh disse brando se colocando em pé. Ruth recuou.
─ Não! Não posso me casar com você! Não posso me casar com
ninguém. Estou suja! Eu fui... maculada! Não!
─ Você não fez nada! Tudo o que aconteceu, aconteceu com
outra pessoa e esta pessoa já não existe mais.
─ Então não há motivo para casamento!
─ O fato de nos amarmos não é motivo?
─ Você bem sabe que não ─ Disse amarga.
─ Você precisa de um guardião. ─ Leigh rebateu
contendo a raiva e impotência que sentiu. Sim, sabia que amor não era motivo de
casamento entre os Koryaks.
─ Para que? ─ Afastou-se dele. ─ Estou oca,
vazia, fui maculada, renegada. ─ O pesar surgiu profundo e
doloroso. ─ Não posso gerar. Por que se casar
comigo?
Ela parecia um animalzinho ferido.
─ Salastiel disse que temos que ficar juntos. Só assim
teremos a chance de... reverter tudo o que aconteceu
─ Eu não quero. Eu não quero mais nada. Quero apenas viver
essa vida em paz. ─ o rosto foi banhado por lágrimas
grossas. ─ Nós perdermos! Eu perdi! Não quero mais lutar. Não tenho
forças. Quando olho para trás e vejo tudo o que aconteceu... Chega! Quero
apenas ficar longe de todos eles. Longe do passado. Quero esquecer os Koryaks e
viver este novo ciclo. Apenas isso. Pode entender?
─ Posso. ─ Assentiu triste.
O prédio da firma de advocacia continuava luxuoso. Leigh ficou
parado em frente, por alguns minutos, tomado por recordações dolorosas. A
finlandesa seca que o levou até ali, o indiferente advogado testamenteiro, Alan
Carter que lhe comunicou a morte da mãe. A estagiária gentil que o guiou pelos
longos corredores e lhe deu um chocolate compadecia de sua cegueira e de suas
tragédias. Tia Margie... Cortou a linha de pensamento e com passos firmes
apresentou-se na recepção sendo imediatamente conduzido à sala da Dra. Kate
Row, chefe da área de patrimônio e inventário. Leigh a reconheceu e sorriu. A
estagiária havia progredido muito. Ela tentou disfarçar o espanto quando o viu.
─ É um prazer conhecê-lo senhor Meneslaups.
─ Apertou a mão que o rapaz lhe estendia, recuperando-se da
surpresa.
─ Lescaut. O nome é Conanlescaut, mas como perdi o direito a
ele, passarei a usar apenas Lescaut. O Chanceler já sabe e não se opõe a minha
decisão.
─ Claro. Aliás, recebemos ordens expressas de auxiliá-lo no
que for necessário durante este período de transição. ─ Disse
indicando a cadeira para o jovem. Leigh se acomodou. No computador a advogada
coletou alguns dados. ─ Sua falecida mãe recebeu 15 milhões de
dólares como parte de um contrato pré-nupcial quando se casou com o Chanceler.
Ela nunca fez uso desse dinheiro. E por herança hoje lhe pertence. Deste
contrato também fazia parte o apartamento em Paris que já foi transferido para
seu nome quando fez 21 anos. Mas o dinheiro só pode ser transferido quando
completar 24 anos.
─ Eu os completei ontem. ─ Entregou a ela o
passaporte.
─ Oh, parabéns. ─ Pegou o documento. Passou
alguns minutos olhando a foto. ─ Já lhe disseram que o senhor e seu
irmão...
─ Não posso falar sobre meu irmão Srta. Row. Ele está morto
e os mortos não devem ser perturbados.
─ Eu sei, eu o conheci e lamento profundamente a forma como
morreu. Assim como lamento este desentendimento que está acontecendo entre o
senhor e seu pai
─ Senhorita, fui renegado porque a mulher que amo e com a
qual pretendo me casar não preenche os requisitos ditados por nossas leis.
Assim, infelizmente não tenho mais qualquer parente.
─ Claro. Entendo. ─ Voltou a trabalhar no
computador. ─ Pronto. A conta já foi liberada. ─ Imprimiu
algumas folhas e deu a ele ─ Basta assinar aqui e aqui e tudo está
resolvido. ─ Leigh assinou tudo sem ler. Tinha pressa. ─
O senhor deve ir ao banco terminar lá os procedimentos para ter total acesso a
sua conta.
─ Obrigado. Há algo mais? ─ Questionou ao vê-la
levantar-se.
─ Sim. Por favor, me aguarde um momento. ─ A
advogada deixou a sala voltando poucos depois. Trazia duas caixas de tamanho
médio forradas em veludo azul marinho. ─ Estas caixas estão em
nossos cofres há alguns anos. Esta ─ Estendeu a
primeira. ─ Pertenceu a sua mãe. Deveria ter lhe sido entregue
quando fez 21 anos, mas o senhor nunca esteve aqui então... Está conosco há
doze anos. ─ Leigh pegou a caixa devagar. Alisou a superfície sem
abri-la. ─ Esta ─ Ofereceu a segunda. ─
Pertencia a seu irmão. Ela foi-lhe entregue na data certa, mas com a morte dele
a recebemos de volta com ordens expressas para que fosse repassada a
você.
─ Entregue... Por quem? ─ Perguntou surpreso.
─ Pelo herdeiro dele! ─ Kate Row disse depois de
alguns momentos buscando um termo aceitável. O rapaz hesitou um pouco, até que
a pegou repetindo o mesmo gesto de antes. O agradecimento não passou de um leve
murmúrio.
Em um quarto de hotel ele abriu primeiro a caixa que pertencerá a
mãe. Como imaginara lá estavam joias de família. Peças em ouro e brilhantes que
valiam uma verdadeira fortuna e que para sua mãe haviam representado o preço
pago pelos filhos. Admirou um bracelete de brilhantes e uma tiara com
esmeraldas. Avaliou o solitário. Por direito pertenciam a Ruth. Duvidava que
ela fosse aceitá-las, mas como joias de família deveriam ser guardadas.
Hesitou em abrir à segunda. Alisou a superfície imaginando
porque ele a deixou para lhe ser entregue. Para ele não
se conheciam, nunca haviam se encontrado. Salastiel garantiu que ele não
sabia de nada então por que... Abriu a caixa empalidecendo ao examinar o
conteúdo. Não havia joias, não havia objetos de valor. Apenas fotos e mais
fotos de uma vida perdida.
Ruth dormiu a tarde toda conforme vinha fazendo nos últimos dias.
Dias calmos onde os dois sentavam e conversavam sobre as aventuras que ele
passou nos últimos anos. Evitaram falar dos acontecimentos tristes criando uma
leve descontração que desaparecia quando se despediam na porta do quarto. Ambos
sabiam que precisavam tomar decisões dolorosas. O casamento ou o afastamento
eram as únicas opções. A ideia de casamento o agradava motivado pelas
lembranças do novo ciclo.
Imaginava ter o corpo pequeno em seus braços todas as noites. O
desejo de ir além de beijos o inundava e podia jurar que ela também o queria.
Mas não iria forçá-la. Eram muitos fantasmas a serem vencidos. E para vencê-los
a mantinha nos braços o máximo possível. Saiam e passeavam juntos e ela
começava a se soltar com dele. Durante as tardes costumavam deitar lado a lado
e conversar até que ela adormecia.
Ao despertar em uma dessas tardes estava mais corada e faminta.
Aproveitando a disposição da jovem a Sra. Lanfond preparou um
reforçado chá das cinco e serviu na varanda.
─ Sente-se melhor? ─ Ruth vinha passando mal com frequência
e isso já o estava preocupando. Salastiel havia dito que nada podia
fazer. ─ Talvez devêssemos procurar uma médica.
─ Nunca precisamos de médicos.
─ Falei com Salastiel sobre isso. ─ Pegou as mãos
dela. ─ Quis saber por que você estava adoentada quando o normal era
estar saudável. Ele me disse que hoje você é uma mulher comum. Que nossos
corpos não têm as proteções dos Koryak. O meu e o seu. Eu porque fui renegado e
perdi todos os dons e você por .... ocupar um espaço que não lhe foi cedido
pela natureza.
─ O que isso quer dizer?
─ Quer dizer que estamos suscetíveis a doenças, acidentes,
fome, frio, sede. Podemos ser atingidos como um humano. Você pode estar
doente.
─ Não acho. Sinto-me bem. ─ Ruth deu os
ombros. ─ Foi só algo que comi. Sinto-me muito bem agora.
─ Sorriu. ─ Não tenho nada.
─ Ok. Então o que acha de irmos a ópera? Você ainda
gosta?
─ Muito. É prudente? Uma opera em Paris, com certeza haverá
pessoas de Koryakia. Vão nos ver juntos. Vão reconhecê-lo.
─ Fui renegado e serei tratado como tal. Já era para ter-me
esquecido o que é ser um Koryak, mas Salastiel ainda sustenta nossas lembranças
por um motivo próprio, mas garante que não corremos risco algum. Podemos e vamos
levar uma vida normal. Estamos livres. ─ Pegou as mãos dela sobre a
mesa. Frias.
─ Livres? Por quanto tempo?
─ Não temos como saber quanto tempo viveremos neste ciclo.
Pode ser um dia, um ano, vinte, trinta, cinquenta. Estamos em corpos jovens. Este
ciclo tende a ser longo. ─ sorriu confiante ─ Mas não
importa quanto. O que importa é que estamos juntos e vamos ficar juntos. Não há
mais razão para nos separarmos.
─ Não vai me deixar? ─ Perguntou em um sussurro.
─ Não.
─ Mais vai... ter mulheres... vai se apaixonar... vai...
achar alguém...
─ Não. Vou ficar com você!
─ Você vai querer... vai precisar...
─ Já a pedi em casamento. ─ Ela tentou se
afastar, mas ele manteve as mãos pequenas entre as suas. ─ E outro
ciclo. Podemos ficar juntos. Não temos mais laços consanguíneos ─ A
fez encará-lo. ─ Ruth e Leigh foram amantes.
─ Eu sei. ─ Puxou a mão. ─ Mais de que
vale? Não posso gerar. Nunca mais! Nem neste ciclo ou em qualquer outro.
─ Levantou brusca, andando de um lado para outro! ─ Não.
Não podemos ficar juntos! Você tem o direito de viver esse ciclo plenamente.
Ter tudo que lhe for concedido. Já que você garante que estamos seguros, assim
que eu me sentir melhor vou embora. Posso conseguir um trabalho...vou...
Leigh quase não conseguiu alcançá-la antes que caísse
inconsciente.
Ruth recobrou os sentidos deitada na cama do quarto principal.
Estava sozinha e podia ouvir vozes que vinham da sala em uma discussão
controlada. Um tanto zonza levantou e foi na direção do som que se tornava mais
nítido conforme se aproximava.
─ Já disse que agradeço sua preocupação, madame Departieh.
─ O tom de Leigh era frio. ─ Mas não será necessário que
o seu marido examine mademoiselle. Foi um mal-estar passageiro. Madame Lanfond
precipitou-se em chamá-lo.
─ Francamente Monsieur, mademoiselle já vem sofrendo desse
mal-estar há vários dias. ─ Antes que ele a interrompesse ela
esclareceu: ─ Ela já sofreu uma vertigem a ponto de ter que ser
socorrida por nossos funcionários. Na ocasião também se recusou a ser examinada.
Acredito que seria prudente que um médico...
─ Está me dizendo que um homem a tocou? ─ O tom
era gélido.
Havia uma fúria contida nos punhos cerrados, na expressão fechada.
─ Nenhum homem me tocou Leigh! ─ Ruth afirmou
entrando na sala. No minuto seguinte toda a carranca havia desaparecido e Leigh
era apenas ternura ao lado dela. A ajudou a sentar no sofá. ─ Eu
jamais permitiria que um homem me tocasse. ─ Ruth declarou baixo.
─ Não devia ter levantado! ─ Beijou-a de leve nos
lábios. ─ Como se sente?
─ Não me sinto bem! ─ Confessou.
─ Mademoiselle Coombs, sou Oswald Departieh, sou médico.
Permita-me...
─ Não! ─ Leigh quase gritou pondo-se entre o
médico e Ruth. ─ Não precisamos do senhor aqui.
─ Não é o que parece monsieur Lescaut. ─ O médico
interveio firme. Leigh era mais alto, mais forte e mais jovem, mas o médico não
se intimidou. ─ Há dias que convivemos com uma pet it assustada e
adoentada. Eu a vi na manhã que chegou acompanhada por um reverendo. Estava
bastante ferida e sou médico a tempo suficiente para afirmar que não eram
ferimentos comuns em um acidente, como nos foi dito. Faço questão de examinar
mademoiselle Coombs e, se achar necessário, levá-la ao hospital para exames
detalhados.
─ Explique a eles Leigh. ─ Ruth pediu recostando
no sofá.
─ Agradeço a preocupação de ambos e peço desculpas por minha
atitude. ─ Começou sério. ─ Também estou preocupado, mas não podemos permitir
que o monsieur a examine. É contra nossos costumes.
─ Contra os costumes? ─ Madame Departieh repetiu
sem entender.
─ E é costume do meu povo que nossas mulheres sejam tocadas
apenas pelos homens da família, como pai ou irmão ou aquele com quem esteja
comprometida ─ Envolveu Ruth em um abraço. ─ Se eu
permitir que seu marido a toque, terei que entregá-la a ele. Essa é a nossa
lei.
─ Mas sou médico!
─ Isso só é permitido em emergência, o que não é o caso
agora. Temos muitas médicas que cuidam de nossas mulheres. O problema é que
aqui não conhecemos nenhuma.
─ Vou chamar minha irmã. ─ Monsieur Departieh
disse pegando o telefone. ─ Não se preocupe criança. Ela é melhor
médica do que eu.
─ Seu povo tem um costume muito estranho. ─ O
médico comentou meia hora mais tarde, depois que Leigh lhe serviu um conhaque.
A irmã e a esposa estavam com Ruth no quarto. ─ O que acontece se a
mulher for tocada acidentalmente?
─ Não há como um Koryak tocar uma mulher acidentalmente!
Somos cuidadosos e respeitosos ─ Serviu-se de água e foi sentar.
Estava tenso.
─ Claro. E o que acontece se uma mulher tocar um homem estranho?
─ O chefe da família pode renegá-la a viver como serva em
outra casa.
─ E se for casada... se ela tocar mesmo que seja apenas um
simples toque e não uma traição, o marido pode renega-la?
─ O marido tem o direito de puni-la como lhe aprouver, sem
tira-lhe a vida ou renega-la a condição de serva em sua casa ou em outra
qualquer. Também pode entregá-la ao homem que ela desejou tocar. Em troca pode
receber bens e dons que lhe definir como justo por tamanha ofensa.
─ Puxa! ─ Bebericou o conhaque. ─ E
se... e se ela for agredida? Se for...
─ Se a mulher for solteira, o agressor terá que fazê-la sua
esposa. Terminada a cerimônia ele é condenado à morte e os homens da família
podem executá-lo. A jovem então será viúva e poderá refazer sua vida com o
homem que a aceitar como esposa. ─ Tomou um gole longo de água. ─ Se
a mulher em questão já for casada, o marido pode duelar e executar o malfeitor
na hora. Com isso herdara seus bens e seus dons. Depois poderá decidir se
coabita ou não com a esposa novamente. ─ Refletiu. ─ Se
perder o duelo, perdera a esposa, os bens, os dons e tudo o que possuir,
incluindo filhos e direitos de sucessão. ─ Pensou uns momentos. ─ É
por isso que quando queremos dominar um inimigo, primeiro dominamos sua
mulher.
─ E se o agressor já for casado?
─ Podemos ter quantas esposas possamos sustentar em
igualdade de condições e tempo. Meu pai já teve várias esposas. Geralmente três
ao mesmo tempo.
─ Interessante. ─ O médico sorriu gostando da ideia
de poligamia.
─ O que é interessante? ─ A doutora perguntou
voltando a sala.
Estava sozinha.
─ Os costumes do povo do monsieur Lescaut. ─ A
expressão da irmã o fez sorrir. ─ E? É o que eu suspeitava?
─ Sim. ─ Sorriu para Leigh. ─ Parabéns
monsieur, o senhor será pai. Mademoiselle Coombs está grávida.
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