CAPÍTULO 04
Já era tarde quando Ruth foi para
o quarto com um livro. O deixou aberto na primeira página enquanto os
pensamentos perdiam-se. Imaginou se Leigh estaria no hotel. Poderia ligar e
dizer que precisava que ele viesse. Desistiu. Sentia-se bem.
O dia havia sido bom até o
momento em que ele chegou. Há muito tempo não tinha amigas. Foi uma manhã de
conversas tolas e elogios para a casa. Pegou os documentos na gaveta e foi
lê-los na cama. A casa era dela. O preço da noiva.
Leigh pagava um preço alto por
uma noiva que não queria. Cumpria a promessa feita a Salastiel. Seu pai. Era
difícil ver Salastiel como pai. Ele a resgatou das garras da morte e pelas leis
agora ela era descendência dele. Folheou os documentos. Não sabia o que
Salastiel ganhava com aquela união. Preferia ter ido suplicar a clemência da
matrioska para o filho. Sentia que a progenitora de todos os Koryak seria
generosa, mesmo aquele legatário tendo sido fecundado da forma como fora. Ainda
não entendia como era possível estar gestando se não tinha desejando conceber
quando foi atacada.
Acariciou o ventre. Não
importava. Amava o filho. Não sabia explicar como ele se desenvolvia em sua
essência. Existia e ela estava feliz por tê-lo. Ah, se pudesse ouvi-lo. Ele lhe
diria de quem descendia. No fundo tinha a esperança de que pertencesse a Leigh.
Talvez naquela última vez, na tarde chuvosa em Northingham. Naquele ciclo no
qual ela teve olhos castanhos, cabelos cacheados cor de cobre e respondia pelo
nome de Susan.
─ Você está tenso. ─ Ela afirmou se afastando. A garota estava deitada com o rapaz ao lado
dela. Uma versão adolescente daquele com quem se casara. Ele suspirou e
se reclinou para olhá-la melhor. ─ Sua tia voltou a implicar com suas saídas?
─ Não ─ Ele sorriu de leve. ─ Desde que ela descobriu que dormimos
juntos nunca mais implicou com o que faço. Ela também acredita no que
demonstramos. ─ Devagar ele tocou os fios de cobre espalhados no travesseiro. ─
Mas mesmo todos acreditando eu sinto que há algo errado e que estamos vulneráveis. Não consigo definir o que, mas
temo que Vladymyr a tenha sentido de alguma forma. Sinto que ele sabe bem mais
do que demonstra. ─ A puxou para
mais perto. ─ Temo por nós!
─ Podemos ir embora. Eu
iria com você para onde quisesse.
─ Sabe que não posso. ─ Disse triste. ─ Meu irmão está indefeso até...
─ Ser maior, eu sei. ─ Ela o abraçou. ─ Então tudo o que podemos fazer é termos
cuidado e continuar como planejamos. Nenhuma preocupação irá resolver. ─ Ajeitou-se melhor na cama. ─ Tudo isso estaria resolvido se eu pudesse lhe dar um legatário. ─ Lágrimas
brilharam olhos castanhos ─ Perdoe-me!
─ E você que tem que me perdoar.
Fui eu que... ─ tenso respirou fundo ─ Ainda
quer um filho, não é? ─ Ele perguntou mirando-a sério.
─ Sabe que sim
─ Em breve poderei decidir meu futuro. ─ Acariciou os cabelos dela.
─ Vamos nos unir como se deve. Será a minha princesa e teremos um legatário.─ Disse tomando os lábios em um beijo úmido.
─ Nos dividiremos juntos e formaremos
um novo Koryak.
─ Sabe que não posso mais....
─ Estou quase incólume! Eu me dividi apenas uma vez! Posso lhe dar as
duas partes. ─ Repetiu o beijo úmido várias vezes.
─ Ficará fraco. ─ Lembrou correspondendo cada beijo.
─ Não importa. Quero vê-la feliz. Eu a amo agora e para sempre.
─ Eu também o amo meu príncipe. ─ Disse recebendo-o de forma
plena.
Ruth abriu os olhos
afastando as lembranças. Se continuasse mergulharia em um pesadelo que não
suportaria reviver. Seu príncipe lhe prometera casamento e amor e ela
acreditou. Sabia que não poderia cobrar a promessa feita. Fora dominada e
maculada. Mesmo assim seu pai queria aquele casamento e assim seria. E se ela
tivesse a chance de fazer com que Leigh soprasse vida ao filho. Talvez deitar-se
com ele não fosse tão ruim.
Bastava afastar a consciência e
deixar o corpo reconhecer o toque, a paixão.
A paixão Koryak de Hans e Susan.
A paixão carnal de Leigh e Ruth.
Sentou na cama angustiada. O
corpo trêmulo. As lembranças de seus dois últimos casulos eram vividas. Pouco
tempo de transferência entre um e outro, Salastiel esclareceu. Será que Leigh
também recordava estes momentos com tanta nitidez? Ou o ódio que sentia esmagou
todo o amor e paixão que viveram?
Pegou o telefone na cabeceira e
ligou para o hotel. Foi direcionada ao quarto. O telefone tocou até a ligação
voltar para a recepção. Tentou novamente estranhando. Desta vez o telefone foi
atendido no terceiro toque.
─ Alo. ─ Uma mulher. A surpresa a emudeceu.
─ Desculpe. ─ Errará o número? ─ Acho que... É do quarto do
Sr. Lescaut?
─ Quem é? ─ A voz perguntou de forma cautelosa.
─ É... da recepção. Temos um
recado. Ele está?
─ Está sim. ─ Fosse quem fosse
riu tranqüila. ─ Mas não pode atender agora, está no banho. Ah, e não precisa
ligar novamente, nós vamos aproveitar um pouco mais esta suíte maravilhosa e
daqui a pouco descemos. Passamos na recepção e pegamos o recado. ─ Sem esperar resposta desligou.
Ruth ainda segurou o aparelho por
alguns minutos. Devagar o colocou no lugar, aconchegou-se na cama e fechou
os olhos.
Becky Sune deixou o local de
trabalho pela porta dos fundos. Soltou os cabelos agitando a cabeça enquanto
vestia a jaqueta de couro. A noite estava fria. Péssima para andar até o ponto
de ônibus. Um dia encontraria um homem rico e bonito que cairia a seus pés e a
tiraria daquela vida miserável. Talvez um sujeito como o que atendeu no fim da
tarde. Era lindo. O corpo malhado e cabelos negros como a noite estavam suados
pela corrida. Tinha os olhos mais verdes do que uma floresta. E ele a olhou de
um jeito que lhe deu vontade de dar seu telefone. Perdeu a chance. Foi
atender outra mesa e quando voltou ele já havia saído. Mas um dia...
─ Boa noite. ─ Uma voz disse
atrás dela e Becky se voltou assustada. ─ Eu a assustei. Desculpe. ─ Ela não
acreditou no que viu. Era ele. O bonitão. Um alarme soou no íntimo, mas foi
sumariamente ignorado.
─ É. Assustou. ─ Rebateu
grosseira e se arrependeu na mesma hora.
─ Eu a esperava.
─ Por quê? ─ Novamente quis
morder a língua. Queria ser simpática.
─ Quero me apresentar. ─ Estendeu
a mão. ─ Sou Leigh Lescaut.
─ Becky Sune ─ Aceitou a mão
estendida e ele a segurou por mais tempo do que o necessário. Parecia analisá-la.
Ela teve medo e puxou a mão.
─ Quer jantar comigo Becky Sune? ─ Perguntou sem rodeios.
Ela hesitou um segundo. Ele era
bonito, mas jovem. Tinha pelo menos cinco anos a menos do que ela. Preferia um
homem mais velho. Reparou como se vestia. Blazer de bom corte, sapatos de
couro, jeans de marca. Coisa fina. Não usava aliança. O carro de luxo
estacionado na rua devia ser o dele. Com certeza era rico.
─ Quero ─ Sorriu quando percebeu que acertou sobre o
carro.
Leigh abriu a porta para ela de
uma forma que ela achou muito fina. Era um homem de classe. Enquanto ele
contornava o carro ela fez uma prece silenciosa agradecendo a sorte. Preparou
seu melhor sorriso, ajeitou os cabelos e abriu a jaqueta deixando o decote
generoso à mostra. Iria ser a mais gentil das mulheres.
─ Onde vamos jantar? ─ Perguntou
de forma lenta quando ele entrou.
─ No restaurante do hotel onde
estou hospedado. ─ Sério.
Ah, droga um turista! Nada serio,
mas valia à pena aproveitar a noite.
─ Vai ficar muito tempo na
cidade?
─ Estou de mudança. Já comprei
uma casa no bairro onde trabalha. ─ Ela sorriu. Rico concluiu. Vasculhou a mão
esquerda. Sem aliança. Promissor.
─ E onde esta hospedado? ─ Ele
disse o nome do hotel mais luxuoso da cidade.
─ Ohh, não estou arrumada para a
ir a um lugar fino como este! Não podemos comer um cachorro quente por aí?
─ Não como cachorro. ─ Falou sério olhando de forma estranha. Ela
riu.
─ Você é estrangeiro, não é?
─ Sou.
─ Seu inglês é muito bom.
─ Obrigado. ─ Parou no sinal. ─
Prefiro o restaurante do hotel.
─ Ah, não, por favor. Não estou
vestida para jantar neste lugar.
Ele a olhou analisando o jeans
surrado, a camiseta decotada e a jaqueta de couro sintético barata. Os olhos
fixaram-se nos seios fartos por mais tempo do que o educado. Quando a encarou os olhos estavam ainda mais escuros.
─ Pode ir como está. Ninguém vai
barrá-la estando comigo. ─ Havia mais do que desejo na voz.
─ Ah, não. Adoraria ir, mas lá as
mulheres se vestem muito bem e iriam zombar de mim entende? ─ Baixou a cabeça.
─ Eu não iria me sentir bem. Não podemos ir a um lugarzinho mais simples?
─ Não. Vamos jantar onde estou
hospedado. Se acha que não está vestida de forma adequada, pode comprar algo na
loja do hotel. ─ Estacionou. O porteiro logo abriu a porta para eles. Sem se
incomodar com suas vagas tentativas de recusa a guiou até a boutique. Um
vestido ali deveria custar mais do que um mês de seu salário.
─ Ah, não. Não tenho dinheiro
para isso ─ Disse e mordeu a língua.
─ Eu a presenteio. ─ Ele
respondeu de forma simples.
─ Não. ─ Ele abriu a porta da
loja sem ouvi-la. ─ Hei, cara. Não posso aceitar nada de você. Não o conheço.
─ Estamos nos conhecendo. A
convidei para jantar. Não vou comer cachorro porque não se sente confortável
dentro do que veste. Posso vestir minhas mulheres.
─ Não sou sua mulher. ─ Rebateu desafiadora.
─ Ainda. ─ Ele disse e ela arregalou os olhos!
Pegando-a pelo braço a fez
entrar.
─ Hei cara, para. Não dá. Não
posso. ─ Ela se soltou e parou. Era um teste. O cara a estava testando. Se
aceitasse com certeza a julgaria uma interesseira.
─ Não quer mais me conhecer? ─ O
bonitão parecia intrigado.
─ Quero....mais... ora por favor.
Não posso aceitar presentes de um estranho.
─ Já me apresentei.
─ Ainda é um estranho ─ Becky rebateu quase rindo.
─ É virgem? ─ Ele perguntou de chofre.
─ O que? ─ Não acreditou no que ouviu.
─ A vi na lanchonete. A observei
por alguns minutos depois que sai. Perguntei sobre você onde trabalha. Me
disseram que não está envolvida com ninguém. Por seu modo de andar achei que
não fosse virgem, mas posso ter me enganado.
─ Pelo meu!...!!! Que diabos tem
isso a ver com ser ou não virgem ou aceitar ou não presente de um estranho?
─ É virgem? ─ Insistiu.
─ Não. Claro que não.
─ Se não é virgem, porque não
aceita minha oferta? É a forma que tenho de dizer como a quero em minha cama.
─ O que? ─ Bufou sem acreditar!
Ele a tratava como uma prostituta! ─ Cara você não existe! ─ Virou-se para ir embora. Ele ficou parado com
as mãos nos bolsos olhando-a se afastar. Dois ou três passos à frente ela
ajeitou a bolsa no ombro e olhou para trás. Ele continuava no mesmo lugar. Ela
voltou. Não podia perder aquela oportunidade ─ De que planeta veio?
─ Da terra. ─ Respondeu depois de
hesitar um segundo.
─ De que país? ─ Perguntou rindo.
─ Ah... de Koryakia.
─ Arábia?
─ Rússia.
─ Ah. Bom até que se entende. ─ Passou o braço no dele. ─ Olhe, não sou
virgem e fiquei muito lisonjeada em saber que.... que me deseja. Não sei quais
os seus costumes para as mulheres não virgens em seu país, mas aqui não é comum
ir assim direto ao assunto. A gente não transa logo na primeira vez ─ Disse firme.
Até acontecia, mas ele não
precisava saber disso.
─ Não disse que vamos ‘transar’ ─
Ele rebateu como se a palavra o enjoasse ─ Eu a convidei para jantar e quero
comer no restaurante do hotel. Já estive lá e sei que a comida é boa. Não vou
comer cachorro porque minha acompanhante não tem o que vestir. Também não frequento
lugares baratos onde a qualidade e higiene sejam suspeitos. De onde vim, se uma
mulher faz algum sacrifício para nos agradar ela é recompensada. Pode escolher
o que quiser na loja. Basta mandar colocar na minha conta. Pode subir e se
arrumar no meu quarto. ─ Ela fez uma careta na palavra quarto ─ Ele esclareceu.
─ Não vou forçá-la a nada. A espero no bar. Depois que estiver pronta jantamos,
conversamos e se for de comum acordo e agrado poderemos copular o resto da
noite. Se não for, vou deixá-la em casa, segura e intacta. Entendo que é um
sacrifício e o que posso fazer para abrandá-lo é torná-la a mulher mais bem
vestida do lugar. Aceite. Quero agradá-la.
Sacrifício? Uma loja chique. Um
vestido caro. Um jantar no melhor restaurante da cidade. E a ideia de que
sempre que o agradasse ganharia algo. Pelo jantar, um vestido. E depois da
transa o que viria? Uma joia? Aquilo seria sacrifício?
─ Tudo bem. Aceito o presente. ─
Deu seu melhor sorriso. ─ Também quero agradá-lo.
O local era muito elegante com um
piano bar e luz de velas, que favorecia o clima de romance. Era lá que James
sempre levava a Nancy quando realizava uma boa venda. E sem dúvida alguma a
venda da casa dos Lescaut fora a melhor em muito tempo e merecia a
comemoração.
O maître lhes deu uma mesa
próxima à pequena pista de dança. Nancy rodopiava nos braços do marido já
levemente embriagada pelo vinho e pela música quando ele sugeriu que fossem
terminar a comemoração em casa. Voltaram à mesa e James pediu a conta. Nancy se
desculpou e foi à toalete. No caminho admirou um casal que trocava beijos
sensualmente. A moça usava um longo vermelho simplesmente maravilhoso. Parou
observando-os e no momento em que eles se separaram ela reconheceu Becky Sune,
a garçonete de uma lanchonete de seu bairro. Era uma mulher linda, mas de pouca
classe. Fez uma careta. Becky tinha a fama de destruir casamentos desde os
quinze anos. O homem que a devorava com a boca e as mãos só poderia ser mais um
marido infiel. Virou-se para seguir seu caminho. Algo a fez parar. Olhou
novamente para eles com atenção. O blazer escuro e o ambiente na penumbra
dificultaram um pouco, mas perdeu o ar quando reconheceu Leigh Lescaut.
Becky sentia-se uma princesa. O
homem lhe dera o vestido mais lindo que havia na loja. E sapatos. E acessórios.
Tudo o que ela usava, até o lingerie finérrimo fora paga por ele. E para
melhorar o homem era bonito como um deus grego. Falava pouco e desde que a viu
pronta não deixava de tocá-la. A beijou na recepção do hotel de um jeito que a
fez corar. E ela não corava há muitos anos. Aquela demonstração de intimidade
em um local público demonstrava que ele não tinha nada a esconder. Ficou mais animada.
Pelo menos desta vez não estava se metendo com um homem casado. Mal chegaram e
ele a levou para a pista de dança. Colou o corpo ao dela.
Eram quase da mesma altura o que
a moldou a ele.
Os beijos foram longos e
sensuais. Ele estava ardente, as mãos inquietas deslizavam explorando suas
curvas generosas em toques firmes. Ela o sentia excitado. Teve que afastá-lo
levemente ou acabariam fazendo sexo ali mesmo.
─ As pessoas estão olhando. ─ Murmurou.
─ Tem razão. ─ Ele respondeu segurando-a pela nuca. Outros
tantos beijos depois ele se conteve levando-a de volta a mesa. ─ Sinto muito. É
que faz muito tempo que eu não tenho uma mulher.
─ Sério? ─ Riu animada ─ Quanto?
─ Três anos! ─ Chamou o garçom
com um gesto, sem perceber o choque dela. ─ Posso escolher o vinho ou quer algo
especial?
─ A vontade ─ Intrigada. Deixou o
garçom sair para perguntar descontraída ─ Estava preso?
─ De certa forma. ─ Vendo-a tensa prosseguiu. ─ Preso a uma
promessa. ─ completou. ─ Não tem mesmo
nenhum compromisso?
─ Não. ─ O olhar dele a aquecia e excitava. Becky era
madura o suficiente para saber o que ele realmente queria. E já se decidira.
Estava disposta a dar. E seria naquela mesma noite, pois sentia que se dissesse
não, ele não hesitaria em procurar outra. ─ O que você acha de... deixar o
jantar para mais tarde. Você me despertou outro tipo de fome! ─ Murmurou rouca.
Ele sorriu satisfeito. ─ Podemos ir para sua suíte.
Mal a porta foi fechada e estavam
agarrados um ao outro. Os beijos eram ainda mais atrevidos e Becky correspondeu
com o mesmo ardor. Sabia que aquela noite iria mudar sua vida. Ele a suspendeu
e a pôs sobre a mesa. Estava com pressa em consumar o ato. O vestido justo
atrapalhava e ela pediu um minuto para ir se preparar no banheiro. O que usava por
baixo o deixaria ainda mais louco.
Leigh respirou fundo quando se
separou de... como era mesmo o nome dela? Becky. Becky Sune lembrou enquanto
tirava os sapatos e meias, o blazer e a camisa. Foi para o quarto e ajeitou a
cama afastando os lençóis. Desafivelou o cinto e o puxou. Estava para
abrir a calça quando bateram com força na porta. Pensou em ignorar, mas a
batida se repetiu e a voz do gerente se fez ouvir.
─ Alteza, por favor. Há alguém
aqui que quer lhe falar. Disse que é urgente!
─ Não estou esperando ninguém ─ Retrucou abrindo a porta.
Era claro que não gostou de ser
interrompido. Antes que pudesse impedir Nancy Morris entrou no quarto
flamejando de raiva sem convite ou sequer cumprimentá-lo.
─ Hei, não lhe de permissão pra
entrar no meu quarto!
─ Dane-se sua permissão! Alteza! ─
O tom de desprezo foi cortante. A expressão de repúdio ficou pior quando Becky
surgiu na sala seminua coberta por um conjunto de calcinha, cinta liga e bustiê
transparentes. ─ Ruth foi levada ao hospital. ─ O que? ─ A raiva foi substituída pela surpresa.
─ Sua noiva! ─ falava para Becky ─ A mulher com quem
pretende se casar em dez dias foi levada às pressas para hospital agora a
pouco.
─ Por quê? O que aconteceu? Ela
sofreu algum acidente?
─ Pensei que pudesse me dizer. ─ Olhou para ele e para Becky ─ Se fez algo com
ela... se a machucou...
─ Deixei Ruth em casa no fim da
tarde. Não a vi e não falei mais com ela. Não sei o que houve. ─ Falava e recolhia as vestes. ─ O senhor,
espere a senhorita se vestir e a acompanhe até a saída. Pague-lhe um taxi e
coloque em minha conta. ─ Instruiu o
gerente de forma fria e autoritária. Virou-se para Becky ─ Eu volto a
procurá-la e a compensarei por esta frustração. ─ Não se importou com a indignação de Nancy
Morris ─ Vamos embora.─ Disse
saindo.
─ Oi Becky. ─ O gerente cumprimentou sorrindo. Era um velho
conhecido.
─ Oi. ─ Sem se envergonhar Becky
foi ate a porta. O estrangeiro bonitão, sua mina de ouro entrava no elevador
acompanhado por aquela puritana da Sra. Morris. Virou-se para amigo intrigada.
─ Por que o chamou de Alteza?
Leigh vestiu a camisa no elevador
e não conseguiu abotoá-la por carregar o resto das peças e os sapatos. Nancy
não se ofereceu para ajudá-lo. Ele atravessou a recepção sem se incomodar com
os olhares que atraiu. James Morris abriu a porta de trás para a esposa
enquanto Leigh se ocupou o banco da frente. Arrancou assim que todos se
acomodaram.
─ O que houve?─ Leigh perguntou tentando se recompor.
─ Fui pegar meus filhos na casa
da minha irmã. Quando cheguei encontrei sua governanta saindo desesperada. Ela
me pediu para socorrer Mademoiselle Coombs que estava tendo um tipo de crise...
─ O corretor informou.
─ Crise? ─ Leigh perguntou preocupado.
─ Ela parecia em choque. Nancy,
Annette e a sua governanta tentaram fazê-la responder e como ela não reagiu,
decidimos levá-la ao hospital. A deixamos lá e viemos buscá-lo. ─ James olhou
para ele sem saber como dizer. ─ Ela estava inerte Sr. Lescaut.
─ Inconsciente?
─ Não. Inerte. Olhos abertos, vidrados.
Não parecia estar ali.
─ Ausente. ─ Ele murmurou
empalidecendo.
Annette, Jeffrey e a Sra. Lanfond
estavam no corredor do hospital quando eles chegaram. Nice foi em direção dele
falando rápido em francês o que não permitiu que os outros acompanhassem a
conversa.
─ Acalme-se madame Lanfond e
me conte o que houve.
─ Mademoiselle teve outro
pesadelo. Se debateu muito. Quando a acordei ela não respondeu. A chamei várias
vezes e ela ficava apenas com o olhar parado. Então tentei sentá-la e ela não
reagiu.... estava catatônica e fria...muito fria. Liguei para o hotel. O senhor
não estava. Não consegui achar o número do restaurante... então fui para a casa
da Sra. Keller e o Sr. Morris estava chegando. Ele a pegou e a colocou no carro
e a trouxemos para cá. Não tive opção monsieur. ... eu a envolvi no
lençol e ele a pegou com cuidado, toda coberta. Foi uma emergência.... eu não
conseguia encontrá-lo. Mas aqui fiz questão que ela fosse atendida por uma
médica. Apenas mulheres a tocaram. Depois que a levaram a Sra. Morris disse que
sabia onde o senhor estava.
─ Agiu bem madame Lanfond. Fez o
que achou correto e estava certa. Em casos assim um homem pode prestar socorro
a uma mulher. Deverei um favor ao Sr. Morris não mais que isso. O que a médica
disse?
─ Até agora nada.
─ Vou ver como ela está. ─ Disse
sério aproximando-se do grupo que conversava em um canto. Pelos olhares que lhe
dirigiram já sabiam que ele havia estado com outra mulher. ─ Agradeço a ajuda
de todos. Sintam-se livres para irem se assim o desejarem.
─ Nem pensar. Esperaremos aqui. ─ Nancy disse zangada.
─ Como decidirem. ─ Leigh rebateu indiferente se afastando.
Jamais entenderiam a natureza de
sua relação com Ruth. Podia e teria tantas quantas mulheres quisesse. E tinha
certeza que o que Ruth não se oporia. Na recepção foi atendido por uma
enfermeira.
─ Quero notícias de Ruth Coombs.
Ela foi trazida há algum tempo...
─ É da família?
─ Ela será minha esposa em
dez dias. Não há outros familiares no país.
─ Aguarde um momento, a
médica já virá falar com o senhor ─ Pelo telefone informou a médica a chegada
dele. Não demorou e a doutora logo apareceu.
─ O senhor é parente da
jovem Ruth Coombs? ─ Sou a Dra. Ana Asari.
─ Leigh Lescaut. Sou
noivo dela. Como ela está?
─ Ela foi sedada! Está
dormindo agora. ─ A medica disse fria.
─ O que aconteceu? Ela
perdeu a criança?
─ Não. Não foi nada
relacionado a gravidez. A criança está bem. ─
Assumiu uma postura distante. ─ Sua noiva quase entrou em choque. A
senhora que a trouxe disse que ela estava tendo um pesadelo.
─ Ruth tem pesadelos. ─
Encarou a médica. ─ Ela se feriu?
─ Não. Nós a examinamos e...
os ferimentos físicos já foram cicatrizados. ─
Havia pesar no olhar. ─ Os emocionais não. Algo despertou lembranças
ruins e acredito que sua noiva reviveu cada momento do trauma que passou
recentemente. Ela chegou quase em estado de choque. Nós a reanimamos, ela
reagiu e ficou muito agitada. A sedamos para que não se ferisse. Agora precisa
de descanso e não deve ficar sozinha. O senhor pode me acompanhar.
Leigh entrou no quarto devagar e
se espantou em ver Ruth quase tão branca quanto o lençol que a cobria. Parou ao
lado da cama. Segurou a mão fria. Havia medicação sendo aplicada na veia. Leigh
acariciou o rosto dela. Ela parecia dormir.
─ Ruth... querida.... ma
chérie... Lyubov.
─ Ela vai dormir por algumas
horas. ─ A médica sussurrou. Leigh
concordou e a ela deu mais alguns detalhes. Depois que a profissional saiu ele
puxou uma cadeira e sentou ao lado da noiva colocando a mão fria entre as
suas.
Começou a murmurar palavras no
idioma natal.
Ruth despertou durante a
madrugada. Leigh estava ao seu lado debruçado sobre a cama segurando-lhe a mão.
Quando ela se moveu ele levantou a cabeça. Ela olhou em volta confusa e
reconheceu o local como um hospital. Leigh tocou o rosto dela com as pontas dos
dedos molhando-os com as lágrimas que começaram a escorrer.
─ Eu... eu perdi... eu perdi meu
bebê não foi? Eu perdi!
─ Ruth ....─ Tentou e ela começou a chorar alto.
─ Oh Deus não! Não! De novo não! ─ Leigh tentou segurá-la e ela começou a se
debater ─ Não! Meu bebê! Você o rejeitou, não o quis! Desejou que ele morresse.
Deitou-se com outra e se negou ao meu filho e eu não pude tê-lo... Você não
entende... o que uma mãe sente. Nunca entendeu! Oh Deus não! Meu filho…
─ Ruth se acalme! Pare! Pare! Vai
se machucar! ─ Enfermeiras tentaram afastar Leigh, mas ele não cedeu espaço. A
sacudiu um pouco, a segurou firme e disse sério.
─ Você não perdeu seu filho!
Não perdeu! ─ Ela parou para ouvi-lo ─ Não perdeu. Ainda gesta! Ele
viverá. Vou levá-la até a matrioska quando for a hora. Vou desafiar e matar o
Koryak que a tomou. Você e seu filho viveram livres! É a minha promessa. ─
Ela respirava com dificuldade. ─ Dou-lhe minha palavra de
príncipe que serás livre. Você e este que gesta viverão em paz! Tens a minha
promessa!
Os olhos dela se encheram de
esperança. Devagar Leigh a envolveu nos braços de forma protetora. As
enfermeiras se afastaram e os deixaram juntos. Horas depois, quando entraram no
quarto, o noivo havia deitado na mesma cama da paciente, recostado a jovem no
corpo forte e ambos dormiam.
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