sexta-feira, 3 de julho de 2020

CAP 05

CAPÍTULO 05

 

Quando despertou Ruth estava nos braços de Leigh. Moveu-se devagar para não o acordar. Um perfume barato estava impregnado nas roupas que ele usava. E pelo sono pesado devia estar muito satisfeito fisicamente. A repulsa pela situação a impeliu a empurrá-lo para poder se afastar. Ele acordou. 

─ Sente-se melhor? ─ Ele murmurou preocupado reclinando o corpo.

─  Sim. ─  Voltou a empurrá-lo. Leigh saiu da cama. Ruth tentou sentar.

─ Não. Fique deitada. Vou chamar a médica. ─ Apertou a campainha, uma enfermeira veio. Ficou satisfeita em ver Ruth desperta e calma. Foi chamar a médica. ─ Vai ficar tudo bem. ─ Leigh disse tocando o rosto dela. Ruth evitou o toque. ─ Vou ao banheiro e já volto. Pode ficar sozinha um minuto? ─  Ela concordou sem olhá-lo.

No banheiro ele tirou a camisa e se lavou da melhor forma que pode. Estranhou o cheiro da própria roupa. Exalava um perfume forte e adocicado. Saiu do banheiro no mesmo momento que um médico jovem entrava no quarto.

─ Olá, bom dia sou o Dr. Teodoro Tisdale. Como se sente? ─ Aproximava para pegar o pulso de Ruth. Leigh segurou a mão dele milímetros antes de tocá-la. 

─ O senhor não pode tocar minha mulher. ─ Colocou-se entre os dois.

─ Só quero examinar a paciente. Preciso saber se...

─ O senhor não. Apenas uma médica.

─ A Doutora não está de plantão hoje. ─ Retirou a mão, espantado com a veemência da negativa ─ Posso chamar outro médico se prefere assim.

─ Nenhum homem pode tocar minha mulher. Chame a médica que a atendeu.  

─ Não temos nenhuma obstetra de plantão hoje. E a Dra. Asari viajou logo cedo está de mudança do estado.  Disse recuando.

─ Então minha noiva vai para casa comigo.

─ Considero isso uma imprudência. Pelo prontuário a paciente teve uma crise séria e precisa de acompanhamento. Quero examiná-la para saber como o bebê está e se for necessário fazer alguns exames. A doutora deixou a recomendação de fazermos um ultrassom.

─ Não. Nada de ultrassom.  E nada de exame. 

─ O senhor, está sendo irracional.

─ Ele é irracional. ─ Ruth disse com voz fraca. ─ Por favor, doutor, se não há uma médica pode pedir a uma enfermeira que me examine? O senhor, na condição de médico, pode ficar e acompanhar.

─ Claro, mas... por quê?

─ Nenhum homem pode tocar minha noiva. ─  Leigh afirmou ríspido.

─ Mas sou médico e... Isso chega a ser ofensivo!

─ Desculpe doutor. São costumes de um povo retrógrado em muitas coisas.  Ruth fechou os olhos cansada. ─ Por favor, não vai adiantar discutir com ele. E eu quero saber como meu bebê está.

─ Vou buscar uma enfermeira.─  Theodoro disse fuzilando Leigh com o olhar.

Não devia ofender nosso povo Ruth ─ Leigh rebateu zangado. 

A expressão abrandou ao vê-la pálida.  

─ Eu não disse nada que você já não tenha dito. Você mesmo prometeu que quando for o Chanceler mudará essas leis.

─ Eu sei e vou. Até lá você sabe que eu tenho que...

─ ...seguir todas as leis e costumes para poder requerer seu direito de Regente. Mas isso não inclui honrar o período de abstinência em álcool frente a uma gestante na família, tampouco manter-se fiel a sua futura esposa, resguardando seu desejo para a noite de núpcias.  

─ Ambos sabemos que não haverá noite de núpcias.

─ É. Não haverá! ─ Havia amargor no tom. Ambos se encararam por alguns segundos.  ─ A promessa que me fez é uma promessa de honra?

─ Vou levá-la a matrioska quando chegar a hora. É uma promessa de honra.

Um alívio enorme a inundou e Ruth respirou fundo. 

─ Obrigada. ─ Lembrou-se da noite anterior e sentiu o peito arder. ─ Peço desculpas por estar provocando este sofrimento depois que tudo o que passou. Agradeço o que está fazendo por mim e por meu filho e aprovo que tenha uma milenec.

─ Aprova... uma milenec?

─ Vai negar que esteve com uma mulher ontem? ─ Perguntou fria.

─ Não. ─ Intrigado. ─ Como soube? Você sentiu?

─ Sabe que não posso sentir mais nada. Eu liguei para o hotel e ela atendeu. Sei que estava há muito tempo.... sem sexo. E sei o quanto isso é importante para um Koryak. Estamos em um pais estrangeiro. Concordo que tenha uma milenec. Não me vou me opor ou criar qualquer tipo de constrangimento a ela ou a você! Só espero que cuide dela como deve, monte uma casa longe da minha porque as pessoas daqui nunca entenderiam e isso... seria humilhante para nós dois.

─ Ruth quanto a milenec, mesmo sendo permitido... ─  Ela puxou a mão.

─ Nossa união é apenas para que se torne mais forte contra um inimigo comum. Não vamos coabitar e você tem o direito manter uma milenec. ─ Leigh tentou falar, ela levantou a mão não se deixando interromper ─  Está tudo bem. Eu aceito. ─  Conteve uma lágrima que ele não viu. ─ Você já ficou muito tempo sem este tipo de prazer. Agradeço por estar me dando a chance de ter o meu filho. . .

─ Ruth... Nós podemos viver o nosso casamento como nunca nos foi permitido. Podemos coabitar como humanos e... vivemos este ciclo com... parceria, cumplicidade.

─ E o meu filho?

─ O manteríamos seguro. Podemos requerer uma serva para gestá-lo e depois encontraremos um bom lar para ele e com o tempo teríamos nossos próprios filhos. Eu me dividiria e lhe daria três. Três de uma única vez. Não desejo mal ao seu filho Lyubov .─ Abaixou a cabeça. O tom deixou transparecer uma angústia lacerante. ─ Apenas não posso dar minha descendência ao filho... dele.

─ Não posso me deitar com você quando sei que no seu coração não serei sua esposa. E, meu filho é um inocente e não vou cedê-lo a outros. Quero que ele nasça de mim e quero criá-lo. Depois que ele nascer vou esquecer que um dia fui uma Koryak. Nós nos separaremos e eu ficarei aqui longe de tudo. Será o melhor para todos. Ele poderá ser informado de suas origens quando for adulto, conforme ocorre com tantos outros do nosso povo. ─ Tocou-lhe o rosto. Leigh virou a face e beijou a mão delicada. ─ Se um dia puder me perdoar, talvez em outro ciclo tenhamos nossa chance!

─ Você sempre foi minha esposa em meu coração Ruth. Eu a amo.

 

James Morris entrou no restaurante com alguns minutos de antecedência do horário marcado, mesmo assim seu cliente já estava sentado tomando uma bebida translúcida. Morris observou Lescaut. Era sério, formal, mas jovem. Paul disse que ele mal completara 24 anos. Deveria estar rindo e curtindo a vida e, no entanto, tinha aquela expressão sisuda de quem já sofrera muito. Educado ele o cumprimentou e chamou o garçom oferecendo uma bebida.

─ Vou beber o que ele está tomando. ─  James disse não querendo demonstrar fraqueza. Pelo que havia notado, Leigh Lescaut como a maioria dos russos era fã de vodca. Se ele conseguia beber algo tão forte àquela hora da manhã, também conseguiria. Sorriu confiante. ─ Em que posso ajudá-lo?

─ Senhor Morris, quero que saiba que lhe sou muito grato pelo que fez por minha noiva. ─ Leigh disse simples ─ A dívida de gratidão de um Koryak é eterna. Na hora que precisar, pode nos procurar. A mim ou a qualquer membro de minha família.

─ Não precisa agradecer Sr. Lescaut. Foi um prazer poder ajudar. 

─ Há coisas que o dinheiro não pode pagar, assim não vou ofendê-lo oferecendo um cheque, mas me coloco a disposição para o que precisar.

─ Obrigado. E como está a Srta. Coombs? ─  Recebeu o copo e bebeu. 

Quase engasgou. Era água.  

─ Está bem. O médico disse que foi um susto. Deve receber alta amanhã. Minha governanta está com ela. ─  O silêncio se estendeu. ─ Não o chamei aqui apenas para agradecer. ─ O jovem parecia hesitar. ─ Gostaria que o senhor me providenciasse outro imóvel. Um apartamento. Algo mais moderno do que a casa de minha futura esposa. Na cidade, porém distante do primeiro imóvel.

─ Claro um ótimo investimento. Qual o tamanho deste apartamento?

─ Não tenho pretensões. Procuro algo amplo, discreto e confortável.

─ Pretende alugá-lo?

─ Não. Este será para o meu uso pessoal. ─ Contou fazendo o pedido. Não notou a expressão intrigada do corretor. ─ Tem algo disponível? Ruth terá que ficar no hotel até nosso casamento, assim tenho pressa em ter este espaço.

─ Tenho algumas opções.

─ Muito bom. Podemos vê-las depois de nossa refeição?

─ Claro.

─ Ótimo. ─ Bebeu novamente ─ Algo o perturba?

─ Não é que... O gerente do hotel se referiu ao senhor como Alteza...?

─ Ah! Isso! Meu pai é o Chanceler de Koryakia. O que me deu o título de príncipe de Koryakia. Mas hoje sou apenas Alexius Leigh Lescaut. O título de Alteza foi à primeira coisa que ele me tirou. ─ vendo-o sem entender completou. ─ Fui deserdado. Cometi a falta mais grave que um Koryak pode cometer.  

─ Qual o grande crime? ─ Riu.

Era a primeira vez que almoçava com um príncipe!

─ Amar alguém que as nossas leis não aprovam. ─  Contou. Bebeu ─ Me for imposto escolher entre meu povo e a pessoa que mais amei na vida. Optei pelo amor e por isso estou aqui.  

─ Mademoiselle Coombs tem sorte de ter um amor assim. ─  Disse amigável. 

Lescaut não respondeu. Apenas abaixou a cabeça por alguns momentos. Logo a refeição chegou e eles comeram em silêncio. Morris percebeu que Lescaut se absteve de bebidas alcoólicas. Uma pergunta martelava. Se ele amava tanto a noiva a ponto de renunciar a família, por que estava com Becky Sune? 

─ Há uma pergunta em seu olhar. ─  James se surpreendeu.

O rapaz era muito perspicaz. 

─ É. Não sei se devo...  

─ Devo-lhe um favor. Pergunte o que quiser saber.

─ Renunciou a sua família por sua noiva e a se deixa levar por Becky Sune? Ela é linda, mas... sua Ruth...

─ É mais linda ainda! ─  Ele baixou o talher encerrando a refeição. ─ Ruth me rejeitou como marido. Só aceitou quando descobriu que gesta. Precisa de proteção durante este período, mas pretende me deixar assim que o filho nascer. ─ Leigh pousou o guardanapo sobre a mesa. ─ Vamos nos casar para os dois tenham os direitos que lhe cabem. A minha única obrigação com ela agora é proporcionar condições para que a criança nasça bem.

─ Por decisão dela?

─ Por decisão dela. ─  A surpresa de James o fez continuar. ─ É por isso que eu estava com Becky Sune ontem. E é por isso que vou manter o apartamento que lhe pedi. Passei anos preso por um sentimento que não foi compreendido por ninguém da minha família, mas agora que sou livre, quero e preciso viver. Depois que a criança nascer, Ruth e eu nos separaremos.

─ Eu sinto muito.  

─ Tudo o que aconteceu foi para o meu bem. ─  Levantou. ─ Podemos ir?

 

O apartamento era grande e confortável e ficava no centro da cidade, longe das áreas residenciais. Estava mobiliado de forma arrojada e moderna. Muito diferente do estilo formal da casa que James vendeu para o mesmo cliente.

─ Vou ficar com ele. ─ Lescaut parou no meio do quarto observando a cama grande. ─ Este imóvel também deve ficar em nome de Ruth.  

─ No nome dela? Mas...─ O olhar frio deixou claro que desta vez não devia perguntar nada. ─ Claro. Amanhã pela manhã terei todos os documentos prontos.

─ Se for possível prefiro que a documentação seja lavrada depois do casamento. ─ Virou-se para ele. O corretor concordou com um aceno. ─ Posso ficar com as chaves? Agora que eu e Ruth estamos comprometidos, os costumes não permitem que fiquemos debaixo do mesmo teto, então pretendo me mudar hoje ainda. Vou mandar limpá-lo.

─ Posso resolver isso senhor Lescaut.

─ Eu agradeço.  

─ Vou providenciar tudo. Entrego-lhe a chave hoje à noite.

─ Obrigado. ─ Caminhavam para a saída. ─ Sr. Morris, não preciso pedir segredo sobre... este local, não é?

─ Não senhor Lescaut. Não precisa.

─ Outro favor que fico lhe devendo.

James deixou Leigh no hospital e seguiu direto para o escritório do cunhado Jeffrey para fazer a aquisição do novo imóvel. Agora entendia porque ele era tão frio e formal com a noiva. Estavam casando pela obrigação de legitimar um filho. Incrível descobrir que era ela quem o rejeitava e que toda aquela frieza nada mais era do uma couraça de defesa. Enquanto falava mantinha a neutralidade no tom, mesmo com o olhar magoado. Amou a ponto de renunciar a família e depois foi rejeitado pela mulher que o fizera perder tudo. Até que o entendia. Se fosse com ele, também iria procurar consolo em outros braços. Iria falar com a esposa contar o que havia descoberto e pedir a ela segredo. Lescaut tinha o direito de resolver seus problemas sem a interferência. 

 

Os dias seguintes transcorreram com certa rotina. Leigh comprou celulares para os três e se mudou. Ruth voltou para o hotel e permaneceu em repouso enquanto Nice e o patrão se revezavam na organização da casa, nunca a deixando sozinha. Vários pertences de família chegaram de Paris e de outros pontos da Europa. Mesmo sem querer Ruth imaginava onde ele estaria dormindo e principalmente se estaria sozinho ou não. Desconfiava que não. 

Ele abrandou. A tratava de forma gentil e educada. A ajudava no que fosse preciso, mas seu toque parecia o de um enfermeiro. Evitava olhá-la nos olhos e não repetiu que a amava. Ruth já o tinha visto assim. Magoado aliviando o corpo em noites e noites de sexo intenso, com a essência permanecendo distante e intocável para não ser ferida.  Depois de alguns dias Leigh perguntou se ela já sentia forte o bastante para ir até a casa aprovar a arrumação feita. Ela concordou e os dois foram juntos enquanto a governanta saia para comprar o que faltava para o chalé que ocuparia. 

─ Espero que goste da forma como organizamos. Você pode e deve mudar o que quiser. Afinal a casa é sua. ─  Leigh disse assim que estacionou. Ela apenas sorriu apreciando o jardim, já limpo e organizado. Havia canteiros prontos para serem trabalhados. ─ Mandei que os deixassem assim para que você mesma decida o que será plantado. Sei que gosta de cuidar de suas flores. ─  Ruth concordou em silêncio. 

Entraram na casa. 

O ambiente mesclava móveis do apartamento de Paris com alguns do palácio de verão. A combinação deixou o local confortável e luxuoso. Ruth andou pela casa reconhecendo algumas peças e obras de arte do seu tempo de menina. No andar superior ficou feliz em reconhecer a sala de costura de sua mãe. O tear manual antigo, os quadros e as peças de artesanato provocaram lágrimas em seus olhos. Silenciosa agradeceu a Leigh. Ele a levou para o quarto principal. 

Uma grande cama colonial no centro do quarto dominava o ambiente. Era uma peça antiga, um bem de família inestimável. Todos os Conanlescaut nasceram nela.  

─ Este é o seu quarto? ─ Perguntou tensa. 

─ Não. Sabe que só posso usar esta cama se... Foi Salastiel que mandou essa peça. Achei um pecado mantê-la no sótão. Eu vou ocupar este. 

Abriu uma porta a frente. Era um ambiente amplo, claro e com poucos móveis. Destacava-se a cama grande, uma poltrona para leitura em um canto e um console sob a janela alta. Leigh atravessou o quarto e abriu uma porta de comunicação.

─ Preparamos este para você. ─   Contou.

Ruth o seguiu indecisa. Era um ambiente mais feminino. Olhou preocupada para a porta de comunicação. Leigh seguiu seu olhar.

─ Achei melhor que nossos quartos se comunicassem caso alguma emergência. Pode manter a porta trancada ou usar outro se desejar.   

─ Vou precisar mantê-la trancada?  

─ Não claro que não. Só irei a seu quarto se.... me convidar ou se precisar.   

─ Eu sei. Confio em você. ─  Olharam os cômodos por mais alguns minutos. 

─ Está tudo perfeito, obrigada  

─ Fico feliz que tenha gostado. Vamos? O médico recomendou que repouse.    ─ Sinto-me bem.  

─ Você está grávida como uma mulher comum e não como uma Koryak. Teve uma ausência que não sabemos por quê. A aceitei sob minha guarda, mas não posso garantir a sua integridade sendo humano. Salastiel recomendou que procurássemos uma médica para acompanhá-la enquanto gesta.

─ Meu filho? Há riscos? ─  Tocou a barriga preocupada. 

─ Não creio, mas ele disse para termos todos os cuidados que se deve ter. O médico também recomendou que você seja acompanhada o que é normal durante a gestação. Ele me deu o nome de três obstetras, duas delas estão com a agenda cheia e a terceira não atende mais em Cupertino. Estou procurando por outra.  

─ Posso ficar me consultando com o Dr. Tisdale. Gostei muito dele. E ele foi o obstetra de Hope e de Nancy.  

─ Não. ─  Enciumado. ─ É um homem. Não pode tocá-la.  

─ Ele é um médico Leigh. ─  Aborrecida passou a frente dele no corredor. ─ Se fomos renegados por nosso povo, porque cumprir suas leis e preceitos dessa forma?  

─ Porque eu vou lutar para ter os meus direitos de volta e...  

─ Eu não. Eu não vou voltar. Vou marcar uma consulta com o Dr. Tisdale.   

─ De modo algum! ─ frisou zangado. ─ Você quer queira ou não será considerada a rainha quando eu tomar meu posto. Se for tocada por outro homem...  

─ O tempo da ignorância não é levado em conta. Se retomar seu posto ninguém irá levar em conta o que fizemos aqui. Quem sabe que eu fui uma Koryak? Quem saberá que fui uma Koryak? Sou comum agora. Vou viver como uma comum.   

─ Não. Não pode pensar em deixar um homem ...

─ Um médico Leigh. ─  Estava lindamente irritada ─ Um médico excelente pelo que me disseram. Eu já decidi. Vou marcar uma consulta com ele.  

─ Não permito. ─  Sibilou enciumado.

─ Não pode decidir. Por nossa união devo-lhe lealdade e não submissão.  

 

Becky recebeu um buquê de flores acompanhado de uma caixa grande logo que chegou ao trabalho. No cartão com assinatura de Leigh Lescaut estava escrito: “Ainda a quero em minha cama. Vou apanhá-la às nove em sua casa. Esteja pronta.” Quando abriu a caixa maravilhou-se com o que encontrou. 

Festejou silenciosa apesar da curiosidade das colegas de trabalho. 

Pediu a tarde de folga e se dedicou a ficar linda e perfumada. 

Às nove em ponto Becky estava na sala do minúsculo apartamento que morava. Os presentes serviram perfeitamente. O vestido vermelho contrastava bem com sua pele morena. Era modelo tomara que caia com uma fileira de pequenos botões na frente marcando bem a silhueta delgada. A saia era justa, pouco acima do joelho e tinha uma fenda lateral que mostrava as pernas quando andava.

Meias, cinta liga e saltos finos completavam o visual. 

Poucas vezes se sentiu tão desejável. 

Ele não demorou a chegar. Quando desceu do carro Becky pode apreciá-lo. Era alto e forte. O porte atlético era ainda mais atraente por conta dos cabelos desalinhados pelo vento. O viu se aproximar deixando o corpo aquecer em desejo. Ele parou a dois passos dela. Sem uma palavra a pegou pela cintura puxando o quadril curvilíneo de encontro ao dele. Estava excitado. Becky apenas gemeu um ohhh antes de ser beijada. Quando a soltou ela precisou se apoiar nele para manter-se em pé. 

Em silêncio a levou para o carro.

Chegaram a um prédio luxuoso próximo ao centro em cinco minutos. Dois depois, ainda dentro do elevador, ela estava com o corpete do vestido aberto, o sutiã de renda afastado e os bicos dos seios túrgidos pela sucção de uma boca faminta. Mais dois minutos já estava sentada sobre uma mesa no meio da sala. 

Ele se afastou apenas para puxar as meias calça de renda lentamente. Parou olhando-a. Ela tinha consciência do quanto estava sensual com os seios expostos, a saia do vestido repuxada sobre as coxas, os cabelos soltos sobre os ombros dourados. Os olhos verdes a devoravam. 

Ela era bonita e sabia usar isso. Devagar deslizou sobre a mesa umedecendo os lábios em um gesto lânguido. Separou um pouco as pernas e ele ofegou inclinando a cabeça para olhar entre elas como se fosse um garotinho. Ela riu sacudindo os cabelos e abriu as pernas bem devagar, dando a ele a visão que queria.

─ Gosta de olhar. ─ perguntou voltando a deslizar sobre a mesa. 

─ Gosto ─ ele respondeu em gemido.

─ E se eu fizer isso. ─  Tocou o próprio sexo e  começou a se acariciar. 

Ele a observou por alguns segundos mal respirando. Num ímpeto despiu o pulôver e a camisa. De peito nu reclinou-se trocando a mão dela pela dele. Agilmente a invadiu com os dedos preenchendo-a. Becky arquejou e se contorceu com os movimentos rápidos e certeiros. A boca faminta que engolia seus gemidos de excitação a deixou para seu grito de prazer escapar livre. Ainda estremecia quando ele a pegou como se fosse uma pluma e a levou para o quarto.

A colocou em pé e a despiu por inteiro. 

Então a fez girar devagar apreciando as formas e curvas do corpo moreno. 

─ Você é perfeita! ─  Elogiou voltando a beijá-la. 

Becky se entregou ao beijo tão faminta quanto ele. Caíram na cama. Rolaram de um lado para outro. Ele a fez reclinar na cama observando-a. Depois levantou para terminar de se despir. Tirou os sapatos, as meias, abriu o cinto e ouviu. 

O grito. Forte, intenso, angustiado. Parou um segundo confuso. 

A acompanhante continuava reclinada e mantinha as pernas abertas oferecendo-lhe a visão total de cada dobra de sua feminilidade. Sentiu o corpo estremecer antegozando o momento de penetrar aquela fenda funda e úmida. 

Desceu o zíper da calça. 

Um grito ainda mais forte zuniu em seus ouvidos. Parou. Ouviu. Nada. 

Becky já o olhava de modo estranho. Ela ajoelhou na cama se aproximou. Puxou-o pelo cinto e o acariciou sobre o tecido. Ele fechou os olhos excitado. Rindo a garota baixou a peça de roupa apreciando o que revelou. 

O grito se repetiu. Forte. Intenso. Doloroso. E persistiu. 

Ele não sentiu Becky dominá-lo com boca. Ouvia apenas os gritos desesperados de alguém com muita dor. Sem perceber a empurrou e saiu do quarto procurando pelas roupas. Do bolso da jaqueta tirou o celular no exato momento que ele tocou.

─ Alo! ─  Disse angustiado. 

Os gritos saíram de sua mente para se tornarem reais do outro lado da linha. 

 

O carro cortou a distância do apartamento ao hotel em minutos. Mal estacionou e Leigh pulou do veículo deixando-o ligado na entrada. Os gritos podiam ser ouvidos na recepção. Estava sem sapatos. Vestia apenas a calça e o pulôver. Os cabelos em desalinho, as marcas de batom no pescoço denunciavam o que fazia quando foi chamado. Atravessou os corredores sem se importar com os olhares que recebeu. 

Subiu para o quarto andar pelas escadas.

Ruth se contorcia na cama aos gritos. Estava segura pelos braços e pernas por três mulheres que tentavam contê-la para que ela mesma não se ferisse.  

Nice falava com a jovem, que não ouvia. Leigh mandou que a soltasse.  Os socorristas chegaram e pretendiam sedá-la, mas ele se pôs entre eles. Teve que repetir a ordem mais firme. Foi obedecido a contragosto. Ao ver-se livre, os gritos pararam e Ruth saltou da cama. Deu dois passos e caiu. No chão Leigh ajoelhou-se ao seu lado e começou a falar com ela em seu idioma sem tocá-la. Ela se arrastava ofegante como em fuga. Chorava. As pessoas apenas observavam sem saber o que fazer.

Os paramédicos prepararam uma injeção de sedativo. 

Leigh continuava falando. Ruth se virou no som da voz dele e o ouviu por um segundo. Então o corpo se contorceu em tremores por vários segundos. A convulsão durou pouco e quando parou os olhos ficaram vidrados. 

 ─ Não não não não... ─ Leigh gemeu pegando-a nos braços. ─ Por favor, Lyubov.. fique comigo. Não posso viver só... por favor... não vá... não vá...  

A figura translúcida da Koryak surgiu em um canto do quarto. 

Apenas Leigh a viu.

─ Tenho que ir. Não há nada aqui para mim

─ Eu estou aqui! Você tem a mim. Tem todo o meu amor!

─ Não me é o bastante. Sinto dor com sua forma de amar.

─ Por favor.... não vá.... não me deixe.... Não posso ficar sem você outra vez!

Leigh não notava que chorava. Os médicos a tiraram dos braços dele, colocando-a sobre a maca. Em instante a examinaram. Os olhos parados, pulso fraco. 

Estavam a ponto de aplicar medicação quando uma mão forte os impediu. 

O homem vestido de clérigo não era alto, mas imponente. Com um gesto afastou todos, tirou a jovem da maca e a levou de volta a cama. Fechou os olhos parados. 

As pessoas recuaram chocadas. Leigh jogou-se aos pés da cama angustiando.

 ─ Salastiel não permita que ela se vá...

Apenas o seu amor pode mantê-la aqui. Nada mais posso fazer.

O que faço?

─  Apenas a ame.

Leigh a amava. Mas não era um amor puro. Era manchado pela desconfiança de uma traição, pelo ciúme de um inocente, pelo desejo por uma comum, por rancores do passado. Mesmo assim a amava. Com sua vida, com sua essência. A envolveu nos braços uniu os lábios aos dela. As lágrimas se misturam. Aprofundou o toque. Uma tênue luz dourada começou a se formar ao redor dos dois. Saia dele para ela. Ele arquejou com a dor da partilha, mesmo assim continuou. Deixou parte de sua essência transcender. Enfraqueceu. Quando Ruth abriu os olhos Leigh fechou os dele.

─ Vocês não podem testemunhar isso. ─ Salastiel deslizou a mão no ar puxando uma cortina do esquecimento sobre os olhos das testemunhas. 

 

Às nove em ponto Becky estava na sala do minúsculo apartamento que morava. Os presentes serviram perfeitamente. O vestido vermelho contrastava bem com sua pele morena. Era modelo tomara que caia com uma fileira de pequenos botões na frente marcando bem a silhueta delgada. A saia era justa, pouco acima do joelho e tinha uma fenda lateral que mostrava as pernas quando andava.

Meias, cinta liga e saltos finos completavam o visual. 

Poucas vezes se sentiu tão desejável. 

Olhou para o relógio. Nove e meia. Ele estava atrasado. Não importava. Esperaria. Sabia que ele viria. Se preciso fosse esperaria a noite toda. 

Passava da meia noite quando, furiosa, foi para o quarto. 

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