CAPÍTULO 05
Quando despertou Ruth estava nos
braços de Leigh. Moveu-se devagar para não o acordar. Um perfume barato estava
impregnado nas roupas que ele usava. E pelo sono pesado devia estar muito
satisfeito fisicamente. A repulsa pela situação a impeliu a empurrá-lo para
poder se afastar. Ele acordou.
─ Sente-se melhor? ─ Ele murmurou
preocupado reclinando o corpo.
─ Sim. ─
Voltou a empurrá-lo. Leigh saiu da cama. Ruth tentou sentar.
─ Não. Fique deitada. Vou chamar
a médica. ─ Apertou a campainha, uma enfermeira veio. Ficou satisfeita em ver
Ruth desperta e calma. Foi chamar a médica. ─ Vai ficar tudo bem. ─ Leigh disse
tocando o rosto dela. Ruth evitou o toque. ─ Vou ao banheiro e já volto. Pode
ficar sozinha um minuto? ─ Ela concordou
sem olhá-lo.
No banheiro ele tirou a camisa e
se lavou da melhor forma que pode. Estranhou o cheiro da própria roupa. Exalava
um perfume forte e adocicado. Saiu do banheiro no mesmo momento que um médico
jovem entrava no quarto.
─ Olá, bom dia sou o Dr. Teodoro
Tisdale. Como se sente? ─ Aproximava para pegar o pulso de Ruth. Leigh segurou
a mão dele milímetros antes de tocá-la.
─ O senhor não pode tocar minha
mulher. ─ Colocou-se entre os dois.
─ Só quero examinar a paciente.
Preciso saber se...
─ O senhor não. Apenas uma
médica.
─ A Doutora não está de plantão
hoje. ─ Retirou a mão, espantado com a veemência da negativa ─ Posso chamar
outro médico se prefere assim.
─ Nenhum homem pode tocar minha
mulher. Chame a médica que a atendeu.
─ Não temos nenhuma obstetra de
plantão hoje. E a Dra. Asari viajou logo cedo está de mudança do estado. Disse recuando.
─ Então minha noiva vai para casa
comigo.
─ Considero isso uma imprudência.
Pelo prontuário a paciente teve uma crise séria e precisa de acompanhamento.
Quero examiná-la para saber como o bebê está e se for necessário fazer alguns
exames. A doutora deixou a recomendação de fazermos um ultrassom.
─ Não. Nada de ultrassom. E
nada de exame.
─ O senhor, está sendo
irracional.
─ Ele é irracional. ─ Ruth disse
com voz fraca. ─ Por favor, doutor, se não há uma médica pode pedir a uma
enfermeira que me examine? O senhor, na condição de médico, pode ficar e
acompanhar.
─ Claro, mas... por quê?
─ Nenhum homem pode tocar minha
noiva. ─ Leigh afirmou ríspido.
─ Mas sou médico e... Isso chega
a ser ofensivo!
─ Desculpe doutor. São costumes
de um povo retrógrado em muitas coisas.
Ruth fechou os olhos cansada. ─ Por favor, não vai adiantar discutir com
ele. E eu quero saber como meu bebê está.
─ Vou buscar uma
enfermeira.─ Theodoro disse fuzilando
Leigh com o olhar.
─ Não devia ofender nosso povo
Ruth ─ Leigh rebateu zangado.
A expressão abrandou ao vê-la
pálida.
─ Eu não disse nada que você já
não tenha dito. Você mesmo prometeu que quando for o Chanceler mudará essas
leis.
─ Eu sei e vou. Até lá você sabe
que eu tenho que...
─ ...seguir todas as leis e
costumes para poder requerer seu direito de Regente. Mas isso não inclui honrar
o período de abstinência em álcool frente a uma gestante na família, tampouco
manter-se fiel a sua futura esposa, resguardando seu desejo para a noite de
núpcias.
─ Ambos sabemos que não haverá
noite de núpcias.
─ É. Não haverá! ─ Havia amargor
no tom. Ambos se encararam por alguns segundos. ─ A promessa que me fez é uma promessa de
honra?
─ Vou levá-la a matrioska quando
chegar a hora. É uma promessa de honra.
Um alívio enorme a inundou e Ruth
respirou fundo.
─ Obrigada. ─ Lembrou-se da noite
anterior e sentiu o peito arder. ─ Peço desculpas por estar provocando este
sofrimento depois que tudo o que passou. Agradeço o que está fazendo por mim e
por meu filho e aprovo que tenha uma milenec.
─ Aprova... uma milenec?
─ Vai negar que esteve com uma
mulher ontem? ─ Perguntou fria.
─ Não. ─ Intrigado. ─ Como soube?
Você sentiu?
─ Sabe que não posso sentir mais
nada. Eu liguei para o hotel e ela atendeu. Sei que estava há muito tempo....
sem sexo. E sei o quanto isso é importante para um Koryak. Estamos em um pais
estrangeiro. Concordo que tenha uma milenec. Não me vou me opor ou criar
qualquer tipo de constrangimento a ela ou a você! Só espero que cuide dela como
deve, monte uma casa longe da minha porque as pessoas daqui nunca entenderiam e
isso... seria humilhante para nós dois.
─ Ruth quanto a milenec, mesmo
sendo permitido... ─ Ela puxou a mão.
─ Nossa união é apenas para que
se torne mais forte contra um inimigo comum. Não vamos coabitar e você tem o
direito manter uma milenec. ─ Leigh tentou falar, ela levantou a mão não se deixando
interromper ─ Está tudo bem. Eu aceito.
─ Conteve uma lágrima que ele não viu. ─
Você já ficou muito tempo sem este tipo de prazer. Agradeço por estar me dando
a chance de ter o meu filho. . .
─ Ruth... Nós podemos viver o
nosso casamento como nunca nos foi permitido. Podemos coabitar como humanos
e... vivemos este ciclo com... parceria, cumplicidade.
─ E o meu filho?
─ O manteríamos seguro. Podemos
requerer uma serva para gestá-lo e depois encontraremos um bom lar para ele e
com o tempo teríamos nossos próprios filhos. Eu me dividiria e lhe daria três.
Três de uma única vez. Não desejo mal ao seu filho Lyubov .─ Abaixou a
cabeça. O tom deixou transparecer uma angústia lacerante. ─ Apenas não posso
dar minha descendência ao filho... dele.
─ Não posso me deitar com você
quando sei que no seu coração não serei sua
esposa. E, meu filho é um inocente e não vou cedê-lo a outros. Quero que
ele nasça de mim e quero criá-lo. Depois que ele nascer vou esquecer que um dia
fui uma Koryak. Nós nos separaremos e eu ficarei aqui longe de tudo. Será o
melhor para todos. Ele poderá ser informado de suas origens quando for adulto,
conforme ocorre com tantos outros do nosso povo. ─ Tocou-lhe o rosto. Leigh
virou a face e beijou a mão delicada. ─ Se um dia puder me perdoar, talvez em
outro ciclo tenhamos nossa chance!
─ Você sempre foi minha esposa em
meu coração Ruth. Eu a amo.
James Morris entrou no
restaurante com alguns minutos de antecedência do horário marcado, mesmo assim
seu cliente já estava sentado tomando uma bebida translúcida. Morris observou
Lescaut. Era sério, formal, mas jovem. Paul disse que ele mal completara 24
anos. Deveria estar rindo e curtindo a vida e, no entanto, tinha aquela
expressão sisuda de quem já sofrera muito. Educado ele o cumprimentou e chamou
o garçom oferecendo uma bebida.
─ Vou beber o que ele está
tomando. ─ James disse não querendo
demonstrar fraqueza. Pelo que havia notado, Leigh Lescaut como a maioria dos
russos era fã de vodca. Se ele conseguia beber algo tão forte àquela hora da
manhã, também conseguiria. Sorriu confiante. ─ Em que posso ajudá-lo?
─ Senhor Morris, quero que saiba
que lhe sou muito grato pelo que fez por minha noiva. ─ Leigh disse simples ─ A
dívida de gratidão de um Koryak é eterna. Na hora que precisar, pode nos
procurar. A mim ou a qualquer membro de minha família.
─ Não precisa agradecer Sr.
Lescaut. Foi um prazer poder ajudar.
─ Há coisas que o dinheiro não
pode pagar, assim não vou ofendê-lo oferecendo um cheque, mas me coloco a
disposição para o que precisar.
─ Obrigado. E como está a Srta.
Coombs? ─ Recebeu o copo e bebeu.
Quase engasgou. Era
água.
─ Está bem. O médico disse que
foi um susto. Deve receber alta amanhã. Minha governanta está com ela. ─ O silêncio se estendeu. ─ Não o chamei aqui
apenas para agradecer. ─ O jovem parecia hesitar. ─ Gostaria que o senhor me
providenciasse outro imóvel. Um apartamento. Algo mais moderno do que a casa de
minha futura esposa. Na cidade, porém distante do primeiro imóvel.
─ Claro um ótimo investimento. Qual
o tamanho deste apartamento?
─ Não tenho pretensões. Procuro
algo amplo, discreto e confortável.
─ Pretende alugá-lo?
─ Não. Este será para o meu uso
pessoal. ─ Contou fazendo o pedido. Não notou a expressão intrigada do
corretor. ─ Tem algo disponível? Ruth terá que ficar no hotel até nosso casamento,
assim tenho pressa em ter este espaço.
─ Tenho algumas opções.
─ Muito bom. Podemos vê-las
depois de nossa refeição?
─ Claro.
─ Ótimo. ─ Bebeu novamente ─ Algo
o perturba?
─ Não é que... O gerente do hotel
se referiu ao senhor como Alteza...?
─ Ah! Isso! Meu pai é o Chanceler
de Koryakia. O que me deu o título de príncipe de Koryakia. Mas hoje sou apenas
Alexius Leigh Lescaut. O título de Alteza foi à primeira coisa que ele me
tirou. ─ vendo-o sem entender completou. ─ Fui deserdado. Cometi a falta mais
grave que um Koryak pode cometer.
─ Qual o grande crime? ─ Riu.
Era a primeira vez que almoçava
com um príncipe!
─ Amar alguém que as nossas leis
não aprovam. ─ Contou. Bebeu ─ Me for
imposto escolher entre meu povo e a pessoa que mais amei na vida. Optei pelo
amor e por isso estou aqui.
─ Mademoiselle Coombs tem sorte
de ter um amor assim. ─ Disse
amigável.
Lescaut não respondeu. Apenas
abaixou a cabeça por alguns momentos. Logo a refeição chegou e eles comeram em
silêncio. Morris percebeu que Lescaut se absteve de bebidas alcoólicas. Uma
pergunta martelava. Se ele amava tanto a noiva a ponto de renunciar a família,
por que estava com Becky Sune?
─ Há uma pergunta em seu olhar. ─ James se surpreendeu.
O rapaz era muito
perspicaz.
─ É. Não sei se devo...
─ Devo-lhe um favor. Pergunte o
que quiser saber.
─ Renunciou a sua família por sua
noiva e a se deixa levar por Becky Sune? Ela é linda, mas... sua Ruth...
─ É mais linda ainda! ─ Ele baixou o talher encerrando a refeição. ─
Ruth me rejeitou como marido. Só aceitou quando descobriu que gesta. Precisa de
proteção durante este período, mas pretende me deixar assim que o filho nascer.
─ Leigh pousou o guardanapo sobre a mesa. ─ Vamos nos casar para os dois tenham
os direitos que lhe cabem. A minha única obrigação com ela agora é proporcionar
condições para que a criança nasça bem.
─ Por decisão dela?
─ Por decisão dela. ─ A surpresa de James o fez continuar. ─ É por
isso que eu estava com Becky Sune ontem. E é por isso que vou manter o
apartamento que lhe pedi. Passei anos preso por um sentimento que não foi
compreendido por ninguém da minha família, mas agora que sou livre, quero e
preciso viver. Depois que a criança nascer, Ruth e eu nos separaremos.
─ Eu sinto muito.
─ Tudo o que aconteceu foi para o
meu bem. ─ Levantou. ─ Podemos ir?
O apartamento era grande e
confortável e ficava no centro da cidade, longe das áreas residenciais. Estava
mobiliado de forma arrojada e moderna. Muito diferente do estilo formal da casa
que James vendeu para o mesmo cliente.
─ Vou ficar com ele. ─ Lescaut
parou no meio do quarto observando a cama grande. ─ Este imóvel também deve
ficar em nome de Ruth.
─ No nome dela? Mas...─ O olhar
frio deixou claro que desta vez não devia perguntar nada. ─ Claro. Amanhã pela
manhã terei todos os documentos prontos.
─ Se for possível prefiro que a
documentação seja lavrada depois do casamento. ─ Virou-se para ele. O corretor
concordou com um aceno. ─ Posso ficar com as chaves? Agora que eu e Ruth
estamos comprometidos, os costumes não permitem que fiquemos debaixo do mesmo
teto, então pretendo me mudar hoje ainda. Vou mandar limpá-lo.
─ Posso resolver isso senhor
Lescaut.
─ Eu agradeço.
─ Vou providenciar tudo.
Entrego-lhe a chave hoje à noite.
─ Obrigado. ─ Caminhavam para a
saída. ─ Sr. Morris, não preciso pedir segredo sobre... este local, não é?
─ Não senhor Lescaut. Não
precisa.
─ Outro favor que fico lhe
devendo.
James deixou Leigh no hospital e
seguiu direto para o escritório do cunhado Jeffrey para fazer a aquisição do
novo imóvel. Agora entendia porque ele era tão frio e formal com a noiva.
Estavam casando pela obrigação de legitimar um filho. Incrível descobrir que
era ela quem o rejeitava e que toda aquela frieza nada mais era do uma couraça
de defesa. Enquanto falava mantinha a neutralidade no tom, mesmo com o olhar
magoado. Amou a ponto de renunciar a família e depois foi rejeitado pela mulher
que o fizera perder tudo. Até que o entendia. Se fosse com ele, também iria
procurar consolo em outros braços. Iria falar com a esposa contar o que havia
descoberto e pedir a ela segredo. Lescaut tinha o direito de resolver seus
problemas sem a interferência.
Os dias seguintes transcorreram
com certa rotina. Leigh comprou celulares para os três e se mudou. Ruth voltou
para o hotel e permaneceu em repouso enquanto Nice e o patrão se revezavam na
organização da casa, nunca a deixando sozinha. Vários pertences de família
chegaram de Paris e de outros pontos da Europa. Mesmo sem querer Ruth imaginava
onde ele estaria dormindo e principalmente se estaria sozinho ou não.
Desconfiava que não.
Ele abrandou. A tratava de forma
gentil e educada. A ajudava no que fosse preciso, mas seu toque parecia o de um
enfermeiro. Evitava olhá-la nos olhos e não repetiu que a amava. Ruth já o
tinha visto assim. Magoado aliviando o corpo em noites e noites de sexo
intenso, com a essência permanecendo distante e intocável para não ser
ferida. Depois de alguns dias Leigh perguntou se ela já sentia forte o
bastante para ir até a casa aprovar a arrumação feita. Ela concordou e os dois
foram juntos enquanto a governanta saia para comprar o que faltava para o chalé
que ocuparia.
─ Espero que goste da forma como
organizamos. Você pode e deve mudar o que quiser. Afinal a casa é sua. ─ Leigh disse assim que estacionou. Ela apenas
sorriu apreciando o jardim, já limpo e organizado. Havia canteiros prontos para
serem trabalhados. ─ Mandei que os deixassem assim para que você mesma decida o
que será plantado. Sei que gosta de cuidar de suas flores. ─ Ruth concordou em silêncio.
Entraram na casa.
O ambiente mesclava móveis do
apartamento de Paris com alguns do palácio de verão. A combinação deixou o
local confortável e luxuoso. Ruth andou pela casa reconhecendo algumas peças e
obras de arte do seu tempo de menina. No andar superior ficou feliz em
reconhecer a sala de costura de sua mãe. O tear manual antigo, os quadros e as
peças de artesanato provocaram lágrimas em seus olhos. Silenciosa agradeceu a
Leigh. Ele a levou para o quarto principal.
Uma grande cama colonial no
centro do quarto dominava o ambiente. Era uma peça antiga, um bem de família
inestimável. Todos os Conanlescaut nasceram nela.
─ Este é o seu quarto? ─
Perguntou tensa.
─ Não. Sabe que só posso usar
esta cama se... Foi Salastiel que mandou essa peça. Achei um pecado mantê-la no
sótão. Eu vou ocupar este.
Abriu uma porta a frente. Era um
ambiente amplo, claro e com poucos móveis. Destacava-se a cama grande, uma
poltrona para leitura em um canto e um console sob a janela alta. Leigh
atravessou o quarto e abriu uma porta de comunicação.
─ Preparamos este para você. ─
Contou.
Ruth o seguiu indecisa. Era um
ambiente mais feminino. Olhou preocupada para a porta de comunicação. Leigh
seguiu seu olhar.
─ Achei melhor que nossos quartos
se comunicassem caso alguma emergência. Pode manter a porta trancada ou usar
outro se desejar.
─ Vou precisar mantê-la trancada?
─ Não claro que não. Só irei a
seu quarto se.... me convidar ou se precisar.
─ Eu sei. Confio em você. ─ Olharam os cômodos por mais alguns
minutos.
─ Está tudo perfeito, obrigada
─ Fico feliz que tenha gostado.
Vamos? O médico recomendou que repouse. ─
Sinto-me bem.
─ Você está grávida como uma
mulher comum e não como uma Koryak. Teve uma ausência que não sabemos por quê.
A aceitei sob minha guarda, mas não posso garantir a sua integridade sendo
humano. Salastiel recomendou que procurássemos uma médica para acompanhá-la
enquanto gesta.
─ Meu filho? Há riscos? ─ Tocou a barriga preocupada.
─ Não creio, mas ele disse para
termos todos os cuidados que se deve ter. O médico também recomendou que você
seja acompanhada o que é normal durante a gestação. Ele me deu o nome de três
obstetras, duas delas estão com a agenda cheia e a terceira não atende mais em
Cupertino. Estou procurando por outra.
─ Posso ficar me consultando com
o Dr. Tisdale. Gostei muito dele. E ele foi o obstetra de Hope e de Nancy.
─ Não. ─ Enciumado. ─ É um homem. Não pode tocá-la.
─ Ele é um médico Leigh. ─ Aborrecida passou a frente dele no corredor.
─ Se fomos renegados por nosso povo, porque cumprir suas leis e preceitos dessa
forma?
─ Porque eu vou lutar para ter os
meus direitos de volta e...
─ Eu não. Eu não vou voltar. Vou
marcar uma consulta com o Dr. Tisdale.
─ De modo algum! ─ frisou
zangado. ─ Você quer queira ou não será considerada a rainha quando eu tomar
meu posto. Se for tocada por outro homem...
─ O tempo da ignorância não é
levado em conta. Se retomar seu posto ninguém irá levar em conta o que fizemos
aqui. Quem sabe que eu fui uma Koryak? Quem saberá que fui uma Koryak? Sou
comum agora. Vou viver como uma comum.
─ Não. Não pode pensar em deixar
um homem ...
─ Um médico Leigh. ─ Estava lindamente irritada ─ Um médico
excelente pelo que me disseram. Eu já decidi. Vou marcar uma consulta com ele.
─ Não permito. ─ Sibilou enciumado.
─ Não pode decidir. Por nossa
união devo-lhe lealdade e não submissão.
Becky recebeu um buquê de flores
acompanhado de uma caixa grande logo que chegou ao trabalho. No cartão com
assinatura de Leigh Lescaut estava escrito: “Ainda a quero em minha cama. Vou
apanhá-la às nove em sua casa. Esteja pronta.” Quando abriu a caixa maravilhou-se
com o que encontrou.
Festejou silenciosa apesar da
curiosidade das colegas de trabalho.
Pediu a tarde de folga e se
dedicou a ficar linda e perfumada.
Às nove em ponto Becky estava na
sala do minúsculo apartamento que morava. Os presentes serviram perfeitamente.
O vestido vermelho contrastava bem com sua pele morena. Era modelo tomara que
caia com uma fileira de pequenos botões na frente marcando bem a silhueta
delgada. A saia era justa, pouco acima do joelho e tinha uma fenda lateral que
mostrava as pernas quando andava.
Meias, cinta liga e saltos finos
completavam o visual.
Poucas vezes se sentiu tão
desejável.
Ele não demorou a chegar. Quando
desceu do carro Becky pode apreciá-lo. Era alto e forte. O porte atlético era
ainda mais atraente por conta dos cabelos desalinhados pelo vento. O viu se
aproximar deixando o corpo aquecer em desejo. Ele parou a dois passos dela. Sem
uma palavra a pegou pela cintura puxando o quadril curvilíneo de encontro ao
dele. Estava excitado. Becky apenas gemeu um ohhh antes de ser beijada. Quando
a soltou ela precisou se apoiar nele para manter-se em pé.
Em silêncio a levou para o carro.
Chegaram a um prédio luxuoso
próximo ao centro em cinco minutos. Dois depois, ainda dentro do elevador, ela
estava com o corpete do vestido aberto, o sutiã de renda afastado e os bicos
dos seios túrgidos pela sucção de uma boca faminta. Mais dois minutos já estava
sentada sobre uma mesa no meio da sala.
Ele se afastou apenas para puxar
as meias calça de renda lentamente. Parou olhando-a. Ela tinha consciência do
quanto estava sensual com os seios expostos, a saia do vestido repuxada sobre
as coxas, os cabelos soltos sobre os ombros dourados. Os olhos verdes a
devoravam.
Ela era bonita e sabia usar isso.
Devagar deslizou sobre a mesa umedecendo os lábios em um gesto lânguido.
Separou um pouco as pernas e ele ofegou inclinando a cabeça para olhar entre
elas como se fosse um garotinho. Ela riu sacudindo os cabelos e abriu as pernas
bem devagar, dando a ele a visão que queria.
─ Gosta de olhar. ─ perguntou
voltando a deslizar sobre a mesa.
─ Gosto ─ ele respondeu em
gemido.
─ E se eu fizer isso. ─ Tocou o próprio sexo e começou a se acariciar.
Ele a observou por alguns
segundos mal respirando. Num ímpeto despiu o pulôver e a camisa. De peito nu
reclinou-se trocando a mão dela pela dele. Agilmente a invadiu com os dedos
preenchendo-a. Becky arquejou e se contorceu com os movimentos rápidos e
certeiros. A boca faminta que engolia seus gemidos de excitação a deixou para seu
grito de prazer escapar livre. Ainda estremecia quando ele a pegou como se fosse
uma pluma e a levou para o quarto.
A colocou em pé e a despiu por
inteiro.
Então a fez girar devagar
apreciando as formas e curvas do corpo moreno.
─ Você é perfeita! ─ Elogiou voltando a beijá-la.
Becky se entregou ao beijo tão
faminta quanto ele. Caíram na cama. Rolaram de um lado para outro. Ele a fez
reclinar na cama observando-a. Depois levantou para terminar de se despir.
Tirou os sapatos, as meias, abriu o cinto e ouviu.
O grito. Forte, intenso,
angustiado. Parou um segundo confuso.
A acompanhante continuava
reclinada e mantinha as pernas abertas oferecendo-lhe a visão total de cada
dobra de sua feminilidade. Sentiu o corpo estremecer antegozando o momento de
penetrar aquela fenda funda e úmida.
Desceu o zíper da calça.
Um grito ainda mais forte zuniu
em seus ouvidos. Parou. Ouviu. Nada.
Becky já o olhava de modo
estranho. Ela ajoelhou na cama se aproximou. Puxou-o pelo cinto e o acariciou
sobre o tecido. Ele fechou os olhos excitado. Rindo a garota baixou a peça de
roupa apreciando o que revelou.
O grito se repetiu. Forte.
Intenso. Doloroso. E persistiu.
Ele não sentiu Becky dominá-lo
com boca. Ouvia apenas os gritos desesperados de alguém com muita dor. Sem
perceber a empurrou e saiu do quarto procurando pelas roupas. Do bolso da
jaqueta tirou o celular no exato momento que ele tocou.
─ Alo! ─ Disse angustiado.
Os gritos saíram de sua mente
para se tornarem reais do outro lado da linha.
O carro cortou a distância do
apartamento ao hotel em minutos. Mal estacionou e Leigh pulou do veículo
deixando-o ligado na entrada. Os gritos podiam ser ouvidos na recepção. Estava
sem sapatos. Vestia apenas a calça e o pulôver. Os cabelos em desalinho, as
marcas de batom no pescoço denunciavam o que fazia quando foi chamado.
Atravessou os corredores sem se importar com os olhares que recebeu.
Subiu para o quarto andar pelas
escadas.
Ruth se contorcia na cama aos
gritos. Estava segura pelos braços e pernas por três mulheres que tentavam
contê-la para que ela mesma não se ferisse.
Nice falava com a jovem, que não
ouvia. Leigh mandou que a soltasse. Os socorristas chegaram e pretendiam
sedá-la, mas ele se pôs entre eles. Teve que repetir a ordem mais firme. Foi
obedecido a contragosto. Ao ver-se livre, os gritos pararam e Ruth saltou da
cama. Deu dois passos e caiu. No chão Leigh ajoelhou-se ao seu lado e começou a
falar com ela em seu idioma sem tocá-la. Ela se arrastava ofegante como em
fuga. Chorava. As pessoas apenas observavam sem saber o que fazer.
Os paramédicos prepararam uma
injeção de sedativo.
Leigh continuava falando. Ruth se
virou no som da voz dele e o ouviu por um segundo. Então o corpo se contorceu
em tremores por vários segundos. A convulsão durou pouco e quando parou os
olhos ficaram vidrados.
─ Não não não não... ─ Leigh
gemeu pegando-a nos braços. ─ Por favor, Lyubov.. fique comigo. Não posso
viver só... por favor... não vá... não vá...
A figura translúcida da Koryak
surgiu em um canto do quarto.
Apenas Leigh a viu.
─ Tenho que ir. Não há nada aqui
para mim
─ Eu estou aqui! Você tem a mim.
Tem todo o meu amor!
─ Não me é o bastante. Sinto dor
com sua forma de amar.
─ Por favor.... não vá.... não me
deixe.... Não posso ficar sem você outra vez!
Leigh não notava que chorava. Os
médicos a tiraram dos braços dele, colocando-a sobre a maca. Em instante a
examinaram. Os olhos parados, pulso fraco.
Estavam a ponto de aplicar
medicação quando uma mão forte os impediu.
O homem vestido de clérigo não
era alto, mas imponente. Com um gesto afastou todos, tirou a jovem da maca e a
levou de volta a cama. Fechou os olhos parados.
As pessoas recuaram chocadas.
Leigh jogou-se aos pés da cama angustiando.
─ Salastiel não permita
que ela se vá...
─ Apenas o seu amor pode mantê-la
aqui. Nada mais posso fazer.
─ O que faço?
─
Apenas a ame.
Leigh a amava. Mas não era um
amor puro. Era manchado pela desconfiança de uma traição, pelo ciúme de um
inocente, pelo desejo por uma comum, por rancores do passado. Mesmo assim a
amava. Com sua vida, com sua essência. A envolveu nos braços uniu os lábios aos
dela. As lágrimas se misturam. Aprofundou o toque. Uma tênue luz dourada
começou a se formar ao redor dos dois. Saia dele para ela. Ele arquejou com a
dor da partilha, mesmo assim continuou. Deixou parte de sua essência
transcender. Enfraqueceu. Quando Ruth abriu os olhos Leigh fechou os dele.
─ Vocês não podem testemunhar isso. ─ Salastiel deslizou a mão no ar puxando uma cortina do esquecimento sobre os olhos das testemunhas.
Às nove em ponto Becky estava na
sala do minúsculo apartamento que morava. Os presentes serviram perfeitamente.
O vestido vermelho contrastava bem com sua pele morena. Era modelo tomara que
caia com uma fileira de pequenos botões na frente marcando bem a silhueta
delgada. A saia era justa, pouco acima do joelho e tinha uma fenda lateral que
mostrava as pernas quando andava.
Meias, cinta liga e saltos finos
completavam o visual.
Poucas vezes se sentiu tão
desejável.
Olhou para o relógio. Nove e
meia. Ele estava atrasado. Não importava. Esperaria. Sabia que ele viria. Se
preciso fosse esperaria a noite toda.
Passava da meia noite quando,
furiosa, foi para o quarto.
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