CAPÍTULO 09
Estavam no fim de novembro. O
bebê nasceria em junho. O ventre começava a ficar arredondado. Já era tempo de
ter outra consulta com o médico. Leigh prometeu acompanhá-la, mas vivia
desmarcando, sempre com uma desculpa qualquer. O que Ruth não sabia é que ele
temia maiores exames naquela gravidez. Ainda não sabia se havia conseguido dar
a criança seu legado. Quando se dividia com a esposa não sabia se conseguia se
dar a criança.
Não conhecia os ritos e não sabia
como fazer para torná-la sua.
A manhã foi a mais fria desde que
chegaram à cidade. Como de costume Leigh se levantou cedo enquanto Ruth girava
de um lado para outro querendo ficar na cama. Ele a beijou, brincou, mas ela,
sonolenta demais, não reagiu. Ele desceu para a corrida assobiando e dispensou milk-shake
que tomava normalmente.
Ruth pode ouvi-lo sair. Quinze
minutos depois não conseguiu voltar a dormir. Divertida saiu da cama disposta a
seguir a rotina. Iria caminhar. Logo que saiu encontrou a vizinha no jardim.
─ Preciso perder uns quilinhos. ─
Annette disse e a acompanhou. ─ Todos estão mais tranquilos porque você e Leigh
parecem mais felizes.
─ E estamos. Nos acertamos. ─ Sorriu.
Se Annette queria comentar que comentasse o quanto ela e o marido estavam bem.
─ Fizemos as pazes. ─ O ritmo de caminhada não permitia conversar. Logo chegaram
ao fim da rua. Começava uma descida longa e íngreme.
─ Fico feliz em saber Ruth. ─
Annette estacou quando percebeu Ruth parada com as mãos protegendo os olhos do
sol. Ela olhava fixamente para frente. Seguiu seu olhar e reconheceu Leigh.
Pela distância seria difícil definir qualquer pessoa, mas seu corpo forte e
passos firmes o tornavam inconfundível. O sorriso da jovem se alargou quando
acenou para o marido e ele correspondeu. Annette não pode deixar de admirá-la, quando
algo grande, negro e rápido lhe raspou a perna direita.
Pulou para o lado assustada,
soltando um grito de horror com o que se seguiu.
Ruth parou assim que viu Leigh.
Olhava embevecida para o marido admirando-lhe a força e resistência. Acenou
para ele e ele correspondeu. Ficou surpresa quando Leigh baixou a mão em um
gesto brusco e começou a correr em um impulso frenético. Teve um milésimo de segundo
para olhar para o lado, mas não o viu chegar. Sentiu o impacto que a levou ao
chão sem entender o que a derrubou. No segundo seguinte o ombro direito foi
rasgado. Gritou.
Protegeu o rosto e os braços
foram o alvo. Em pânico só conseguia vislumbrar o monstro negro sobre ela
devorando-a. Ouvia gritos a sua volta, mas o som do rosnado era insuportável nos
ouvidos. A dor a dilacerou quando sentiu as patas sobre o ventre. Gritou alto.
E mais alto. Tentou proteger o bebê e o seio foi mordido. Não tinha mais forças
para gritar. A dor no ventre a cegou. Lutava, empurrava o que a atacava sem
sucesso. Ele estava dançando sobre ela, sobre a barriga dela, pisando,
mordendo, matando a ela e ao filho.
Que fosse... Se não pudesse ter o
filho era melhor morrer com ele.
Leigh correu menos do que os
cinco quilômetros que fazia todos os dias. Sempre atravessava a rodovia, mas
imaginar a esposa ainda na cama o fez voltar antes. Diminuiu o ritmo no
retorno. Então a viu. Ela estava parada no alto da ladeira que margeava o
parque. Conversava com a xereta Annette Keller. Sorriu. Apesar da distancia ela
também o reconheceu. Ruth acenou e ele correspondeu. Logo o sorriso se apagou e
um mau presságio o invadiu.. Apertou os olhos tentando descobrir o que
pressentia. Focalizou o cão rottweiler um segundo antes do animal livra-se da
corrente.
Seu grito de alerta não foi
ouvido. Disparou ladeira acima antes mesmo do animal derrubá-la. Correu como
nunca havia corrido na vida. Viu pessoas tentando tirar o cão de cima dela. Não
conseguiam. A fera rosnava e ameaçava morder quem se aproximasse, mas não largava
Ruth. Acelerou ainda mais e há dois metros impulsionou o corpo chutando-o com
toda a força que conseguiu reunir.
O ganido foi curto. O bicho rolou
sobre Ruth e caiu pouco à frente.
Ágil levantou e atacou seu novo
alvo.
Leigh o agarrou pelo pescoço em
pleno salto, girou as mãos quebrando-o em um golpe rápido. Largou o corpo no
mesmo instante em que as pessoas ao redor se aproximavam para socorrer a
esposa. Com um gemido abafado curvou-se sobre ela.
─ Não mexa nela ─ Uma voz
autoritária mandou. ─ Já chamei uma ambulância. ─ Leigh se virou e reconheceu o
chefe Kanston.
─ Ela está sangrando muito. ─ Annette
gemeu angustiada vendo o sangue entre as pernas da jovem.
─ Não... Não! ─ Leigh se
desesperou. Não havia conseguido se dividir. Não havia conseguido dar sua
descendia a criança. Sabia o que aconteceria.
─ Leigh tenha calma, a ambulância
já chegando.
Uma roda de curiosos se formava. o xerife a cobriu com uma toalha grande foi lhe entregue e . Leigh gemeu debruçando-se sobre ela. Não a deixaria passar por aquilo outra vez. Desajeitado pousou a mão sobre a barriga dela e tentou recitar os ritos de partilha. Não lembrava das palavras. Tentou novamente e se atrapalhou. Tremia e quando se deu conta estava chorando. Devagar a pôs nos braços e começou a caminhar. Tinha que levá-la para casa. Para Salastiel.
As pessoas falavam e ele não as
ouvia. Recusou-se a esperar pela ambulância. Repetia apenas para casa, para
casa. Não viu Elton Kanston o guiar até a viatura. Acomodou-se no banco
traseiro sem largá-la. Annette mal sentou no banco dianteiro e o carro
arrancou. O policial avisou o hospital pelo rádio. Quando pararam uma equipe já
estava esperando na entrada. As pessoas se movimentaram para tirá-la, mas Leigh
a manteve nos braços
─ Coloque Ruth na maca Leigh. Vão
cuidar dela.
─ Não, preciso ir com ela para
casa... chamar Sarkivon. Ele sabe o que fazer.
─ Vamos cuidar dela agora Leigh.
Desça. ─ Leigh obedeceu em choque.
Elton o ajudou a pousar a jovem
na maca. Foi levada rapidamente para dentro. Leigh ficou parado uns instantes
sem se mover. Tentava respirar. Olhou para o próprio corpo manchado pelo sangue
da esposa. Tremeu visivelmente apertando as têmporas.
Entrou no hospital gritando o
nome dela. Elton e mais quatro enfermeiros tiveram dificuldade em segurá-lo
enquanto Ruth desaparecia na área de emergência. Theodoro Tisdale chegou
ouvindo o relato da enfermeira sobre os ferimentos da paciente entrou correndo
no setor de emergência.
Leigh ficou andando de um lado
para outro. Annette avisou as amigas. Em poucos minutos, Hope, Patrícia, Nancy
chegaram. Em seguida o pastor Johnson também chegou. Leigh já estava sentando
em uma cadeira e balançava o corpo para frente e para trás angustiado. O pastor
pousou a mão no ombro dele. Leigh se voltou para olhá-lo com os olhos
rasos.
─ Eu não estava com ela. Eu devia
estar sempre perto dela. ─ Baixou a cabeça angustiado ─ Eu tinha que estar
sempre ao lado dela. Sempre. Não estava. Não sei o que fazer. Não lembro as
palavras, não sei como avisar Salastiel. Ela vai perder o bebê outra vez e vai
me odiar ainda mais. Não vai conseguir me perdoar.
─ Apenas reze meu filho.─ O
reverendo aconselhou.
─ Oh Deus! ─ O jovem caiu de
joelhos sem se importar com quem o via ─ Deus! Socorra-me nesta hora de dor. Oh
Deus, concede-me misericórdia mesmo com minhas falhas. Mesmo com meus pecados.
Resguarda minha esposa e minha criança. Proteja-as Senhor! ─ Todos se
espantaram com a força da oração.
Ele continuou, ora alto, ora em
voz baixa. O corpo tremendo. Por fim conseguiu se acalmar. Levantou no momento
que Theodoro voltou. Todos se viraram para o médico em expectativa. Ele se
aproximou devagar.
─ Você está bem? ─ Theodoro
perguntou preocupado. ─ Foi mordido?
─ Minha esposa? ─ Foi um gemido
tenso ignorando a pergunta.
─ Preciso saber se está bem. Foi
mordido?
─ Minha esposa? ─ Repetiu
aprumando o corpo e acenando que não.
Theodoro respirou fundo.
─ As mordidas foram profundas,
mas não houve comprometimento de músculos ou de veias importantes. Por sorte
ela conseguiu proteger o rosto. ─ Falava devagar ─ Ela foi sedada. Precisou de
sangue e está recebendo uma transfusão. Os ferimentos foram tratados. Está
estabilizada e vai ficar bem. ─ O médico hesitou.
─ Minha criança? ─ Leigh tenso. O
pastor colocou a mão em seu ombro.
─ O cão pisou muito no ventre. É
um animal pesado. Este peso e os movimentos provocaram o descolamento da
placenta. Ruth teve uma hemorragia séria.
─ Minha criança está viva? ─
Perguntou tenso. ─ Minha criança vai ficar bem?
─ Com o descolamento não há fluxo
de sangue suficiente. O feto já esta em sofrimento. ─ Tentou ser o mais brando
possível. ─ Vamos induzir o parto tão logo...
─ Induzir o parto? Isso vai
salvar minha criança?
─ Não. É muito cedo. ─ O médico
disse triste ─ A lesão no útero é grande. Apenas centímetros da placenta
continuam presos e não é suficiente para sustentar a gravidez. Os batimentos do
coração do feto estão diminuindo e deve parar em minutos, meia hora talvez.
Vamos esperar para... poder retirá-lo. ─ Um oh de dor escapou de todos. ─ Se ao
menos ela estivesse com vinte semanas em vez de dezessete haveria uma chance.
Mas o bebê ainda é pequeno demais. Deixá-lo dentro da mãe até o último momento
é a melhor forma de... um pouco mais de tempo e... teria uma chance.
─ Ruth está com doze semanas de
gestação. Não dezessete. ─ Leigh disse sem ouvir o médico direito.
─ Dezessete. O feto já está
formado. Dezessete semanas.
─ Doze semanas doutor. ─ Ele
repetiu olhando de lado. Pensava e respirava.
─ Dezessete. Ela está ligada a um
equipamento que nos dá a idade certa do feto. Sua esposa está grávida de
dezessete semanas.
─ Não importa. ─ Balançou a
cabeça. ─ Quero ficar com minha esposa.
─ Pode ficar com ela enquanto...
preparamos tudo.
Theodoro se afastou para levá-lo
até o quarto. Leigh limpou o rosto e o seguiu.
Ruth estava reclinada em uma cama,
coberta por um lençol. Os braços e ombros enfaixados. Os olhos fechados,
molhados de lagrimas e a respiração tensa. Vários fios ligavam o corpo dela aos
equipamentos que ele não entendia. Theodoro o deixou. Olhou para os monitores.
Um traçava uma linha coordenada com as batidas do coração da esposa. Outro ele
precisou se aproximar mais para entender melhor. Um som de líquido bombeado
encheu seus ouvidos. Gemeu reconhecendo na tela as formas do bebê. Perfeito.
Inteiro. Movia-se agitado batendo as perninhas contra parede uterina. Emocionado
Leigh tocou a tela com a ponta dos dedos. Sua criança estava viva. Ela bateu as
perninhas com mais força e a barriga de Ruth tremeu.
Pousou a mão sobre o ventre e
sentiu o leve movimento. Abaixou ao lado da esposa, encostou o rosto ao dela
deixando as lagrimas se misturem. Abriu a mão sobre a barriga da esposa e a beijou
nos lábios três vezes.
─ Eu a tomo como filha. ─
Sussurrou ─ Entrego minha descendência imortal, , meus dons, meu nome e legados
de família. A tomo como descendente e será por todo o sempre princesa dos
Koryak. ─ Abriu ainda mais a mão ─ Por favor fique comigo. Aceite o que lhe
ofereço. ─ Beijou os lábios da esposa profundamente ─ Eu a amo Lyubov. E amo
nossa filha. Com todo o meu coração, com toda a minha essência, com todo o meu
corpo hoje mortal. Eu as amo mais do que ao sol, mais do que a lua, mais do que
nosso povo e nossas leis. Eu a amo nossa criança! ─ Beijou a barriga. ─ A amo.
Tens o poder de se curar. Aceite minha descendência. Por favor não vá.
─ Não quero ir papai. ─ Surpreso
Leigh procurou a garotinha pelo quarto. Olhou a imagem. O bebê se curvava todo
para onde a mão dele estava. ─ Não quero ir. Dói.
─ Não irá. É uma Koryak agora. E
uma Koryak é saudável. Eu a amo minha criança. Te recebo como filha. É minha
princesa. Meu legado. Receba meus dons. Minha força. Minha vida.
Beijou o ponto onde o ventre se
agitava. Na tela o bebê aconchegava-se onde a mão dele estava pousada. Pousou a
outra no mesmo ponto e uma luz tênue surgiu sob elas aquecendo o quarto. Se
dividir por um filho gerava uma paz infinita. Fechou os olhos deixando-se fluir
para elas. O som dos equipamentos médicos tornou-se mais nítido e rítmico. Ruth
abriu os olhos. Tocou o ventre assustada.
A mão do marido cobriu a dela.
─ Ela está bem. ─ Ele murmurou
fraco. ─ Nossa criança está bem.
─ Leigh. ─ Ele pousou os lábios nos
dela.
─ Está tudo bem. Eu fiz certo
agora. Eu fiz. Sei que fiz.
A voz enfraqueceu e ele cambaleou
levemente.
Enfermeiras chegaram para
prepará-la e levá-la ao centro cirúrgico. Uma delas o afastou gentilmente
quando o médico entrou. O Dr. Tisdale olhou os monitores, viu Ruth acordada
tomou o pulso. Estava visivelmente intrigado.
─ Esperem. ─ Ele mandou olhando o
monitor do bebê. Viu um feto ativo, com ritmo cardíaco normal. ─ Como se sente
Ruth? ─ Perguntou.
Ela estava levemente corada e
respirava bem.
─ Estou bem. Meu bebê?
─ Parece bem... ─ Mirou os
equipamentos, as enfermeiras ─ Vamos para a UTI. Quero monitorá-la por mais
tempo antes de operar. ─ Foi rapidamente atendido.
A maca já deslizava pelos
corredores quando ela murmurou um obrigado e ele respondeu com um eu te amo. Ficou
do lado de fora observando ela ser transferida para uma cama com cuidado. Outra
enfermeira passou pelo corredor e pediu para que ele se afastasse da porta.
James, Nancy, Annette, Jeffrey, Patrícia, e o pastor dobraram o corredor quando
ele tentava sair. Estava tonto e fraco. Cambaleou.
─ Leigh. ─ James o ajudou a se
recostar. Jeffrey buscou uma cadeira no fim do corredor e ele sentou e baixou a
cabeça. Forçava o peito a procura de ar.
─ Você comeu hoje? ─ James o fez
sentar novamente. ─ Vou buscar algo para você. O que quer? Um café? Um
sanduíche?
─ Não quero nada.
─ Que tal chocolate quente? ─ A
Sra. Lanfond entregou a ele o que disse.
Abaixou-se para poder olhá-lo.
Ela trazia uma sacola com roupas. Deixou todos irem para o hospital e foi
tratar de coisas práticas. Sempre sabia o que ele gostava o que Ruth precisava
antes de pedirem. Pela primeira vez Leigh enxergou a governanta como realmente
era. Uma senhora amorosa e prestativa preocupada com sua família.
─ Como estão madame e a criança?
─ Vão ficar bem. ─ Sorriu. Abriu
o copo e tomou um gole. A bebida o aqueceu. Acho que já é hora de nos chamar de
Leigh e de Ruth, Nice. ─ Tentou sorrir para ela. ─ Obrigado. Obrigado por tudo.
Ruth ficou sonolenta com o ritmo
dos equipamentos da UTI. As enfermeiras e o Dr. Tisdale permaneceram ao lado
dela por mais de uma hora acompanhando os dados fornecidos e pareciam
satisfeitos. Ele sorriu para ela por sob a máscara.
─ O pior passou. Você e seu filho
estão indo muito bem. Tente dormir agora.
A paciente deu um meio sorriso e
adormeceu em seguida. Theodoro ainda ficou algum tempo observando-a. Verificou
novamente os monitores e saiu da UTI. Leigh levantou logo que o viu.
─ Ela está estável. ─ Disse para
todos de uma vez. ─ Não vamos intervir. Pelo menos por enquanto.
─ Minha criança? ─ Perguntou
sério.
─ Viva e estável. ─ Sorriu
confiante. ─ Nos primeiros exames as condições eram críticas. Mas algo
fantástico aconteceu e...─ Balançou a cabeça como se não acreditasse. ─ ... Mãe
e filho estão bem. Vou mantê-la na UTI até senti-la realmente fora de perigo.
Ruth deixou a UTI na tarde
seguinte. Leigh passou a noite no sofá do hospital, mas estava no quarto quando
ela chegou. Segurou a mão dela enquanto a transferiram para a cama. Depois que
ficaram sozinhos a beijou nos lábios e para surpresa dela na barriga. Reclinou
a cabeça sobre o ventre, encostou os lábios e falou com o bebê bem baixinho.
Parou. Ouviu e respondeu. Beijou novamente a esposa com um sorriso largo.
─ Nossa criança está bem. Ela
disse que pode parar de se preocupar que vai dar tudo certo. Disse também que
não foi sua culpa. ─ Aproximou os lábios dos dela.─ Disse que eu devo dizer que
a amo todos os dias pelo resto da minha vida.
─ Você... você a ouve? ─ Ruth
perguntou cansada e intrigada.
─ Ouço. E a vi também. No futuro.
─ Ruth se surpreendeu ─ Não posso contar detalhes. Mas é...uma garotinha
linda... linda.
─ Uma menina? ─ Perguntou
emocionada.
Meninas eram raras entre os
Koryaks.
─ Sim, uma menina. Linda como a
mãe. Ela tem seus olhos.
─ Você realmente a ouve? ─ Concordou
com um aceno ─ Então você a aceitou como de sua linhagem?
─ Sim. Ela é minha. É uma verdadeira
Conanlescaut.
─ Não há dúvida? Isso quebra os
vínculos dela com...ele?
─ Talvez não exista vinculo. ─ Sentou
na beirada da cama. ─ Lyubov, você está no quinto mês de gestação. Não no
terceiro.
─ O que?
─ Está grávida de dezessete
semanas.
─ Mas foi há doze que...
dezessete?
─ Dezessete!
─ Então quem é...Leigh, como é
possível?
─ Ruth Coombs engravidou há
dezessete semanas ─ Beijou as mãos dela novamente ─ Entende?
─ Não.
─ Dezessete semanas. Ruth Coombs.
Anton Leigh.
─ É ...possível? Eu...ela... é
possível? ─ A compreensão chegou aos poucos.
─ Não sei. Mas isso explica tudo.
─ Leigh precisamos saber. Não
podemos viver com essa dúvida.
─ Para mim não importa. Se for
dele ou não, não importa mais. Ela é minha agora. Eu a aceitei e a amo. Tem
minha descendência e meu nome de família. E minha e ele... que não se atreva a
se aproximar de vocês duas. É nossa. E o presente que Salastiel disse que
teríamos neste ciclo. Você vai amá-la menos se...
─ Não. Não vai mudar o que sinto.
Precisamos saber por que se agora você pode ouvi-la e houver vínculos entre
eles, talvez ele também possa.
─ Não temos como descobrir isso.
─ Nós não... nós... ela não tem
parte biológica sua.
─ Isso não muda o que sinto.
─ Sei que não. Mas, se não for
dele, então não terá parte biológica dele também.
─ No que está pensando?
─ Diga ao Dr. Tisdale o que
aconteceu. Peça um exame de DNA.
Leigh foi conversar com o Dr.
Tisdale no consultório, deixando Ruth aos cuidados de Nice. O médico não
estranhou a visita e parou o que fazia para recebê-lo. Apontou a cadeira.
─ Eu vim agradecer doutor. ─ Disse
sentando.
─ Não precisa agradecer. O que
aconteceu com sua esposa é raro e estou tão feliz quanto você que tudo esteja
bem. Mas se veio até aqui buscar explicações, desculpe não as tenho. O que
notei foi que a cicatrização de Ruth é muito boa e com certeza isso ajudou a
manter a gravidez viável.
─ Eu não vim por isso. ─ Hesitou.
─ Vim porque quero saber com certeza quanto tempo Ruth tem de gestação.
─ Deixe-me ver. ─ Puxou a ficha
da paciente no computador. ─ Os exames demonstram que ela está iniciando o
quinto mês. Para ser mais exato dezessete semanas e três dias.
─ Isso é confiável?
─ Plenamente confiável. É muito
comum este tipo de engano.
─ Que tipo de engano?
─ Perder-se nas datas. A maioria
das mulheres não anota as datas de seus ciclos. Quando engravidam tendem a
errar umas semanas. Isso sempre gera dúvidas quanto ao tempo de gravidez.
─ Ela engravidou em setembro?
─ Não. O exame de ultrassom nos
dá a data exata considerando todas as informações de maturação da gestação.
Hoje acertamos com precisão suíça a data de concepção. Pelos cálculos sua
esposa concebeu entre os dias 30 e 31 julho. E o bebê deve nascer até 23 de
abril.
Leigh respirou tenso.
─ Não há dúvidas? ─ Perguntou
rouco.
─ O que exatamente quer saber? ─
Leigh encarou o médico.
─ Ruth e eu... nós sempre nos
precavemos. Eu era um estudante e não era hora de termos filhos. ─ Respirou
tomando coragem. ─ Ruth foi violentada. ─ Contou de vez ─ Até agora pensávamos
que essa gravidez fosse fruto dessa violência. Isso foi há doze semanas e... Se
está grávida há mais de doze semanas...
─ Entendo. Posso lhe afirmar que
ela está grávida de dezessete semanas, mas se quer realmente ter certeza, e
Ruth permitir, podemos fazer um teste de DNA.
─ Foi ela que pediu. Eu disse que
não faria diferença, mas ela quer saber.
─ Procure este laboratório, colha
uma amostra de sangue. ─ Começou a anotar Eu mesmo vou coletar material do bebê
para compararmos.
Estendeu o papel para ele.
Quando Ruth teve alta dois dias
depois e Leigh a carregou para o quarto cuidadosamente. Aparentemente estava
tudo bem, mas a paciente precisava de repouso absoluto. Havia instruções claras
do médico de retornarem em uma semana.
Leigh ficou mais relaxado. Ele
deixou de lado as roupas formais e adotou jeans e camiseta. Por algum motivo,
que não explicou a ninguém, quis aprender a cozinhar e por isso deixava Ruth em
uma poltrona confortável na cozinha e enfiava-se na frente do fogão provocando
risos na esposa e na governanta com suas misturas. A melhor parte deste
aprendiz era a facilidade com a qual ele picava os legumes. Era ágil no
manuseio de facas de qualquer tamanho. Saiu de casa uma única vez para fazer
compras. Voltou abarrotado de roupas de grávida e coisas de bebe.
O quarto que Ruth usava começou a
ser transformado no quarto do bebê.
Uma semana depois no retorno o
Dr. Theodoro comprovou após um novo exame de ultrassom que ambas estavam bem.
Leigh acompanhou de perto.
O médico riu admirado em ver como
o feto se agitava ao tom de voz de Leigh.
─ Seu filho já é agarrado ao pai,
Ruth. Você vai ter que se conformar.
─ Ao pai... Já tem o resultado?
─ Ainda não. Mais alguns dias.
Demora um tempo. ─ Continuou o exame.
─ Já disse que não importa. ─ Leigh
falou observando maravilhado o bebê na tela. ─ É minha criança e nada vai mudar
isso. ─ Sorriu para a esposa ─ Minha criança.
─ Leigh...temos que saber...
─ O sangue não vai mudar isso
Ruth.─ Sorriu feliz. ─ Olhe. É linda.
─ Querem saber o sexo? ─ O médico
perguntou terminando.
─ Ah... eu já sei. É uma menina.
É a minha filha. ─ Leigh orgulhoso.
A recepcionista do hospital
sorriu quando o homem atraente parou no balcão. Deveria ter uns trinta e tantos
anos, era loiro, alto e com olhos cor de mel.
─ Bom dia. ─ Cumprimentou mirando
as mãos grandes. Nada de aliança.
─ Bom dia. Gostaria de ver o Dr.
Tisdale. ─ O sorriso dela morreu. Procurando um obstetra só podia ser casado e
futuro pai.
─ O Dr. Tisdale não está
atendendo hoje. Se quiser marcar uma consulta para sua esposa temos vaga para o
próximo mês. ─ Sugeriu educada.
─ Não tenho esposa, mas preciso
falar com ele hoje.
─ Infelizmente ele realmente não
está.
─ Pode me dizer onde encontrá-lo?
Ou dar o número dele?
─ Desculpe não posso fornecer o
número, mas se me disser do que se trata posso passar o recado. Algum familiar
é paciente dele?
─ O assunto é particular. ─ Sorriu
mais largamente.
─ Se não é paciente e se não tem
alguém que seja paciente, então infelizmente não posso lhe dar o número. ─ O
rapaz tirou uma carteira do bolso e abriu para ela sobre o balcão. A jovem
recuou um pouco surpresa com o que leu. ─ Só um momento, por favor. ─ Anotou
algo em um pedaço de papel. ─ Quer ligar daqui?
─ Sabe onde posso encontrá-lo?
Prefiro falar pessoalmente em vez de ligar.
─ Eu o ouvi dizer a esposa que a
encontraria na casa dos Lescaut. Há um almoço lá hoje. Isso foi bem cedo,
depois que terminou o plantão aqui.
─ E você sabe onde é a casa...
dessas pessoas?
─ Tenho o endereço. ─ Dedilhou no
computador e passou a informação.
─ Muito obrigado. ─ Agradeceu
pegando o papel.
─ Ela vai se chamar Olga!
Ruth contou animada aos amigos no
almoço que celebrava um mês de casados. O ventre já estava suavemente delineado
e ela vestia um belo conjunto de calça e bata. Uma roupa muito diferente das
que usava logo que chegou. O dia estava frio, mas com sol e o jardim cheio de
pessoas sorridentes.
Leigh preparava o churrasco perto
da piscina enquanto Ruth mantinha a mesa abastecida. As crianças brincavam de
um lado para outro. Os adolescentes testavam o moderno aparelho de som. A
música era alta e as meninas se divertiram ao ver o dono da casa balançando o
corpo desajeitado no ritmo de uma música pop. A esposa se juntou a ele. Os
beijos trocados encantaram quem acompanhou a história do casal.
Nancy se aproximou do marido
sorridente.
─ É bom vê-los bem. ─ Comentou
vendo Ruth rir do marido dançando ─ Eles nos assustaram esses dias.
─ É. Mas acho que agora se
acertaram. Ele mudou um bocado. Na verdade, ele relaxou. ─ Sorriu para a
esposa.
─ Annette tem uma queda por ele. ─
Ela disse rindo da expressão da cunhada.
─ Já percebi. Vem vamos evitar
que minha irmã faça alguma besteira. Ela já bebeu demais. ─ Caminharam até a
churrasqueira. Leigh começava a preparar um prato para Annette. Ruth se afastou
para socorrer uma criança que caiu na piscina fria. ─ O cheiro está ótimo.
─ Espero que o gosto
também. Querem arriscar?
Leigh ofereceu alguns dos filés
que dourava na chapa.
─ Claro.─ Nancy aceitou
observando Annette. Ela já havia bebido e olhava Leigh com um sorriso bobo. ─
Annette, você sabe quem é aquele?
Nice atendeu a campainha com um
sorriso. O homem loiro a cumprimentou educado e perguntou pelo doutor Tisdale.
─ O doutor ainda não chegou. Por
favor entre. O almoço é no jardim.
─ Senhora não fui convidado para
o almoço, mas como tenho pressa em falar com o doutor eu vim. Posso esperá-lo
aqui fora.
─ Quem é Nice? ─ Ruth perguntou
vindo da cozinha carregando duas bandejas.
─ É um amigo do Dr. Tisdale madame.
─ Nice respondeu.
Ainda não tinha como tratá-la
pelo nome.
─ Desculpe ter aparecido sem
convite. Mas eu realmente preciso conversar... ─ Parou observando a jovem.
Longos cabelos negros! Olhos azuis. Grávida.
─ Entre, por favor. ─ Ruth disse
com um sorriso largo. ─ Meu médico preferido ainda não chegou. Junte-se a nós. ─
Disse tentando equilibrar o que carregava. A governanta foi ajudá-la. ─
Theodoro não deve demorar. Por favor, feche a porta.
─ Senhora. ─ Elas não o ouviram.
Foi deixado no hall.
Fechou a porta e entrou na casa.
Havia sido convidado, então não estava incorrendo em infração alguma. Seguiu as
mulheres passando por um corredor largo e depois atravessou um salão com olhos
fixos na movimentação das pessoas no quintal visível através da parede de
vidro. Quando chegou às portas corrediças parou intrigado com o que viu de
relance enquanto andava.
Virou-se devagar empalidecendo
enquanto observava melhor o ambiente.
Era um salão de armas. Havia
armaduras, espadas, machados floretes, lanças, massas, arcos com flechas,
escudos, capacetes, bestas e diversos tipos de lâminas. A maioria com cabos
adornados com ouro e pedras. Ele não conseguiu deixar de admirar uma armadura
oriental trabalhada em finas tiras de aço e couro.
Aproximou-se da vitrine de vidro
repleta de punhais.
Procurou por um modelo
específico. Uma faca octogonal com lâminas largas com quinze centímetros de
comprimento alternando serrilha e corte liso. O desenho não lhe saía da cabeça.
Procurou até encontrar a peça exposta em um local de honra.
─ É uma peça linda, não é? ─
Alguém perguntou a seu lado. Se virou se deparando com uma mulher alta de
longos cabelos ruivos. ─ Está procurando meu marido?
─ A senhora é?
─ Sou Patrícia Johnson, esposa de
Theodoro Tisdale. ─ Estendeu a mão amigável. ─ Me disseram que está procurando
meu marido.
─ Estou. Ele está aqui? ─
Retribuiu o cumprimento sem se apresentar.
─ Não. Foi atender uma emergência.
Deve voltar logo porque a paciente já deu três emergências essa semana, mas
ainda falta um mês para o bebê chegar.
─ Sendo assim vou esperar. ─
Olhou a peça novamente. ─ É mesmo uma peça diferente. A senhora sabe o que é?
─ Um tipo de faca própria para
sacrifícios, foi o que me disseram. O dono da casa é russo. Tudo o que está
aqui é herança de família. O senhor é? ─ Perguntou curiosa. Antes que o rapaz
pudesse responder a filha chegou correndo e a avisou que tinham jogado o irmão
na piscina fria. ─ Eu volto já. Me dê um minuto por favor.
Saiu apressada. O homem não ficou
ali. Seguiu para o jardim.
Parou próximo a porta. Observou
cada rosto. Sabia o que procurava.
Tinha certeza que era capaz de
reconhecê-lo. Viu a governanta que lhe abriu a porta. Viu a jovem que
reconheceu como a dona da casa. Linda. Jovem. Grávida. A seguiu com o olhar até
ela se aproximar do rapaz que cuidava da mesa de legumes e carnes próximo a
churrasqueira. Riram. Dançaram. Beijaram-se.
Ela se afastou para ajudar a tal
Patrícia com o filho. Deu alguns passos para ver melhor. Quando o rapaz se
virou instintivamente levou a mão ao coldre. Conseguiu se conter a tempo. Uma
sensação de vitória o tomou. Sua busca havia terminado.
─ Espero que o gosto também.
Querem arriscar? ─ Leigh ofereceu uns dos filés que dourava na chapa.
─ Claro. ─ Nancy aceitou
observando Annette. Ela já havia bebido e olhava Leigh com um sorriso bobo. ─
Annette, você sabe quem é aquele?
─ Não tenho ideia. ─ Annette
disse reparando no homem que Nancy apontou. ─ É algum conhecido seu Leigh?
─ Não. ─ Leigh respondeu. Encarou
o rapaz achando o rosto conhecido, mas sem lembrar de onde. ─ Com licença, vou
ver quem é. ─ Caminhou até o rapaz com um sorriso. Enxugou as mãos antes de
estender ao visitante. ─ Olá, sou Leigh Lescaut.
O rapaz olhou para a mão
estendida, depois para o rosto dele. Por um segundo Leigh viu fúria nos olhos
cor de mel. Rápido o rapaz disfarçou e aceitou o cumprimento.
─ Prazer, Dennis Blake. ─ Disse
analisando a reação.
─ Prazer. ─ O tal Lescaut
respondeu sem se abalar. ─ Posso ajudá-lo?
─ Eu estou procurando o Dr.
Tisdale. A esposa dele me disse que ele volta logo. Espero não atrapalhar se o
esperar aqui.
─ Claro que não. Amigo de
Theodoro é amigo meu. Por favor, fique à vontade. Temos bebida naquela mesa. E
eu estou com uns filés quase prontos na churrasqueira. Só aviso que é a
primeira vez que faço um churrasco então irá se arriscar.
─ O aroma está ótimo. ─ Disse
forçando-se a ser simpático. Olhar para aquele homem lhe dava náuseas. Pensar o
que ele tinha feito com sua Penélope. ─ Mas não corro riscos desnecessários. ─
O viu franzir a testa intrigado. ─ Só não estou com fome. Obrigado.
─ Venha comigo então. Junte-se
aos outros. ─ Caminharam lado a lado.
Dennis olhou ao redor analisando
as pessoas. Gente comum.
Será que sabiam que aquele homem
era um assassino cruel? Por que não eram capazes de reconhecer um criminoso? Há
meses o retrato falado foi amplamente divulgado pelo país. E o cúmplice? Onde
estaria o cúmplice de quem não tinham a menor pista? Passou por um grupo de
pessoas e Lescaut o apresentou.
Ele apertou a mão de cada homem
interessado. Tinha certeza que entre eles estava o cúmplice das atrocidades.
Observou a jovem grávida. O ventre dela ele não dilacerou. Por que assassinos
seriais sempre pareciam pessoas comuns? Como perceber que se convivia com um
monstro se eles mantinham tão bem a fachada de homens de família? Aceitou a
cadeira oferecida em uma mesa e ficou por perto. Observava. Precisava de algo
que pudesse comprovar suas suspeitas.
─ Sr. Lescaut posso colocar um CD
com as minhas músicas?
Uma garota perguntou se
aproximando cheia de charme juvenil. Balançava o pequeno objeto agitada. Ela e
a amiga olhavam encantadas para o dono da casa.
─ À vontade. ─ Concordou e as
garotas dispararam em direção ao aparelho.
─ Ah, não Leigh você não sabe o
que essa menina ouve! ─ Uma mulher falou.
As seguiu gritando o nome da
garota.
O assunto não o interessava.
Observava tudo. O tal Lescaut trabalhava rápido cortando legumes e carnes com
agilidade. Manuseava facas com destreza. Viu Patrícia Johnson beijar um homem e
apontar para ele. O marido. E se o médico fosse o cúmplice? Pelo jeito eram
amigos próximos. Enquanto o médico, a esposa e a dona da casa se aproximavam e
ele pensava no que dizer, três coisas aconteceram ao mesmo tempo: O som de um rock
romântico encheu o ambiente; Leigh Lescaut deixou a faca escorregar sobre os
dedos; A jovem esposa gritou fazendo a atenção do médico se desviar para o
ferido.
Foi Dennis que tirou um lenço do
bolso e pressionou no ferimento. Os olhos dos dois se encontraram. Leigh não
entendeu a expressão de triunfo do estranho.
─ Deixe-me ver Leigh ─ O médico
pediu afastando Dennis.
─ Não foi nada. ─ Ele disse
ignorando os cortes.
─ Nada? Cortou os quatro dedos. E
fundo. ─ O médico disse levantando o tecido encharcado de sangue. ─ Vai
precisar de pontos.
─ Leigh...─ Ruth estava ao lado
do marido assustada.
─ Está tudo bem. ─ Tentou sorrir.
─ Não preciso de pontos. Basta um curativo.
─ Precisa de pontos. ─ Theodoro
reafirmou jogando o lenço ensopado de sangue na mesa. Pegou outro do bolso e
enrolou na mão ferida ─ Tem sorte de eu ter trazido minha maleta. Vem,
precisamos lavar isso. ─ Virou-se para Dennis ─ Minha esposa disse que quer
falar comigo. Volto já.
─ Não se apresse. ─ Disse
simples. As pessoas se afastaram deixando-o ali.
O lenço com sangue ficou sobre a
mesa. A governanta foi avisada pela dona da casa quando se cruzaram no caminho.
Dennis não hesitou. Pegou o lenço pela ponta limpa, o enrolou em pano também limpo
que estava sobre a bancada e colocou no bolso. Disfarçou e seguiu para a saída.
A governanta o parou.
─ O senhor não vai falar com o
Doutor?
─ Ele está ocupado. O procuro
amanhã.
Tranquilamente foi embora. Tudo o
que precisava estava no bolso do casaco.
─ Pronto. Oito pontos. Isso o
torna meu paciente. ─ Tisdale brincou.
─ Obrigado Theodoro. ─ Estavam sentados
à mesa da cozinha. Leigh respirou fundo e sorriu para a esposa. A puxou para o
colo e a beijou. ─ Estou ótimo. Pode tirar esse ar preocupado da sua carinha
linda. Papai está bem, querida. ─ Ele disse tocando a barriga da esposa com a
mão ferida ─ Sua mãe fica nervosa à toa.
─ Foi a música? ─ Ruth disse sem
pensar. ─ Era a sua música não era?
─ Não foi nada. ─ Seco. A beijou
novamente ─ Estou bem. Já passou.
─ Tenho algo para vocês. ─
Theodoro tirou um envelope do bolso e entregou a Leigh. Os dois jovens
empalideceram levemente.
─ Você leu? ─ Leigh perguntou
girando o papel na mão boa.
─ Não. O que está aí pertence
apenas aos dois.
Levantou, pediu licença e se
retirou. No jardim procurou homem que o estava esperando por ele e a Sra.
Lanfond informou que ele havia ido embora e que o procuraria no dia seguinte.
Antes de ir para a casa de Leigh passou no laboratório para pegar o resultado
do exame de DNA. No caminho uma emergência o fez voltar para o hospital e lá
ficou sabendo que um detetive da central de homicídios de São Francisco o
estava procurando. Ficou surpreso e curioso. Agora teria que esperar até o dia
seguinte.
Dennis Blake chegou ao prédio de
perícia em São Francisco cantarolando. Passou pelos corredores sem pressa.
Cumprimentou quem encontrou pelo caminho até chegar à sala de exames. Bateu no
vidro e o técnico o deixou entrar com uma careta.
─ Não vou nem perguntar o que o
trás aqui essa hora. ─ O rapaz começou dizendo ─ Para quando quer o resultado? ─
Estendeu a mão enluvada.
Dennis riu, tirou do bolso o
lenço ensanguentado entregando a ele.
─ Para ontem.
─ Certo. E com qual amostra devo
comparar? ─ Olhou o lenço.
A quantidade era boa. O exame não
seria difícil.
─ Amostra 3245.9621
─ Está brincando? ─ Colocou o
lenço embaixo de uma lupa ─ Tem um suspeito? ─
Análise a amostra. Estarei em casa esperando o resultado.
Deixou o prédio como entrou.
Cantarolando.
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