sexta-feira, 10 de julho de 2020

CAP 06

CAPÍTULO 06

 

O casamento aconteceu em uma manhã de sábado numa cerimônia simples na capela do Pastor Johnson. Como foi logo após o serviço religioso, as famílias da comunidade estavam presentes. 

Leigh declarou os votos sério. A mão não estava firme quando colocou a aliança de ouro incrustada de pequenos brilhantes no anular esquerdo da jovem esposa. 

Ruth fez os votos em voz baixa. Também tremia quando colocou a aliança grossa de ouro em Leigh. Ouviram as bênçãos do clérigo de mãos dadas. 

Ao final o pastor sorriu e anunciou.

─ Eu os declaro marido e mulher. ─ Sorriu. ─ Pode beijar a noiva.  

Leigh a encarou. Desprendeu o fino véu azul transparente que cobria o rosto da noiva. Com cuidado soltou o lenço que ocultava os longos e negros cabelos adornados com finos fios de ouro. Ruth baixou os olhos. Aquele gesto significava que ela tinha autorização para não mais usar o véu. Uma indicação de amor e confiança absoluta nela como esposa. Ele tocou os lábios dela com a ponta dos dedos.

─ Seu olhar é a porta do meu céu. ─ disse alto e claro. ─ Eu te amo Lyubov. 

A beijou lenta e docemente. Ruth se aconchegou a ele e correspondeu sem notar. Quando se separaram houve aplausos. Sorrindo deixaram a igreja sob uma chuva de arroz e votos de felicidade. Foram direto para casa. 

 

 Sabiamente a Sra. Lanfond foi para o próprio chalé nos fundos. Apesar dos protestos da noiva, Leigh a carregou para dentro de casa, dizendo que era apenas para dar sorte. Ela riu até o momento em que foi colocada no meio da sala. 

─ Obrigado por ter tirado o meu véu.

─ Você é digna de minha confiança. ─ Declarou sério. 

Sem que esperasse o marido ajoelhou-se. Pegou as mãos dela. Beijou o punho direito, depois o esquerdo, virou, beijou a palma esquerda depois a direita, juntou ambas as mãos e descansou o rosto sobre elas por alguns segundos.

Beijou-as novamente no dorso.

Ruth arregalou os olhos surpresa. Por aquele gesto Leigh se tornava seu servo.

─ Rogo seu perdão pelas vezes em que duvidei disso. ─  Levantou. ─ Lyubov, eu a quero. Nós podemos coabitar. ─ Com cuidado a puxou para os braços e a beijou. Ruth não correspondeu. ─ Podemos ser felizes juntos, como nossas lembranças nos dizem que fomos um dia. 

Ela sabia o que ele queria. Ruth pensou por um momento em ceder. Já tinha a promessa de que a levaria até a matrioska na hora do parto. Poderia então consumar a união e viveriam um casamento real. Juntos se fortaleceriam e teriam mais chance de derrotar o inimigo de todos. Lembrou do filho que carregava. Leigh não o amaria e o afastaria dela. Ele era mais importante do que qualquer batalha.

─ São apenas lembranças que não são minhas. E, as que me pertencem são dolorosas demais. ─   Afastou-se. 

Uma nuvem de tristeza encobriu os olhos dele. 

─ Diga-me o que pode me redimir. ─ Disse triste.

─ Quero apenas ter meu filho em paz, meu senhor...

Acenou concordando e se afastou deixando-a ir para o quarto.

 

Na semana seguinte Ruth fez a primeira consulta com o Dr. Tisdale. Leigh pediu que a governanta a acompanhasse e as levou até a porta do consultório. Voltou uma hora depois para apanhá-las. Não fez qualquer pergunta sobre o que o médico havia dito. Ruth pediu para pararem na farmácia e ela mesma desceu para compras as vitaminas receitadas. O marido ficou dentro do carro observando-a pelo vidro enquanto ela procurava o que precisava na prateleira. 

─ Pois não? Posso ajudá-la? ─   O atendente perguntou fazendo-a se virar. 

Era um rapaz jovem. Tinha os cabelos curtos em um tom de castanho claro, com franja que o deixava com ar de moleque. Os olhos eram amigáveis e o sorriso fácil. 

Sem perceber Ruth sorriu. 

─ Céus eu vi o paraíso. ─  Ruth arregalou os olhos sem jeito e sem querer soltou uma leve risada. ─ Muito prazer, sou Saul Tisdale. ─ O rapaz disse estendendo a mão. Ruth recuou. ─ Ok. Desculpe. Pode me dizer o que precisa?

─ Isso ─ Estendeu a receita para ele. O rapaz pegou e em poucos minutos trouxe o pedido em uma pequena cesta. Fez questão de acompanhá-la até o caixa tagarelando sobre as ofertas da farmácia. Sorriu quando entregou o pacote.

─ Não quer me dizer seu nome? Seu telefone? Adoraria te convidar para sair.

─ As vitaminas são para mim. ─ Disse simpática.

─ Ahmm Ohhh! Certo! Parabéns então. ─ Ruth riu de novo.

─ Obrigada. ─  Recebeu o pacote e saiu ainda sorrindo da expressão do rapaz. 

Leigh dirigiu em silêncio até em casa. Descontraída Ruth falou sobre o convite que receberam para o piquenique da comunidade. Perguntou se iriam, mas ele não respondeu. Ao chegarem o marido desceu sem dar atenção a elas entrando em casa com passos duros. Ruth não entendeu.

─ Ele a viu conversando com o rapaz senhora. ─  Ruth se voltou surpresa.

─ Que rapaz?

─ O rapaz da farmácia. Ele viu e não gostou.  

─ O rapaz... ele apenas me atendeu.

Entraram em casa. A porta do escritório estava fechada. Era lá que Leigh passava todas as manhãs desde o casamento.

─ A senhora sorriu para ele. ─ Nice continuou com ar de reprovação.  

─ O que tem isso demais? Leigh tirou o meu véu. Tenho permissão para...

─ Sorriu como há muito tempo não sorri para monsieur. ─ Nice pegou as vitaminas. ─ Seria bom se sorrisse para monsieur. Ele a ama.

─ Ah sim ele me ama. ─ Soltou irritada. ─ Se realmente me amasse teria paciência, esperaria e não estaria passando horas com outra mulher. Onde acha que ele vai todas as tardes Sra. Lanfond?

─ Não creio que monsieur passe as tardes com outra mulher. ─  Saindo da sala completou ─ Madame deveria sorrir mais para monsieur.  

 

Ruth desceu cedo para a caminhada que o médico recomendou. Leigh já estava na cozinha preparando o que sempre tomava antes de se exercitar. Por hábito deixava o café da manhã para a volta e assim o partilhava com a esposa. 

─ Já levantou? Não se sente bem? ─ Perguntou preocupado largando o copo.

─ Não. Pelo contrário estou ótima. ─  Sorriu para ele. O gesto o surpreendeu ─ Eu tenho que caminhar também. Faz bem para o bebê. Posso ir com você?  

─ Eu corro. Não vai conseguir me acompanhar.

─ Claro que não. ─  Riu leve ─ Mas vou andar. Você se importa?

─ Não. ─  Foi terminar a bebida ─ Quer?  

─ O que é? ─ Perguntou aceitando o copo que ele oferecia.

─ Quer mesmo saber? ─ Perguntou tomando um gole grande. ─ Posso dizer que é quase uma bebida dos deuses...

─ É? ─  Provou devagar. Riu ─ É só milk-shake seu bobo!

─ De chocolate. ─  Tomou todo o resto ─ A melhor bebida que já inventaram.

─ Você ainda só come por prazer? ─ Perguntou séria.

─ Não. ─ Respondeu. ─ Sinto fome. Senti muita fome enquanto vivi em cativeiro. Ali, assumindo minha condição de reles mortal vi o quanto a humanidade sofre quando não tem o que comer. Aprendi muito com isso.

─ O que aprendeu?

─ Principalmente a não desperdiçar ─  Apontou o copo dela ─ Vai tomar?

─ Ah, vou sim!  

Bebeu devagar. Lambeu os lábios tirando todo o creme. Quando levantou os olhos para Leigh esperando ver um sorriso encontrou dor. 

─ Leigh...

─ Você se lembra da primeira vez que me beijou? ─ Murmurou aproximando-se. Tirou o copo dela e o colocou na bancada.  

─ Não...eu... ─  Emudeceu. Ele estava perto demais.

─ Você estava sentada na calçada em frente a biblioteca. ─ Tocou os lábios dela com a ponta dos dedos ─ Você estava com fome. Havia passado o dia anterior sem coragem de se aproximar dos marinheiros... e fazer.... o que a tinham mandado fazer para poder comer. Você lembra? ─ Ela acenou que sim. Leigh envolveu o rosto dela com as mãos. ─ Então você ficou me olhando comprar um nee goo na rua. Comprei um para você e sentei ao seu lado. Conversamos enquanto você comia e... então você me beijou assim. ─  Tocou de leve o rosto dela com os lábios. Afastou-se. ─ Foi o beijo mais valioso que já recebi na vida.

─ Leigh...

─ Eu a amei naquele momento Lyubov. ─ Afastou-se ainda mais ─ A amei completamente, pois já a amava desde sempre. Apenas não sabia disso antes. Este ciclo me deu a chance de entender o que sempre sinto por você. O triste é que tenho que esperar outro para poder viver isso. As lembranças de Leigh e Ruth juntos.... o prazer, o amor, a cumplicidade.... me preenchem e me fazem feliz. E será com elas que irei me contentar quando você partir e me esquecer.

─ Leigh...  

─ Pena que elas não causaram em você o mesmo efeito que causaram em mim. Mas você foi bem clara. São apenas lembranças que não são suas. ─  Sem esperar por ela deixou a casa. Começou a corrida logo no jardim. Ruth saiu para a caminhada lembrando a vida de Ruth Coombs.

 

Ruth Coombs tinha dezesseis anos quando fugiu com Kevin, um homem com mais de trinta. Isso pouco importou, assim como não importou quando ele fingiu ser seu pai e a emancipou para que pudesse viajar. Naqueles dias conturbados de sua adolescência o que importava era onde seria a próxima balada, o próximo agito, onde descolaria a próxima dose. Usava os cabelos curtos, roupas justas e sensuais e maquiagem carregada.

Kevin a achava linda. Ele lhe fornecia a droga que gostava e não a enchia com sermões de certo e errado como seu pai, reverendo luterano fazia. Em dois meses conheceu as Ilhas Paracel, Pingtung, Taipei e por fim Macau. 

E foi em Macau que Kevin a trocou por alguns quilos de cocaína.

Não adiantou gritar, espernear, ele a deixou lá. Ficou presa sem drogas e sem comida por uma semana. Foi avaliada pelos chefes e cedida como prêmio para os bons funcionários. Até que concordou em atender os marinheiros que vinham de todos os cantos do mundo. Recebeu roupas que revelavam a profissão que exerceria dali para frente, foi alimentada parcamente e colocada no porto sob a vigilância das outras garotas. Conforme os marinheiros chegavam as meninas iam se ocupando. 

Ruth queria fugir. Não iria se tornar uma prostituta. Podia ligar para casa e pedir ao pai que mandasse seu passaporte e uma passagem de volta a Inglaterra. Quando haviam apenas duas garotas vigiando-a trocou algumas palavras com um marinheiro e depois o seguiu de longe. Ao passar pelas olheiras disse que o cara queria ir em um motel próximo. As duas não se incomodaram e quando conseguiu despistá-las fugiu. 

Em uma rua lateral, assustada ligou para casa apenas para ouvir a madrasta dizer que o pai havia morrido em um acidente de carro há mais de um mês. 

Que ela estava por conta própria.   

Sem destino andou pelas ruas. Dormiu em um banco de praça naquela noite. Temia que os donos dos prostíbulos a encontrasse, assim ficou longe do porto e de onde os marinheiros costumavam frequentar. No dia seguinte refugiou-se na biblioteca. 

Houve um tempo, antes da morte da mãe, que seus amigos eram os livros. No fim da manhã a bibliotecária a pôs para fora. Sentou na calçada assustada e com fome. Sentiu que alguém passou por ela e foi até a barraca em frente onde comprou um nee goo. Desviou os olhos. Estava faminta. Desejava muito um daqueles bolos chineses feitos com coco e... um nee goo surgiu a sua frente. O rapaz falava uma língua que ela não entendia, mas isso não a impediu de aceitar o doce. Ele sentou ao lado dela e continuou falando e ela acenou que não entendia. 

Percebeu que ele tentou quatro línguas antes de falar em inglês. 

─ O doce está bom? ─ Perguntou em inglês perfeito sem sotaque algum. 

─ Muito bom. Obrigada. ─  Devagar o beijou no rosto. 

Percebeu que o rapaz ficou vermelho. Era tímido. Ela sorriu novamente, mas o riso morreu quando um chinês brutamontes a levantou com violência. O rapaz interveio e os dois discutiram em mandarim. O rapaz tirou um maço de notas e jogou para o chinês. Depois pegou Ruth pelo braço e sem dar ouvido as negativas dela entrou no primeiro hotel vagabundo que encontrou. 

─ Não. Por favor. Agradeço o bolo, mas eu não vou.... eu não sou uma prostituta

─ O cara lá fora me disse que é. ─  Falou sério olhando pela janela. O chinês mal-encarado parou na frente do prédio. Ruth empalideceu quando o viu.

─ Ah droga! Tenho que fugir. ─  Abriu a porta. 

─ Eu paguei duas horas ─  O rapaz disse frio. O jovem cortou seu caminho, fechou a porta, passou a chave. Ruth recuou assustada. 

─ Lamento que tenha dado seu dinheiro aquele cara, mas eu não sou prostituta. Me deixe sair. Eu só quero ir para casa.

─ E onde é sua casa?  

─ Londres.   

─ Tem documentos?

─ Não  

─ Tem dinheiro?

─ Não.

─ Deve dinheiro aqueles caras?  

─ Eles dizem que sim.  

─ Quanto pegou emprestado? Ou é dívida de drogas?  

─ Eu não peguei dinheiro deles. O cara com quem eu estava me trocou por uns pacotes de coca há uma semana. Só posso ir depois que... ele voltar e pagar por isso. Me colocaram na rua ontem e mandaram eu... trabalhar para saldar minha dívida. Eu fugi. Não fiz programa algum e não vou fazer! Não consigo! Não sou uma prostituta! Quero apenas ir para casa. Liguei para o meu pai, mas minha madrasta disse que ele morreu há um mês. ─ Sentou na cama desesperada. ─ Quero ir para casa.   

─ Precisa procurar a embaixada inglesa.  

─ Eu pensei nisso, mas se meu pai estiver morto vou acabar em um abrigo.  

O rapaz andou pelo quarto.

─ Tem que escolher o que vai ser melhor. O abrigo ou a vida nas ruas . 

─ Nenhuma opção é boa. ─ Foi olhar a janela. ─ Ele vai ficar lá até quando?  

─ Como você já fugiu, ele vai ficar o tempo que paguei, depois virá aqui cobrar mais ou levá-la de volta.   

─ Duas horas? ─  Olhou novamente. Estremeceu visivelmente ─ Acha mesmo que ele vai ficar esse tempo todo?  

─ Tenho certeza que sim.   

─ Sabe se tem saída pelos fundos?  

─ Tem. Assim como tem outro cara na outra saída.  

─ Tem? Como sabe?  

─ Ele não estava sozinho.

─ Ah Deus o que eu faço?  

─ Tem duas horas para pensar. ─  Disse sério olhando para a cama. ─ Por que não se deita e descansa? Vou pedir algo para comermos.    

─ Não. Não vou me deitar. Você não entendeu? Não sou prostituta!  

─ Isso não importa. Está assustada e faminta. Vai pensar melhor depois que se alimentar. ─  Pegou o telefone e com fluência em mandarim pediu uma refeição. 

Ruth andou pelo quarto tentando encontrar uma saída. Quando a comida chegou ela hesitou por um momento. Ao ver o rapaz se servir sem sequer olhar para ela, sentou na mesa e começou a comer com vontade. 

─ Qual é o seu nome?  ─ Ela perguntou entre uma garfada e outra.

─ Anton Leigh.

─ Como? . 

─ Pode me chamar de Leigh. E qual é o seu?  

─ Ruth... Ruth Coombs.  

─ Muito prazer Ruth Coombs.  

─ O que vai querer em troca...Leigh?  

─ Em troca do que?  

─ Desse almoço. ─ Ela olhou para a cama. ─ Não vou transar com você.

─ Também não vou transar com você.   

─ Então porque está fazendo isso?  

─ O que? Dando comida a quem tem fome? É um dever cristão.

─ Engraçadinho. ─  Fez uma careta. Leigh baixou o garfo.

─ Não é piada. Gosto de ajudar quem precisa. E acho que você está precisando agora não está?  

─ Estou. ─ Levantou. Olhou novamente pela janela. O sujeito continuava plantado na entrada. ─ Quero ir para casa. Quero ter certeza se meu pai morreu mesmo. ─ Olhou para seu jovem salvador. ─ Pode me ajudar?  

─ Acho que sim. ─  Pegou um celular do bolso. Ligou para alguém conversando em uma língua desconhecida. Desligou e sorriu. ─ Vamos esperar.

─ Para quem ligou? ─  Intrigada ela voltou para a mesa.

─ Para alguém que pode resolver.   

─ De onde você é? É europeu? Falou de um jeito estranho no telefone.  

─ Pode-se dizer que sou russo.  

─ Russo? O que faz em Macau?  

─ Sou aluno de um navio escola. Estamos ancorados aqui essa semana. ─ Ele deitou na cama. ─ Não se preocupe. Em meia hora estaremos livres do gigante lá da porta. ─ Ela ficou no meio do quarto sem saber o que fazer. ─ Qual a sua idade?  

─ Dezoito.

─ Mentira.  

─ Dezesseis, mas sou emancipada. ─  O olhou desafiadora. ─ E você?  

─ Vinte. E pelas leis do meu país ainda sou menor. ─  Sorriu para ela. ─ Por que não vai tomar um banho? O meu preceptor virá e prefiro que ele não a veja com essa maquiagem e com essas roupas.   

─ Por que não?  

─ Por que eu disse a ele que estava com minha namorada em um motel e dois estranhos estavam me seguindo. Se você se parecer com uma prostituta ele vai me tirar daqui e deixá-la a sua própria sorte, mas se for apenas a moça que eu sei que há por baixo dessa máscara, ele tira nós dois e depois a manda de volta para a Inglaterra.   

─ Não tenho o que vestir. ─ Ela olhou para as próprias roupas sem ânimo.

Leigh levantou tirou o casaco, a camisa e depois a camiseta de manga que usava por baixo.  Ele ainda era magro, mas o corpo já se delineava ao que viria a ser. 

─ Vista isso. ─ Entregou a ela a camiseta. ─ A saia curta é normal. Tire as meias e essa....─  Apontou o rosto maquiado. ─ ...essa máscara horrível.   

─ Tudo bem ─  Entrou no banheiro. Trancou a porta.

Tomou um banho rápido e tirou toda a maquiagem. Retirou os pierces, a fileira de brincos e penteou os cabelos. Vestiu a saia curta, e a camiseta que Leigh havia lhe dado em vez do bustiê. Cobriu tudo com o casaco curto que usava. Parecia ter seus dezesseis anos novamente. Parecia a menina que havia sido até a morte da mãe. Saiu e ele sorriu para ela em aprovação. 

─ Agora só temos que esperar.   

A movimentação na entrada levou os dois para a janela. A polícia estava chegando e entrava no hotel. Dois carros encostaram e quatro homens europeus vestindo terno e gravata desceram. O gigante correu e foi perseguido. 

Leigh a puxou e a abraçou forte contra o peito no mesmo momento em que a porta foi arrombada e policiais entraram armados. Um dos europeus, um homem não muito alto, de cabelos e olhos negros deu uma ordem ríspida e os policiais baixaram as armas. Olhando para Leigh com reprovação o chamou para ir embora. 

Sem soltar Ruth ele obedeceu. 

Minutos depois estavam os dois no banco traseiro do carro com o homem. Leigh e ele conversaram rápido. O rapaz a apertou nos braços duas vezes antes de soltá-la e fazê-la se voltar.

─ Ruth, quero que conheça meu preceptor. Salastiel Sarkivon. Sarkivon esta é minha namorada, Ruth Coombs.  ─ Disse em inglês.

─ Prazer senhorita. ─ Olhou para Leigh. ─ Se pretende algo mais sério com essa moça, seu pai não vai aprová-la. Se o que quer e se divertir não há problema.   

O tempo dirá. Para onde estamos indo?   

─ Vou deixá-los em um hotel. E por favor não se enfie mais em lugares como aquele. Se quer andar sem seguranças pelo menos frequente ambientes adequados.  

─ Tudo bem Sarkivon. Obrigado pela ajuda.   

─ Suponho que a senhorita vá ficar com você.  

─ É. Ela vai ficar comigo. Quando eu voltar para o navio ela segue para Londres. Pode providenciar passagem e documentos? Ruth perdeu os dela.  

─ Perdeu? ─  A olhou desvendando todos os seus segredos. ─ Terei prazer em resolver esta questão. ─  Informou com um leve inclinar da cabeça.  

O carro rodou por algum tempo até que parou em frente a um hotel.

─ Tem uma suíte esperando por vocês. Podem subir direto. Vou manter três guarda-costas no mesmo andar. Não tenta despistá-los. Não quero correr risco com sua segurança. Hoje foi apenas uma amostra do que pode acontecer se insistir em continuar circulando sozinho.   

─ Obrigado ─  Agradeceu mantendo Ruth ao lado.

─ Volto em uma semana para levá-lo ao navio. Na ocasião trarei os novos documentos da senhorita. ─  Disse abrindo a porta. O grupo desceu e o carro arrancou sumindo na esquina. Os três homens guiaram o casal até a cobertura. Quando ficaram sozinhos Ruth olhou em volta sem acreditar. Estavam em suíte ampla e luxuosa.  

─ Você é muito rico pelo visto.  

─ Meu pai é rico.  

─ Ah... ─  Tentou sorrir.  ─ Bom. Obrigada pela ajuda... ─  Se dirigia a porta.

─ Para onde vai?  

─ Embora. Acho que seu pessoal já cuidou daquele cara.  

─ Você ouviu Sarkivon. Ele vai providenciar seus documentos e daqui a uma semana poderá voltar para Londres.  

─ Olha... eu agradeço, mas.... não tenho como pagar.  

─ Acabou de notar que dinheiro não é problema.   

─ Mesmo assim, tenho que ir.  

─ Por que não quer aceitar minha ajuda?  

─ Porque não tenho como lhe pagar e não vou transar com você.   

─ Não quero transar com você! ─ Ela fez uma careta debochada ─ Talvez queira, não sei... ─ Aproximou-se dela. ─ Vivi em um mosteiro nos últimos oito anos. ─  Estendeu a mão. Recuou. ─ Meu pai... contratou uma.... uma serva para me servir, mas eu.... não deu muito certo e desde então ele tem me pressionado. Eu disse que você era minha namorada... por que com isso ele sai um pouco do meu pé.... Uma semana. Fique uma semana e depois volte para Londres. Vou ficar na cidade até o navio partir. Me faça companhia. 

 

Uma semana foi pouco para descobrirem um ao outro. Leigh a levou para comprar roupas e ela também comprou coisas mais joviais para ele. Caminharam pela cidade, visitaram pontos turísticos, foram ao teatro, cinema, restaurantes e shows. Todas as noites se despediam na sala da suíte. Na primeira noite com um aperto de mão. Na segunda Ruth o beijou no rosto. Na terceira ficaram próximos o bastante para os lábios quase se tocarem. Foi Leigh que se afastou constrangido. No dia seguinte ele saiu para comprar ingressos para um show e quando voltou a encontrou em prantos.

─ O que aconteceu? O que?? Ruth o que foi? ─ A abraçou com força e ela se deixou abraçar. Chorava.

─ Meu pai morreu mesmo. Consegui o número da casa de uma tia do interior e liguei e ela me disse que meu pai morreu. Oh! Leigh o que vou fazer? Não tenho mais ninguém. Minha madrasta não quer que eu volte. Disse que agora a casa é dela. 

─ Pode ir ficar com sua tia...─  Ruth balançava a cabeça desconsolada.

─ Ela também me detesta. Disse que minha mãe e o irmão dela morreram por minha causa. E deve ter sido mesmo. Eu matei minha mãe e meu pai.   

─ Não. Você não fez nada... ─ Voltou a abraçá-la. ─ Você tem a mim Ruth. E terá para sempre. Eu a amo!  

─ Não... ─  Leigh enxugava as lágrimas dela com beijos leves.

─ Eu te amo. ─ A envolveu e devagar os lábios se uniram. Se exploram com ternura. Ela murmurou algo que ele não entendeu. Apenas continuou beijando-a e ao se sentir correspondido a levou para o quarto. Deitou com ela tocando-a com carinho. Em um momento parou, respirou e a aconchegou a ele. A embalou até que dormiram. 

Ruth foi a primeira a acordar. Ele continuava com ela nos braços como se nunca fosse deixá-la partir. Ela o beijou. Ele despertou. Ela o beijou novamente e girou sobre ele. Leigh arquejou quando a sentiu sentar sobre seu ventre. Gemeu o nome dela tentando levantar. Ela o manteve na cama e tirou a blusa levando junto o sutiã. A expressão de choque dele seria cômica se não fosse sincera. Ele era virgem e não sabia o que fazer. Ela guiou as mãos dele aos seios. Foi impossível não tocar os bicos rosados. Ele tirou as mãos sem jeito. 

Ruth às pegou colocou de volta em seu corpo. Leigh tremeu.

─ Não... não é certo... você...você está abalada.... Não sabe o que está fazendo.  

─ Eu sei. ─ Deitou sobre ele e o encheu de beijos. ─ Eu quero.... que me mostre... o quanto me ama.... o quanto me quer...   

Ele gemeu o nome dela. E demonstrou a ela tudo o que sentia. 

Foi a primeira vez que Ruth fez amor. Antes, com os meninos da escola, com Kevin e com tantos outros tudo não passava de sexo. Mas com Leigh, naquela primeira vez e nas inúmeras outras que se seguiram, ela descobriu o que era amor. Dois dias depois ele a deixou no aeroporto com dinheiro suficiente para que se estabelecesse em Londres. Sofria tanto quanto ela pela separação. Pediu que ligasse para o navio ou para o hotel onde ficaria na semana seguinte. Ruth sabia que ele passaria quatro dias no mar e depois outra semana aportado em Shantou.

Desmarcou a passagem e seguiu para Shantou. 

Quando o navio aportou ela estava no cais. E durante quatro anos o seguiu pelo oriente. Até a noite em que ficou à sombra da morte. 

 

─ Como eles estão? ─ Patrícia perguntou a Annette olhando pela janela. Ruth Lescaut estava no quintal cuidando do jardim e tinha a ajuda de um jardineiro recomendado pela própria Annette. 

─ Progredindo. ─ Observaram Leigh conversar com os dois jardineiros mantendo a esposa ao lado. Depois cumprimentou os dois e entrou, mas logo voltou com um livro e sentou em um dos bancos e lá ficou. 

Patrícia parou de olhar e riu.

─ Bom pelo menos ele melhorou com ela. Você viu algo estranho?  

─ Não. Estão em paz. Mas ele sai toda tarde. Já estive lá duas vezes para conversar, soldar aonde vai, mas Ruth não fala sobre o marido. ─ Inclinou-se um pouco.  ─ Sabe o que acho mais estranho? Ela também não fala sobre o bebê. E nem uma palavra sobre o que aconteceu aquela noite.  

─ Será que foi certo não contar para ela? ─  Patrícia voltou a olhar o casal. 

─ Acho que sim. Soube o que ele disse a James?  

─ Soube. Mas não sei se acredito. Será mesmo que é ela que o rejeita?  

─ Pode ser. Às vezes eu o vejo bem perto dela, como se fosse tentar beijá-la. Ruth sempre se afasta. É verdade que ele tem ajudado seu pai na organização do dia de ação de graças?  

─ É. E um homem caridoso. Fez uma doação generosa para a reforma da igreja, e pediu sigilo. Eu só fiquei sabendo por que sou a tesoureira.   

─ Nada muda o fato de que está andando com Becky Sune.

─ Será que está? Becky continua trabalhando na lanchonete e ele não anda por lá. Se só sai as tardes.... Que horas chega?  

─ Varia. Antes do horário de jantar geralmente.  

─ Volta a sair?  

─ Não de carro. Sai para caminhar a noite. Não deve ir longe pois volta logo. Ele se afasta mesmo e de manhã quando sai para correr! Ah e como corre!! Sinceramente é um colírio para os olhos. ─  Riu.

─ Ele é bonitão. ─ Voltou a olhar pela janela ─ Se ela não está sendo maltratada nem física, nem psicologicamente então como eles vivem como casal não é da nossa conta. Becky Sune não é da nossa conta. É lamentável, mas não é da nossa conta.   

 

Como vinha fazendo nos últimos dias Leigh saiu para caminhar depois do jantar. Andou por alguns metros quando um carro passou a acompanhá-lo devagar. Ele jogou o cigarro no chão e parou. O carro também parou e baixou o vidro. 

O rosto sorridente de Jeffrey Keller surgiu. 

─ Saindo para fumar escondido? ─  Perguntou em um gracejo

─ É o jeito. ─  Pegou o maço. 

─ Fique à vontade. Hoje é quarta. E o nosso dia de folga.  

─ Dia de folga?  

─ É. O dia em que todas as mulheres permitem a nós meros maridos uma noite de folga. Costumamos ir ao clube beber, jogar e conversar. É bem-vindo se quiser se juntar a nós. ─ Leigh olhou para a casa. Hesitou. ─ Ora, vamos lá. Geralmente voltamos antes da meia noite. Pode ligar para Ruth e avisar. Se quiser Annette pode ir fazer companhia a ela.  

─ Minha governanta está lá, e Ruth já foi dormir. ─  Contou. Pegou outro cigarro. ─ Se importa?  

─ Claro que não. O meu é maior. ─  Mostrou um longo charuto escuro. 

 

─ Olha o desgarrado que eu peguei na rua hoje! ─ Jeffrey disse logo que chegou na mesa ocupada pelos amigos. Começou a apresentação. ─ Senhores este é meu vizinho Leigh Lescaut. Leigh ─ Passou o braço nos ombros dele ─ Aqui estão meus cunhados Paul e James, que você já conhece. Lá o chefe de polícia. ─ Apontou um homem negro e tranquilo a frente ─ Elton Kanston.   

─ Xerife Kanston. É o marido de Hope Kanston?   

─ Ah sim. ─  Foi Jeffrey quem respondeu. ─ E eu sou casado com Annette, James com Nancy e Paul com Dorinda que está fora a serviço do banco. Ali o Dr. Theodoro Tisdale, que você já conhece e o irmão caçula dele, Saul. Saul é o único solteiro do grupo, já que Theodoro é casado com o rojão chamado Patrícia Johnson. ─  Todos riram da careta do médico. 

Leigh os cumprimentou observando o mais jovem. Jeffrey logo puxou duas cadeiras e eles se acomodaram. A conversa fluiu animada sobre esposas e família. 

─ Ouvi um boato de que você é um príncipe. ─ O xerife disse silenciando a mesa.

─ Eu fui. ─ Respondeu depois de olhar rapidamente para James. Para ganhar tempo Leigh pediu água ao garçom ─ Não sou mais. Deixei meu país e decidi viver aqui. Meu pai não gostou e me deserdou.   

─ E por que decidiu viver aqui? ─  Theodoro perguntou curioso. 

─ Passei um tempo aqui quando criança. Hambúrgueres, batata frita e milk-shake de chocolate se tornaram meu prato preferido. ─ Desconversou.

─ Não bebe Leigh. É muçulmano? ─  James não resistiu. Era a segunda vez que o via recusar um drinque.

─ Não. Sou cristão.   

─ Então tome uma cerveja conosco.  

─ Não devo. Estou em período em que não devo beber. ─ Precisava escapar daquele interrogatório. ─ Tem sinuca aqui?  

─ Há sim. Nos fundos. Joga? ─  Saul perguntou animado. 

─ Nunca joguei.  ─ Leigh simples. Tomou a água. ─ De onde vim é proibido.   

─ Quer tentar? ─ Saul convidou sem notar a frieza do olhar de Leigh. 

─ Claro. ─ Concordou levantando. Os dois seguiram para a área de sinuca. 

O xerife apertou os olhos observando-o se afastar.

─ É esse o rapaz que nossas mulheres desconfiaram que bate na esposa?  

─ Eu já disse que isso é paranoia delas. ─ James disse sério. ─ O cara tem alguns costumes estranhos, é bem ciumento, mas duvido que machuque a esposa.   

─ Mas homem nenhum pode tocá-la. ─ Theodoro disse frio. ─ Eu estava de plantão quando ela foi levada para o hospital. Precisei de uma enfermeira para examiná-la. Ele também não permite ultrassom ou mais exames. A esposa é minha paciente agora, mas até hoje não sabemos o que aconteceu.  

─ Provavelmente ela ficou sabendo que ele estava com Becky Sune. ─  Paul disse mordaz. ─ E foi só falar no diabo..  

Becky Sune entrava no bar.


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