CAPÍTULO 06
O casamento aconteceu em uma
manhã de sábado numa cerimônia simples na capela do Pastor Johnson. Como foi
logo após o serviço religioso, as famílias da comunidade estavam
presentes.
Leigh declarou os votos sério. A
mão não estava firme quando colocou a aliança de ouro incrustada de pequenos
brilhantes no anular esquerdo da jovem esposa.
Ruth fez os votos em voz baixa.
Também tremia quando colocou a aliança grossa de ouro em Leigh. Ouviram as bênçãos
do clérigo de mãos dadas.
Ao final o pastor sorriu e
anunciou.
─ Eu os declaro marido e mulher. ─
Sorriu. ─ Pode beijar a noiva.
Leigh a encarou. Desprendeu o
fino véu azul transparente que cobria o rosto da noiva. Com cuidado soltou o
lenço que ocultava os longos e negros cabelos adornados com finos fios de ouro.
Ruth baixou os olhos. Aquele gesto significava que ela tinha autorização para
não mais usar o véu. Uma indicação de amor e confiança absoluta nela como
esposa. Ele tocou os lábios dela com a ponta dos dedos.
─ Seu olhar é a porta do meu céu.
─ disse alto e claro. ─ Eu te amo Lyubov.
A beijou lenta e docemente. Ruth
se aconchegou a ele e correspondeu sem notar. Quando se separaram houve
aplausos. Sorrindo deixaram a igreja sob uma chuva de arroz e votos de felicidade.
Foram direto para casa.
Sabiamente a Sra. Lanfond
foi para o próprio chalé nos fundos. Apesar dos protestos da noiva, Leigh a
carregou para dentro de casa, dizendo que era apenas para dar sorte. Ela riu
até o momento em que foi colocada no meio da sala.
─ Obrigado por ter tirado o meu
véu.
─ Você é digna de minha
confiança. ─ Declarou sério.
Sem que esperasse o marido
ajoelhou-se. Pegou as mãos dela. Beijou o punho direito, depois o esquerdo,
virou, beijou a palma esquerda depois a direita, juntou ambas as mãos e
descansou o rosto sobre elas por alguns segundos.
Beijou-as novamente no dorso.
Ruth arregalou os olhos surpresa.
Por aquele gesto Leigh se tornava seu servo.
─ Rogo seu perdão pelas vezes em
que duvidei disso. ─ Levantou. ─ Lyubov,
eu a quero. Nós podemos coabitar. ─ Com cuidado a puxou para os braços e a
beijou. Ruth não correspondeu. ─ Podemos ser felizes juntos, como nossas
lembranças nos dizem que fomos um dia.
Ela sabia o que ele queria. Ruth
pensou por um momento em ceder. Já tinha a promessa de que a levaria até a
matrioska na hora do parto. Poderia então consumar a união e viveriam um
casamento real. Juntos se fortaleceriam e teriam mais chance de derrotar o
inimigo de todos. Lembrou do filho que carregava. Leigh não o amaria e o afastaria
dela. Ele era mais importante do que qualquer batalha.
─ São apenas lembranças que não
são minhas. E, as que me pertencem são dolorosas demais. ─ Afastou-se.
Uma nuvem de tristeza encobriu os
olhos dele.
─ Diga-me o que pode me redimir. ─
Disse triste.
─ Quero apenas ter meu filho em
paz, meu senhor...
Acenou concordando e se afastou
deixando-a ir para o quarto.
Na semana seguinte Ruth fez a
primeira consulta com o Dr. Tisdale. Leigh pediu que a governanta a
acompanhasse e as levou até a porta do consultório. Voltou uma hora depois para
apanhá-las. Não fez qualquer pergunta sobre o que o médico havia dito. Ruth
pediu para pararem na farmácia e ela mesma desceu para compras as vitaminas
receitadas. O marido ficou dentro do carro observando-a pelo vidro enquanto ela
procurava o que precisava na prateleira.
─ Pois não? Posso ajudá-la? ─
O atendente perguntou fazendo-a se virar.
Era um rapaz jovem. Tinha os
cabelos curtos em um tom de castanho claro, com franja que o deixava com ar de
moleque. Os olhos eram amigáveis e o sorriso fácil.
Sem perceber Ruth sorriu.
─ Céus eu vi o paraíso. ─ Ruth arregalou os olhos sem jeito e sem querer
soltou uma leve risada. ─ Muito prazer, sou Saul Tisdale. ─ O rapaz disse
estendendo a mão. Ruth recuou. ─ Ok. Desculpe. Pode me dizer o que precisa?
─ Isso ─ Estendeu a receita para
ele. O rapaz pegou e em poucos minutos trouxe o pedido em uma pequena cesta.
Fez questão de acompanhá-la até o caixa tagarelando sobre as ofertas da
farmácia. Sorriu quando entregou o pacote.
─ Não quer me dizer seu nome? Seu
telefone? Adoraria te convidar para sair.
─ As vitaminas são para mim. ─ Disse
simpática.
─ Ahmm Ohhh! Certo! Parabéns
então. ─ Ruth riu de novo.
─ Obrigada. ─ Recebeu o pacote e saiu ainda sorrindo da
expressão do rapaz.
Leigh dirigiu em silêncio até em
casa. Descontraída Ruth falou sobre o convite que receberam para o piquenique
da comunidade. Perguntou se iriam, mas ele não respondeu. Ao chegarem o marido
desceu sem dar atenção a elas entrando em casa com passos duros. Ruth não
entendeu.
─ Ele a viu conversando com o rapaz
senhora. ─ Ruth se voltou surpresa.
─ Que rapaz?
─ O rapaz da farmácia. Ele viu e
não gostou.
─ O rapaz... ele apenas me
atendeu.
Entraram em casa. A porta do
escritório estava fechada. Era lá que Leigh passava todas as manhãs desde o
casamento.
─ A senhora sorriu para ele. ─ Nice
continuou com ar de reprovação.
─ O que tem isso demais? Leigh
tirou o meu véu. Tenho permissão para...
─ Sorriu como há muito tempo não
sorri para monsieur. ─ Nice pegou as vitaminas. ─ Seria bom se sorrisse para
monsieur. Ele a ama.
─ Ah sim ele me ama. ─ Soltou
irritada. ─ Se realmente me amasse teria paciência, esperaria e não estaria
passando horas com outra mulher. Onde acha que ele vai todas as tardes Sra.
Lanfond?
─ Não creio que monsieur passe as
tardes com outra mulher. ─ Saindo da
sala completou ─ Madame deveria sorrir mais para monsieur.
Ruth desceu cedo para a caminhada
que o médico recomendou. Leigh já estava na cozinha preparando o que sempre
tomava antes de se exercitar. Por hábito deixava o café da manhã para a volta e
assim o partilhava com a esposa.
─ Já levantou? Não se sente bem? ─
Perguntou preocupado largando o copo.
─ Não. Pelo contrário estou
ótima. ─ Sorriu para ele. O gesto o
surpreendeu ─ Eu tenho que caminhar também. Faz bem para o bebê. Posso ir com
você?
─ Eu corro. Não vai conseguir me
acompanhar.
─ Claro que não. ─ Riu leve ─ Mas vou andar. Você se importa?
─ Não. ─ Foi terminar a bebida ─ Quer?
─ O que é? ─ Perguntou aceitando
o copo que ele oferecia.
─ Quer mesmo saber? ─ Perguntou
tomando um gole grande. ─ Posso dizer que é quase uma bebida dos deuses...
─ É? ─ Provou devagar. Riu ─ É só milk-shake seu bobo!
─ De chocolate. ─ Tomou todo o resto ─ A melhor bebida que já
inventaram.
─ Você ainda só come por prazer? ─
Perguntou séria.
─ Não. ─ Respondeu. ─ Sinto fome.
Senti muita fome enquanto vivi em cativeiro. Ali, assumindo minha condição de
reles mortal vi o quanto a humanidade sofre quando não tem o que comer. Aprendi
muito com isso.
─ O que aprendeu?
─ Principalmente a não
desperdiçar ─ Apontou o copo dela ─ Vai
tomar?
─ Ah, vou sim!
Bebeu devagar. Lambeu os lábios
tirando todo o creme. Quando levantou os olhos para Leigh esperando ver um
sorriso encontrou dor.
─ Leigh...
─ Você se lembra da primeira vez
que me beijou? ─ Murmurou aproximando-se. Tirou o copo dela e o colocou na
bancada.
─ Não...eu... ─ Emudeceu. Ele estava perto demais.
─ Você estava sentada na calçada
em frente a biblioteca. ─ Tocou os lábios dela com a ponta dos dedos ─ Você
estava com fome. Havia passado o dia anterior sem coragem de se aproximar dos
marinheiros... e fazer.... o que a tinham mandado fazer para poder comer. Você
lembra? ─ Ela acenou que sim. Leigh envolveu o rosto dela com as mãos. ─ Então
você ficou me olhando comprar um nee goo na rua. Comprei um para você e sentei
ao seu lado. Conversamos enquanto você comia e... então você me beijou assim. ─
Tocou de leve o rosto dela com os
lábios. Afastou-se. ─ Foi o beijo mais valioso que já recebi na vida.
─ Leigh...
─ Eu a amei naquele momento Lyubov.
─ Afastou-se ainda mais ─ A amei completamente, pois já a amava desde
sempre. Apenas não sabia disso antes. Este ciclo me deu a chance de entender o
que sempre sinto por você. O triste é que tenho que esperar outro para poder
viver isso. As lembranças de Leigh e Ruth juntos.... o prazer, o amor, a
cumplicidade.... me preenchem e me fazem feliz. E será com elas que irei me
contentar quando você partir e me esquecer.
─ Leigh...
─ Pena que elas não causaram em
você o mesmo efeito que causaram em mim. Mas você foi bem clara. São apenas
lembranças que não são suas. ─ Sem
esperar por ela deixou a casa. Começou a corrida logo no jardim. Ruth saiu para
a caminhada lembrando a vida de Ruth Coombs.
Ruth Coombs tinha dezesseis anos
quando fugiu com Kevin, um homem com mais de trinta. Isso pouco importou, assim
como não importou quando ele fingiu ser seu pai e a emancipou para que pudesse
viajar. Naqueles dias conturbados de sua adolescência o que importava era onde
seria a próxima balada, o próximo agito, onde descolaria a próxima dose. Usava
os cabelos curtos, roupas justas e sensuais e maquiagem carregada.
Kevin a achava linda. Ele lhe
fornecia a droga que gostava e não a enchia com sermões de certo e errado como
seu pai, reverendo luterano fazia. Em dois meses conheceu as Ilhas Paracel,
Pingtung, Taipei e por fim Macau.
E foi em Macau que Kevin a trocou
por alguns quilos de cocaína.
Não adiantou gritar, espernear,
ele a deixou lá. Ficou presa sem drogas e sem comida por uma semana. Foi avaliada
pelos chefes e cedida como prêmio para os bons funcionários. Até que concordou
em atender os marinheiros que vinham de todos os cantos do mundo. Recebeu
roupas que revelavam a profissão que exerceria dali para frente, foi alimentada
parcamente e colocada no porto sob a vigilância das outras garotas. Conforme os
marinheiros chegavam as meninas iam se ocupando.
Ruth queria fugir. Não iria se
tornar uma prostituta. Podia ligar para casa e pedir ao pai que mandasse seu
passaporte e uma passagem de volta a Inglaterra. Quando haviam apenas duas
garotas vigiando-a trocou algumas palavras com um marinheiro e depois o seguiu
de longe. Ao passar pelas olheiras disse que o cara queria ir em um motel
próximo. As duas não se incomodaram e quando conseguiu despistá-las
fugiu.
Em uma rua lateral, assustada
ligou para casa apenas para ouvir a madrasta dizer que o pai havia morrido em
um acidente de carro há mais de um mês.
Que ela estava por conta
própria.
Sem destino andou pelas ruas.
Dormiu em um banco de praça naquela noite. Temia que os donos dos prostíbulos a
encontrasse, assim ficou longe do porto e de onde os marinheiros costumavam
frequentar. No dia seguinte refugiou-se na biblioteca.
Houve um tempo, antes da morte da
mãe, que seus amigos eram os livros. No fim da manhã a bibliotecária a pôs para
fora. Sentou na calçada assustada e com fome. Sentiu que alguém passou por ela
e foi até a barraca em frente onde comprou um nee goo. Desviou os olhos. Estava
faminta. Desejava muito um daqueles bolos chineses feitos com coco e... um nee
goo surgiu a sua frente. O rapaz falava uma língua que ela não entendia, mas
isso não a impediu de aceitar o doce. Ele sentou ao lado dela e continuou
falando e ela acenou que não entendia.
Percebeu que ele tentou quatro
línguas antes de falar em inglês.
─ O doce está bom? ─ Perguntou em
inglês perfeito sem sotaque algum.
─ Muito bom. Obrigada. ─ Devagar o beijou no rosto.
Percebeu que o rapaz ficou
vermelho. Era tímido. Ela sorriu novamente, mas o riso morreu quando um chinês
brutamontes a levantou com violência. O rapaz interveio e os dois discutiram em
mandarim. O rapaz tirou um maço de notas e jogou para o chinês. Depois pegou Ruth
pelo braço e sem dar ouvido as negativas dela entrou no primeiro hotel
vagabundo que encontrou.
─ Não. Por favor. Agradeço o
bolo, mas eu não vou.... eu não sou uma prostituta
─ O cara lá fora me disse que é. ─
Falou sério olhando pela janela. O
chinês mal-encarado parou na frente do prédio. Ruth empalideceu quando o viu.
─ Ah droga! Tenho que fugir. ─ Abriu a porta.
─ Eu paguei duas horas ─ O rapaz disse frio. O jovem cortou seu
caminho, fechou a porta, passou a chave. Ruth recuou assustada.
─ Lamento que tenha dado seu
dinheiro aquele cara, mas eu não sou prostituta. Me deixe sair. Eu só quero ir
para casa.
─ E onde é sua casa?
─ Londres.
─ Tem documentos?
─ Não
─ Tem dinheiro?
─ Não.
─ Deve dinheiro aqueles caras?
─ Eles dizem que sim.
─ Quanto pegou emprestado? Ou é
dívida de drogas?
─ Eu não peguei dinheiro deles. O
cara com quem eu estava me trocou por uns pacotes de coca há uma semana. Só
posso ir depois que... ele voltar e pagar por isso. Me colocaram na rua ontem e
mandaram eu... trabalhar para saldar minha dívida. Eu fugi. Não fiz programa
algum e não vou fazer! Não consigo! Não sou uma prostituta! Quero apenas ir
para casa. Liguei para o meu pai, mas minha madrasta disse que ele morreu há um
mês. ─ Sentou na cama desesperada. ─ Quero ir para casa.
─ Precisa procurar a embaixada
inglesa.
─ Eu pensei nisso, mas se meu pai
estiver morto vou acabar em um abrigo.
O rapaz andou pelo quarto.
─ Tem que escolher o que vai ser
melhor. O abrigo ou a vida nas ruas .
─ Nenhuma opção é boa. ─ Foi
olhar a janela. ─ Ele vai ficar lá até quando?
─ Como você já fugiu, ele vai
ficar o tempo que paguei, depois virá aqui cobrar mais ou levá-la de volta.
─ Duas horas? ─ Olhou novamente. Estremeceu visivelmente ─ Acha
mesmo que ele vai ficar esse tempo todo?
─ Tenho certeza que sim.
─ Sabe se tem saída pelos fundos?
─ Tem. Assim como tem outro cara
na outra saída.
─ Tem? Como sabe?
─ Ele não estava sozinho.
─ Ah Deus o que eu faço?
─ Tem duas horas para pensar. ─ Disse sério olhando para a cama. ─ Por que não
se deita e descansa? Vou pedir algo para comermos.
─ Não. Não vou me deitar. Você
não entendeu? Não sou prostituta!
─ Isso não importa. Está
assustada e faminta. Vai pensar melhor depois que se alimentar. ─ Pegou o telefone e com fluência em mandarim
pediu uma refeição.
Ruth andou pelo quarto tentando
encontrar uma saída. Quando a comida chegou ela hesitou por um momento. Ao ver
o rapaz se servir sem sequer olhar para ela, sentou na mesa e começou a comer
com vontade.
─ Qual é o seu nome? ─ Ela perguntou entre uma garfada e outra.
─ Anton Leigh.
─ Como? .
─ Pode me chamar de Leigh. E qual
é o seu?
─ Ruth...
Ruth Coombs.
─ Muito
prazer Ruth Coombs.
─ O que vai querer em troca...Leigh?
─ Em troca do que?
─ Desse almoço. ─ Ela olhou para
a cama. ─ Não vou transar com você.
─ Também não vou transar com
você.
─ Então porque está fazendo isso?
─ O que? Dando comida a quem tem
fome? É um dever cristão.
─ Engraçadinho. ─ Fez uma careta. Leigh baixou o garfo.
─ Não é piada. Gosto de ajudar
quem precisa. E acho que você está precisando agora não está?
─ Estou. ─ Levantou. Olhou
novamente pela janela. O sujeito continuava plantado na entrada. ─ Quero ir
para casa. Quero ter certeza se meu pai morreu mesmo. ─ Olhou para seu jovem
salvador. ─ Pode me ajudar?
─ Acho que sim. ─ Pegou um celular do bolso. Ligou para alguém
conversando em uma língua desconhecida. Desligou e sorriu. ─ Vamos esperar.
─ Para quem ligou? ─ Intrigada ela voltou para a mesa.
─ Para alguém que pode resolver.
─ De onde você é? É europeu?
Falou de um jeito estranho no telefone.
─ Pode-se dizer que sou russo.
─ Russo? O que faz em Macau?
─ Sou aluno de um navio escola.
Estamos ancorados aqui essa semana. ─ Ele deitou na cama. ─ Não se preocupe. Em
meia hora estaremos livres do gigante lá da porta. ─ Ela ficou no meio do
quarto sem saber o que fazer. ─ Qual a sua idade?
─ Dezoito.
─ Mentira.
─ Dezesseis, mas sou emancipada. ─
O olhou desafiadora. ─ E você?
─ Vinte. E pelas leis do meu país
ainda sou menor. ─ Sorriu para ela. ─ Por
que não vai tomar um banho? O meu preceptor virá e prefiro que ele não a veja
com essa maquiagem e com essas roupas.
─ Por que não?
─ Por que eu disse a ele que
estava com minha namorada em um motel e dois estranhos estavam me seguindo. Se
você se parecer com uma prostituta ele vai me tirar daqui e deixá-la a sua
própria sorte, mas se for apenas a moça que eu sei que há por baixo dessa
máscara, ele tira nós dois e depois a manda de volta para a Inglaterra.
─ Não tenho o que vestir. ─ Ela
olhou para as próprias roupas sem ânimo.
Leigh levantou tirou o casaco, a
camisa e depois a camiseta de manga que usava por baixo. Ele ainda era
magro, mas o corpo já se delineava ao que viria a ser.
─ Vista isso. ─ Entregou a ela a
camiseta. ─ A saia curta é normal. Tire as meias e essa....─ Apontou o rosto maquiado. ─ ...essa máscara
horrível.
─ Tudo bem ─ Entrou no banheiro. Trancou a porta.
Tomou um banho rápido e tirou
toda a maquiagem. Retirou os pierces, a fileira de brincos e penteou os
cabelos. Vestiu a saia curta, e a camiseta que Leigh havia lhe dado em vez do
bustiê. Cobriu tudo com o casaco curto que usava. Parecia ter seus dezesseis
anos novamente. Parecia a menina que havia sido até a morte da mãe. Saiu e ele
sorriu para ela em aprovação.
─ Agora só temos que esperar.
A movimentação na entrada levou
os dois para a janela. A polícia estava chegando e entrava no hotel. Dois
carros encostaram e quatro homens europeus vestindo terno e gravata desceram. O
gigante correu e foi perseguido.
Leigh a puxou e a abraçou forte
contra o peito no mesmo momento em que a porta foi arrombada e policiais
entraram armados. Um dos europeus, um homem não muito alto, de cabelos e olhos
negros deu uma ordem ríspida e os policiais baixaram as armas. Olhando para
Leigh com reprovação o chamou para ir embora.
Sem soltar Ruth ele
obedeceu.
Minutos depois estavam os dois no
banco traseiro do carro com o homem. Leigh e ele conversaram rápido. O rapaz a
apertou nos braços duas vezes antes de soltá-la e fazê-la se voltar.
─ Ruth, quero que conheça meu
preceptor. Salastiel Sarkivon. Sarkivon esta é minha namorada, Ruth Coombs. ─ Disse em inglês.
─ Prazer senhorita. ─ Olhou para
Leigh. ─ Se pretende algo mais sério com essa moça, seu pai não vai
aprová-la. Se o que quer e se divertir não há problema.
─ O tempo dirá. Para onde
estamos indo?
─ Vou deixá-los em um hotel. E
por favor não se enfie mais em lugares como aquele. Se quer andar sem
seguranças pelo menos frequente ambientes adequados.
─ Tudo bem Sarkivon. Obrigado
pela ajuda.
─ Suponho que a senhorita vá
ficar com você.
─ É. Ela vai ficar comigo. Quando
eu voltar para o navio ela segue para Londres. Pode providenciar passagem e
documentos? Ruth perdeu os dela.
─ Perdeu? ─ A olhou desvendando todos os seus segredos. ─ Terei
prazer em resolver esta questão. ─ Informou com um leve inclinar da
cabeça.
O carro rodou por algum tempo até
que parou em frente a um hotel.
─ Tem uma suíte esperando por
vocês. Podem subir direto. Vou manter três guarda-costas no mesmo andar. Não
tenta despistá-los. Não quero correr risco com sua segurança. Hoje foi apenas
uma amostra do que pode acontecer se insistir em continuar circulando sozinho.
─ Obrigado ─ Agradeceu mantendo Ruth ao lado.
─ Volto em uma semana para levá-lo
ao navio. Na ocasião trarei os novos documentos da senhorita. ─ Disse abrindo a porta. O grupo desceu e o
carro arrancou sumindo na esquina. Os três homens guiaram o casal até a
cobertura. Quando ficaram sozinhos Ruth olhou em volta sem acreditar. Estavam
em suíte ampla e luxuosa.
─ Você é muito rico pelo visto.
─ Meu pai é rico.
─ Ah... ─ Tentou sorrir. ─ Bom. Obrigada pela
ajuda... ─ Se dirigia a porta.
─ Para onde vai?
─ Embora. Acho que seu pessoal já
cuidou daquele cara.
─ Você ouviu Sarkivon. Ele vai
providenciar seus documentos e daqui a uma semana poderá voltar para Londres.
─ Olha... eu agradeço, mas....
não tenho como pagar.
─ Acabou de notar que dinheiro
não é problema.
─ Mesmo assim, tenho que ir.
─ Por que não quer aceitar minha
ajuda?
─ Porque não tenho como lhe pagar
e não vou transar com você.
─ Não quero transar com você! ─ Ela
fez uma careta debochada ─ Talvez queira, não sei... ─ Aproximou-se dela. ─ Vivi
em um mosteiro nos últimos oito anos. ─ Estendeu a mão. Recuou. ─ Meu pai... contratou
uma.... uma serva para me servir, mas eu.... não deu muito certo e desde então
ele tem me pressionado. Eu disse que você era minha namorada... por que com
isso ele sai um pouco do meu pé.... Uma semana. Fique uma semana e depois volte
para Londres. Vou ficar na cidade até o navio partir. Me faça companhia.
Uma semana foi pouco para
descobrirem um ao outro. Leigh a levou para comprar roupas e ela também comprou
coisas mais joviais para ele. Caminharam pela cidade, visitaram pontos
turísticos, foram ao teatro, cinema, restaurantes e shows. Todas as noites se
despediam na sala da suíte. Na primeira noite com um aperto de mão. Na segunda
Ruth o beijou no rosto. Na terceira ficaram próximos o bastante para os lábios
quase se tocarem. Foi Leigh que se afastou constrangido. No dia seguinte ele
saiu para comprar ingressos para um show e quando voltou a encontrou em
prantos.
─ O que aconteceu? O que?? Ruth o
que foi? ─ A abraçou com força e ela se deixou abraçar. Chorava.
─ Meu pai morreu mesmo. Consegui
o número da casa de uma tia do interior e liguei e ela me disse que meu pai
morreu. Oh! Leigh o que vou fazer? Não tenho mais ninguém. Minha madrasta não
quer que eu volte. Disse que agora a casa é dela.
─ Pode ir ficar com sua tia...─ Ruth balançava a cabeça desconsolada.
─ Ela também me detesta. Disse
que minha mãe e o irmão dela morreram por minha causa. E deve ter sido mesmo.
Eu matei minha mãe e meu pai.
─ Não. Você não fez nada... ─ Voltou
a abraçá-la. ─ Você tem a mim Ruth. E terá para sempre. Eu a amo!
─ Não... ─ Leigh enxugava as lágrimas dela com beijos
leves.
─ Eu te amo. ─ A envolveu e
devagar os lábios se uniram. Se exploram com ternura. Ela murmurou algo que ele
não entendeu. Apenas continuou beijando-a e ao se sentir correspondido a levou
para o quarto. Deitou com ela tocando-a com carinho. Em um momento parou,
respirou e a aconchegou a ele. A embalou até que dormiram.
Ruth foi a primeira a acordar.
Ele continuava com ela nos braços como se nunca fosse deixá-la partir. Ela o
beijou. Ele despertou. Ela o beijou novamente e girou sobre ele. Leigh arquejou
quando a sentiu sentar sobre seu ventre. Gemeu o nome dela tentando levantar.
Ela o manteve na cama e tirou a blusa levando junto o sutiã. A expressão de
choque dele seria cômica se não fosse sincera. Ele era virgem e não sabia o que
fazer. Ela guiou as mãos dele aos seios. Foi impossível não tocar os bicos
rosados. Ele tirou as mãos sem jeito.
Ruth às pegou colocou de volta em
seu corpo. Leigh tremeu.
─ Não... não é certo...
você...você está abalada.... Não sabe o que está fazendo.
─ Eu sei. ─ Deitou sobre ele e o
encheu de beijos. ─ Eu quero.... que me mostre... o quanto me ama.... o quanto
me quer...
Ele gemeu o nome dela. E
demonstrou a ela tudo o que sentia.
Foi a primeira vez que Ruth fez
amor. Antes, com os meninos da escola, com Kevin e com tantos outros tudo não
passava de sexo. Mas com Leigh, naquela primeira vez e nas inúmeras outras que
se seguiram, ela descobriu o que era amor. Dois dias depois ele a deixou no
aeroporto com dinheiro suficiente para que se estabelecesse em Londres. Sofria
tanto quanto ela pela separação. Pediu que ligasse para o navio ou para o hotel
onde ficaria na semana seguinte. Ruth sabia que ele passaria quatro dias no mar
e depois outra semana aportado em Shantou.
Desmarcou a passagem e seguiu
para Shantou.
Quando o navio aportou ela estava
no cais. E durante quatro anos o seguiu pelo oriente. Até a noite em que ficou
à sombra da morte.
─ Como eles estão? ─ Patrícia
perguntou a Annette olhando pela janela. Ruth Lescaut estava no quintal
cuidando do jardim e tinha a ajuda de um jardineiro recomendado pela própria
Annette.
─ Progredindo. ─ Observaram Leigh
conversar com os dois jardineiros mantendo a esposa ao lado. Depois cumprimentou
os dois e entrou, mas logo voltou com um livro e sentou em um dos bancos e lá
ficou.
Patrícia parou de olhar e riu.
─ Bom pelo menos ele melhorou com
ela. Você viu algo estranho?
─ Não. Estão em paz. Mas ele sai
toda tarde. Já estive lá duas vezes para conversar, soldar aonde vai, mas Ruth
não fala sobre o marido. ─ Inclinou-se um pouco. ─ Sabe o que acho mais
estranho? Ela também não fala sobre o bebê. E nem uma palavra sobre o que
aconteceu aquela noite.
─ Será que foi certo não contar para
ela? ─ Patrícia voltou a olhar o
casal.
─ Acho que sim. Soube o que ele
disse a James?
─ Soube. Mas não sei se acredito.
Será mesmo que é ela que o rejeita?
─ Pode ser. Às vezes eu o vejo bem
perto dela, como se fosse tentar beijá-la. Ruth sempre se afasta. É verdade que
ele tem ajudado seu pai na organização do dia de ação de graças?
─ É. E um homem caridoso. Fez uma
doação generosa para a reforma da igreja, e pediu sigilo. Eu só fiquei sabendo
por que sou a tesoureira.
─ Nada muda o fato de que está
andando com Becky Sune.
─ Será que está? Becky continua
trabalhando na lanchonete e ele não anda por lá. Se só sai as tardes.... Que
horas chega?
─ Varia. Antes do horário de
jantar geralmente.
─ Volta a sair?
─ Não de carro. Sai para caminhar
a noite. Não deve ir longe pois volta logo. Ele se afasta mesmo e de manhã
quando sai para correr! Ah e como corre!! Sinceramente é um colírio para os
olhos. ─ Riu.
─ Ele é bonitão. ─ Voltou a olhar
pela janela ─ Se ela não está sendo maltratada nem física, nem psicologicamente
então como eles vivem como casal não é da nossa conta. Becky Sune não é da
nossa conta. É lamentável, mas não é da nossa conta.
Como vinha fazendo nos últimos
dias Leigh saiu para caminhar depois do jantar. Andou por alguns metros quando
um carro passou a acompanhá-lo devagar. Ele jogou o cigarro no chão e parou. O
carro também parou e baixou o vidro.
O rosto sorridente de Jeffrey
Keller surgiu.
─ Saindo para fumar escondido? ─ Perguntou em um gracejo
─ É o jeito. ─ Pegou o maço.
─ Fique à vontade. Hoje é quarta.
E o nosso dia de folga.
─ Dia de folga?
─ É. O dia em que todas as
mulheres permitem a nós meros maridos uma noite de folga. Costumamos ir ao
clube beber, jogar e conversar. É bem-vindo se quiser se juntar a nós. ─ Leigh
olhou para a casa. Hesitou. ─ Ora, vamos lá. Geralmente voltamos antes da meia
noite. Pode ligar para Ruth e avisar. Se quiser Annette pode ir fazer companhia
a ela.
─ Minha governanta está lá, e
Ruth já foi dormir. ─ Contou. Pegou
outro cigarro. ─ Se importa?
─ Claro que não. O meu é maior. ─
Mostrou um longo charuto escuro.
─ Olha o desgarrado que eu peguei
na rua hoje! ─ Jeffrey disse logo que chegou na mesa ocupada pelos amigos.
Começou a apresentação. ─ Senhores este é meu vizinho Leigh Lescaut. Leigh ─ Passou
o braço nos ombros dele ─ Aqui estão meus cunhados Paul e James, que você já
conhece. Lá o chefe de polícia. ─ Apontou um homem negro e tranquilo a frente ─
Elton Kanston.
─ Xerife Kanston. É o marido de
Hope Kanston?
─ Ah sim. ─ Foi Jeffrey quem respondeu. ─ E eu sou casado
com Annette, James com Nancy e Paul com Dorinda que está fora a serviço do
banco. Ali o Dr. Theodoro Tisdale, que você já conhece e o irmão caçula dele,
Saul. Saul é o único solteiro do grupo, já que Theodoro é casado com o rojão
chamado Patrícia Johnson. ─ Todos riram
da careta do médico.
Leigh os cumprimentou observando
o mais jovem. Jeffrey logo puxou duas cadeiras e eles se acomodaram. A conversa
fluiu animada sobre esposas e família.
─ Ouvi um boato de que você é um
príncipe. ─ O xerife disse silenciando a mesa.
─ Eu fui. ─ Respondeu depois de
olhar rapidamente para James. Para ganhar tempo Leigh pediu água ao garçom ─ Não
sou mais. Deixei meu país e decidi viver aqui. Meu pai não gostou e me
deserdou.
─ E por que decidiu viver aqui? ─
Theodoro perguntou curioso.
─ Passei um tempo aqui quando
criança. Hambúrgueres, batata frita e milk-shake de chocolate se tornaram meu
prato preferido. ─ Desconversou.
─ Não bebe Leigh. É muçulmano? ─ James não resistiu. Era a segunda vez que o
via recusar um drinque.
─ Não. Sou cristão.
─ Então tome uma cerveja conosco.
─ Não devo. Estou em período em
que não devo beber. ─ Precisava escapar daquele interrogatório. ─ Tem sinuca
aqui?
─ Há sim. Nos fundos. Joga? ─ Saul perguntou animado.
─ Nunca joguei. ─ Leigh simples. Tomou a água. ─ De onde vim é
proibido.
─ Quer tentar? ─ Saul convidou
sem notar a frieza do olhar de Leigh.
─ Claro. ─ Concordou levantando.
Os dois seguiram para a área de sinuca.
O xerife apertou os olhos
observando-o se afastar.
─ É esse o rapaz que nossas
mulheres desconfiaram que bate na esposa?
─ Eu já disse que isso é paranoia
delas. ─ James disse sério. ─ O cara tem alguns costumes estranhos, é bem
ciumento, mas duvido que machuque a esposa.
─ Mas homem nenhum pode tocá-la. ─
Theodoro disse frio. ─ Eu estava de plantão quando ela foi levada para o
hospital. Precisei de uma enfermeira para examiná-la. Ele também não permite
ultrassom ou mais exames. A esposa é minha paciente agora, mas até hoje não
sabemos o que aconteceu.
─ Provavelmente ela ficou sabendo
que ele estava com Becky Sune. ─ Paul
disse mordaz. ─ E foi só falar no diabo..
Becky Sune entrava no bar.
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