CAPITULO 03

CAPÍTULO 03

 ─ Interessante.

 ─ O que é interessante? A medica perguntou voltando a sala.

 ─ Os costumes do povo do monsieur Lescaut. É o que eu suspeitava?

 ─ Sim. ─ Sorriu para Leigh. ─ Parabéns monsieur Lescaut. O senhor será pai. Mademoiselle Coombs está grávida.

Leigh Franziu a testa intrigado. Pensou ter ouvido mal. 

 ─ O que? ─ Levantou tenso. O corpo rejeitando assimilar a informação.

 ─ Eu disse que mademoiselle Coombs está grávida. No princípio da gravidez. Ela não se lembra de seu último período, mas acredito que esteja de poucas semanas.

 ─ Quarenta e cinco dias. ─ Leigh murmurou o olhar perdido.

 ─ Quem bom, o senhor se lembra! Com certeza uma data especial. ─ Tirou o receituário da maleta e escreveu rapidamente. ─ Ela está em uma fase difícil. Algumas mulheres são assim. Precisa de repouso, alimentação leve. Deve tomar essas vitaminas e muito líquido para não se desidratar.  

 ─ Parabéns rapaz! ─ O médico disse sorridente. 

 ─ Eu pedi a sua governanta que a mantenha em uma dieta saudável. Ela deve procurar esta obstetra para acompanhá-la. Precisa fazer alguns exames. ─ Estendeu o papel para ele. ─ Parabéns ─ Disse sorrindo tomando o ar distante do rapaz como choque a boa notícia. Leigh pegou a folha escrita no momento em que a síndica e a Sra. Lanfond voltavam à sala. 

 ─ Mademoiselle quer lhe falar monsieur. ─ A governanta informou com um sorriso disfarçado.

Todos felizes e seu mundo desmoronava. Leigh pediu licença e se retirou.

Nice acompanhou as visitas até a porta. Sempre gostou de crianças e ter uma ali seria ótimo. O som da porta batendo a assustou. Ouviu mademoiselle gritar e correu para o quarto. A porta estava trancada e eles discutiam. Parou ouvindo. Não esperava aquela reação. Monsieur foi tão carinho naqueles poucos dias... apurou os ouvidos, chocando-se com o que descobria.



Leigh abriu a porta do quarto devagar. Ruth havia tomado um banho e saia do banheiro envolta em um roupão. O sorriso luminoso que ela lhe deu teve o mesmo efeito que uma punhalada. Ele bateu a porta e passou a chave. 

 ─ Está feliz? ─ Sibilou tenso.

 ─ Claro que estou. Pensei que nunca mais poderia gerar e agora...

Em dois passos Leigh a alcançou e a sacudiu como uma boneca. Ela gritou pelo susto e demorou a entendê-lo.

 ─ Feliz? Como pode estar feliz? Gerar o filho de um monstro é motivo para ficar feliz? Você sabe o que acontece quando se gera um Koryak. Ele vai saber!!! Vai sentir!!! Virá atrás de você para matá-la e levar essa criança!

 ─ O que está dizendo? Não... ─ A expressão dele esclareceu sua dúvida. ─ É seu! É seu legatário! ─ Gritou assustada.

 ─ Não é! Eu não a toquei! ─ A jogou sobre a cama ─ Como pode? Como pode desejar fecundar naquele momento!?!

 ─ Eu não desejei. ─ Levantou. 

 ─ Desejou. Você quis ter o filho dele! Você gostou do que ele lhe fez e desejou procriar com ele! Se não tivesse desejado não estaria gestando.

 ─ Eu não desejei ter o filho... dele! É seu! Eu juro! ─ Leigh andava pelo quarto. Ruth o fez parar para olhá-la. ─ Naquele dia na minha casa. Antes dele....Antes que ele...Nos dividimos juntos. Juntos. Você disse que me daria um filho. Ali eu desejei. Eu quis o seu filho!

 ─ Eu menti! ─ A olhou com raiva. ─ Eu não lhe dei filho algum! Quis te consolar por que ainda chorava o bebê que perdeu. Eu não... Eu não deixei meu legado em você. Você gesta o filho do meu inimigo. Filho que desejou só Deus sabe por quê. Uniu-se aos meus inimigos e com isso ele me subjugou. Por lei eu deveria entregá-la a ele.

 ─ Não! Não! É seu! SEU!

 ─ Não é. Tenho certeza disso! Eu sei. Eu sinto. ─ Foi para porta. ─ Você me traiu. Uniu-se aos que desejam minha morte!

 ─ Não. É seu! Eu não quis...

 ─ Quis. Desejou. Sem o seu consentimento nenhum Koryak poderia engravidá-la! Traiu-me de forma vil. Uniu-se a ele eternamente! Merece o destino que terá nas mãos do Chanceler.

 ─ Não pode me entregar a ele. Ele me matou! ─ O segurou pelo braço. ─ O que vai fazer? Por favor...─ Leigh se livrou com um safanão e se afastou.

Pela primeira vez sentia-se derrotado. Passou a adolescência protegendo quem não devia. Vivendo uma vida que não era sua. Expondo-se a coisas que seu próprio eu abominava. Mas havia jurado resguardá-lo e o fez. Julgado como traidor foi renegado por sua família. Perderá sua vida, seus dons, seus direitos de príncipe. Excomungado por seu povo, foi preso e flagelado. Sofrerá tudo calado. Sobreviverá, porque a tinha. 

Possuía a pureza de seu amor. A promessa de um tempo de paz o lado dela. A chance de viverem o que nunca lhes foi permitido. Agora era um amaldiçoado. Seu maior inimigo a tomou e plantou a semente em um ventre que antes estava seco. Ventre que gerava um Koryak. Uma parte do inimigo que a levaria até ele cedo ou tarde. O fel da vergonha encheu-lhe o coração. 

Desejava poder matá-lo com as próprias mãos, mas como humano seria esmagado. Com sua morte, tudo o que fizera se perdia. Tudo o que protegeu durante anos pertenceria ao Chanceler e Hansalexius Anton Leigh Conanlescaut Borlowish Spartwalyskis Borwoshi Meneslaups desapareceria eternamente da terra.

 ─ Você me traiu. E eu a odeio por isso! ─ Disse abrindo a porta. 

Não viu a governanta se esconder no quarto em frente. 

Deixou o apartamento furioso. Entrou no primeiro bar que encontrou.

 

Nice consolou a jovem patroa com carinho. Ruth chorou por horas e acordou aos gritos nas poucas vezes que adormeceu. Exatamente como acontecia nas primeiras semanas. Leigh demorou dois dias para voltar e quando entrou a garota estava no sofá olhando o nada. Levantou feliz por ele ter retornado. 

 ─ Prepare-se para partir. ─ Disse sem sequer olhá-la, indo direto para o bar.

 ─ Você... você vai me levar para ele? ─ A expressão dele a fez recuar. 

 ─ Não ─ Ele disse servindo-se de conhaque. ─ Isso me humilharia ainda mais.

 ─ Então...?

 ─ Tenho direito de decidir se ainda a quero. Decidi que quero.

 ─ Ah! ─ Voltou a respirar aliviada ─ Então para onde vamos?

 ─ Para a América. Quanto mais longe ficarmos da Europa enquanto gesta, maior chance terá de permanecer oculta.

 ─ América? ─ Koryaks não se refugiavam na América. ─ A matrioska já foi até a América para pegar um legatário?

 ─ Não posso afirmar. ─ Virou-se para ela. Frio.

 ─ Não? Mas você... Você vai pegá-lo... quando nascer?

 ─ Não. Eu o enjeito. ─ Disse duro.

 Algo se quebrou dentro dela. A dureza do olhar dele...

 ─ Você… o enjeita?. ─ Ruth repetiu sem acreditar. Tensa envolveu o ventre com os braços em um gesto protetor. ─ Você aceitou o outro bebê! 

 ─ O outro bebê não era filho de um traidor de nosso povo! Era apenas a semente humana vinda de um rapaz íntegro que perdeu a vida por protegê-la! Merecia ser meu legatário, merecia minha descendência!

 ─ Leigh por favor! É meu filho! É um inocente!

 ─ Nunca será um inocente. É parte dele!

 ─ Se a matrioska não for e se você não o pegar ele...

 ─ Não viverá. ─ Aproximou-se dela bebendo. Pela aparência era o que havia feito nos últimos dois dias. ─ Não vou dar vida a semente do meu inimigo.

Ruth empalideceu tomada pela extensão da declaração.

 ─ Não pode...

 ─ E o que eu não posso Ruth? ─ Sibilou furioso e ela recuou assustada. Já o tinha visto transtornado, mas nunca a raiva dele foi direcionada a ela ─ Eu vou fazer o que decidir fazer e não há ninguém que possa me impedir. Eu posso decidir renegá-la e entregá-la ao Chanceler. Talvez até me concedam clemência por isso e ao menos eu poderia existir como Koryak e não esta existência humana servil e limitada.

 ─ Sabe que jamais fariam isso. Por favor... tem que pegar... meu bebê.

 ─ Eu o rejeito. A aceito e tomo como serva

Ruth recuou outros dois passos. Serva? Ela, serva? A condição mais desprezível a que uma Koryak pura podia ser sujeita...

 ─ Sigo todos os ritos e costumes, mas rejeito aquele que gesta. Esta é uma opção. Tenho outra. Pode ir ter com o Koryak que lhe deu esse ser. Sabe como ele traria seu filho ao mundo não sabe?

 ─ Não. ─ Sem se conter ela desabou em um choro suplicante. ─ Por favor... Leigh ...por favor.... não permita... não permita que um inocente não veja a luz!

 ─ A luz já se apagou para muitos. ─ Terminou a dose e serviu-se de outra. 

 ─ Aceito ser sua esposa. ─ Ele riu mordaz.

 ─ Não quero uma esposa traidora! ─ Rebateu ─ Precisa da minha proteção. A terá como minha serva!

 ─ Eu não o traí. Por favor... Eu não posso ser uma serva.

 ─ Escolha. Tem dois minutos para aceitar ou não.

Ruth deu-lhe as costas tentando encontrar uma saída que não a fizesse submeter a tal condição. Gerava um Koryak e queria ter este filho. Para gestá-lo precisava de proteção. Não poderia ficar sozinha. Se ficasse não teria forças para dar à luz e mesmo que conseguisse levar a gravidez até o fim, tanto ela quanto o filho pertenceriam ao Chanceler se um Koryak não lhe desse guarda. Precisava da guarda de um Koryak mesmo que fosse como serva. Fechou os olhos e com a voz trêmula ela começou a declamar a própria sentença de submissão. 

 ─ Eu o aceito.... eu o aceito como meu senhor... eu o aceito e permito... que me tenha, que me tome...eu permito... que desvende... meus segredos... minhas entranhas... meu corpo mortal e minha essência imortal. E o tenho agora como meu senhor, senhor da minha vida e do meu ser.

 ─ Você permite... ─ Com dois passos largos a alcançou e a apertou contra o próprio corpo. ─ E eu aceito. ─ Apertou os seios, mordiscou o pescoço. A virou com raiva e a beijou mordendo os lábios. ─ E tomo o que é meu! ─ O beijo foi mais longo. O gosto de sangue o fez se afastar. Segurando-a pelos braços a sacudiu como uma boneca de pano. ─ Pertence a mim agora! Entende isso? Pertence a mim! Somente a mim! Diga!

 ─ Pertenço ao meu senhor. És o meu amo ─ Concordou como ele queria.

 ─ És minha! Obedecerá a minha vontade.

 ─ Sim meu amo.

 ─ Seguirá os costumes. Todos eles.

 ─ Sim meu amo.

 ─ Não verá homem algum. Não sairá sem minha permissão. Não falara com ninguém. Pertence a mim e eu direi o que pode ou não fazer.

 ─ Sim meu amo.

 ─ Irá me servir! ─ O olhar assustado não o deteve. Mergulhou a mão na massa de cabelos negros cintilantes ─ Me servir... em tudo...

E voltou a agredi-la em algo parecido com um beijo. Ruth chorou. 

 ─ Monsieur! ─ O grito de madame Lanfond os separou. 

Soltou a jovem de forma brusca e ela quase caiu. A governanta deixou a sacola de compras que carregava e correu para ampará-la. Envolveu Ruth pelos ombros.

 ─ Francamente Monsieur! Sinceramente esperava que depois de dois dias a raiva já teria passado e monsieur voltado a razão.

Embalou Ruth com palavras de carinho em francês. Leigh se afastou e voltou a se servir de outra dose. Nice o repreendeu com o olhar severo. 

 ─ Mademoiselle não tem culpa do que aconteceu. Ela é uma vítima monsieur. 

 ─ O que sabe? ─ Perguntou mordaz.

 ─ Tudo. Lamento monsieur, não pude deixar de ouvir a última discussão dos dois. Entendo a sua raiva, mas não pode pensar que mademoiselle o traiu.

 ─ O que sabe? ─ Sibilou encarando a governanta.

 ─ Mademoiselle não pode ser acusada de traição quando foi violentada. Eu cheguei no dia seguinte ao acontecido. Monsieur não estava aqui. Monsieur sequer veio ─ Ele a olhou reprovador. ─ Talvez tenha tido um bom motivo, mesmo assim monsieur não esteve aqui e isso é um fato. Eu sim. Eu vi o quanto ela estava traumatizada. Vi o quanto estava ferida no corpo e na alma. Por semanas esta jovem gritou durante o sono. Por semanas mal comeu. Só a vi sorrir no dia em que chegou. Agora a vejo chorar mais do que antes. E a causa dessas lágrimas, é monsieur!

 ─ Cale-se!

 ─ A primeira coisa que disse quando chegou era que mademoiselle era a porta de seu céu... ─ Ela continuou sem ouvi-lo. 

 ─ Meu céu transformou-se em um inferno! ─ Disse furioso. ─ Um inferno pelo qual já passei. ─ Aproximou-se da noiva que chorava baixo aconchegada a governanta. ─ Me jogou no inferno novamente. ─ Mudou para a língua natal. ─ Vai me servir. Em tudo. ─ Ruth o olhou assustada. ─ Contenha-se, perfume-se e vá para meu quarto. Meu corpo precisa de alívio. E de hoje em diante, só falamos em nossa língua. ─ Olhou a governanta perdida na conversa. ─ Isso a manterá viva. ─ Saiu sala.

Nice ajudou a jovem patroa e ir para o quarto. Entendeu quando a jovem pediu que lhe preparasse um banho. A água quente iria ajudá-la a relaxar. A deixou na banheira e foi preparar uma boa xícara de chá. Parou a porta do quarto que o dono da casa costumava usar. Pode ouvir o som do chuveiro. Era bom que se acalmasse também. Pela aparência deveria ter rodado bebendo de bar em bar durante todo o tempo que esteve fora. Ele também estava sofrendo. Penalizou-se dos dois.

Não imaginava como resolver aquela situação. Talvez com o tempo...

Mais do que nunca mademoiselle precisava de tempo. Os dois precisavam pensar e decidir o que fariam. Se ficariam juntos ou se separariam. Já sabia que ambos não tinham mais família. Apenas um ao outro. E agora existia a criança. 

O chá ficou pronto. Demorou mais alguns minutos preparando um lanche. A jovem não havia comido nada naquele dia… Levou para o quarto surpreendendo-se com a forma como a encontrou vestida. 

Ruth mal se cobria com um bustiê vermelho repleto de adornos em pedras. O ventre estava exposto e a pele reluzia com as contas que desciam da parte superior circulando o corpo. A parte de baixo era mínima e inúmeros véus pretos, vermelhos, prateados com delicados fios de ouro e pedras cintilantes a cobriam, ocultando e revelando as pernas bem torneadas. Nos cabelos presos em um elaborado penteado, uma tiara de a coroava. Em cada tornozelo, punho e pescoço uma corrente em ouro e pequenas pedras cintilantes.

Estava lindamente maquiada. E mais triste do que em qualquer outro momento.

 ─ Mademoiselle...?

 ─ Sei que não preciso explicar ─ A jovem disse beijando-a de leve no rosto. ─ É melhor que saia. Tire o resto do dia e a noite de folga.

 ─ Mademoiselle, isso é... Ele não pode obrigá-la!

 ─ Ele pode. Eu o aceitei como amo. ─ Mirou-se no espelho. ─ Eu que recusei ser esposa, aceitei a condição de serva. ─ Virou-se para a amiga. ─ Sei que não faz ideia do que isso significa, mas... ele pode fazer o que quiser comigo agora. ─ Para completar a beleza da jovem faltava apenas um sorriso. ─ Vá. Ele me espera.

 ─ Mademoiselle... ele está furioso... ele pode machucá-la! Machucar o bebê!

 ─ Ele nunca me machucaria fisicamente Nice. E contra as leis que regem a natureza de um Koryak ferir um ser mais fraco.

 ─ Está dilacerando sua alma!

 ─ Deitar-me com ele... enquanto o bebê ainda não está formado... ─ Alisou o ventre. ─ Talvez...talvez.... dê um pouco dele a criança... um pouco que seja, e meu filho viverá. ─ Havia adornos e pinturas nas mãos e anéis nos dedos. Ela brilhava. ─ Faço o que for necessário para manter meu filho vivo. Agora vá.

 

Leigh tomou um banho quente seguido de uma ducha fria, alternando os dois por quase meia hora. Agora esperava por Ruth em seu traje de príncipe. Uma longa casaca em branco e dourado com o brasão da família Conanlescaut bordado no peito. A faixa na cintura marcava os quadris estreitos, o cirwal era preto e justo.

Calçava botas longas fechadas por pequenas fivelas. 

O primeiro dever de uma serva era tirá-las e beijar os pés do amo. O segundo era despi-lo tocando com os lábios e as mãos cada parte do corpo que desnudava. O amo a conduziria da maneira que lhe aprouvesse para o próprio prazer. 

Muitos humilhavam suas servas obrigando-as a atos censuráveis. Ele não. Seria um bom amo apesar de Ruth merecer que a fizesse pagar. Fechou a cortina e deitou ajeitando as almofadas. Como desejou aquele momento. Na verdade, desejou tê-la em sua noite de núpcias e não o ato servil de uma dominada. No entanto Ruth o rejeitara como marido. O trairá com seu inimigo. Merecia ser usada. Merecia ser o objeto de seu bel-prazer. Apertou as têmporas com os indicadores. O efeito da bebida havia passado e a gargalhada vitoriosa de seu inimigo voltou a ressoar nos ouvidos. 

Fechou os olhos e pode vê-lo rindo de sua humilhação.

 ─ Eu estou aqui, meu amo. ─ Ruth disse tensa entrando no quarto.

Leigh abriu os olhos e por um milésimo de segundo desistiu de macular tamanha beleza. Viu o brilho de desafio nos olhos dela. Brilho que não existia antes. 

 ─ Conhece os costumes. ─ Mandou esticando o corpo sobre a cama. Ruth olhou em volta. As cortinas estavam cerradas, mas a luz acesa mantinha o ambiente claro. Algo como dor a cortou.

 ─ Meu amo... permita-me apagar a luz. ─ Pediu as mãos tremendo.

 ─ Não. Quero vê-la. Quero que me veja. É a minha vontade.

Ruth arquejou um segundo. Abriu a boca para protestar e a fechou em seguida. 

Leigh viu o mesmo brilho de desafio em seu olhar enquanto ela se aproximava. Ruth subiu na cama, ajoelhou-se aos pés dele e começou a abrir as pequenas fivelas do calçado. Em um gesto rápido ele dobrou o joelho fazendo-a se aproximar mais. Reclinou-se e a nova posição a fez ficar em frente a ele. 

 ─ Olhe para mim ─ Obediente ela o encarou. 

Leigh aspirou o perfume suave e a puxou sobre si. A envolveu com braços e pernas, girou o corpo ficando sobre ela. Prendeu-lhe os punhos sobre a cabeça. Deslizou, virou, ajeitou até moldar o corpo feminino ao seu. Gemeu baixo posicionando-se entre as coxas dela. Ruth sentiu o peso dele contra carne e começou a tremer. A frágil barreira dos tecidos impediu que ele a invadisse por inteiro. A mão livre subiu e desceu pelo corpo enquanto se movia forçando-a a separar mais as pernas. Ela as abriu totalmente e ele voltou a gemer pressionando ainda mais o sexo contra o dela. Ruth levantou os quadris. Queria que ele a tomasse. Com ódio ou amor, queria dar uma chance ao filho que gerava. 

Não conseguiu evitar que o tremor aumentasse. 

Não conseguiu evitar o pranto que veio silencioso. 

Leigh não o notou. Mergulhou o rosto no pescoço longo, abriu a frente do cirwal guiando a mão delicada ao próprio corpo. A induziu a tocá-lo. Ruth tentou empurrá-lo. Estava errado. Mesmo para uma serva estava errado. Ele a forçou a ficar quieta e de novo guiou a mão pequena ao corpo mostrando como queria ser tocado. 

Lágrimas de humilhação e vergonha escorreram no mesmo ritmo que a mão deslizava. Leigh levantou a cabeça e gemeu alto um “não pare” Os olhos estavam vidrados. Ele não via nem ouvia nada. Apenas sentia. Os Koryaks eram assim. Quando se entregavam ao sexo não sentiam, não viam nada além do estímulo que recebiam. 

Ela continuou obedecendo até que ele se derramou. 

Leigh ficou imóvel um segundo ofegante. Ruth pensou que tivesse acabado. Quando ele se moveu arremeteu o corpo no dela. Encontrou a barreira da seda que a cobria. Virou e tentou afastar o fino véu para dominá-la por inteiro. 

Sem perceber ela começou a lutar. Gritou. Seu pesadelo tornou-se real. 

Havia um monstro sobre ela. Quanto mais lutasse mais cedo morreria. Sabia disso e preferia morrer a permitir aquilo. Sabia que depois de saciado ele a mataria de qualquer forma. A adaga estava ali ao lado para arrancar-lhe o coração.

O choro tornou-se convulsivo e ele bebeu as lágrimas.

Gritou por socorro. Gritou pelo homem que jurou protegê-la. 

De subido Leigh a largou levantou em um salto. Respirava ofegante. A odiava e se odiava. Ruth sentou encolhendo-se na cama. Tentava se cobrir assustada. Ele se virou para se recompor. Se ajeitou ofegante recobrando o controle.

 ─ Vista-se. ─ Mandou alguns minutos depois. ─ Vou deixá-la em um convento.

 ─ Não... não meu amo. Perdoe-me, meu senhor! ─ Percebendo o que fez caiu aos pés dele ─ Eu não vou lutar mais. Eu o aceito meu amo. Faça comigo o que quiser. ─ Voltou a abrir a bota. Tremia tanto que as pulseiras titilavam. 

 ─ Se continuar vou possuí-la como homem. Não como Koryak. ─ Ruth parou.

 ─ Sem partilha? ─ Perguntou trêmula ainda aos pés dele. Ele apenas acenou que sim. ─ Então… de toda forma.... meu bebê... meu bebê morrera.

 ─ Deitar-se comigo não resolverá isso. Não vou me dividir para dar a ele parte da essência que falta. ─ Ruth recuou magoada. ─ Levante-se, vista-se. Vou deixá-la em um convento e lá poderá rezar para que a matrioska vá pegar este enjeitado. ─ Saiu do quarto. Ela ficou no chão imóvel sabendo o que aquilo significava.

Leigh precisava beber. Só a bebida traria o alívio que precisava. Na sala encheu o copo, uma, duas, três vezes. Os olhos turvaram. O efeito era rápido. 

 ─ Solte este copo. ─ Disse uma voz firme vinda da varanda. 

Leigh se virou assustado. Ruth que chegava a sala parou chocada.

 ─ Salastiel! ─ A jovem murmurou para o reverendo. Seu pai. 

 

Salastiel teve um segundo para entender o que acontecia. Pareceu flutuar e parar ao lado da filha. Beijou-lhe os lábios suavemente, puxou a longa capa que usava, colocando-a com cuidado sobre os ombros da garota. Tocou com a ponta dos dedos a boca machucada e as marcas de lágrimas. A manteve junto a ele por alguns segundos. 

Mandou-a ir se vestir como a princesa que era. Depois que ela saiu voltou-se para Leigh. Observou os trajes dele. A batina se agitou com os dois passos largos e raivosos que deu para alcançá-lo. 

A mão foi rápida e certeira.

 ─ Envergonho-me de você! 

 ─ Não é o primeiro! ─ A bofetada ardia na face esquerda. 

 ─ Não lhe entreguei minha filha para ela ser sujeita a condição de serva.

 ─ Não o fiz. ─ Confessou envergonhado. Voltou a encher o copo ─ Não a tive. ─ Bebeu. ─ Mandei que se vestisse. Pretendia deixá-la em um convento. Agora que está aqui pode levá-la como creio que veio fazer.

 ─ Você não vai abandoná-la novamente. Fez-me uma promessa e vai cumpri-la. Vai torná-la sua esposa aos olhos de Deus, aos olhos da lei, e sob todos os costumes de nosso povo. Vai viver com ela, coabitar e terão filhos que...

 ─ Ter filhos? Como se ela já gesta o filho do traidor? ─ Quase gritou indignado. Não viu surpresa nos olhos negros do mentor. ─ Você sabia!! 

 ─ Eu a curei. Claro que sabia que ela gesta.

 ─ Por isso me arrancou a promessa de casamento! A fim de dar honra a um...

 ─ Não se atreva! Não ofenda minha descendência! ─ Salastiel espalmou a mão no peito dele sem realmente tocá-lo jogando o rapaz do outro lado da sala sobre um sofá. ─ Eu o desafio se disser uma única palavra ofensiva sobre minha Ruth ou ao filho que ela gesta. 

Devagar Leigh levantou humilhado indo direto para o bar.

 ─ Faz isso por que sabe que agora não posso vencê-lo.

 ─ Nunca pode. E nunca poderá se continuar a agir como um garoto mimado e imprudente. Este ser é um presente!

 ─ Um presente? Para quem? Talvez para você! Sua descendência ligada a descendência do mais novo Chanceler. Sua descendência garantida, não importa quem governar Koryakia! ─ Outro copo foi enchido. 

 ─ Estou farto de suas tolices. Este ser é um presente de Deus para você!

 ─ Como pode dizer que é um presente? Ela gesta o filho do homem que usurpou meu direito. O filho do homem que tirou meus dons. Como isso pode ser um presente? Ele saberá que ela gesta. Ele ouvirá o filho e virá atrás dela. E desta vez matara os dois. A mim e a ela. ─ Bebeu e voltou a encher o copo.

 ─ Só o tempo dirá. ─ O copo na mão de Leigh tremulava. ─ Meu senhor já bebeu demais! ─ Salastiel disse em tom de pesar. 

 ─ Não tanto quanto gostaria. ─ Meio trôpego desabou sobre o sofá. ─ Só a bebida me faz esquecer o riso dele. ─ Levantou o copo em um brinde com um esgar amargo. ─ Bebo a vitória dele.

 ─ Concentra-se demais nas coisas ruins. ─ Encarou-o ─ Nada justifica o que fez. Eu tinha sua promessa de honrar minha casa tomando minha filha como sua esposa e não de reduzi-la a condição mais desumana que existe em nossas leis. Minha Ruth nunca poderia ser sujeita a condição de serva!

 ─ Ela mereceu. Desejou o filho dele. Uniu-se a ele.

 ─ Não seja tolo. Se assim fosse você já não existiria mais. Meu senhor não imagina o quanto Ruth sofreu. ─ Curvou-se em frente a ele. O tom mudou completamente. ─ Meu Senhor, para mim e para boa parte de nosso povo ainda és nossa esperança. Ainda acreditamos que, por sua intervenção, teremos um país governado com paz e justiça. Para isso precisa aprender a conter o ciúme que o devora. Não falo como pai que vê uma filha humilhada, falo como preceptor do príncipe que fui.

 ─ Não tenho ciúmes ─ Retrucou irritado.

 ─ Não tens ciúmes!? É cego por ele! Vive, respira, promove guerras por este sentimento. É o mal que o consome todos os dias. O mal que levou nosso povo...

 ─ O que me consome e ter minha honra ferida! Todas as minhas mulheres me traíram. ─ Levantou para encher o copo. ─ Ruth agiu tal qual Susan, que fez tal qual Breseída a maior de todas as traidoras! Todas me envergonharam gestando o filho de outro. 

 ─ Se pensas assim é porque você não soube amá-las verdadeiramente. Em todas vê Breseída. Minha filha não é assim. E você sabe disso. É digna e honrada. Ou era, antes de sujeitá-la a...

 ─ Já lhe disse que não o fiz. ─ Baixou a cabeça. ─ Não tive coragem. ─ Sentou desolado. ─ Leve-a. Não a quero aqui. Se ela prefere o filho do traidor ao meu nada mais posso fazer a não ser enjeitá-la.

 ─ Estou pronta meu pai. ─ Ruth disse surgindo na sala. Trazia apenas a pequena mochila com que chegara. Ouviu o último comentário feito por Leigh. 

 ─ Você não vai deixar esta casa minha filha. Se o jovem príncipe quer separar-se, ele deve sair. ─ Colocou as mãos para trás das costas, adotando sua costumeira postura compenetrada. ─ Precisa de uma morada protegida. E no momento esta é a única que posso prover. 

 ─ Esta casa é minha por direito de herança materna. ─ Leigh zangado.

 ─ Herança que deverá ser repassada a mulher com que se unir em matrimônio. Fez-me esta promessa. Quebre-a que o jogo de volta de onde o tirei. ─ O tom era brando mais claramente ameaçador. 

 ─ Então é isso? ─ Leigh riu amargo. ─ Devo-lhe paga-lhe por ter me libertado da prisão e por ter-me feito viver uma vida que não era minha?

 ─ Deve pagar-me por, até aqui, estar vivo e por ele estar em segurança. Ele. Lembra-se daquele que o Chanceler jamais pode saber que existe?

 ─ Não arriscaria o tempo da vingança!

 ─ Você o arrisca quando se nega a cumprir sua palavra!

Miraram-se desafiadores. O mais fraco baixou os olhos primeiro.

 ─ Está bem. ─ Bebeu infeliz.  ─ Vou fazer de sua filha minha esposa. 

 ─ Não... ─ Ruth tentou. 

 ─ Devemos então... ─ Leigh levantou a mão interrompendo o mentor. 

 ─ Farei dela minha esposa. Nas leis dos homens, nas leis de Deus. Será minha esposa perante todos. Quando meu direito for restabelecido será reconhecida como rainha e senhora do nosso povo. Mas não em nossos ritos. Ela jamais será esposa em meu coração. Não partilharemos o leito como Koryaks. A terei como homem, e, no tempo certo, terei outra esposa e até uma serva para que estas gestem meus legados ─ Mirou Ruth com pesar. ─ E mesmo sendo esposa não poderá questionar minhas decisões. Quanto ao ser que gesta não sou responsável por ele. Ela terá a minha proteção, que será o bastante para que leve a gestação a termo. Para o primeiro sopro de vida, se a matrioska ou outro Koryak quiser pegá-lo... não me oporei. Desde que seja bem longe de mim. Isso terá que bastar para compensá-lo pelo serviço que me prestou.  ─ Por hora basta. ─ Virou-se para Ruth. ─ Retorne ao seu quarto, filha.

 ─ Não vou me deitar com quem me considera uma traidora! ─ Ruth olhava para Leigh com raiva. ─ Pai, não quero este casamento.

─ Lamento minha criança. O casamento deve acontecer, mas não precisam partilhar o leito se esta não é sua vontade. ─ Salastiel a envolveu nos braços. ─ Tempo minha pequena. ─ Disse olhando-a nos olhos. ─ Tempo.


O vento frio da tarde de novembro o trouxe de volta.

Ciúme. Salastiel descreverá toda a angústia que sentia como ciúme. Era um tolo. Um sábio tolo. Disse que o ciúme o cegava. Não tinha ciúme. O que sentia era... Não, não era ciúme. Ciúme de um ser que ainda não nascerá? Tolice! 

Ciúme do pequeno Koryak que crescia em um ventre que estava seco e que reduzirá a mais bela princesa de seu povo a uma serva? Ruth sujeitou-se a ele e se sujeitaria a qualquer um para manter o filho vivo. Ela amava aquele pequeno ser. 

Amava o filho do traidor! Amava mais do que a ele. 

Esse amor era algo que não conseguia entender e o enchia de...ciúme.

Queria o amor dela apenas para si. Saber que havia algo que ela amava mais provocava um tipo de dor que dilacerava sua mente e o deixava dominado por....ciúme. Puro, cruel e amargo ciúme. A dor que sentia quando a olhava era como o frio cortante das terras de seu povo. Forte e penetrante. Era a adaga do inimigo que rasgava sua carne arrancando-lhe o coração. Se este filho não existisse talvez tivessem uma chance. O sentimento o amargurava. Retomou a corrida pegando o caminho de volta. Teve sede. Parou em uma lanchonete. A tinha magoado novamente. E quantas vezes mais o faria? Ocupou uma mesa. Conseguiriam viver sob o mesmo teto sem provocar nela tanta dor? Pediu água. Desejava uma forma de alívio. A garçonete lhe trouxe o pedido. Precisava de uma serva. Não. Serva não. 

 ─ Se precisar de algo é só chamar. ─ A moça disse sorridente.

                    Levantou os olhos. Estava na América. Precisava de uma milenec.
 

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