CAPÍTULO 08
O dia estava perfeito para um
piquenique. Leigh dirigiu em silêncio. Mal olhou para a esposa. O clima tenso,
novamente deixou a governanta preocupada.
Havia poucas pessoas quando
chegaram. Ela e Ruth ficaram com as outras mulheres e Leigh foi cumprimentar o
pastor. Ruth os viu conversarem por alguns minutos com intimidade e ficou
surpresa. Desde quando Leigh era íntimo do reverendo? O marido não voltou para
perto dela. Passou a ajudar no que faltava ser organizado, montando aparelhagem
de som, carregando mesas, abrindo toalhas.
Serviço braçal que ela nunca
pensou em vê-lo executando.
Patrícia chegou com o marido e
foi coordenar os serviços na cozinha. Outras pessoas preparavam as brincadeiras
que teriam. Todos se envolveram e no meio da manhã tudo estava pronto.
─ Ruth!!! Você veio. Que bom! ─ Hope a
cumprimentou feliz.
Apresentou o marido. Elton apenas
acenou com a cabeça em um cumprimento formal. Hope sentou com ela. Ao longe
alguns homens jogavam beisebol e o policial juntou-se a eles. Ruth olhou ao
redor procurando o marido. Novamente ele conversava com o pastor de forma
íntima. Patrícia e Nancy juntaram-se a elas.
Distraiu-se e em poucos minutos
se divertia com as histórias das mulheres. Entendeu porque Patrícia tinha o
apelido de rojão. Riu de como Nancy narrou as peripécias dos filhos. Conheceu
os dois meninos e de oito e seis anos e encantou-se com eles. Annette apontou a
filha Ashley em um grupo de adolescentes, que cheias de risinhos disfarçados,
olhavam para Leigh que se preparava para entrar no jogo na posição de receptor.
Ruth se empertigou na cadeira. Não sabia que ele jogava.
─ Seu marido é jovem e bonitão Ruth. ─ Patrícia
disse mordendo uma fruta. ─ Você não deveria deixá-lo solto por aí. Nossas
amiguinhas ali não representam ameaça estão só admirando e sonhando. Mas há
outras... ─ Sinalizou com um gesto discreto uma mulher que caminhava na direção
do jogo ─ Que não o deixariam escapar.
Ruth se voltou devagar analisou a
mulher que parou no canto do campo olhando fixamente para Leigh. Ela era linda.
Corpo voluptuoso, traços alinhados, pele escura em um tom dourado. Não pode ver
a cor dos olhos, mas os traços do rosto e os cabelos crespos bem penteados em
um coque moderno emolduravam uma beleza incomum.
Exótica. Foi a única palavra que
lhe veio para descrevê-la.
O tipo de mulher que Leigh
desejaria.
─ Meu marido conhece as responsabilidades que
tem. ─ disse tentando manter o tom frio. ─ Desde que ele as cumpras, o que faz não me
interessa.
─ Não acredito nisso. ─ Nancy sibilou quase
batendo na mesa. ─ Ruth, escute, Becky
Sune é uma cavadora de ouro. Acredita que a única maneira de ter algo na vida e
se um homem der a ela. E pôs os olhos no seu marido! Você não pode permitir.
─ Nancy pare ─ Hope pediu.
─ Concordo ─ Patrícia ─ Mesmo que não estejam
bem você não deve deixar que esse tipo de mulher entre em sua vida.
─ Vocês duas parem! ─ Hope voltou a pedir.
─ Ela não está na minha vida. E só vai
estar na vida de Leigh se ele permitir. E se isso acontecer não posso fazer
nada. ─ Levantou tensa. ─ Com licença. ─ Deixou a mesa quase correndo.
Nice a alcançou e juntas entraram na capela.
Becky observou Leigh jogar alguns
minutos. Como os times eram mistos, pegou o taco e foi substituir o batedor do
time adversário. Parou na frente de Leigh, de costas para ele movendo o corpo
como se realmente procurasse uma boa posição para a tacada. Olhou para e piscou
maliciosa.
Errou a primeira bola. Riu alto e
virou-se para ele piscando.
─ Ops!! Melhor para vocês. ─ Leigh não
respondeu.
Ela se requebrou um pouco mais
até o segundo arremesso que errou novamente. No terceiro recuou como se
tentasse rebater. Em um gesto quase teatral fingiu tropeçar e se deixou cair.
Ficou sobre Leigh rindo.
─ Saia de cima de mim. ─ Ele mandou furioso.
─ Não gosta de mim assim pertinho?
─ Não. ─ Sem cuidado a empurrou.
Levantou em um salto a tempo de
ver Ruth se refugiar na capela. Fuzilou Becky com alguns palavrões no próprio
idioma. Ela ria quando estendeu a mão pedindo ajuda para levantar. Ele tirou a
luva, jogou no canto e deixou o campo ignorando-a. Ela ainda gritou indignada,
mas não foi ágil o bastante para impedi-lo. Leigh caminhava com passadas largas
para a capela. James o interceptou.
─ Ela não viu. ─ Disse sério tentando
acompanhar os passos largos. ─ Sua
esposa já havia deixado a mesa e estava de costas para o campo. Ela e a
governanta devem ter apenas ido ao banheiro. Leigh... ─ Chamou preocupado. Ele
estava tenso respirava rápido. ─ ..Venha,
vamos tomar alguma coisa.
O guiou para perto da mesa de
bebidas. Abriu uma garrafa e deu a ele. Leigh tomou um gole longo e cuspiu em
seguida.
─ O que é isso? ─ Perguntou olhando a bebida
com ar de repudio.
─ É só uma cerveja. ─ Tirou a garrafa da mão
dele. ─ Desculpe. Você disse que não bebia apenas em alguns dias.... achei que
hoje podia.
─ Não posso beber em alguns períodos. ─ Justificou
alcançando uma garrafa de água. ─ Estou
em um período de recolhimento e abstinência. Nada de bebidas, nada de farras,
nada de batalhas. É um tempo de oração e purificação.
─ Ah... interessante. ─ Observou a
movimentação. Becky vinha em sua direção preparada para atacar novamente ─ Vem,
vamos ajudar a organizar as crianças. Elas vão fazer corrida de saco. Lá você
estará a salva e já vai treinando.
O guiou até a área das
crianças.
Havia mães demais por perto para
Becky arriscar se aproximar.
Meninos e meninas entre quatro e
oito anos corriam de um lado para outro em brincadeiras diversas. Leigh se
perdeu no meio delas, surpreso, sem saber como agir. Recebeu um punhado de
sacos e repetiu o que James estava fazendo. Ajudava-os a entrar nos sacos e os
posicionava na linha de largada. Riu satisfeito quando um dos que ajudou
venceu. Preparou outra turma. Novamente outro que ajudou venceu.
Vibrou. Riu alto. Ganhou um
picolé de uma das mães. Os meninos fizeram fila para serem ajudados por ele.
Torceu. Ganhou de novo. A corrida seguinte era a dos menores. A maioria recebeu
ajuda dos pais. Leigh ficou parado olhando-os até que uma mãozinha pequena o
puxou.
─ Papai pode me ajudar? ─ Ele abaixou e ainda
assim ficou mais alto do que a garotinha. Ela vestia jeans e camiseta, tinha os
cabelos dourados na altura dos ombros cheios de cachinhos. O sorriso formava
duas covinhas na face. Os olhos eram azuis como o céu.
─ Posso sim pequenina. ─ Respondeu sentindo
uma onda de calor. ─ Mas eu não sou seu pai. ─ Leigh ajeitou o saco. Ela pousou
as mãozinhas no ombro dele e Leigh tremeu sentindo outra onda de calor. Olhou
bem a criança. E seu coração transbordou de ternura.
─ Hoje vai ter fogos papai? ─ Ela perguntou entrando
no saco e olhando o céu.
─ Fogos?
─ Disseram na escola que quatro
de julho sempre tem fogos!
─ Acho que não. Estamos em novembro. Eu não
sou seu pai querida. ─ Voltou a dizer.
Perdeu-se nos olhos dela. A criança segurou seu rosto olhando-o bem.
─ Poxa, ainda não é mesmo. O que está fazendo
aqui papai?
─ Mocinha eu não sou seu pai. Não tenho filha.
Quer ajuda para encontrá-lo?
─ Ah, então é por isso que está aqui. Por que
não me ama ainda. ─ Murmurou triste. ─ Porque não me ama papai? Não tenho outro
pai. Só você. Não sei como fui parar na barriga da mamãe, mas se não me amar
logo vou morrer e não vou existir.
─ O que? ─ Chocado encarou a menina. Olhou ao
redor.
O local era o mesmo, mas as
pessoas estavam diferentes. Ao longe Nancy reclamava com um pré-adolescente. O
filho dela, mas ele só tinha oito anos! Buscou outras evidências que comprassem
sua desconfiança. O calor era quase insuportável.
Fitou novamente a menina.
─ Quatro de julho? ─ Ela acenou com a
cabecinha. ─ Sabe como vim parar aqui? ─
Assustado. Saltos no tempo eram raros e proibidos. A criança pegou a mão dele.
Leigh olhou para as mãozinhas entre as suas. Algo como dor o cortou.
─ Não sei como. Sei por quê. É por que não me
ama ainda e se não me amar logo não vou existir.
─ Quem é você? Qual o seu nome?
─ Pelo que me explicou é melhor não saber.
─ Quem é sua mãe?
─ Ruth Lescaut!
─ E seu pai? ─ Perguntou temeroso.
─ Você. Se decidir me amar. ─ Sorriu para ele.
─ Aqui, neste tempo, você me ama muito. Brincamos todos os dias e você me põe
para dormir. Lê para mim. Me deu ela. ─ Apontou um pequeno poodle que corria
por perto. ─ Me leva para a escola, me ajuda com as tarefas e cozinha também.
Gosto da comida que faz. Você cozinha bem. Só não gosto muito da salada que me
faz engolir, mas eu como porque você sempre me faz rir quando quer me convencer
a comer vegetais. Você faz muitas outras coisas para mim. Só não penteia meus
cabelos porque diz que não tem jeito. Vovó faz isso. ─ Sorriu de novo ─ Diz que me ama todos os dias e me protege de
qualquer perigo por isso eu acredito que me ama mesmo. Pensar que ainda não me
ama dói papai. Dói muito. ─ Fez carinha de choro. Os bracinhos rodearam seu
pescoço. ─ Vai me deixar morrer papai?
Emocionado Leigh a apertou nos
braços.
─ Não. Nunca. ─ A apertou mais. A afastou e
tentou sorrir. Fitou o rostinho de sua filha reconhecendo nele os traços da
esposa. Os olhos dela. ─ Onde está sua mãe?
─ Hummm ─ Ela baixou os olhos sem fita-lo.
Leigh olhou ao redor. Queria ver a esposa. ─ Ela não pode vir? ─ Perguntou
tocando o rostinho. Ela era linda. Quem não amaria algo tão lindo e meigo. ─ Como é seu nome querida? Onde está sua mãe?
─ Ela não está aqui ─ A criança respondeu em
um murmúrio baixo. ─ Pelo que me
explicou não posso contar ─ Sorriu para ele. ─ Ah!! ─ Fitou a mulher que
chegava com uma adorável raiva infantil. ─ É melhor ficar longe dela.
Leigh levantou os olhos para ver
a quem a criança se referiu. Becky Sune vinha em sua direção. Ele levantou
dando a mão a criança. A moça parou ao lado dele arrogante. Mascando um maldito
chicle e as roupas estavam sujas de terra. Era a mesma Becky. Sentiu a mão
vazia.
Olhou para baixo e percebeu chocado
que menina desaparecerá.
Havia voltado.
─ Será que pode me dar um pouco de atenção?
─ Não. ─ Disse e saiu apressado.
Leigh estava confuso demais para
dar qualquer coisa aquela mulher. E se uma criança, quatro anos no futuro o
mandou ficar longe dela e o que faria. Ela o acompanhou andando ao lado dele
falando sem parar. Ele sequer a ouviu. Estacou e se virou quase fazendo-a se
chocar contra ele.
─ Me deixe em paz. Não quero nada com você.
Não vou ter nada com você. ─ sibilou olhando ao redor. Não viu a esposa. ─ Posso
recompensá-la por ter tomando seu tempo. Quanto quer?
─ Quanto pretendia gastar? Uns dez mil?
─ Tudo bem.. Vou lhe enviar um cheque pelo
correio. Agora, saia do meu caminho.
Ela recuou um pouco com as mãos
levantadas quando ele passou como uma bala, varrendo o local com os olhos,
perturbado. Estava procurando a esposinha doente. Devia ter pedido vinte,
trinta... Ele estava morrendo de medo que ela contasse a o que tinha acontecido
entre os dois. Dez estava bom. Para começar.
Leigh conseguiu se livrar de
Becky e tudo o que queria era encontrar Ruth.
O lugar estava ainda mais cheio
com pessoas circulando de um lado para outro dificultando a visão das mesas.
Pensou tê-la visto em um canto, mas quando se aproximou não a encontrou. Girou
buscando-a sentindo algo muito próximo a angústia.
Ao longe avisou esposa
conversando animadamente com Saul Tisdale. Ela o ouvia interessada. De onde
estava pôde perceber que o rapaz lançava sobre ela todo seu charme juvenil. E
mantinha a mão estendida. Viu Ruth rir abertamente de algo que ele disse e
aceitar a mão. As mãos se tocando foi uma punhalada. Sentiu a raiva parti-lo em
dois. Seu lado Koryak pronto para esganar o infeliz que a tocava. O humano
lutando para manter a sanidade. Conteve-se. Era apenas um cumprimento
comum.
Ele mesmo retirou o véu da esposa
e assim deu a ela permissão para conversar e cumprimentar qualquer homem
que...
Não. Não era. Ele ainda a
segurava. A viu levantar e se aproximar do rapaz. A viu sorrir como deveria
sorria apenas para ele. Viu os dois caminharem de mãos dadas para a pista de
dança que estava começando a ficar cheia. Viu o rapaz falar e ela acenar concordando.
Então ele passou a mão por sua cintura, tocando, provando, desejando. Sua
tentativa de controle desmoronou. Tudo se repetia. Começava com uma dança. Como
antes. Exatamente como antes. Sabia o que ia acontecer.
Iria ser traído.
Ruth voltou do banheiro
sentindo-se melhor. Há dias não tinha enjôos, mas só de pensar no marido nos
braços daquela mulher.... Ela era linda, perfeita. Leigh adorava aquele tom de
pele desde os tempos mais remotos. Ele sempre buscava uma serva com o mesmo
tipo físico. Pelo visto, suas preferências não mudavam com o passar do tempo.
Encontrou uma mesa e sentou sozinha.
Nice foi buscar um prato, dizendo
que ela precisava se alimentar. De onde estava viu o marido ajudando as
crianças. Sorriu. Ele havia garantido que não tinha uma milenec. Deu sua
palavra de príncipe. Um príncipe abaixado ajudando crianças a brincar. E ele
não gostava de crianças. Nunca gostou. Afinal foi o desejo de procriar que
afastou sua metade. O desejo maternal sempre foi mais forte do que... Talvez
fosse isso que o afastava do filho dela. O viu vibrar e torcer com as corridas.
Riu quando ele ganhou um dos picolés de prêmio. Então ele parou e ficou imóvel
olhando o nada por alguns segundos. A mulher a quem chamaram de Becky Sune se
aproximou. Caminharam lado a lado. De onde estava não podiam ouvi-los
conversar, mas percebeu que falavam com intimidade.
Realmente se conheciam.
─ Casal interessante não acha? ─ Alguém parou
ao lado dela.
Falava de Leigh e da tal de
Becky.
─ Você os conhece? ─ Perguntou séria.
─ Conheço. Ele é novo na cidade. Pena que já
está enrolado com aquela ali.
─ Esta? Parece que estão apenas conversando.
─ Ah, estão juntos sim. ─ Riu quase
assobiando. ─ Os vi juntos, bem juntos mesmo, no bar da cidade há alguns dias. ─
Ruth não olhou para onde ele apontava. ─ Mas o que tão bela flor faz aqui sozinha?
Desculpe, você disse que as vitaminas eram para você, mas não me disse se está
com o pai do seu filho. ─ O rapaz a fitava interessado. ─ Sou Saul Tisdale. ─ Ruth o olhou sem vê-lo
processando o que ouviu. ─ Eu não mordo
e não tenho nada contagioso. Você está?
─ O que? ─ Ruth riu tentando disfarçar o nó no
peito.
─ Com o pai do seu filho?
Leigh conhecia a mulher. Encontravam-se em bares e todas as tardes quando ele saia sem dizer aonde ia. Pelo menos uma noite passaram juntos. Transava com Becky Sune e a noite invadia seu quarto da esposa. Mentia.
─ Não. Não estou. ─ Pegou a mão estendida. ─ Muito prazer. Pode me chamar de Ruth... ─ Ele
sorriu mantendo a mão delicada na dele.
─ Quer dançar comigo Ruth? ─ Ela
hesitou. ─ É uma forma de arrecadar. Nós cavalheiros pagamos dois dólares
por cada dança com uma bela dama!
─ Então não podemos deixar de contribuir! ─ Levantou e se aproximou do rapaz com seu melhor sorriso. Caminharam de mãos dadas até a pista de dança.
Saul perguntou se podia passar a
mão em sua cintura e ela acenou concordando. O toque foi suave. Com ela, teria
que respeitar os limites tradicionais. Era claro que ela estava sozinha,
grávida e magoada. Dançaram dois, três passos quando alguém o puxou
separando-os de forma brusca. Saul ainda murmurou um hei. Demorou segundos para
absolver a cena que se desenrolava. Lescaut quase gritava com a mulher em uma
língua estranha e ela respondia na mesma língua e no mesmo tom.
─ O que pensa que está fazendo?
─ Muito menos do que você fez.
─ Sabe que nenhum homem pode tocá-la.
─ Verdade? Mas você pode tocar
qualquer mulher. A lei que vale para você vale para mim também. Não vou aceitar
que tente...
─ Vá para o carro! ─ Leigh sibilou
furioso para a esposa.
─ Hei!! ─ Saul se postou ao lado de Ruth e
levantou o braço para envolve-la pelos ombros.
─ Se tocar minha esposa será um
homem morto! ─ Leigh sibilou baixo e furioso. O rapaz interrompeu o gesto.
Recuou. As pessoas pararam para olhar. Leigh se virou para Ruth. A fúria
contida revela-se nos olhos duros. ─ Vá para o carro!
─ Monsieur ─ Nice surgiu assustada protegendo Ruth com o
corpo.
─ Leve-a para o carro senhora Lanfond! ─ Sibilou lutando para conter a raiva.
─ Ela é sua esposa? Desculpe, ela me disse
que...eu não vi a aliança. Só iria pagar por esta dança... ─ A frase foi interrompida quando Leigh o mirou
com ódio e depois olhou para Ruth e disse com tanto desdém que fez os olhos da
jovem se encherem de lágrimas.
─ Voltando a antiga profissão querida?
Ruth o esbofeteou. O rosto dele
girou com o golpe.
Leigh prendeu o ar que inspirou e
levantou a mão para passá-la nos cabelos, mas seu gesto foi mal interpretado e
Saul se interpôs entre eles desafiador.
─ Não se atreva!
─ Se tem amor a sua vida não se meta nisso. ─ Leigh
disse ameaçador.
A raiva era tão intensa que Saul
hesitou. Ele levantou as mãos pedindo paz.
─ Desculpe cara. Lamento mesmo. Ela não fez
nada. A culpa foi minha. Falei o que não devia, não sabia que ela era sua
esposa. Não vi a aliança. Ela estava sozinha, é bonita demais e... ─ Leigh avançou um passo. ─ Tudo bem.. Tudo bem.. me desculpe.
─ Se chegar perto de minha mulher outra vez,
mato você. ─ mirou Ruth. ─ Vá para o carro! Leve-a senhora Lafond. É
uma ordem!
─ Vamos madame!
─ Não. Não vou voltar com você. ─ Disse em
inglês. Leigh fechou o punho.
─ Não me desafie ─ Deu dois passos
furioso. Ruth recuou.
─ Se ela não quer ir, você não vai obrigá-la.
─ Saul se pôs entre eles de novo.
Leigh armou o punho e o acertou
com força. As mulheres gritaram. O rapaz caiu com o nariz sangrando girando no
chão pela força do golpe. Os homens que apenas assistiam correram na direção
deles.
Jeffrey e o chefe de polícia se
colocaram na frente de Leigh que se armou novamente. Theodoro levantou o irmão,
contendo-o
─ Leigh ─ A voz do pastor o fez parar. ─ Vá
para casa. Ruth e eu vamos conversar um pouco. Mas tarde eu mesmo a levo.
─ Não. Ela vai comigo. Não vai mais ter
amigos, vai voltar a usar o véu, vai... ficar reclusa em casa como deve ser
quando uma Koryak gesta. Ela gesta a minha criança e se deixar tocar por um ...
─ Olhou para Saul com desprezo. ─ ... um indigno comum.
─ Sua criança? ─ Ruth repetiu perplexa.
Ninguém a ouviu.
─ Eu vou falar com ela Leigh. Vá para casa. ─ O clérigo repetiu.
─ Não. ─ Estava furioso. Tentava se conter. ─ Ela vai comigo.
─ Por favor filho. Deixe-me orientá-la. Confie
em mim. Eu a levo em casa em uma hora. Não mais que isso.
─ Posso aguardar madame, monsieur. ─ Nice se
propôs.
Os olhos de Leigh se viraram para
Saul que estava pronto para o embate.
─ Ele também vai embora. Theodoro leve seu
irmão daqui. ─ O pastor mandou sério.
Saul resistiu um pouco, mas caminhou para a saída. ─ Vá para casa. Ore um pouco. Se acalme. Deixo
sua esposa em casa em uma hora. ─ Completou para Leigh.
Ainda furioso Leigh se virou e
caminhou para o carro. No estacionamento fuzilou Saul e o irmão com o olhar
antes de arrancar cantando os pneus.
─ Eu me pergunto Ruth ─ O pastor colocou um
copo d’água em frente a ela. Estavam sentados no mesmo local da primeira
conversa que tiveram. ─ Por que, conhecendo a natureza de se marido, você
aceitou dançar com Saul Tisdale.
─ Achei que ele estava ocupado demais com a
tal Becky para perceber qualquer coisa. ─ Deu os ombros. Depois levantou os
olhos magoados.
─ Ah... Becky Sune! ─ Sorriu para ela. ─ Seu marido já se penitenciou demais por ter
olhado para Becky Sune.
─ Então é verdade. ─ Conteve a lágrima. ─ Ele mentiu para mim.
─ O que acha que é verdade minha filha?
─ Ele e Becky Sune. Juntos. Todos os dias.
Todas as tardes.
─ Quem lhe disse que ele vê Becky todas as
tardes? Foi o jovem Tisdale?
─ Eu não devia me importar. Estamos casados,
mas não estamos juntos.
─ Acho difícil entender. Como se está casado
com alguém e não está junto?
─ Nós... partilhamos a casa, mas.... não o
coração.
─ E você não quer?
─ O que?
─ Partilhar o coração?
─ Não. ─ disse fria. ─ Leigh também não quer. Sendo
livre ele pode ter quantas mulheres quiser. E eu não posso interferir. E o
costume. Agora se ele pensa que eu vou só ficar sentada assistindo, se pensa
que.. eu não vou....
─ ...que não vai ... outros homens? ─ O
clérigo perguntou com ar de riso.
─ Não. ─ Gritou horrorizada. ─ Não! ─ repetiu mais baixo. ─ Quero ter uma
família. Quando nos separamos Leigh terá que arranjar outro marido para mim.
Não vou poder ficar sozinha e... terá que ser um... um... ocidental. Assim o
pai dele não terá direito sobre mim e... eu ficarei segura.
─ Leigh já me falou de suas leis e costumes. É
difícil entender. Gostaria de saber: É isso que quer? Não prefere assumir seu
casamento, dar uma chance a vocês dois? ─ Pegou as mãos dela. ─ Você
o ama filha. Muito.
─ Não vou abrir mão do meu filho.
─ Ele lhe pediu isso? ─ Ela acenou que sim.
─ Pediu. É outro costume, mas não concordei.
Ele não pode aceitar meu filho como dele ou não poderá reaver seus direitos. E
ele quer os direitos de volta. Ele fez uma escolha e eu... a minha.
─ Ele já me disse que desistiria de tudo se
pudesse apenas ser feliz com você.
─ Quando ele lhe disse isso?
─ Acho que há umas duas semanas. Em uma de
nossas conversas que temos todas as tardes, depois dou a ele estudos bíblicos.
─ Ruth refletiu o que ele disse.
─ Ele tem estudos bíblicos com o senhor?
─ Sim.
─ Todas as tardes?
─ Não. Duas vezes na semana.
─ Ah...
─ Nas outras três ele sai comigo e trabalha
como voluntário no asilo. Lá temos chance de conversar. Já o convidei para ir
até o orfanato, mas ele disse que não tem muito jeito com crianças, mas acho
que talvez ele mude de ideia depois de hoje. ─ Sorriu para ela. ─ Seu marido é um homem
fantástico minha cara. Ele se penitenciou por ter olhado para Becky Sune.
─ Eles... ele...ficou com ela?
─ Ele a olhou. Você o rejeitava todos os dias
e deu a ele autorização para ter... como é mesmo a palavra? Uma...
─ Milenec.
─ Isso. Uma milenec. Então ele mandou alguns
presentes, a convidou para sair, mas não foi ao encontro. Passou a noite aqui
na capela orando, pedindo a Deus que afastasse da tentação. E depois quando... Percebeu
que não conseguia resistir aos encantos da própria esposa passou outra noite e
dois dias inteiros se penitenciando por amá-la quando não deveria. ─ Voltou a
pegar as mãos dela. ─ Ele não se envolveu com outra mulher desde que a conheceu
minha filha. A amou quando a viu e nunca mais a tirou do coração. Agora tenta
arrancar este amor de qualquer forma. Se quer ajudá-lo a conseguir isso
fez bem em dançar com o jovem Tisdale. Agora ─ Ele levantou. ─ Talvez seja a
sua vez de dar o primeiro passo.
Ruth viu a cortina ser afastada
quando o carro estacionou. Gentil o pastor as acompanhou até a porta. Ao
entrarem, encontraram Leigh parado no meio da sala. A expressão era uma máscara
de pedra. Os olhos dois cubos de gelo. Ele abriu a porta da biblioteca sem uma
palavra.
─ Madame precisa de alguma coisa? ─ Nice
perguntou preocupada.
─ Pode ir para sua casa Nice. Está tudo bem. ─
Encarou o marido sem medo.
Com passos firmes entrou na sala.
Leigh fechou a porta devagar.
─ Leigh...
─ Cale-se. Não lhe dei permissão para falar.
─ Sentou em frente a escrivaninha. De cabeça baixa escrevia algo. ─ Você será levada para um convento. Ficará
reclusa até a chegada da minha criança. No tempo certo será trazida de volta
para o nascimento e..
─ Por que está dizendo sua criança? Você... decidiu
aceitá-lo?
Leigh apertou os lábios. Sabia
que não podia contar.
─ Você gesta a minha criança. Sei disso agora!
A cadeira girou e ele parou de
falar surpreso quando Ruth sentou no colo dele.
─ Eu sabia, eu sabia, que era seu legado! ─ O
abraçou feliz e o beijou.
Mesmo surpreso Leigh recebeu o
beijo. Ela se afastou e suspirou.
─ Ruth seu filho é minha criança, mas não por
meu legado. ─ Com cuidado a colocou no chão e levantou.
─ Não?
─ Não. Lamento. ─ Tocou o rosto triste ─ Mas, se permitir posso torná-la minha
criança.
─
É claro que permito. E aceito ser sua esposa.
O beijou novamente. Leigh a
apertou nos braços, depois a soltou devagar.
─ Por que decidiu aceitar? Por causa do... do
garoto? O que ele fez?
Um misto de prazer e dor o dominava.
─ Não sei de que garoto está falando! ─ Tocou
o rosto dele ─ Eu te amo. A única coisa que me fez renegar nossa união era sua
dúvida a minha lealdade e sua rejeição por meu filho. Se ambas não existem
mais, podemos nos unir.
Leigh pensou. Ela estava certa.
Os olhos marejaram.
─ Minha esposa? ─ Tocava os longos fios negros
com reverência.
─ Sim.
─ Para todo o sempre?
─ Por toda a eternidade.
─ Em qualquer ciclo?
─ Sim ─ Leigh se aproximou mais. Pegou o rosto
delicado entre as mãos. Sem conseguir se conter começou a beijá-la. Logo
encontrou e afastou o tecido do corpete do vestido que ela usava, enquanto a
colocava sobre a mesa.
─ Nós unirmos... Lembra o que isso significa?
─ Sei. E aceito. .
─ Tem certeza? ─ Tocou a face delicada.
─ Tenho.
─ Então não pode ser assim. Não
deve se macular. Vá se preparar. ─ A pousou chão devagar. ─ Vamos consumar
nosso casamento.
Ruth subiu para o quarto. Abriu o
grande baú antigo que sempre permanecia ao lado do guarda roupa. Tirou dele sua
veste nupcial. Uma camisola negra com uma cauda longa de rendas e detalhes
prateados. Tomou um longo banho e a vestiu. Se estivesse em Koryakia as
mulheres estariam ali ajudando-a a ir de encontro ao marido entre risos e
brincadeiras. Preparando-a com conselhos e dicas de como agradá-lo. Era tudo o
que ela queria. Saber exatamente como agradá-lo.
Atravessou a porta de
comunicação.
Leigh não estava no próprio
quarto. Sentiu-se frustrada. Ele tinha desistido. Já voltava quando a porta
entreaberta do outro lado do corredor chamou sua atenção. A abriu devagar. O
local estava todo iluminado por velas coloridas e como o costume mandava, Leigh
já estava na cama onde todos os Conanlescaut haviam nascido. Trajava a própria
veste nupcial. Uma túnica longa branca e vermelha. O jogo de luzes a fez
hesitar. Ele reclinou na cama e abriu veste. Era tudo o que usava.
─ Posso voltar para meu
quarto. ─ Ele murmurou devorando-a com o olhar. ─ Mas juro que isso me faria sofrer.
─ Não. Eu quero. ─ Caminhou com passos lentos até a
cama.
─ Tem certeza? Se... começar não vou conseguir
parar...
─ Tenho. ─ Ela murmurou deitando ao lado dele.
Leigh hesitou um pouco. Beijou os lábios túrgidos. ─ Não devo fazer mais do que isso, não antes
de...
─ Eu sei. Estou bem. Estou pronta.
Com seu consentimento o marido a
puxou sobre a cama. Suspendeu a camisola até a altura da cintura e deitou-se
reclinado sobre ela. Separou-lhe as pernas com a dele. Ela as abriu sem
resistência. Devagar Leigh ele se posicionou sobre o dela. Juntou os sexos.
Parou. Olhos nos olhos.
─ Quer que eu pare?
─ Não. ─ Ela respondeu em um gemido
fraco.
Leigh moveu-se um pouco mais
parando na entrada do corpo dela.
─ Paro agora se você quiser. ─ Gemeu sem saber
ao certo o que sentiria se ela o mandasse recuar. A beijou várias vezes
controlando o momento. ─ Paro?
─ Não. ─ Para reforçar o que dizia Ruth
levantou os quadris.
O contato entre os corpos
aumentou. Leigh lutava para se conter. Foi Ruth que se moveu, impulsionando o
corpo e completando a união. O prazer físico foi intenso.
Leigh, entre um impulso e outro a
cobriu totalmente com a túnica. Ele mergulhou nos recantos secretos do corpo
feminino e se dividiu.
Os corpos brilhavam. O quarto foi
inundado por luz e cor. Vermelho fogo a envolveu. Azul celeste o cobriu. As
essências de ambos se enlaçaram, se dividiram, compartilharam e se completaram
transpassando o real, o tempo e o espaço. Os corpos físicos continuavam se
movendo. Então o sol parou no horizonte. O cosmo deixou de se mover e milhares
de anos de história Koryak passaram de um para o outro. Leigh se misturou a ela
e ela se misturou a ele. As essências encontraram ritmo e sincronia. P pairando
no ar no tom da unificação. Formaram um único ser. Quase completo. Uma ínfima
parte faltava para serem novamente um Koryak pleno.
─ Desculpe. ─ Ele murmurou ofegante quando as
luzes começavam a diminuir.
─ Pelo que? ─ Ela murmurou sem entender. Os
olhos estavam nublados.
─ Foi rápido. ─ A beijou ligeiramente envergonhado.
─ Rápido? ─ Divertida Ruth olhou para o
relógio.
Havia se passado mais de duas
horas. Suspirou.
─ Podemos começar de novo.
A Sra. Lanfond levantou cedo e
preparou o café da manhã como de costume. Estranhou não ver sobre a bancada da
cozinha sinais de que monsieur já houvesse levantado. Ele devia ter desistido
da corrida. Esperou alguns minutos e nenhum dos dois desceu. Preocupada subiu e
bateu no quarto da patroa. A cama estava arrumada, mas nem sinal da menina. A porta
de comunicação entre os quartos estava aberta e devagar ela espiou o outro
quarto. Vazio também. O que teria acontecido? Não devia ter deixado a jovem
sozinha. Saiu para o corredor pensando no que fazer. Começou a olhar os demais
cômodos tentando não fazer barulho. Quando abriu a porta do quarto principal
estacou. Ambos dormiam nus e enlaçados. Sorriu satisfeita.
Leigh desceu no meio da tarde. Na
porta da geladeira encontrou um bilhete avisando que havia suco na geladeira e
sanduíches no micro-ondas. Aqueceu os sanduíches, preparou uma bela bandeja e
levou para o quarto.
Começava a anoitecer quando
ouviram uma leve batida na porta.
Leigh foi atender ofegante e mal
coberto por um lençol na cintura. Encontrou uma bandeja com sopas, pães e
doces. Tornou-se fã incondicional da governanta.
Desceram para o café da manhã no
dia seguinte. Estrategicamente Nice Lanfond não estava à vista. Outro bilhete
informava que ela tinha ido às compras.
─ Deus o que ela deve estar pensando? ─ Ruth
murmurou envergonhada.
─ Que somos um casal que se entendeu e que
está em lua-de-mel.
─ E estamos? ─ Corada.
Começou a beijá-la e quase não
conseguiu parar.
─ Estou com fome. ─ Murmurou simples afastando-o.
─ Eu também.
─ De comida.
─ Ah... Pena. Então acho que vou para a
biblioteca depois do café.
─ Não! ─ Ela quase gritou e ficou tão vermelha
que ele riu.
Mal terminaram de comer e ele a
carregou de volta para o quarto.
Os dias que se seguiram foram os
melhores desde o reencontro. Saiam cedo para caminhar, depois tomavam um banho
juntos e desciam para o café da manhã.
Riam, conversavam, brincavam,
depois Leigh ia para a biblioteca e Ruth para o jardim. Almoçavam juntos e ele
saia à tarde. Chegava por volta das cinco, jantavam às sete e algumas vezes
saiam para a cidade indo dançar, jantar fora, cinema ou teatro. Compareceram a
um baile beneficente e todos puderam ver o quanto estavam felizes.
Leigh não fumou mais, tampouco
acompanhou o vizinho nas noites de quartas. Tudo o que queria era estar em casa
com a esposa. Sentia-se realmente feliz
Refletia se valeria à pena
arriscar aquela felicidade provocando o Chanceler. Pensava muito na garotinha
que tinha visto. Sem dúvida uma pequena Koryak poderosa. Ela o chamou de papai
e estavam no piquenique de quatro de julho da cidade de Cupertino. Significava
que após cinco anos ele e a esposa ainda moravam ali e que estavam totalmente
integrados à comunidade. Isso era bom.
Pela primeira em milênios vez
acreditou que poderiam ter um ciclo de paz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Sua opinião e valiosa!! Comente!!