sábado, 22 de agosto de 2020

CAP 12

 

CAPÍTULO 12

 

Ruth desligou a TV assim que a repórter começou a relatar o currículo do promotor Eric Asher. Fechou os olhos murmurando uma oração silenciosa. 

Não podiam estar na mídia. Meneslaups não aprovaria. E se descobrisse que ela gestava! Estremeceu. Hope a envolveu pelos braços de forma amiga.

Patrícia e Annette também se aproximaram. 

─ Vai dar tudo certo Ruth. ─ Hope murmurou.

─ Ele fala com tanta segurança... é um louco. ─ Ruth disse tentando se manter calma. ─ Quando o capitão comprovar que Leigh passou os últimos anos no navio quero ver o que ele vai fazer com toda essa certeza. 

─ A que horas é a audiência?

─ Na quarta, às dez da manhã.

─ Nós vamos com você. ─ Nancy disse colocando nas mãos dela uma xícara de chá. ─ Estaremos lá, aconteça o que acontecer.

─ A única coisa que vai acontecer e Leigh voltar para casa. Ele é inocente e isso tudo não passa de um engano lamentável... Meu Deus! Tudo isso por que pedimos um exame. ─ sem perceber começou a chorar. 

Hope a abraçou embalando-a como uma criança.

 

Michael agitava devagar a dose de seu conhaque preferido. Dificilmente tomava qualquer bebida alcoólica, mas naquela noite estava precisando. Sentado no escuro pensava em tudo o que tinha reunido. Havia terminado sua conversa com o capitão do navio e com as outras testemunhas que vieram do oriente. Nenhum poupou elogios a Leigh Lescaut. Aluno exemplar, amigo dedicado, tripulante aplicado. Se descobrir que tinha uma filha foi um choque, conhecer a história do marido dela o impressionou. 

Vestiu o casaco e resolveu ir para casa. A rodada de perguntas no dia seguinte seria ainda mais ofensiva. E ainda teria que falar com o Harrison, seu superior imediato e colocá-lo a par do novo caso que estava assumindo e também teria que apresentar ao cliente uma planilha de custos e acertar os honorários. E sabia o quanto a firma custava. Iria abater seu percentual nas horas, mesmo assim os custos seriam altos. Não queria nem pensar se fossem a julgamento. Mas para irem a julgamento o juiz teria que acreditar que seis testemunhas mentiam e duvidar da autenticidade de mais de vinte páginas de documentos oficiais. Ainda havia o trabalho do tradutor juramentado e do perito na análise dos documentos. Estimava os custos em cem mil dólares. Esperava que Lescaut tivesse este valor disponível. 

Na manhã seguinte Leigh havia tomado banho e trocado de roupa. Sua aparência era melhor, mas a expressão tornou-se distante quando viu Dennis Blake em um canto. Michael o acomodou de costas para o agente. O promotor tomou a frente e centrou as perguntas nos meses em que os crimes ocorreram. Onde ele estava; quais cidades visitou; em qual hotel ficou, com quem falou. Perguntou onde a Senhora Lescaut estava durante o mesmo período. Leigh respondeu que ela costumava seguir de avião para a cidade em que o navio aportaria. 

─ Então ela o seguia até a cidade seguinte?

─ Sim.

─ Fez isso por quatro anos?

─ Sim.

─ E você se formou em outubro?

─ Não. Eu dei baixa no navio em outubro.

─ Não se formou?

─ Não.

─ Por quê? Quando terminaria o curso?

─ Apenas em maio.

─ Mas largou em outubro?

─ Sim.

─ Por quê?

─ Para ficar com Ruth.

─ Mas já estava com ela.

─ Para me casar com Ruth. ─ hesitou. ─ Ela engravidou. Não podia deixá-la solteira por mais tempo.

─ Por que não se casou e continuou os estudos? Faltava pouco.

─ Não podia.

─ Explique.

─ Se me casasse com ela não poderia continuar os estudos.

─ Por que não?

─ Porque meu pai não permitiria.

─ Seu pai não aprovava o relacionamento de vocês?

─ Não.

─ Alguma razão em especial? ─ perguntou tentando não insinuar nada.

─ Meu pai já tinha um casamento arranjado para mim como é costume em meu país. ─ contou depois de hesitar outra vez.

─ Entendo. Mas você a manteve de um lado para outro no mundo por quatro anos e seu pai não interferiu.

─ Não.

─ Por que não? Se não aprovava o relacionamento de vocês...

─ Porque ele não a considerava importante e eu não poderia me casar até completar 24 anos.

─ E você os fez em outubro. ─ disse folheando as páginas com informações ─ Interessante. Deixou o navio um dia depois.

─ Sim.

─ Se queria tanto ficar com... sua esposa, porque não deixou o navio antes?

─ Porque era menor. ─ percebeu que eles não entenderam. ─ Em meu país só se é maior aos 24 anos. Até esta idade eu dependia completamente do meu pai. Até para me casar precisaria de autorização dele. Completando a maioridade era livre para ir e vir e poderia viver minha vida da maneira que quisesse.

─ Então pode dispor dos 15 milhões de dólares que herdou de sua mãe.

─ Sim.

─ Passou mais da metade desse dinheiro a sua esposa?

─ Sim.

─ Por quê?

─ Dote de casamento. É costume garantirmos o futuro de nossas mulheres da melhor forma que pudermos.

─ Sei. ─ pensou ─ E o que vai herdar do seu pai? Ele é um homem rico?

─ É, mas fui deserdado. Dele não vou herdar nada.

─ Foi deserdado?

─ Sim.

─ Por quê?

─ Por que me casei com Ruth.

─ Ele ficou com muita raiva?

─ Não honrei a autoridade dele me negando a cumprir o compromisso de união acertado com uma família importante. Meu irmão já havia se recusado a cumprir este compromisso. Com minha recusa ele ficou sem ter como cumprir a palavra assumida. Precisou indenizar a família da jovem. Era natural que se zangasse. 

─ Um homem inflexível seu pai. E valeu pena? ─ irônico.

Os olhos de Leigh se estreitaram.

─ O que?

─ Decepciona-lo dessa forma. Não preferia estar em paz com ele?

─ Nunca estive em paz com ele.

─ Por que não?

─ Por que eu não existia para ele.

─ Não?

─ Não. Há alguma cultura onde o segundo filho da segunda esposa tenha valor?

─ Até você se recusar a honrar a autoridade dele ele se ocupava com você?

─ Ele me mantinha conforme a lei o obrigava. Nunca teve maiores projetos para mim. Seu tempo era gasto com meu irmão, o primogênito e com minha irmã, a caçula.  

─ Mas seu irmão também o decepcionou não foi? Você disse que ele também recusou o casamento arranjado. E o que seu pai fez? Também o deserdou?

─ Não houve tempo. Meu irmão morreu pouco depois.

─ O que aconteceu?

─ Desconheço as circunstâncias da morte dele. Fui avisado apenas que ele morreu e por isso eu me tornava responsável em cumprir as obrigações de família.

─ Lamento. ─ não parecia lamentar nada.

─ Não é necessário. Eu não o conheci.

─ Não conheceu seu irmão?

─ Não. Ele era o primogênito, filho da primeira esposa. Vivíamos em casas separadas. Nunca nos encontramos.

─ Por que não? A ex-esposa de seu pai não permitia contato?

─ Não havia uma ex-esposa. Em meu país um homem pode ter tantas esposas quanto puder sustentar em igualmente de condições. Não sei quantas esposas meu pai tem, mas ele mantem uma casa para cada família e nunca permitiu que mantivéssemos contato. Uma forma de manter a paz ele dizia.

─ Interessante. Mas até você fazer 24 anos ele respondia por você?

─ Sim.

─ E se importava o bastante para intervir quando necessário?

─ Sim. ─ respondeu depois de hesitar um momento.

─ Se importava o bastante para comprar sua saída da prisão depois de cometer um assassinato?

─ Hei! ─ Michael pulou. ─ Não responda isso Leigh.

─ Você vai negar que seu pai pagou oitocentos mil dólares para livrá-lo de uma prisão em Tapeie no final de setembro?

─ Não responda Leigh. ─ Michael mandou firme. 

─ Vai negar que matou um homem em setembro?

─ Eu...

─ Não responda! Pare Asher! Pare agora!  

─ Pode negar que matou um homem em setembro passado senhor Lescaut?

─ Não! ─ murmurou de cabeça baixa. 

─ Cale-se! Que droga! ─ Michael gritou levantando. ─ Pronto. Terminou. ─ pegou Leigh pelo braço e o fez levantar ─ Só falamos em juízo agora.

─ Por mim tudo bem. ─ Asher disse satisfeito. ─ Pode levá-lo.

 

─ Você não pensa? Por que...─ Michael começou, mas parou. Levou Leigh para a cela. ─ O que diabos acha que estava fazendo contando aquilo?

─ Me disse para não mentir.

─ Mentir não. Omitir sim. Ele não precisa ter sua declaração de que matou um homem e que seu pai pagou para tirá-lo da cadeia. ─ bufou andando de um lado para outro ─ Isso é verdade? Essa parte você não me contou.

─ Não sei se é verdade. Quando fui preso meu pai foi avisado pelo capitão do navio e eles ajeitaram as coisas junto à polícia. Não sei se ele pagou ou não. ─ Michael parou. Pensava, refletia, batia o pé agitado. 

─ Acha que ele pagou? ─ tenso ─ Seu pai usaria de suborno para libertá-lo?

─ Talvez. ─ Leigh respondeu hesitante ─ Até o dia em que completei 24 anos ele era responsável por meu bem-estar. Já havia perdido meu irmão e o conselho o questionou sobre suas ações como guardião. A prisão em Tapeie estava me matando. Eles não gostam de estrangeiros. Fiquei preso poucos dias e fui acoitado várias vezes. Iria morrer se continuasse ali. Uma manhã o capitão chegou e me levou de volta ao navio. Quando consegui ficar de pé, faltavam três dias para minha maioridade. Esperei os três dias e parti para Paris onde Ruth estava me esperando. Nunca perguntei como ou por que me soltaram.

─ Que droga! ─ Michael andou agitado ─ Isso não é bom. Isso não é nada bom.

 

A movimentação de repórteres na entrada do fórum foi grande. Na tarde anterior Michael apresentou o caso à firma e preparou a planilha de custo. Os honorários foram fixados em valores mais altos do que o normal e o pagamento inicial foi de trinta e cinco mil dólares. Ruth quis pagar, mas Leigh foi irredutível. 

─ Obrigado. Ruth não deve mexer no dote. ─ disse sério quando Michael lhe entregou o talão de cheques que havia pedido. Preencheu rápido. ─ Já foi muito menor do que deveria. Não aceite dinheiro dela Michael. Só hipótese alguma. ─ entregou o cheque ao advogado ─ Tenho mais do que suficiente para essas despesas. E em breve tudo estará resolvido.

─ Em breve. ─ Michael concordou tentando se mostrar confiante.

Confiança que foi abalada quando entraram na sala de audiência. Outros casos estavam sendo apresentados como era rotina e havia uma infinidade de policiais, acusados e advogados, mas o salão também estava cheio de repórteres. Todos aguardavam a chegada do suposto assassino das bonecas. Eric Asher passou por ele e entregou uma ordem de suspensão do sigilo do caso. Michael trincou os dentes. Holly sentou ao seu lado e Ruth ficou na plateia ao lado dos amigos. 

─ Caso 2435 ─ o meirinho anunciou.

─ Acusado? ─ o magistrado perguntou. 

─ A corte chama o Senhor Alexius Leigh Lescaut. 

O burburinho de repórteres cessou. Asher já havia deixado vazar o nome do acusado, Michael concluiu enquanto agentes traziam o cliente para a sala com pés e mãos algemados. Mesmo de longe ouviu a filha ofegar. Nenhum dos acusados havia sido trazido à sala algemado. Isso só ocorria quando o preso reagiu a prisão, ou fosse preso em flagrante de violência. Não era o caso de Leigh. A questão era pessoal. Dennis Blake tinha razões pessoais para humilhar Leigh Lescaut o máximo possível.

Leigh foi acomodado no banco destinado aos detentos, as algemas retiradas. 

─ Estado? ─ o juiz prosseguiu. 

─ Promotor Eric Asher ─ Asher disse levantando. 

─ Defesa?

─ Michael Melton. ─ Michael levantou e foi sentar na mesa destinada a defesa. 

─ Acusações?

─ A promotoria aponta Alexius Leigh Lescaut como autor dos assassinatos de: Solange Roupem, Paul Galvin, Helena Robson, Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund Treneham, Penélope Ives e Kyle Wiltakher. ─ o meirinho anunciou.

Os flashes dispararam na direção do réu.

O juiz precisou ser firme para manter a ordem. 

─ Como o acusado se declara? ─ perguntou quando conseguiu silêncio.

─ Inocente. ─ Leigh levantou e disse alto e houve outra onda de ruído. 

O juiz pediu ordem sob pena de mandar esvaziar o recinto. Todos se calaram.

─ Base da acusação? ─ o juiz continuou olhando Leigh com mais interesse.

─ Provas técnicas. ─ Asher começou ─ Amostras orgânicas do suspeito foram comparadas a 128 evidências materiais coletadas nas vítimas e nas cenas dos crime e todas acusaram 100% de compatibilidade. ─ Informou satisfeito. 

Uma onda de murmúrio correu a sala novamente. Todos olharam para Leigh com um misto de horror e curiosidade. Hope passou o braço nos ombros de Ruth. 

─ Base da defesa para a alegação de inocência? ─ o juiz perguntou fitando Michael como se ele fosse um louco.

─ Temos testemunhas de que o Senhor Lescaut estava do outro lado do mundo nas datas das ocorrências.

─ Apresentem o caso. ─ o juiz mandou ─ Pode começar Senhor Asher.

A audiência durou o resto do dia. Os demais casos foram transferidos para o dia seguinte e a corte se concentrou em ouvir dois peritos com esclarecimentos sobre as provas técnicas. Logo depois do almoço a palavra foi passada a defesa e Michael apresentou documentos devidamente traduzidos e o testemunho dos cinco tripulantes de diferentes nacionalidades do navio escola. Três eram professores, um era o imediato e outro era aluno. Todos falavam inglês fluente. Novamente os elogios a Leigh não foram poupados. Sim ele estava na Ásia. Não. Não havia deixado o navio fora dos períodos de folga. Sim, o viam nas cidades que aportavam sempre com a noiva. Não, não acreditavam que ele fosse capaz de cometer tais crimes. Aluno exemplar, amigo, dedicado, educado, religioso. Michael deixou o testemunho do capitão do navio para o final. Quando Michael terminou Asher, que não interpelou nenhuma outra testemunha, se levantou para interrogá-lo.

─ Bom tarde capitão Nienczewski.

─ Boa tarde senhor.

─ O senhor tem conhecimento do que está sendo avaliado aqui?

─ Sim senhor.

─ O senhor tem ciência de que mentir em um tribunal, mesmo em uma audiência preliminar como esta, constitui um crime grave?

─ Não estou mentindo senhor.

─ Responda à pergunta, por favor.

─ Sim.

─ Ciente disso, o senhor pode relatar o que aconteceu com o senhor Lescaut em 09 de setembro deste ano? ─ perguntou. 

─ Protesto ─ Michael levantou. ─ A data em questão está fora das investigadas.

─ Meritíssimo, quero comprovar um fato relevante que ocorreu com o acusado e que creio está ocorrendo aqui novamente. ─ Asher justificou.

─ Meritíssimo, por favor, posso me aproximar. ─ Michael pediu nervoso. 

Deu uma rápida olhada para Ruth e ela estava recostada na amiga abalada. Tenso Leigh olhava para frente. Nenhum deles queria que aquele dia fosse relembrado. O juiz autorizou e acusação e defesa se aproximaram. 

─ Meritíssimo a data em questão não está sob investigação. ─ argumentou.

─ Quero comprovar que uma ação adotada pela família do acusado por um fato em tal data está se repetindo aqui.

─ Meritíssimo, a revelação do fato em questão expõe outra pessoa. Vai tornar público uma situação grave e traumática para a esposa do Senhor Lescaut.  

─ O fato revela as características violentas do acusado.

─ Voltem a seus lugares. ─ os advogados obedeceram. ─ Protesto negado. ─ Michael sentou lançando a Ruth um pedido mudo de desculpas. ─ Pode responder à pergunta capitão. ─ o homem ficou em silêncio. ─ Quer que a promotoria refaça a pergunta?

─ Por favor. ─ o capitão pediu olhando para Ruth.

─ O que aconteceu em 09 de setembro?

─ Muitas coisas aconteceram nesta data. O senhor poderia ser mais específico?

─ O senhor Lescaut se envolveu em uma briga?

─ Não. Um desafio.

─ Um desafio. Contra quem?

─ Outro aluno.

─ Qual o motivo? ─ o homem olhou para Ruth. 

─ Desavenças por conta da hoje Senhora Lescaut.

─ O senhor pode relatar os fatos?

─ Não.

─ Não?

─ Não. Não os conheço. Não posso repetir histórias das quais só ouvi falar.

─ O que aconteceu com o Senhor Lescaut depois deste desafio?

─ Ele foi preso.

─ Sob qual acusação?

─ Agressão.

─ Agressão?

─ Sim. Agressão.

─ Não foi assassinato? Ou, no mínimo, tentativa de assassinato?

─ Não. A acusação foi de agressão.  

─ O aluno que o Senhor Lescaut agrediu não faleceu no hospital dias depois?

─ Não. Ele se recuperou e depois foi expulso do navio.  

─ Então a vítima foi expulsa?

─ Eu não chamaria Lipszyc de vítima.

─ Mas o senhor Lescaut o agrediu.  

─ Não pelas nossas leis. O senhor Lescaut foi desafiado e venceu o desafio. Lipszyc não gostou muito e inventou essa história de agressão.

─ Se assim foi, por que então ele foi preso? ─ Asher perguntou impaciente.

─ Porque estávamos em solo estrangeiro.

─ Onde o fato ocorreu?

─ Em Taipei.

─ Taiwan?

─ Sim.

─ E o acusado ficou preso quanto tempo?

─ Mais de vinte dias.

─ Pode nos dizer como o senhor Lescaut foi libertado?

─ As autoridades o liberaram. As acusações foram retiradas.

─ Sob que condições?

─ Apenas que ele não voltasse ao país.

─ Capitão Nienczewski, houve algum acerto financeiro para esta concessão?

─ Protesto. ─ Michael tentou.

─ Negado. Responda à pergunta senhor.

─ Algumas despesas foram pagas.

─ Despesas?

─ Em Taiwan as despesas de um detento são cobradas, mesmo quando as acusações são retiradas.

─ E quanto cobraram por estas... despesas?

─ Oitocentos mil dólares. ─ o capitão falou devagar. 

O burburinho recomeçou e o juiz teve que pedir ordem várias vezes. 

─ Oitocentos mil dólares. Acusações retiradas. Vinte dias de detenção indevida. ─ parou em frente a testemunha. ─ Capitão onde o senhor trabalha?

─ Sou capitão do navio escola Karnikowski.

─ Há quanto tempo?

─ Vinte anos.

─ O mesmo que o senhor Lescaut frequentou nos últimos quatro anos?

─ Sim.

─ A quem pertence o navio?

─ Pertence à Companhia Kiesztowski.

─ Todos que testemunharam pela defesa são funcionários desta companhia?

─ Não. O senhor Borwoshi é aluno do navio.

─ Sim. O melhor amigo do acusado. Os demais trabalham para a companhia?

─ Sim.

─ Diga-me, capitão, o senhor sabe quem é o dono desta companhia? 

─ Ela pertence a um conglomerado de empresas.

─ Um grupo grande?

─ Sim.

─ Poderoso?

─ Sim.

─ E o dono de tudo isso, sabe quem é?

─ Sim.

─ Pode nos dizer o nome dele?

─ Senhor Vladymyr Meneslaups.

─ Vladymyr Meneslaups. ─ andou pela sala vitorioso. ─ Pode dizer a esta corte, quem é o senhor Meneslaups?

─ Não entendi a pergunta.

─ Quem é Vladymyr Meneslaups? ─ repetiu impaciente.

─ Ainda não entendi a pergunta. ─ olhou para Leigh sem jeito. 

─ Qual a ligação do senhor Vladymyr Meneslaups com o acusado?

─ É o pai dele.  

 

─ Por que não me disse que seu pai era dono do navio? ─ Michael perguntou nervoso quando o juiz declarou o recesso para avaliar as informações. 

─ Eu não sabia! ─ a expressão de Michael era descrente. ─ É verdade!

─ Impossível acreditar nisso. Aliás, é impossível acreditar em qualquer coisa que tenha me dito até agora.  

─ Meu pai tem diversos negócios pelo mundo. Não conheço nenhum. Nunca fiz parte da vida dele como lhe contei. Já sou maior, estou deserdado. Fui renegado por minha família. Meu pai não vai interferir desta vez. Mas mesmo que interferisse não sou o assassino que procuram.

─ Não é o assassino que procuram? ─ perguntou irônico.

─ Não.

─ Então meu amigo, como é que seu DNA estava nas vítimas?

 

Meia hora depois todos foram novamente chamados à sala. Michael evitou olhar para Ruth. Sentia-se enganado, iludido. Ela seria mesmo sua filha? Ou tudo não passava de uma manobra para fazê-lo aceitar o caso? Para levá-lo a crer que provas incontestáveis como amostras de DNA estavam erradas? Mas havia acabado. Lescaut o tinha despedido. Terminava seu trabalho ali. Ouviu o meirinho mandar Leigh levantar.

─ Caso 2435. O Estado da Califórnia acusa Alexius Leigh Lescaut como autor dos assassinatos de: Solange Roupem, Paul Galvin, Helena Robson, Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund Treneham, Penélope Ives e Kyle Wiltakher e de todos os demais atos que precederam a morte das vitimas: sequestro, estupro, tortura, cárcere. ─ o meirinho disse impassível.

─ O acusado tem algo a dizer antes que eu relate minha decisão? ─ o juiz perguntou sério.

─ Sim Meritíssimo. ─ disse firme e Michael o fuzilou com o olhar.

─ Tem a palavra.

─ Eu quero agradecer ao capitão Nienczewski e os demais que depuseram a meu favor por terem vindo testemunhar onde eu estava nas datas dos crimes. Também quero relatar que eu não participava da vida e dos negócios do meu pai e que não sabia que o navio pertencia a ele. Mas tenho certeza de que tal fato não interferiu nas declarações das testemunhas. Eles falaram a verdade. Eu estava a bordo nas datas destes fatos horríveis. ─ respirou. ─ Sobre o que ocorreu em setembro só tenho a agradecer a Deus por Lipszyc estar vivo. Como fui detido até hoje pensava que ele havia morrido. É um alívio poder afirmar que não matei ninguém.

O juiz o encarou por segundos. Leigh sustentou o olhar. 

─ No caso 2435, esta corte acata as acusações contra o Senhor Alexius Leigh Lescaut, e determina que... ─ o burburinho foi geral. Os flashes explodiram. Asher levantou vitorioso recebendo o cumprimento da equipe. Michael permaneceu sentado.

─ Michael. ─ Holly disse e ele fez que não ouviu. Riscava a folha a frente.

─ ...que o réu seja levado para a prisão de Santa Fé até... ─ o juiz continuou.

─ NÃO! ─ um grito angustiado cortou o ar e todos se calaram. 

Michael levantou assustado. 

Todas as cabeças se voltaram na direção de Ruth que tentava abrir caminho na multidão para chegar até o marido. Os amigos não conseguiam contê-la. 

─ Michael faça alguma coisa... ─ Holly continuou assustada.

─ Meritíssimo, peço que seja estabelecida uma fiança... ─ Michael tentou.

─ Meritíssimo a promotoria é contra a fiança. As acusações são graves, há precedente de violência, o réu goza de dupla nacionalidade e abastados recursos o que torna a possibilidade de fuga provável... ─ Asher interrompeu.

─ Fiança negada. ─ o juiz disse seco e continuou ─ O réu será levado a prisão de Santa Fé onde...

─ NÃO!! ─ Ruth gritou outra vez.

Michael foi encontrá-la.

Estava a ponto de entrar na área restrita e se o fizesse seria presa por desacato.

─ ... onde deverá aguardar julgamento. ─ o juiz parou olhando o desespero de Ruth. ─ Contenha-se jovem. ─ mandou implacável. 

─ Meritíssimo, a avaliação psiquiátrica do Senhor Lescaut não foi completa...

─ Eu li a avaliação Senhor Melton. ─ sério ─ Antes de ser julgado o acusado deverá passar por uma avaliação psiquiátrica completa para definir se ele pode ou não responder por seus atos. O caso segue para o Meritíssimo Juiz Jacob Carpeaux. Podem levar o réu.  

Ruth gritou novamente. Michael a abraçou e abafou o grito angustiado contra o peito. As pessoas estavam comovidas pelo sofrimento dela. Os guardas se moveram devagar. Seguraram Leigh pelo braço e começaram a escoltá-lo. Passaram ao lado de Michael e Ruth. Rápida ela agarrou o marido pela roupa e o puxou para perto. Os fotógrafos trabalharam agitados. O juiz gritava ordem, ordem... 

Viva. ─ ela disse as lágrimas transbordando ─ Mate se preciso for, mas viva! Precisamos de você. ─ Leigh foi puxado pelos guardas e segundos depois desaparecia em uma das saídas laterais.

 

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