CAPÍTULO 12
Ruth desligou a TV assim que a
repórter começou a relatar o currículo do promotor Eric Asher. Fechou os olhos
murmurando uma oração silenciosa.
Não podiam estar na mídia.
Meneslaups não aprovaria. E se descobrisse que ela gestava! Estremeceu. Hope a
envolveu pelos braços de forma amiga.
Patrícia e Annette também se
aproximaram.
─ Vai dar tudo certo Ruth. ─ Hope
murmurou.
─ Ele fala com tanta segurança...
é um louco. ─ Ruth disse tentando se manter calma. ─ Quando o capitão comprovar
que Leigh passou os últimos anos no navio quero ver o que ele vai fazer com
toda essa certeza.
─ A que horas é a audiência?
─ Na quarta, às dez da manhã.
─ Nós vamos com você. ─ Nancy
disse colocando nas mãos dela uma xícara de chá. ─ Estaremos lá, aconteça o que
acontecer.
─ A única coisa que vai acontecer
e Leigh voltar para casa. Ele é inocente e isso tudo não passa de um engano
lamentável... Meu Deus! Tudo isso por que pedimos um exame. ─ sem perceber
começou a chorar.
Hope a abraçou embalando-a como
uma criança.
Michael agitava devagar a dose de
seu conhaque preferido. Dificilmente tomava qualquer bebida alcoólica, mas
naquela noite estava precisando. Sentado no escuro pensava em tudo o que tinha
reunido. Havia terminado sua conversa com o capitão do navio e com as outras
testemunhas que vieram do oriente. Nenhum poupou elogios a Leigh Lescaut. Aluno
exemplar, amigo dedicado, tripulante aplicado. Se descobrir que tinha uma filha
foi um choque, conhecer a história do marido dela o impressionou.
Vestiu o casaco e resolveu ir
para casa. A rodada de perguntas no dia seguinte seria ainda mais ofensiva. E
ainda teria que falar com o Harrison, seu superior imediato e colocá-lo a par
do novo caso que estava assumindo e também teria que apresentar ao cliente uma
planilha de custos e acertar os honorários. E sabia o quanto a firma custava.
Iria abater seu percentual nas horas, mesmo assim os custos seriam altos. Não
queria nem pensar se fossem a julgamento. Mas para irem a julgamento o juiz
teria que acreditar que seis testemunhas mentiam e duvidar da autenticidade de
mais de vinte páginas de documentos oficiais. Ainda havia o trabalho do
tradutor juramentado e do perito na análise dos documentos. Estimava os custos
em cem mil dólares. Esperava que Lescaut tivesse este valor disponível.
Na manhã seguinte Leigh havia
tomado banho e trocado de roupa. Sua aparência era melhor, mas a expressão
tornou-se distante quando viu Dennis Blake em um canto. Michael o acomodou de
costas para o agente. O promotor tomou a frente e centrou as perguntas nos
meses em que os crimes ocorreram. Onde ele estava; quais cidades visitou; em
qual hotel ficou, com quem falou. Perguntou onde a Senhora Lescaut estava
durante o mesmo período. Leigh respondeu que ela costumava seguir de avião para
a cidade em que o navio aportaria.
─ Então ela o seguia até a cidade
seguinte?
─ Sim.
─ Fez isso por quatro anos?
─ Sim.
─ E você se formou em outubro?
─ Não. Eu dei baixa no navio em
outubro.
─ Não se formou?
─ Não.
─ Por quê? Quando terminaria o
curso?
─ Apenas em maio.
─ Mas largou em outubro?
─ Sim.
─ Por quê?
─ Para ficar com Ruth.
─ Mas já estava com ela.
─ Para me casar com Ruth. ─ hesitou.
─ Ela engravidou. Não podia deixá-la solteira por mais tempo.
─ Por que não se casou e
continuou os estudos? Faltava pouco.
─ Não podia.
─ Explique.
─ Se me casasse com ela não
poderia continuar os estudos.
─ Por que não?
─ Porque meu pai não permitiria.
─ Seu pai não aprovava o
relacionamento de vocês?
─ Não.
─ Alguma razão em especial? ─ perguntou
tentando não insinuar nada.
─ Meu pai já tinha um casamento
arranjado para mim como é costume em meu país. ─ contou depois de hesitar outra
vez.
─ Entendo. Mas você a manteve de
um lado para outro no mundo por quatro anos e seu pai não interferiu.
─ Não.
─ Por que não? Se não aprovava o
relacionamento de vocês...
─ Porque ele não a considerava
importante e eu não poderia me casar até completar 24 anos.
─ E você os fez em outubro. ─ disse
folheando as páginas com informações ─ Interessante. Deixou o navio um dia
depois.
─ Sim.
─ Se queria tanto ficar com...
sua esposa, porque não deixou o navio antes?
─ Porque era menor. ─ percebeu
que eles não entenderam. ─ Em meu país só se é maior aos 24 anos. Até esta
idade eu dependia completamente do meu pai. Até para me casar precisaria de
autorização dele. Completando a maioridade era livre para ir e vir e poderia
viver minha vida da maneira que quisesse.
─ Então pode dispor dos 15
milhões de dólares que herdou de sua mãe.
─ Sim.
─ Passou mais da metade desse
dinheiro a sua esposa?
─ Sim.
─ Por quê?
─ Dote de casamento. É costume
garantirmos o futuro de nossas mulheres da melhor forma que pudermos.
─ Sei. ─ pensou ─ E o que vai
herdar do seu pai? Ele é um homem rico?
─ É, mas fui deserdado. Dele não
vou herdar nada.
─ Foi deserdado?
─ Sim.
─ Por quê?
─ Por que me casei com Ruth.
─ Ele ficou com muita raiva?
─ Não honrei a autoridade dele me
negando a cumprir o compromisso de união acertado com uma família importante.
Meu irmão já havia se recusado a cumprir este compromisso. Com minha recusa ele
ficou sem ter como cumprir a palavra assumida. Precisou indenizar a família da
jovem. Era natural que se zangasse.
─ Um homem inflexível seu pai. E
valeu pena? ─ irônico.
Os olhos de Leigh se estreitaram.
─ O que?
─ Decepciona-lo dessa forma. Não
preferia estar em paz com ele?
─ Nunca estive em paz com ele.
─ Por que não?
─ Por que eu não existia para
ele.
─ Não?
─ Não. Há alguma cultura onde o
segundo filho da segunda esposa tenha valor?
─ Até você se recusar a honrar a
autoridade dele ele se ocupava com você?
─ Ele me mantinha conforme a lei
o obrigava. Nunca teve maiores projetos para mim. Seu tempo era gasto com meu
irmão, o primogênito e com minha irmã, a caçula.
─ Mas seu irmão também o
decepcionou não foi? Você disse que ele também recusou o casamento arranjado. E
o que seu pai fez? Também o deserdou?
─ Não houve tempo. Meu irmão
morreu pouco depois.
─ O que aconteceu?
─ Desconheço as circunstâncias da
morte dele. Fui avisado apenas que ele morreu e por isso eu me tornava
responsável em cumprir as obrigações de família.
─ Lamento. ─ não parecia lamentar
nada.
─ Não é necessário. Eu não o
conheci.
─ Não conheceu seu irmão?
─ Não. Ele era o primogênito,
filho da primeira esposa. Vivíamos em casas separadas. Nunca nos encontramos.
─ Por que não? A ex-esposa de seu
pai não permitia contato?
─ Não havia uma ex-esposa. Em meu
país um homem pode ter tantas esposas quanto puder sustentar em igualmente de
condições. Não sei quantas esposas meu pai tem, mas ele mantem uma casa para
cada família e nunca permitiu que mantivéssemos contato. Uma forma de manter a
paz ele dizia.
─ Interessante. Mas até você
fazer 24 anos ele respondia por você?
─ Sim.
─ E se importava o bastante para
intervir quando necessário?
─ Sim. ─ respondeu depois de
hesitar um momento.
─ Se importava o bastante para
comprar sua saída da prisão depois de cometer um assassinato?
─ Hei! ─ Michael pulou. ─ Não
responda isso Leigh.
─ Você vai negar que seu pai
pagou oitocentos mil dólares para livrá-lo de uma prisão em Tapeie no final de
setembro?
─ Não responda Leigh. ─ Michael
mandou firme.
─ Vai negar que matou um homem em
setembro?
─ Eu...
─ Não responda! Pare Asher! Pare
agora!
─ Pode negar que matou um homem
em setembro passado senhor Lescaut?
─ Não! ─ murmurou de cabeça
baixa.
─ Cale-se! Que droga! ─ Michael
gritou levantando. ─ Pronto. Terminou. ─ pegou Leigh pelo braço e o fez
levantar ─ Só falamos em juízo agora.
─ Por mim tudo bem. ─ Asher disse
satisfeito. ─ Pode levá-lo.
─ Você não pensa? Por que...─
Michael começou, mas parou. Levou Leigh para a cela. ─ O que diabos acha que
estava fazendo contando aquilo?
─ Me disse para não mentir.
─ Mentir não. Omitir sim. Ele não
precisa ter sua declaração de que matou um homem e que seu pai pagou para
tirá-lo da cadeia. ─ bufou andando de um lado para outro ─ Isso é verdade? Essa
parte você não me contou.
─ Não sei se é verdade. Quando
fui preso meu pai foi avisado pelo capitão do navio e eles ajeitaram as coisas
junto à polícia. Não sei se ele pagou ou não. ─ Michael parou. Pensava,
refletia, batia o pé agitado.
─ Acha que ele pagou? ─ tenso ─
Seu pai usaria de suborno para libertá-lo?
─ Talvez. ─ Leigh respondeu
hesitante ─ Até o dia em que completei 24 anos ele era responsável por meu
bem-estar. Já havia perdido meu irmão e o conselho o questionou sobre suas
ações como guardião. A prisão em Tapeie estava me matando. Eles não gostam de
estrangeiros. Fiquei preso poucos dias e fui acoitado várias vezes. Iria morrer
se continuasse ali. Uma manhã o capitão chegou e me levou de volta ao navio.
Quando consegui ficar de pé, faltavam três dias para minha maioridade. Esperei
os três dias e parti para Paris onde Ruth estava me esperando. Nunca perguntei
como ou por que me soltaram.
─ Que droga! ─ Michael andou
agitado ─ Isso não é bom. Isso não é nada bom.
A movimentação de repórteres na
entrada do fórum foi grande. Na tarde anterior Michael apresentou o caso à
firma e preparou a planilha de custo. Os honorários foram fixados em valores
mais altos do que o normal e o pagamento inicial foi de trinta e cinco mil
dólares. Ruth quis pagar, mas Leigh foi irredutível.
─ Obrigado. Ruth não deve mexer
no dote. ─ disse sério quando Michael lhe entregou o talão de cheques que havia
pedido. Preencheu rápido. ─ Já foi muito menor do que deveria. Não aceite
dinheiro dela Michael. Só hipótese alguma. ─ entregou o cheque ao advogado ─
Tenho mais do que suficiente para essas despesas. E em breve tudo estará
resolvido.
─ Em breve. ─ Michael concordou
tentando se mostrar confiante.
Confiança que foi abalada quando
entraram na sala de audiência. Outros casos estavam sendo apresentados como era
rotina e havia uma infinidade de policiais, acusados e advogados, mas o salão
também estava cheio de repórteres. Todos aguardavam a chegada do suposto
assassino das bonecas. Eric Asher passou por ele e entregou uma ordem de
suspensão do sigilo do caso. Michael trincou os dentes. Holly sentou ao seu
lado e Ruth ficou na plateia ao lado dos amigos.
─ Caso 2435 ─ o meirinho
anunciou.
─ Acusado? ─ o magistrado
perguntou.
─ A corte chama o Senhor Alexius
Leigh Lescaut.
O burburinho de repórteres
cessou. Asher já havia deixado vazar o nome do acusado, Michael concluiu
enquanto agentes traziam o cliente para a sala com pés e mãos algemados. Mesmo
de longe ouviu a filha ofegar. Nenhum dos acusados havia sido trazido à sala
algemado. Isso só ocorria quando o preso reagiu a prisão, ou fosse preso em
flagrante de violência. Não era o caso de Leigh. A questão era pessoal. Dennis
Blake tinha razões pessoais para humilhar Leigh Lescaut o máximo possível.
Leigh foi acomodado no banco
destinado aos detentos, as algemas retiradas.
─ Estado? ─ o juiz
prosseguiu.
─ Promotor Eric Asher ─ Asher
disse levantando.
─ Defesa?
─ Michael Melton. ─ Michael
levantou e foi sentar na mesa destinada a defesa.
─ Acusações?
─ A promotoria aponta Alexius
Leigh Lescaut como autor dos assassinatos de: Solange Roupem, Paul Galvin,
Helena Robson, Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund Treneham, Penélope Ives e
Kyle Wiltakher. ─ o meirinho anunciou.
Os flashes dispararam na direção
do réu.
O juiz precisou ser firme para
manter a ordem.
─ Como o acusado se declara? ─ perguntou
quando conseguiu silêncio.
─ Inocente. ─ Leigh levantou e
disse alto e houve outra onda de ruído.
O juiz pediu ordem sob pena de
mandar esvaziar o recinto. Todos se calaram.
─ Base da acusação? ─ o juiz
continuou olhando Leigh com mais interesse.
─ Provas técnicas. ─ Asher
começou ─ Amostras orgânicas do suspeito foram comparadas a 128 evidências
materiais coletadas nas vítimas e nas cenas dos crime e todas acusaram 100% de
compatibilidade. ─ Informou satisfeito.
Uma onda de murmúrio correu a
sala novamente. Todos olharam para Leigh com um misto de horror e curiosidade.
Hope passou o braço nos ombros de Ruth.
─ Base da defesa para a alegação
de inocência? ─ o juiz perguntou fitando Michael como se ele fosse um louco.
─ Temos testemunhas de que o Senhor
Lescaut estava do outro lado do mundo nas datas das ocorrências.
─ Apresentem o caso. ─ o juiz
mandou ─ Pode começar Senhor Asher.
A audiência durou o resto do dia.
Os demais casos foram transferidos para o dia seguinte e a corte se concentrou
em ouvir dois peritos com esclarecimentos sobre as provas técnicas. Logo depois
do almoço a palavra foi passada a defesa e Michael apresentou documentos
devidamente traduzidos e o testemunho dos cinco tripulantes de diferentes
nacionalidades do navio escola. Três eram professores, um era o imediato e
outro era aluno. Todos falavam inglês fluente. Novamente os elogios a Leigh não
foram poupados. Sim ele estava na Ásia. Não. Não havia deixado o navio fora dos
períodos de folga. Sim, o viam nas cidades que aportavam sempre com a noiva.
Não, não acreditavam que ele fosse capaz de cometer tais crimes. Aluno
exemplar, amigo, dedicado, educado, religioso. Michael deixou o testemunho do
capitão do navio para o final. Quando Michael terminou Asher, que não
interpelou nenhuma outra testemunha, se levantou para interrogá-lo.
─ Bom tarde capitão Nienczewski.
─ Boa tarde senhor.
─ O senhor tem conhecimento do
que está sendo avaliado aqui?
─ Sim senhor.
─ O senhor tem ciência de que
mentir em um tribunal, mesmo em uma audiência preliminar como esta, constitui
um crime grave?
─ Não estou mentindo senhor.
─ Responda à pergunta, por favor.
─ Sim.
─ Ciente disso, o senhor pode
relatar o que aconteceu com o senhor Lescaut em 09 de setembro deste ano? ─ perguntou.
─ Protesto ─ Michael levantou. ─
A data em questão está fora das investigadas.
─ Meritíssimo, quero comprovar um
fato relevante que ocorreu com o acusado e que creio está ocorrendo aqui
novamente. ─ Asher justificou.
─ Meritíssimo, por favor, posso
me aproximar. ─ Michael pediu nervoso.
Deu uma rápida olhada para Ruth e
ela estava recostada na amiga abalada. Tenso Leigh olhava para frente. Nenhum
deles queria que aquele dia fosse relembrado. O juiz autorizou e acusação e
defesa se aproximaram.
─ Meritíssimo a data em questão
não está sob investigação. ─ argumentou.
─ Quero comprovar que uma ação
adotada pela família do acusado por um fato em tal data está se repetindo aqui.
─ Meritíssimo, a revelação do
fato em questão expõe outra pessoa. Vai tornar público uma situação grave e traumática
para a esposa do Senhor Lescaut.
─ O fato revela as
características violentas do acusado.
─ Voltem a seus lugares. ─ os
advogados obedeceram. ─ Protesto negado. ─ Michael sentou lançando a Ruth um
pedido mudo de desculpas. ─ Pode responder à pergunta capitão. ─ o homem ficou
em silêncio. ─ Quer que a promotoria refaça a pergunta?
─ Por favor. ─ o capitão pediu
olhando para Ruth.
─ O que aconteceu em 09 de
setembro?
─ Muitas coisas aconteceram nesta
data. O senhor poderia ser mais específico?
─ O senhor Lescaut se envolveu em
uma briga?
─ Não. Um desafio.
─ Um desafio. Contra quem?
─ Outro aluno.
─ Qual o motivo? ─ o homem olhou
para Ruth.
─ Desavenças por conta da hoje Senhora
Lescaut.
─ O senhor pode relatar os fatos?
─ Não.
─ Não?
─ Não. Não os conheço. Não posso
repetir histórias das quais só ouvi falar.
─ O que aconteceu com o Senhor
Lescaut depois deste desafio?
─ Ele foi preso.
─ Sob qual acusação?
─ Agressão.
─ Agressão?
─ Sim. Agressão.
─ Não foi assassinato? Ou, no
mínimo, tentativa de assassinato?
─ Não. A acusação foi de
agressão.
─ O aluno que o Senhor Lescaut
agrediu não faleceu no hospital dias depois?
─ Não. Ele se recuperou e depois
foi expulso do navio.
─ Então a vítima foi expulsa?
─ Eu não chamaria Lipszyc de
vítima.
─ Mas o senhor Lescaut o agrediu.
─ Não pelas nossas leis. O senhor
Lescaut foi desafiado e venceu o desafio. Lipszyc não gostou muito e inventou
essa história de agressão.
─ Se assim foi, por que então ele
foi preso? ─ Asher perguntou impaciente.
─ Porque estávamos em solo
estrangeiro.
─ Onde o fato ocorreu?
─ Em Taipei.
─ Taiwan?
─ Sim.
─ E o acusado ficou preso quanto
tempo?
─ Mais de vinte dias.
─ Pode nos dizer como o senhor
Lescaut foi libertado?
─ As autoridades o liberaram. As
acusações foram retiradas.
─ Sob que condições?
─ Apenas que ele não voltasse ao
país.
─ Capitão Nienczewski, houve
algum acerto financeiro para esta concessão?
─ Protesto. ─ Michael tentou.
─ Negado. Responda à pergunta
senhor.
─ Algumas despesas foram pagas.
─ Despesas?
─ Em Taiwan as despesas de um
detento são cobradas, mesmo quando as acusações são retiradas.
─ E quanto cobraram por estas...
despesas?
─ Oitocentos mil dólares. ─ o
capitão falou devagar.
O burburinho recomeçou e o juiz
teve que pedir ordem várias vezes.
─ Oitocentos mil dólares.
Acusações retiradas. Vinte dias de detenção indevida. ─ parou em frente a
testemunha. ─ Capitão onde o senhor trabalha?
─ Sou capitão do navio escola
Karnikowski.
─ Há quanto tempo?
─ Vinte anos.
─ O mesmo que o senhor Lescaut
frequentou nos últimos quatro anos?
─ Sim.
─ A quem pertence o navio?
─ Pertence à Companhia
Kiesztowski.
─ Todos que testemunharam pela
defesa são funcionários desta companhia?
─ Não. O senhor Borwoshi é aluno
do navio.
─ Sim. O melhor amigo do acusado.
Os demais trabalham para a companhia?
─ Sim.
─ Diga-me, capitão, o senhor sabe
quem é o dono desta companhia?
─ Ela pertence a um conglomerado
de empresas.
─ Um grupo grande?
─ Sim.
─ Poderoso?
─ Sim.
─ E o dono de tudo isso, sabe
quem é?
─ Sim.
─ Pode nos dizer o nome dele?
─ Senhor Vladymyr Meneslaups.
─ Vladymyr Meneslaups. ─ andou
pela sala vitorioso. ─ Pode dizer a esta corte, quem é o senhor Meneslaups?
─ Não entendi a pergunta.
─ Quem é Vladymyr Meneslaups? ─ repetiu
impaciente.
─ Ainda não entendi a pergunta. ─
olhou para Leigh sem jeito.
─ Qual a ligação do senhor
Vladymyr Meneslaups com o acusado?
─ É o pai dele.
─ Por que não me disse que seu
pai era dono do navio? ─ Michael perguntou nervoso quando o juiz declarou o recesso
para avaliar as informações.
─ Eu não sabia! ─ a expressão de
Michael era descrente. ─ É verdade!
─ Impossível acreditar nisso.
Aliás, é impossível acreditar em qualquer coisa que tenha me dito até agora.
─ Meu pai tem diversos negócios
pelo mundo. Não conheço nenhum. Nunca fiz parte da vida dele como lhe contei.
Já sou maior, estou deserdado. Fui renegado por minha família. Meu pai não vai
interferir desta vez. Mas mesmo que interferisse não sou o assassino que
procuram.
─ Não é o assassino que procuram?
─ perguntou irônico.
─ Não.
─ Então meu amigo, como é que seu
DNA estava nas vítimas?
Meia hora depois todos foram
novamente chamados à sala. Michael evitou olhar para Ruth. Sentia-se enganado,
iludido. Ela seria mesmo sua filha? Ou tudo não passava de uma manobra para
fazê-lo aceitar o caso? Para levá-lo a crer que provas incontestáveis como
amostras de DNA estavam erradas? Mas havia acabado. Lescaut o tinha despedido.
Terminava seu trabalho ali. Ouviu o meirinho mandar Leigh levantar.
─ Caso 2435. O Estado da
Califórnia acusa Alexius Leigh Lescaut como autor dos assassinatos de: Solange
Roupem, Paul Galvin, Helena Robson, Daril Osbourne, Sophia Anello, Edmund
Treneham, Penélope Ives e Kyle Wiltakher e de todos os demais atos que
precederam a morte das vitimas: sequestro, estupro, tortura, cárcere. ─ o
meirinho disse impassível.
─ O acusado tem algo a dizer
antes que eu relate minha decisão? ─ o juiz perguntou sério.
─ Sim Meritíssimo. ─ disse firme
e Michael o fuzilou com o olhar.
─ Tem a palavra.
─ Eu quero agradecer ao capitão
Nienczewski e os demais que depuseram a meu favor por terem vindo testemunhar
onde eu estava nas datas dos crimes. Também quero relatar que eu não
participava da vida e dos negócios do meu pai e que não sabia que o navio
pertencia a ele. Mas tenho certeza de que tal fato não interferiu nas
declarações das testemunhas. Eles falaram a verdade. Eu estava a bordo nas
datas destes fatos horríveis. ─ respirou. ─ Sobre o que ocorreu em setembro só
tenho a agradecer a Deus por Lipszyc estar vivo. Como fui detido até hoje
pensava que ele havia morrido. É um alívio poder afirmar que não matei ninguém.
O juiz o encarou por segundos.
Leigh sustentou o olhar.
─ No caso 2435, esta corte acata
as acusações contra o Senhor Alexius Leigh Lescaut, e determina que... ─ o
burburinho foi geral. Os flashes explodiram. Asher levantou vitorioso recebendo
o cumprimento da equipe. Michael permaneceu sentado.
─ Michael. ─ Holly disse e ele
fez que não ouviu. Riscava a folha a frente.
─ ...que o réu seja levado para a
prisão de Santa Fé até... ─ o juiz continuou.
─ NÃO! ─ um grito angustiado
cortou o ar e todos se calaram.
Michael levantou assustado.
Todas as cabeças se voltaram na
direção de Ruth que tentava abrir caminho na multidão para chegar até o marido.
Os amigos não conseguiam contê-la.
─ Michael faça alguma coisa... ─
Holly continuou assustada.
─ Meritíssimo, peço que seja
estabelecida uma fiança... ─ Michael tentou.
─ Meritíssimo a promotoria é
contra a fiança. As acusações são graves, há precedente de violência, o réu
goza de dupla nacionalidade e abastados recursos o que torna a possibilidade de
fuga provável... ─ Asher interrompeu.
─ Fiança negada. ─ o juiz disse
seco e continuou ─ O réu será levado a prisão de Santa Fé onde...
─ NÃO!! ─ Ruth gritou outra vez.
Michael foi encontrá-la.
Estava a ponto de entrar na área
restrita e se o fizesse seria presa por desacato.
─ ... onde deverá aguardar
julgamento. ─ o juiz parou olhando o desespero de Ruth. ─ Contenha-se jovem. ─ mandou
implacável.
─ Meritíssimo, a avaliação
psiquiátrica do Senhor Lescaut não foi completa...
─ Eu li a avaliação Senhor
Melton. ─ sério ─ Antes de ser julgado o acusado deverá passar por uma
avaliação psiquiátrica completa para definir se ele pode ou não responder por
seus atos. O caso segue para o Meritíssimo Juiz Jacob Carpeaux. Podem levar o
réu.
Ruth gritou novamente. Michael a
abraçou e abafou o grito angustiado contra o peito. As pessoas estavam
comovidas pelo sofrimento dela. Os guardas se moveram devagar. Seguraram Leigh
pelo braço e começaram a escoltá-lo. Passaram ao lado de Michael e Ruth. Rápida
ela agarrou o marido pela roupa e o puxou para perto. Os fotógrafos trabalharam
agitados. O juiz gritava ordem, ordem...
─ Viva. ─ ela disse as
lágrimas transbordando ─ Mate se preciso for, mas viva! Precisamos de
você. ─ Leigh foi puxado pelos guardas e segundos depois desaparecia em uma
das saídas laterais.
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