CAPÍTULO 13
Mesmo com o rosto voltado para a janela, Leigh não viu o trajeto
até a prisão de Santa Fé. Boa parte do caminho foi feito na escuridão da
madrugada e agora na chegada o sol nascia no horizonte. Mas ele nada via. O que
desfilava em seus olhos eram seus últimos dias com Ruth. Sentia a suavidade da
sua pele, a candura de seu sono, as mãos pequenas tocando o ventre que começava
a se desenvolver. Os gritos na corte ainda ressoavam em seus ouvidos
dolorosamente.
Ela estava sofrendo e ele não tinha como evitar.
Culpa sua. Sabia que ainda era uma ameaça mesmo após ter sido
renegado, e mesmo assim, não previra que Meneslaups agiria tão cedo e de forma
tão incisiva. Estivera mergulhado em um mar de ciúme e tolas desconfianças que
esqueceu que “seu pai” não perdoava. Agora usava uma corrente invisível, mais
grossa do que as que arrastavam nos pés e lhe prendiam as mãos. Quando fosse
condenado, sua família ficaria sob a guarda do Chanceler que teria sobre ela
poder de vida e morte.
Michael não poderia assumir a guarda de Ruth até que tomasse
conhecimento de suas origens. Se ao menos Sarkivon pudesse se revelar... Como
não podia a única chance de mantê-la a salvo era se divorciar e fazê-la se
casar antes que a sentença fosse proferida.
O furgão parou e o guarda veio buscá-lo. Soltou o cadeado que o
mantinha preso no banco e o fez andar até a saída. O sol o ofuscou por
segundos. Descer não foi difícil, mesmo assim recebeu um empurrão. Não reagiu.
Quando se acostumou com a claridade, a primeira coisa que viu foi a cerca alta
que rodeava o prédio. Mais adiante outra cerca. E mais nada. Estava no meio do
nada.
Só havia areia por quilômetros e quilômetros.
Foi puxado e teve que caminhar ao longo da cerca até uma entrada
lateral.
Atravessou dois portões e outras duas cercas até chegar à
recepção.
Papéis trocaram de mãos e outro guarda assumiu sua custódia
levando-o para o dentro do prédio. Em outro recinto teve que se despir e foi
vistoriado de forma humilhante. Depois o mandaram tomar banho e na entrada do
banheiro recebeu uma camiseta branca, um macacão e casaco azuis. Para sua
higiene pessoal, uma escova de dente, papel higiênico e uma lâmina de barbear.
Depois do banho, seus pertences foram colocados em um saco transparente e
entregues em um depósito. Teve que tirar o relógio e a aliança de casamento.
Durante o processo ouviu piadas dos guardas, levou um soco no estômago, foi
provocado e humilhado. Não disse uma única palavra.
No consultório medico foi examinado de forma superficial. Outro
guarda o recebeu e o encaminhou até a entrada da lavanderia, onde recebeu roupa
de cama e cobertores. Passou por vários corredores, subiu dois lances de escada
até ser deixado em uma pequena cela com uma cama beliche, uma pequena mesa com
livros com um banquinho embaixo dela e um vaso sanitário ao fundo.
─ A cama de cima esta vaga. ─ o guarda avisou antes de sair ─ Como
sabemos que você gosta de diversão te colocamos com alguém especial. Espero que
se entendam. ─ a cela não foi fechada.
Leigh deixou o que carregava sobre a cama indicada e olhou ao
redor.
O espaço não devia ter mais do que dois metros
quadrados. Respirou. O local estava limpo, e tinha um leve aroma adocicado
no ar. Reparou na cama de baixo. Seu ocupante era organizado. Os lençóis
estavam alinhados e os travesseiros dispostos simetricamente. Estranhou.
Um urso branco de pelúcia com um laço rosa enfeitava a
cama.
Alguém parou na porta e deu um assovio admirado. Leigh se virou
devagar.
Parado na entrada da cela estava um homem de altura mediana e
corpo magro. Era loiro e os cabelos compridos estavam presos em um coque
frouxo. O macacão azul estava vestido apenas até cintura. O que sobrava da peça
estava enrolado na cintura como um cinto. A camiseta branca tinha um nó que
deixava a barriga exposta. Completamente maquiado o homem sorria olhando-o
extasiado.
Leigh trincou os dentes. Não estava preparado para aquilo.
─ Meu bem você é um mesmo um deus grego... As meninas vão morrer
de inveja quando virem o presente que recebi! ─ o homem de voz fina e trejeito
afeminado falava e se aproximava. Parou a dois passos de Leigh olhando-o bem. O
sorriso murchou de repente. ─ Quem é você? ─ Leigh não respondeu. Sem perceber
fechou ainda mais a expressão. ─ Meu Deus, você é o assassino das bonecas. ─ mal
terminou de falar, a criatura gritou como se visse um fantasma.
Leigh descobriu na sala do diretor que seu companheiro de cela era
Andrew Kolpher. Um travesti, conhecido pelo nome de Andréa, que cumpria
perpétua por ter participado da morte de um cliente. Estava com mais de trinta
e sete anos e já estava preso há cinco. Tinha a fama de ter a proteção de
alguém influente e não era muito querido por onde passava, sendo transferido
com frequência. Havia chegado há duas semanas. Quando encontrou Leigh na cela,
logo o reconheceu por conta de uma reportagem sobre a prisão do Assassino das
Bonecas onde o nome e o rosto de Leigh foram divulgados. Agora tremia sentado
ao lado dele enquanto implorava ao diretor que não o colocasse em sua cela. O
homem apenas sorriu e disse que nada podia fazer. Mandou que os dois saíssem e
para tripudiar disse para Andréa que acompanhasse Leigh e lhe explicasse todas
as rotinas da prisão.
Andréa andou apressado pelos corredores, olhando de vez em quando
por cima do ombro para ver se Leigh o seguia. Aprumou o corpo, ajeitou o coque
frouxo quando chegou ao refeitório. Fez um gesto para Leigh se aproximar mais e
começou a falar rápido.
─ Este é o refeitório. O café é as oito, o almoço as treze e o
jantar às seis. Antes do café somos levados ao pátio para o banho de sol, e
depois vamos para a sala de TV. Foi lá que eu te vi no jornal ontem. ─ disse
fitando-o bem. Afastou-se assustado com a carranca de Leigh. ─ Depois do banho
de sol, aqueles que não trabalham podem ir para a biblioteca ou podem ficar lá
fora no pátio. As celas só são fechadas às dez da noite. Eles fazem contagens
diárias. De surpresa. ─ falava e pegava a bandeja para se servir. Leigh o
seguiu imitando-o apesar de não estar com a menor vontade de comer. ─ Na parte
da tarde você fica livre pelos salões internos. Tem o salão de jogos e a
academia. O banho é às cinco. É coletivo. ─ riu malicioso. Passavam pelo balcão
onde os presos responsáveis pela cozinha serviam o café da manhã. ─ Também pode
ficar na sua cela desde que esteja lendo ou fazendo algo... que possa ser feito
com a porta aberta. Aqui o domínio é dividido por três grupos. E fácil
identifica-los. Apontou os grupos separados. ─ Nenhum deles vale nada. ─ disse
com desdém. Mirou outro grupo, sorriu e acenou ─ Ali tem as minorias. Minhas
amigas, ─ Um grupo de travestis acenaram excitados. ─ No canto os nerds. ─ apontou
alguns rapazes com expressões aéreas ─ As vítimas preferidas. Toda noite um
deles virá mocinha para animar a galera. Lá no melhor espaço estão os chefões.
Máfia, ricaços. Eles compram o que precisam. Os demais são desgarrados que já
estão aqui há tanto tempo que já foram deixados em paz. ─ Leigh parou de
segui-lo. ─ O que foi? Não vai se sentar conosco? ─ perguntou debochado
sentando à mesa das amigas. Leigh procurou uma mesa vazia e foi sentar. ─
Ótimo. Você é a carne fresca hoje.
Quando Andréa se afastou Leigh se acomodou. Não estava com fome,
mas sabia que precisava se alimentar. Baixou a cabeça, fez sua oração e mesmo
sem apreciar a aparência da comida começou a comer. Os demais presos foram se
acomodando e logo a mesa que Leigh ocupava estava cheia. Observou tudo calado,
mantendo a cabeça baixa. Sentiu quando os dois que sentavam ao seu lado foram
induzidos a sair. Os dois líderes principais sentaram um de cada lado.
─ Bem-vindo. ─ um cumprimentou.
─ Bom ter você aqui. ─ Lyon Goinne disse frio. Leigh manteve-se
calado. ─ A imprensa soltou sua história. Cara, você se divertiu.
Leigh levantou. Os dois fizeram o mesmo.
Ele deu dois passos, e teve o caminho cortado. Uma plateia se
formou.
─ Há uma regra para viver em paz aqui. Você tem que colaborar...
você sabe... você curte. ─ Goinne esticou a mão para tocá-lo no rosto. Leigh
desviou do contato. A expressão ainda mais fechada. ─ Será mais fácil se você
não tentar nenhuma tolice.
Leigh apenas o encarou sem medo. O homem riu, girou o corpo
fazendo que ia se afastar e tentou acertá-lo. Ele se desviou para a direita ao
mesmo tempo em que levantou o ombro atingindo o rosto do segundo preso que
estava atrás dele e pretendia agarrá-lo. Enquanto o homem desmoronava no chão
Leigh virou o corpo saindo da mira de um novo ataque.
Deixou o pé fazendo o primeiro agressor cair sobre o segundo. A
confusão se generalizou. Mais três investiram contra Leigh. Ágil ele se
esquivava dos golpes. Os presos socavam o ar. Não durou muito. Com gritos e
ameaças os guardas deram a ordem e tudo parou. Os vencidos voltaram a seus
lugares com ar de poucos amigos.
A plateia permaneceu em silêncio. Leigh aprumou o corpo, deu
as costas e começou a voltar para a cela. Estava no meio do corredor quando
Goinne se aproximou e sussurrou em seu ouvido.
─ Vamos te dar um tempo até
você se acostumar. Depois, se não quiser colaborar vai ter que vencer o nosso
amigo ali. O apelido dele é Golias. ─ indicou o homem em um canto. ─ Se o
vencer em uma luta nós te deixamos em paz. ─ riu ─ Pena que até hoje ninguém
conseguiu. Vai ser interessante te ver tentar.
Leigh olhou para o homem. Tinha perto de dois metros e mais de cem
quilos de músculos. Apertou os olhos analisando-o. Era forte e violento. Pela
maneira que se movia faltava agilidade. Não tinha o que temer. Deixou o
refeitório e foi para a cela. Enquanto percorria o caminho sentiu que todos os
olhares estavam sobre ele. A demonstração de suas habilidades em uma briga foi
pequena, mas suficiente para saberem que ele não seria alvo fácil.
Na cela andou pelo pequeno espaço procurando o melhor lugar para
se ajoelhar. Queria fazer suas orações. Teria que se acostumar. Provavelmente passaria
em lugares como aquele os últimos anos de sua vida. Leigh sentou no chão
cruzando as pernas em posição de meditação de frente para a cama.
Concentrou-se. Em segundos a imagem se Sarkivon surgiu na
cela.
─ Shalon, meu senhor. ─ o homem se reclinou.
─ Shalon, Mestre Mor. ─ respondeu de olhos fechados. Via Sarkivon
mais claramente em sua mente. ─ Agradeço por ter vindo.
─ Cumpra apenas minha obrigação de servi-lo.
─ Meu inimigo já brindou minha derrota?
─ Nosso Chanceler não tem nada a ver com sua prisão, meu senhor.
─ Ele não agiu?
─ Não contra o senhor.
─ E ele já tomou conhecimento dos fatos? Já sentiu que fui preso?
─ Nada do que lhe acontece nosso Chanceler é capaz de sentir. Como
renegado seus laços com nosso povo foram cortados.
─ Como se ainda tenho dons? Há pouco pude me livrar de quatro
agressores sem sequer tocá-los.
─ Dons que lhe são cedidos por Koryak aliados. Não herdados. Está
oculto. Assim como estão ocultos todos aqueles que foram perseguidos pelo
usurpador.
─ Se é assim o que acontecerá com minha esposa e filha se este
corpo vier a perecer? Elas ficaram sob a guarda do Chanceler?
─ Sim. Foi renegado apenas por este ciclo. Com a morte do corpo
que ocupa, sua família seria novamente reagrupada a nosso povo, uma vez que sua
essência estaria livre para retornar. Ficariam então sob guarda do Chanceler
até seu retorno.
─ E eles as mataria.
─ Talvez esperasse alguns anos para tornar o reencontro mais
difícil. Como conseguiu fazer nos últimos ciclos. Mantê-los afastados lhe
garante a continuidade de seu domínio.
─ E o que acontece se eu for condenado aqui?
─ Vidas inocentes foram ceifadas. Condenado como o assassino que
descrevem será banido dos Koryak. Declarado desonrado. Terminaria este ciclo sentenciado
à morte eterna.
─ Não voltaria?
─ Não.
─ E minha família?
─ A vontade do Chanceler. ─ Leigh estremeceu ─ Lamento, meu
senhor. Estas são leis que o senhor...
─ ...Escreveu. Eu sei. ─ completou desolado. ─ Como posso escapar
disso?
─ Apenas provando que não foi o senhor o autor dos crimes.
─ Ninguém acreditaria. Como vou explicar que Anton Leigh morreu na
prisão em Taiwan e que eu assumi o lugar dele? Não há como revelar ou explicar
tal coisa aos comuns. ─ voltou a respirar. ─ Há como evitar que o
Chanceler saiba?
─ Ele saberá pela mídia cedo ou tarde. Não tenho como evitar isso.
─ Não podemos voltar e modificar estes últimos acontecimentos?
Como foi feito naquela noite... naquela noite em que Hannya quase deixou o
corpo de Ruth?
─ Não posso interferir na vida de tantos comuns. Todos os eventos
que o trouxeram para este momento se iniciaram muito tempo atrás. E tempo
demais para ser alterado. Não sei o que aconteceria se tentasse. Lamento, meu
senhor.
─ Então terei que morrer. ─ soltou o ar frustrado ─ Quando me deu
este ciclo, desconhecia que Anton Leigh havia cometido tamanhas atrocidades? ─
intrigado.
─ Ele não as cometeu meu senhor! ─ Sarkivon contou sério.
─ Não? ─ Leigh abriu os olhos surpreso.
─ Não.
─ Então como há tantas evidências? Se o usurpador não agiu neste
caso...
─ Eu não disse que ele não agiu. Eu disse que ele não agiu contra
meu senhor. ─ Sarkivon se aproximou e pousou a mão na ombro dele. ─ Terá que
ser forte novamente, meu senhor. Forte para mais uma vez mantê-lo a salvo.
─ O que acontece agora? ─ Ruth
perguntou ainda no tribunal. Estavam em uma sala de espera, aguardando Hope e
Patrícia retornarem com o carro. A aglomeração de repórteres tornou a saída
dela impossível. Eles se acotovelavam na porta querendo entrevistá-la. Havia
parado de chorar, mas apertava as mãos, nervosa.
─ Ele será transferido amanhã
para a prisão onde deve ficar até o julgamento.
─ Quanto tempo?
─ Natal, ano novo. ─ Michael
pensou para responder ─ Avaliação psiquiátrica... talvez os trabalhos de
seleção de júri começam em fevereiro ou março. Nada se resolve definitivamente
antes do meio do ano.
─ Não. ─ ela baixou a cabeça ─
Por favor, Michael... Não posso ficar sem ele... Não posso... Por favor...
─ Lamento Ruth não há nada que eu
possa fazer. ─ ela enxugou o rosto. Michael pegou as mãos dela e apertou ─ vou
tentar uma autorização para que possa vê-lo antes da transferência. Talvez você
o convença a se declarar culpado e assim esse pesadelo termina.
─ Nunca vou dizer a ele para
assumir a culpa por coisas que não fez.
─ Não fez mesmo? ─ Michael
perguntou com tato. A expressão dela mudou exatamente como a do marido. ─ Ruth,
não há explicação para as provas materiais.
─ Estão erradas. Os
testemunhos... ─ rebateu fria largando a mão dele.
─ As pessoas que testemunharam
trabalham para o pai dele.
─ Meneslaups não se envolveu. E
não se envolverá.
─ Não? Ele já pagou para tirar o
filho da cadeia.
─ Leigh estava morrendo.
─ E vai morrer aqui se for
condenado.
─ Mas agora é o que ele quer. ─ levantou.
─ Ele quer que Leigh morra...
─ O que?
─ Nada. ─ desconversou. ─ Vou
para um hotel. Preciso comer, descansar. Minha criança está muito agitada. A
que horas acha que vou poder ver meu marido?
─ Eu telefono se conseguir a autorização.
─ Está bem. ─ começou a sair. Se
voltou pensativa. ─ Michael, eu entendi ou... você sugeriu que as testemunhas
mentiram? ─ ele demorou a responder.
─ 100% de compatibilidade em DNA.
Nada vai conseguir derrubar isso.
─ Você não me respondeu.
─ Ruth... lamento, eu acho que
mentiram sim. Eu acho que Leigh é culpado.
─ Você acha que estou mentindo?
─ Você o ama.
─ Acha que menti para você?
─ Ruth... ─ fez um gesto
impotente. ─ Você o ama demais e...
─ Acha que menti sobre ser sua
filha?
─ Eu... Eu não sei. ─ declarou
confuso.
─ Minha mãe escreveu que isso...
─ puxou a manga direita da roupa que usava. ─ Provaria quem sou. ─ mostrou a
pequena mancha marrom em forma de cereja no meio do antebraço. ─ Eu não pensei
que tivesse que mostrá-la para provar que não minto. Suas horas estão pagas até
o fim do dia. Consiga a autorização para eu possa ver meu marido. Depois disso
está despedido.
─ Seu marido já me despediu.
Depois de amargar a derrota em um
bar, Michael voltou para casa levemente embriagado. Passou pelo quarto do filho
arrependido por sempre tê-lo decepcionado. Mitch tinha onze anos e era uma
pequena réplica sua. Os mesmos olhos cinzentos, a mesma boca rasgada, os mesmos
cabelos acobreados, o mesmo nariz afilado.
E a mesma mancha em forma de
cereja no antebraço direito.
Rita costumava brincar dizendo
que havia sido apenas uma incubadora.
Alto para idade o filho jogava
basquete e tocava piano. Um menino de ouro que ele esquecia de ver crescer envolvido
em uma rotina de trabalho desgastante. Estava lamentando não ter visto Ruth
crescer, mas vivia com Mitch e também não acompanhava a vida dele. Ajeitou as
cobertas sobre o garoto e agitou-lhe os cabelos.
Precisava repensar sua
vida.
Seguiu para o quarto e relaxou em
um longo banho quente. Pensou em ir para o escritório reler alguns documentos,
mas, se o fizesse, dormiria lá como acontecia nos últimos meses. Dormir longe
da esposa era proposital. Uma maneira de afastá-la sem realmente rejeitá-la. E por
que fazia isso? Porque se sentia vazio. O que lhe faltava? O que era
importante? Percebeu que tudo o que era importante estava ali.
Sua família.
Deitou-se ao lado da esposa. Rita
estava acordada, mas não se moveu quando ele colou o corpo ao dela. Nem quando
mergulhou o rosto na curva do pescoço. Aspirou o perfume suave de lavanda,
passou o braço por sua cintura e a puxou para mais perto. Rita se virou devagar
e o abraçou confortando-o.
A carência o moveu e ele a amou
devagar.
Era madrugada quando Michael chegou à delegacia. Estava com a
autorização para Ruth ver o marido. Assim que clareasse o dia iria buscá-la no
hotel. Havia ido antes para falar com Leigh sem a presença dela. Tentar
arrancar dele a verdade sobre os crimes. Se ele confessasse poderiam conseguir
um acordo que o manteria vivo. O acidente que sofreu quando criança poderia lhe
dar condições de ser considerado incapaz de responder por seus atos e assim ele
passaria a vida em um hospital psiquiátrico. Mal estacionou e viu o furgão que
transportava presos saindo do subsolo com forte escolta. Fez a volta frustrado.
Deveria ter previsto que a transferência seria antecipada para evitar a
imprensa. Seguiu para o hotel. Precisava falar com a filha.
Precisava deixar claro que não a abandonaria.
Michael a viu logo que ela saiu do elevador. Vestia com um
conjunto de bata e calça em tons de azul. O véu que cobria os cabelos e o rosto
era branco e a rodeava como um sári indiano. Jamais passaria
despercebida.
─ Ruth. ─ ele a chamou e ela parou. Virou-se devagar. ─ Como você
está?
─ Bem.
─ Eu trouxe a autorização para que possa ver seu marido. Mas
teremos que ir até Santa Fé.
─ Ele já foi transferido? ─ arfou assustada.
─ Durante a madrugada. Fizeram isso para evitar a imprensa.
─ Este documento é válido? ─ perguntou pegando o papel.
─ Talvez. Vai depender do entendimento do diretor da prisão.
─ Obrigada. Eu vou sozinha. Seus serviços já foram dispensados. ─ Ruth
se virou para sair. Michael a segurou pelo braço. ─ Não permito que me toque.
─ Sou seu pai. ─ afirmou sério.
─ Ontem não tinha certeza.
─ Perdoe-me por isso! Ruth, por favor, não quero me afastar do
caso. Não quero me afastar de você. Quero ajudar.
─ Vai defender meu marido?
─ Sim. Se você me permitir.
─ Acredita que ele é inocente? ─ Michael hesitou.
─ Sim. ─ respondeu tenso. Se houvesse uma razão psíquica para tal
instinto assassino ele realmente era inocente e poderia usar isso. A filha
estava tensa. Queria ser forte, mas estava abalada. Não podia abandoná-la. ─
Posso acompanhá-la?
─ Por favor. ─ Ruth disse com voz fraca.
Michael a envolveu pelos ombros e saiu para a portaria. Pediu seu
carro ao manobrista. Enquanto esperam a van de uma emissora de TV parou em
frente ao hotel. Ruth logo foi reconhecida. Por sorte o carro de Michael chegou
antes que o repórter conseguisse se organizar para falar com eles.
─ Como esta meu neto? ─ Michael perguntou para puxar
assunto.
Já estavam rodando há quinze minutos e ela não dissera nenhuma
palavra.
─ Neta. Ela está bem. Preocupada como eu, mas bem. Ficará menos
agitada quando ouvir a voz do pai.
─ É uma menina?
─ Sim. O nome dela é Olga.
─ Leigh não se incomodou por não ser um menino?
─ Não. Ele a ama. Meninas são muito bem vindas entre os Koryaks.
─ Que bom. Então ela nasce em abril?
─ Sim. No dia 23. ─ olhou para ele. Baixou o véu. ─ Leigh tem que
estar livre até esta data. Não posso ter minha filha sem ele.
─ Ruth não quero mentir para você. Será muito difícil Leigh ficar
livre até lá. O que quero é tentar um acordo com a promotoria e assim... Talvez
ele receba autorização para vê-la no hospital depois que a criança nascer.
─ Nenhum Koryak nasce em hospital Michael. Olga nascera em casa. É
o costume. ─ algo no tom dela o fez tirar os olhos da direção e encará-la. ─ E
tem que ser pega pelo pai. Se ele não for o primeiro a pegá-la, ela não viverá.
─ Pretende ter o bebe em casa?
─ Sim.
─ E quem tem que fazer o parto é o pai?
─ Sim.
─ Se ele não o fizer a criança morre?
─ Sim. Leigh tem que estar presente no parto. Preciso dele.
─ São apenas crendices. Nada vai acontecer ao bebê se ele não
estiver na hora.
─ Minha filha é uma Koryak. Tem que nascer como todos os Koryak ou
não conseguirá viver neste mundo.
─ Você assimilou bem os costumes desse povo, não é? ─ perguntou
analisando a forma como ela se vestia.
─ É o meu povo também. Descobrir que pertencia a ele apenas depois
que conhecia Leigh não me tirou o direito e deveres que tenho.
─ Sua mãe era Koryak? ─ perguntou irônico. Carrie Field não era
recatada...
─ Não Michael. Você é. ─ ele riu sem entender.
─ Não. Não sou.
─ É sim. Apenas não sabe ainda. ─ pegaram a estrada.
─ Ruth não sei quem lhe disse que pertenço a este povo. Não
pertenço. Nasci em um rancho há uma hora daqui. Para aquele lado. ─ apontou
para leste. ─ Meus pais não tinham nada de russo ou de árabe ou de qualquer
povo antigo.
─ Você foi deixado no rancho. Sua mãe o fez para protegê-lo da
fúria de seu irmão paterno que não gostou da ideia de ter que dividir seus dons
e bens com o filho de uma estrangeira. Logo após o parto ela o entregou aos
comuns que você conhece como pais. Ao seu pai disse que você morreu por que ele
não estava presente no seu nascimento. Ele acreditou por que isso acontecia. Se
ela não tivesse mentido seu irmão o mataria.
─ Se meu pai não estava presente no meu nascimento, como
sobrevivi?
─ Sua mãe e seu pai gestaram você juntos. Faltava apenas o sopro
de vida para você conseguir sobreviver neste mundo. A matrioska o pegou quando
nasceu e lhe deu este pequeno sopro.
─ Você está me dizendo que eu...? Não. Sou americano. Dos pés à
cabeça.
─ E eu sou inglesa. Onde nascemos não determina se somos ou não
Koryaks. Para entender melhor pense em nós como judeus... ou como ciganos...
─ Meus pais não são Koryak.
─ Seus pais adotivos não. Seus pais biológicos sim. ─ o fitou
séria. ─ Suponho que a mãe que conheceu contou que era filho adotivo.
─ Contou. ─ Michael murmurou sério. Essa era uma informação que
poucos conheciam. ─ Mas disse também que eu era filho de uma empregada do
rancho com um vaqueiro irresponsável. Não falou nada sobre ser filho de uma
estrangeira.
─ Eles não sabiam. O filho da empregada nasceu sem vida. Sua mãe
trocou você pelo filho dela. Dessa forma o ocultou.
─ Está me dizendo que essa... Koryak, veio até o rancho é trocou
as crianças? E ninguém viu isso?
─ Michael, vai descobrir que um Koryak pode fazer coisas
inacreditáveis.
─ Como o que, por exemplo?
─ Você saberá quando seus olhos foram abertos.
Como ainda não havia instruções específicas quanto ao preso, foram
levados para a sala de visitas. Demorou quase meia hora para que Leigh fosse
trazido até eles. Assim que o viu, Ruth correu em direção ao marido que abriu
os braços para recebê-la. Um guarda surgiu ao seu lado e impediu que os dois se
tocassem.
─ Sem contato físico. ─ mandou sério.
Leigh apenas assentiu e ao lado dela caminhou até Michael.
Sentaram.
─ O que faz aqui? Eu o demiti..
─ Quem me contratou foi sua esposa. Só ela pode me demitir.
─ Despeça-o. ─ disse para a esposa.
─ Seria uma grande tolice. Eu já estou inteirado dos fatos e...
─ Despeça-o Ruth. ─ Ruth abriu a boca e fechou confusa.
─ Lescaut desculpe por ontem. Quero ajudar.
─ Ruth, se ele for envolvido o colocaremos em risco. ─ Leigh
argumentou serio. ─ Ele deve permanecer oculto. Se o Chanceler souber dele,
saberá de você e este é um risco que não podemos correr.
─ Como vai evitar que o Chanceler me descubra? Pode demorar,
mas logo de um jeito ou de outro ele saberá.
─ Há um modo. Vamos nos divorciar o mais rápido possível.
Aliás. ─ virou-se para o advogado que permanecia perdido na conversa. ─
Michael, quero me divorciar de Ruth. Acho que disso você pode cuidar. Me
procure quando estiver com os papéis prontos. E tome conta dela até que se case
novamente. ─ levantou dando a conversa por encerrada. ─ Eu mesmo vou
providenciar outro advogado para a minha defesa. Ruth não quero mais vê-la.
─ Não vamos nos divorciar. ─ Ruth levantou enfrentando o
marido.
─ Por favor! Sentem! Os dois! Vamos conversar sobre isso.
Michael os segurou pelos punhos para fazê-los sentar. Uma luz
dourada o cegou seguida por um mar vermelho aberto a sua frente. Uma avalanche
de imagens, sons e conhecimento passou entre eles e Michael arfou sem perceber.
Quando os largou as mãos estavam em brasa.
─ Meu Deus!!
─ Você está bem? ─ Ruth perguntou preocupada.
─ Céus! Por um momento... ─ balançou a cabeça clareando os
pensamentos. ─ Vocês não podem brigar agora. ─ os dois olhavam para ele. ─
Leigh, eu posso cuidar da sua defesa. Já estou inteirado dos fatos e será mais
fácil para mim do que para qualquer advogado que assuma agora. Eric Asher
sonegaria informações importantes e eu já tive acesso a todo o processo. ─
Leigh desviou o olhar pensativo. ─ Assumo todos os riscos da minha decisão,
quaisquer que sejam. Ruth é minha filha e não vou abandoná-la. Não quero mais
permanecer oculto.
─ Eu já contei a ele. ─ Ruth séria.
─ E ele não entendeu o que são os Koryaks. É melhor que
continue assim. Quando ele chegar à maturidade entenderá como acontece
naturalmente. ─ segurou as mãos dela com carinho. ─ Me perdoe. ─ pediu.
Respirou. ─ Eu me divorcio de você.
─ Cala a boca! ─ assustada.
─ Eu me divorcio de você! ─ repetiu apertando as mãos delicadas. ─
Eu me...
─ Cala a boca. ─ Ruth gritou puxando a mão e esbofeteando-o com
força. Foi tão rápida que Leigh não teve como impedi-la. ─ Não faça isso, por
favor... ─ suplicou.
─ Esta tudo bem. Está tudo bem. ─ Michael disse levantando as duas
mãos para impedir os guardas de arrancarem Leigh da mesa. ─ Apenas um
desentendimento de casal. ─ baixou o tom ─ Controlem-se. Aqui não é local para
este tipo discussão.
─ Não se divorcie de mim. Juramos
ficar juntos pela eternidade. Na alegria e na dor. Se quebrar esta promessa
nunca mais nos encontraremos. Nem agora e nem em qualquer outro ciclo. ─ ela
o encarou tensa. ─ Não posso perder você
eternamente.
─ Você corre riscos. ─ Leigh
murmurou tão abalado quanto ela.
─ Enquanto Meneslaups for
regente estaremos sempre em risco.
─ Eu não posso continuar a
perdê-la sempre que nos encontramos. Eu nunca soube protegê-la. Renunciar a
você é o certo a fazer!
─ Não faça. Por favor.
─ Você pode morrer outra
vez.
─ Não se perde ninguém para
a morte. ─ tensa respirou ─ É a
primeira vez que gerarmos juntos. Ela não vingara se me renegar...Vai deixar
isso acontecer?
─ Pare Lescaut. ─ Michael apertou o pulso dele. ─ Trataremos disso
outra hora. Ruth, por que não me deixa falar com ele sozinho? Temos muitos
detalhes a tratar para a defesa e...─ não o ouviam. Concentrados um no outro se
levantaram.
No minuto seguinte estavam enlaçados beijando-se apaixonadamente.
Por alguns segundos os guardas não se envolveram surpresos demais, até que um
se moveu indignado e foi separá-los, agarrando os braços de Leigh e puxando-os
para as costas. Outro guarda chegou e ajudou a algemar o preso que não reagiu.
Michael afastou a filha com cuidado. Enquanto era arrastado Leigh falava em seu
idioma natal e Ruth respondeu concordando.
─ O que ele lhe disse quando foi levado? Algo que eu deva saber? ─
Michael perguntou quando pararam na estrada para abastecer o carro.
─ Ele disse que vai estar comigo quando o bebê nascer. Disse que
nada vai impedi-lo de estar lá. ─ o fitou séria. ─ disse que cercas não irão
detê-lo.
─ Excelente. Fuga marcada. ─ bufou frustrado. ─ E o que você
respondeu?
─ Disse que estarei esperando por ele. ─ Michael revirou os olhos.
Respirou.
─ Querida, se ele fugir estará colocando a vida de todos em risco.
─ Preciso dele.
─ Se ele fugir e você o acolher será presa e sua filha tirada de
você.
─ Se ele não estiver comigo minha filha morrera.
O tumulto em frente à casa era grande quando chegaram. Havia
vários carros de emissoras estacionados. Os repórteres se amontoavam nos
jardins.
O carro logo foi
cercado. Michael soltou o cinto preparando-se para descer.
─ Tem certeza de que não quer dar uma entrevista? ─ Michael
perguntou tenso. Um helicóptero sobrevoava a casa mostrando a chegada deles. ─
Pode repetir que Leigh é inocente e que tudo é um erro da polícia e da
promotoria. Isso talvez ajude.
─ Não. ─ ela soltou o próprio cinto. ─ Não posso falar com a
imprensa.
Michael desceu primeiro e quase não conseguiu contornar o carro
para abrir a porta para Ruth. A envolveu pelos ombros repetindo “Nada a
declarar” enquanto andavam. Dois policiais que estavam apenas observando se
aproximaram e os ajudaram a entrar na casa. Michael a soltou no hall fechando a
porta com certa dificuldade. Só então percebeu a mulher ao lado da filha.
─ Bem
vinda Madame! Como está monsieur? ─ Nice perguntou recolhendo o véu e o casaco
de Ruth.
─ Bem, na
medida do possível. A confusão lá fora começou cedo?
─ Começou ontem senhora. Passaram a noite nos jardins. ─ Ruth deu
dois passos e a mulher a interceptou. ─ A senhora tem visitas. ─ Ruth parou.
Voltou-se para a governanta assustada. ─ Eles chegaram muito cedo. Tinham a
chave da casa e a senha do alarme, pois quando levantei já estavam aqui.
─ Quem? ─ Perguntou tensa.
─ Ele disse ser seu pai. ─ Nice falou enquanto Ruth ia para a sala
devagar.
Em segundos ela avistou o homem moreno e atarracado de costas para
a porta. A longa batina girou quando ele se voltou. Com um sorriso abriu os
braços e Ruth correu para ele feliz. O som da palavra “Ady” cheia de amor que
ela disse doeu nos ouvidos de Michael. Um dia ela o chamaria assim?
Salastiel a embalou nos braços por alguns segundos a deixando
chorar. Depois a beijou nos lábios, no rosto, na testa. De forma reverenciada
curvou-se a frente dela e beijou-lhe as mãos. Michael assistiu a tudo
intrigado. Falavam baixo, mas ele podia jurar que falavam a mesma língua que
Ruth e Leigh usavam.
─ Minha filha, Yuri e Kalih são voluntários para resguardá-la
neste tempo obscuro. ─ apontou para um homem e uma mulher que se aproximaram
com as mãos juntas. Os olhos, a maneira de vestir não negava as origens
orientais.
─ Shalon Yuri. Shalon Kalih. ─ Ruth cumprimentou o casal juntando
as mãos e inclinando-se levemente.
Ambos corresponderam dobrando-se a frente dela e reclinando
a cabeça.
─ É aconselhado que usem apenas dialeto Souvk. ─ Salastiel disse e
com surpresa Michael viu Ruth repetir o cumprimento em outra língua, tocando as
cabeças do casal. Eles levantaram e uma leve conversa se estabeleceu. Depois
ela voltou a atenção para o pai. ─ Você viu seu marido?
─ Sim. Vim da prisão de Santa Fé. Um lugar horrível. Me deixe
apresentá-lo ao Senhor Michael Melton, nosso advogado. ─ se acomodou no
sofá.
─ Salastiel Coombs. É um prazer senhor Melton. ─ cumprimentou
formal sem oferecer a mão.
Michael o fitou enciumado. Um reverendo. Os olhos negros eram tão
penetrantes que pareciam poder varrer uma alma. Aquele era o homem que havia criado
sua filha.
Ruth acomodou-se no sofá e imediatamente Kalih ajeitou almofadas
às costas dela. A jovem pediu algo e a pequena oriental saiu direto para a
cozinha.
─ Não posso me demorar minha filha. Tenho muitas coisas a resolver
aqui e ainda preciso ir até Santa Rosa.
─ Também tenho que ir Ruth. ─ Michael disse entendo a deixa do
reverendo.
─ Claro. Obrigada por tudo senhor Melton. ─ Ruth respondeu
formal.
─ Nós falamos amanhã? ─ Perguntou estranhando a formalidade.
Lógico que o pai não sabia quem ele era.
─ Sim. Por favor. Quero ser informada de cada passo da defesa.
Michael concordou com um aceno. Sem se conter aproximou-se para
beijá-la. No mesmo instante Yuri se moveu impedindo-o. Michael o fitou com
raiva. O homem não se intimidou. Postou-se a frente dele. Ruth falou no
estranho dialeto. Ele a ouviu, depois consultou o reverendo com o olhar. Só com
a leve concordância do padre foi que ele se afastou. Intrigado Michael a beijou
levemente na face.
─ Cuide-se! ─ disse baixo e saiu.
─ Isso não é russo. ─ o intérprete disse depois de analisar as
fitas de Ruth e Leigh conversado. ─ Não é nenhuma língua que eu conheça. Lembra
o ucraniano, mas não é. ─ tirou os óculos franzindo a testa. ─ Isso parece mais
um dialeto. Vai precisar de um nativo para traduzir o que eles estão dizendo.
De onde são?
─ Ela é inglesa. Ele nasceu em uma ex-colônia russa chamada
Koryakia. ─ Dennis respondeu depois de consultar alguns papéis.
─ Se é inglesa, aprendeu o idioma na infância. Observem a
desenvoltura no falar. A meu ver ela é tão nativa quanto ele. ─ o linguista
pensou um pouco. ─ Esta região que mencionou pertenceu à Rússia, terra de
inúmeros dialetos. Lamento, dificilmente encontrará na América alguém que possa
traduzir isso.
─ Obrigado. ─ Matt agradeceu dispensando-o. ─ O que acha?
─ Vamos continuar procurando.
─ Concordo. Melton requereu acesso as provas encontradas na casa
de Lescaut. Vou acompanhá-lo e você procura o tradutor.
─ Quero ver onde ele vai colocar a alegação de inocente depois de
ver o que achamos. ─ Dennis debochou. ─ Vou te acompanhar. Preciso ter esse
prazer.
Michael já os aguardava no corredor. Na verdade, esperava apenas
Matt Dowling, com quem, já havia percebido, era mais fácil de lidar. Dennis
Blake estava muito mais envolvido no caso e parecia pessoalmente
atingido.
─ Boa tarde. ─ Matt cumprimentou educadamente.
Michael apenas acenou com a cabeça sem esconder o desprazer de ver
o outro agente. Dennis riu um tanto debochado e indicou o caminho até a sala de
provas.
Tudo o que havia sido apreendido na casa de Leigh estava sobre uma
mesa grande devidamente embalado em plástico. Michael se aproximou preocupado.
O material seria usado como prova no processo, por que de alguma forma estavam
ligados aos crimes. Havia peças demais para serem enganos. Dennis Blake pegou a
primeira peça. Um par de botas.
─ Tamanho 43. O solado é idêntico aos das pegadas deixadas na casa
da terceira vítima. ─ O prazer no tom era inconfundível. Pegou outra peça. ─
Esta camisola é idêntica às usadas por todas as vítimas femininas. ─ pegou um
martelo antigo. ─ Esta arma tem este encaixe...observe. ─ aproximou a peça dos
olhos de Michael. ─ Este encaixe cabe perfeitamente na fissura feita no peito
da sexta vítima. ─ deixou de lado e pegou uma tira larga de couro. ─ Encontramos
alguns pares destas. Tem a mesma medida e do mesmo material das usadas nos
crimes.
─ Algum objeto pessoal das vítimas? ─ Michael perguntou desejando
poder apagar o sorriso vitorioso do agente. A cada minuto a situação se
complicava.
─ Não. ─ Matt respondeu rápido.
─ O assassino sempre levava algo das vítimas. Ou não levava?
─ Tudo indica que sim. Parentes relataram a falta de correntes,
anéis, lenços, peças de roupas, coisas assim. ─ Matt respondeu.
─ Encontraram algo deste tipo na casa de Lescaut?
─ Não.
─ Seu cliente já lhe disse onde os guardou? ─ Michael ignorou a
pergunta. ─ Não, se preocupe, não vamos precisar destes souvenires. Já
encontramos a principal arma dos crimes. Este aqui. ─ Dennis continuou sem se
importar com o ar chocado do advogado. Estendeu um punhal devidamente embalado.
─ Esta peça foi usada para perfurar o coração das vítimas. E está lâmina ─
Levantou outra peça. ─ Com esta ele retirou os úteros e fatiou os órgãos
sexuais dos homens. Com esta ele extirpou o bebê de Penélope Ives. Usou um
prego comum, mas foi com aquele martelo que ele pregou... o feto na parede. Os
médicos disseram que como ela já estava no quinto mês é possível que o bebê
tenha sobrevivido por uns cinco minutos. O que nos leva a crer que foi pregado
ainda vivo.
─ Chega! ─ Michael levantou a mão.
Ruth. Sua Ruth. Casada com um monstro. Grávida de um monstro. Será
que ele pretendia fazer o mesmo com ela? Olhou os dois agentes tomado por
gratidão.
A prisão de Lescaut podia ter salvado a vida de sua filha.
─ Em alguns dias vou apresentar uma proposta de acordo ao promotor
Asher. ─ murmurou vencido. Com passos lentos deixou o local.