sexta-feira, 26 de junho de 2020

Cap 04

CAPÍTULO 04

 

Já era tarde quando Ruth foi para o quarto com um livro. O deixou aberto na primeira página enquanto os pensamentos perdiam-se. Imaginou se Leigh estaria no hotel. Poderia ligar e dizer que precisava que ele viesse. Desistiu. Sentia-se bem. 

O dia havia sido bom até o momento em que ele chegou. Há muito tempo não tinha amigas. Foi uma manhã de conversas tolas e elogios para a casa. Pegou os documentos na gaveta e foi lê-los na cama. A casa era dela. O preço da noiva. 

Leigh pagava um preço alto por uma noiva que não queria. Cumpria a promessa feita a Salastiel. Seu pai. Era difícil ver Salastiel como pai. Ele a resgatou das garras da morte e pelas leis agora ela era descendência dele. Folheou os documentos. Não sabia o que Salastiel ganhava com aquela união. Preferia ter ido suplicar a clemência da matrioska para o filho. Sentia que a progenitora de todos os Koryak seria generosa, mesmo aquele legatário tendo sido fecundado da forma como fora. Ainda não entendia como era possível estar gestando se não tinha desejando conceber quando foi atacada.

Acariciou o ventre. Não importava. Amava o filho. Não sabia explicar como ele se desenvolvia em sua essência. Existia e ela estava feliz por tê-lo. Ah, se pudesse ouvi-lo. Ele lhe diria de quem descendia. No fundo tinha a esperança de que pertencesse a Leigh. Talvez naquela última vez, na tarde chuvosa em Northingham. Naquele ciclo no qual ela teve olhos castanhos, cabelos cacheados cor de cobre e respondia pelo nome de Susan. 

 

─ Você está tenso. ─ Ela afirmou se afastando. A garota estava deitada com o rapaz ao lado dela. Uma versão adolescente daquele com quem se casara. Ele suspirou e se reclinou para olhá-la melhor. ─ Sua tia voltou a implicar com suas saídas?

─ Não ─ Ele sorriu de leve. ─ Desde que ela descobriu que dormimos juntos nunca mais implicou com o que faço. Ela também acredita no que demonstramos. ─ Devagar ele tocou os fios de cobre espalhados no travesseiro. ─ Mas mesmo todos acreditando eu sinto que há algo errado e que estamos vulneráveis. Não consigo definir o que, mas temo que Vladymyr a tenha sentido de alguma forma. Sinto que ele sabe bem mais do que demonstra. ─  A puxou para mais perto. ─ Temo por nós!  

─ Podemos ir embora. Eu iria com você para onde quisesse.

─ Sabe que não posso. ─ Disse triste. ─ Meu irmão está indefeso até...

─ Ser maior, eu sei. ─ Ela o abraçou. ─ Então tudo o que podemos fazer é termos cuidado e continuar como planejamos. Nenhuma preocupação irá resolver. ─  Ajeitou-se melhor na cama. ─ Tudo isso estaria resolvido se eu pudesse  lhe dar um legatário. ─ Lágrimas brilharam olhos castanhos ─ Perdoe-me!

─ E você que tem que me perdoar. Fui eu que... ─ tenso respirou fundo ─ Ainda quer um filho, não é? ─ Ele perguntou mirando-a sério.

─ Sabe que sim

─ Em breve poderei decidir meu futuro. ─ Acariciou os cabelos dela. ─ Vamos nos unir como se deve. Será a minha princesa e teremos um legatário.─ Disse tomando os lábios em um beijo úmido. ─ Nos dividiremos juntos e formaremos um novo Koryak.  

─ Sabe que não posso mais....

─ Estou quase incólume! Eu me dividi apenas uma vez! Posso lhe dar as duas partes. ─ Repetiu o beijo úmido várias vezes. 

─ Ficará fraco. ─ Lembrou correspondendo cada beijo. 

─ Não importa. Quero vê-la feliz. Eu a amo agora e para sempre. 

─ Eu também o amo meu príncipe. ─ Disse recebendo-o de forma plena.

 

Ruth abriu os olhos afastando as lembranças. Se continuasse mergulharia em um pesadelo que não suportaria reviver. Seu príncipe lhe prometera casamento e amor e ela acreditou. Sabia que não poderia cobrar a promessa feita. Fora dominada e maculada. Mesmo assim seu pai queria aquele casamento e assim seria. E se ela tivesse a chance de fazer com que Leigh soprasse vida ao filho. Talvez deitar-se com ele não fosse tão ruim. 

Bastava afastar a consciência e deixar o corpo reconhecer o toque, a paixão.

A paixão Koryak de Hans e Susan. A paixão carnal de Leigh e Ruth. 

Sentou na cama angustiada. O corpo trêmulo. As lembranças de seus dois últimos casulos eram vividas. Pouco tempo de transferência entre um e outro, Salastiel esclareceu. Será que Leigh também recordava estes momentos com tanta nitidez? Ou o ódio que sentia esmagou todo o amor e paixão que viveram? 

Pegou o telefone na cabeceira e ligou para o hotel. Foi direcionada ao quarto. O telefone tocou até a ligação voltar para a recepção. Tentou novamente estranhando. Desta vez o telefone foi atendido no terceiro toque. 

─ Alo. ─  Uma mulher. A surpresa a emudeceu.

─ Desculpe. ─  Errará o número? ─ Acho que... É do quarto do Sr. Lescaut?

─ Quem é? ─  A voz perguntou de forma cautelosa.

─ É... da recepção. Temos um recado. Ele está?

─ Está sim. ─ Fosse quem fosse riu tranqüila. ─ Mas não pode atender agora, está no banho. Ah, e não precisa ligar novamente, nós vamos aproveitar um pouco mais esta suíte maravilhosa e daqui a pouco descemos. Passamos na recepção e pegamos o recado. ─  Sem esperar resposta desligou. 

Ruth ainda segurou o aparelho por alguns minutos. Devagar o colocou no lugar, aconchegou-se na cama e fechou os olhos. 

 

Becky Sune deixou o local de trabalho pela porta dos fundos. Soltou os cabelos agitando a cabeça enquanto vestia a jaqueta de couro. A noite estava fria. Péssima para andar até o ponto de ônibus. Um dia encontraria um homem rico e bonito que cairia a seus pés e a tiraria daquela vida miserável. Talvez um sujeito como o que atendeu no fim da tarde. Era lindo. O corpo malhado e cabelos negros como a noite estavam suados pela corrida. Tinha os olhos mais verdes do que uma floresta. E ele a olhou de um jeito que lhe deu vontade de dar seu telefone. Perdeu a chance. Foi atender outra mesa e quando voltou ele já havia saído. Mas um dia...

─ Boa noite. ─ Uma voz disse atrás dela e Becky se voltou assustada. ─ Eu a assustei. Desculpe. ─ Ela não acreditou no que viu. Era ele. O bonitão. Um alarme soou no íntimo, mas foi sumariamente ignorado. 

─ É. Assustou. ─ Rebateu grosseira e se arrependeu na mesma hora. 

─ Eu a esperava.

─ Por quê? ─ Novamente quis morder a língua. Queria ser simpática. 

─ Quero me apresentar. ─ Estendeu a mão. ─ Sou Leigh Lescaut. 

─ Becky Sune ─ Aceitou a mão estendida e ele a segurou por mais tempo do que o necessário. Parecia analisá-la. Ela teve medo e puxou a mão.

─ Quer jantar comigo Becky Sune? ─  Perguntou sem rodeios. 

Ela hesitou um segundo. Ele era bonito, mas jovem. Tinha pelo menos cinco anos a menos do que ela. Preferia um homem mais velho. Reparou como se vestia. Blazer de bom corte, sapatos de couro, jeans de marca. Coisa fina. Não usava aliança. O carro de luxo estacionado na rua devia ser o dele. Com certeza era rico.

─ Quero ─  Sorriu quando percebeu que acertou sobre o carro.

Leigh abriu a porta para ela de uma forma que ela achou muito fina. Era um homem de classe. Enquanto ele contornava o carro ela fez uma prece silenciosa agradecendo a sorte. Preparou seu melhor sorriso, ajeitou os cabelos e abriu a jaqueta deixando o decote generoso à mostra. Iria ser a mais gentil das mulheres.

─ Onde vamos jantar? ─ Perguntou de forma lenta quando ele entrou.

─ No restaurante do hotel onde estou hospedado. ─ Sério.

Ah, droga um turista! Nada serio, mas valia à pena aproveitar a noite.

─ Vai ficar muito tempo na cidade?

─ Estou de mudança. Já comprei uma casa no bairro onde trabalha. ─ Ela sorriu. Rico concluiu. Vasculhou a mão esquerda. Sem aliança. Promissor.

─ E onde esta hospedado? ─ Ele disse o nome do hotel mais luxuoso da cidade.

─ Ohh, não estou arrumada para a ir a um lugar fino como este! Não podemos comer um cachorro quente por aí?   

─ Não como cachorro. ─  Falou sério olhando de forma estranha. Ela riu.

─ Você é estrangeiro, não é?

─ Sou. 

─ Seu inglês é muito bom.

─ Obrigado. ─ Parou no sinal. ─ Prefiro o restaurante do hotel.  

─ Ah, não, por favor. Não estou vestida para jantar neste lugar.

Ele a olhou analisando o jeans surrado, a camiseta decotada e a jaqueta de couro sintético barata. Os olhos fixaram-se nos seios fartos por mais tempo do que o educado. Quando  a encarou os olhos estavam ainda mais escuros.

─ Pode ir como está. Ninguém vai barrá-la estando comigo. ─ Havia mais do que desejo na voz.

─ Ah, não. Adoraria ir, mas lá as mulheres se vestem muito bem e iriam zombar de mim entende? ─ Baixou a cabeça. ─ Eu não iria me sentir bem. Não podemos ir a um lugarzinho mais simples?

─ Não. Vamos jantar onde estou hospedado. Se acha que não está vestida de forma adequada, pode comprar algo na loja do hotel. ─ Estacionou. O porteiro logo abriu a porta para eles. Sem se incomodar com suas vagas tentativas de recusa a guiou até a boutique. Um vestido ali deveria custar mais do que um mês de seu salário.

─ Ah, não. Não tenho dinheiro para isso ─ Disse e mordeu a língua.

─ Eu a presenteio. ─ Ele respondeu de forma simples.

─ Não. ─ Ele abriu a porta da loja sem ouvi-la. ─ Hei, cara. Não posso aceitar nada de você. Não o conheço.  

─ Estamos nos conhecendo. A convidei para jantar. Não vou comer cachorro porque não se sente confortável dentro do que veste. Posso vestir minhas mulheres.

─ Não sou sua mulher. ─  Rebateu desafiadora.

─ Ainda. ─  Ele disse e ela arregalou os olhos!

Pegando-a pelo braço a fez entrar.

─ Hei cara, para. Não dá. Não posso. ─ Ela se soltou e parou. Era um teste. O cara a estava testando. Se aceitasse com certeza a julgaria uma interesseira.

─ Não quer mais me conhecer? ─ O bonitão parecia intrigado. 

─ Quero....mais... ora por favor. Não posso aceitar presentes de um estranho.

 ─ Já me apresentei.

─ Ainda é um estranho ─  Becky rebateu quase rindo.

─ É virgem? ─  Ele perguntou de chofre.

─ O que? ─  Não acreditou no que ouviu.

─ A vi na lanchonete. A observei por alguns minutos depois que sai. Perguntei sobre você onde trabalha. Me disseram que não está envolvida com ninguém. Por seu modo de andar achei que não fosse virgem, mas posso ter me enganado. 

─ Pelo meu!...!!! Que diabos tem isso a ver com ser ou não virgem ou aceitar ou não presente de um estranho?

─ É virgem? ─  Insistiu.

─ Não. Claro que não.

─ Se não é virgem, porque não aceita minha oferta? É a forma que tenho de dizer como a quero em minha cama.

─ O que? ─ Bufou sem acreditar! Ele a tratava como uma prostituta! ─ Cara você não existe! ─  Virou-se para ir embora. Ele ficou parado com as mãos nos bolsos olhando-a se afastar. Dois ou três passos à frente ela ajeitou a bolsa no ombro e olhou para trás. Ele continuava no mesmo lugar. Ela voltou. Não podia perder aquela oportunidade ─ De que planeta veio?

─ Da terra. ─ Respondeu depois de hesitar um segundo.

─ De que país? ─ Perguntou rindo.

─ Ah... de Koryakia.  

─ Arábia?

─ Rússia.  

─ Ah. Bom até que se entende. ─  Passou o braço no dele. ─ Olhe, não sou virgem e fiquei muito lisonjeada em saber que.... que me deseja. Não sei quais os seus costumes para as mulheres não virgens em seu país, mas aqui não é comum ir assim direto ao assunto. A gente não transa logo na primeira vez ─  Disse firme.

Até acontecia, mas ele não precisava saber disso.

─ Não disse que vamos ‘transar’ ─ Ele rebateu como se a palavra o enjoasse ─ Eu a convidei para jantar e quero comer no restaurante do hotel. Já estive lá e sei que a comida é boa. Não vou comer cachorro porque minha acompanhante não tem o que vestir. Também não frequento lugares baratos onde a qualidade e higiene sejam suspeitos. De onde vim, se uma mulher faz algum sacrifício para nos agradar ela é recompensada. Pode escolher o que quiser na loja. Basta mandar colocar na minha conta. Pode subir e se arrumar no meu quarto. ─ Ela fez uma careta na palavra quarto ─ Ele esclareceu. ─ Não vou forçá-la a nada. A espero no bar. Depois que estiver pronta jantamos, conversamos e se for de comum acordo e agrado poderemos copular o resto da noite. Se não for, vou deixá-la em casa, segura e intacta. Entendo que é um sacrifício e o que posso fazer para abrandá-lo é torná-la a mulher mais bem vestida do lugar. Aceite. Quero agradá-la.

Sacrifício? Uma loja chique. Um vestido caro. Um jantar no melhor restaurante da cidade. E a ideia de que sempre que o agradasse ganharia algo. Pelo jantar, um vestido. E depois da transa o que viria? Uma joia? Aquilo seria sacrifício?

─ Tudo bem. Aceito o presente. ─ Deu seu melhor sorriso. ─ Também quero agradá-lo.  

 

O local era muito elegante com um piano bar e luz de velas, que favorecia o clima de romance. Era lá que James sempre levava a Nancy quando realizava uma boa venda. E sem dúvida alguma a venda da casa dos Lescaut fora a melhor em muito tempo e merecia a comemoração. 

O maître lhes deu uma mesa próxima à pequena pista de dança. Nancy rodopiava nos braços do marido já levemente embriagada pelo vinho e pela música quando ele sugeriu que fossem terminar a comemoração em casa. Voltaram à mesa e James pediu a conta. Nancy se desculpou e foi à toalete. No caminho admirou um casal que trocava beijos sensualmente. A moça usava um longo vermelho simplesmente maravilhoso. Parou observando-os e no momento em que eles se separaram ela reconheceu Becky Sune, a garçonete de uma lanchonete de seu bairro. Era uma mulher linda, mas de pouca classe. Fez uma careta. Becky tinha a fama de destruir casamentos desde os quinze anos. O homem que a devorava com a boca e as mãos só poderia ser mais um marido infiel. Virou-se para seguir seu caminho. Algo a fez parar. Olhou novamente para eles com atenção. O blazer escuro e o ambiente na penumbra dificultaram um pouco, mas perdeu o ar quando reconheceu Leigh Lescaut.

 

Becky sentia-se uma princesa. O homem lhe dera o vestido mais lindo que havia na loja. E sapatos. E acessórios. Tudo o que ela usava, até o lingerie finérrimo fora paga por ele. E para melhorar o homem era bonito como um deus grego. Falava pouco e desde que a viu pronta não deixava de tocá-la. A beijou na recepção do hotel de um jeito que a fez corar. E ela não corava há muitos anos. Aquela demonstração de intimidade em um local público demonstrava que ele não tinha nada a esconder. Ficou mais animada. Pelo menos desta vez não estava se metendo com um homem casado. Mal chegaram e ele a levou para a pista de dança. Colou o corpo ao dela.

Eram quase da mesma altura o que a moldou a ele. 

Os beijos foram longos e sensuais. Ele estava ardente, as mãos inquietas deslizavam explorando suas curvas generosas em toques firmes. Ela o sentia excitado. Teve que afastá-lo levemente ou acabariam fazendo sexo ali mesmo. 

─ As pessoas estão olhando. ─  Murmurou.

─ Tem razão. ─  Ele respondeu segurando-a pela nuca. Outros tantos beijos depois ele se conteve levando-a de volta a mesa. ─ Sinto muito. É que faz muito tempo que eu não tenho uma mulher.

─ Sério? ─  Riu animada ─ Quanto?

─ Três anos! ─ Chamou o garçom com um gesto, sem perceber o choque dela. ─ Posso escolher o vinho ou quer algo especial?

─ A vontade ─ Intrigada. Deixou o garçom sair para perguntar descontraída ─ Estava preso?

─ De certa forma. ─  Vendo-a tensa prosseguiu. ─ Preso a uma promessa. ─  completou. ─ Não tem mesmo nenhum compromisso?

─ Não. ─  O olhar dele a aquecia e excitava. Becky era madura o suficiente para saber o que ele realmente queria. E já se decidira. Estava disposta a dar. E seria naquela mesma noite, pois sentia que se dissesse não, ele não hesitaria em procurar outra. ─ O que você acha de... deixar o jantar para mais tarde. Você me despertou outro tipo de fome! ─ Murmurou rouca. Ele sorriu satisfeito. ─ Podemos ir para sua suíte.

 

Mal a porta foi fechada e estavam agarrados um ao outro. Os beijos eram ainda mais atrevidos e Becky correspondeu com o mesmo ardor. Sabia que aquela noite iria mudar sua vida. Ele a suspendeu e a pôs sobre a mesa. Estava com pressa em consumar o ato. O vestido justo atrapalhava e ela pediu um minuto para ir se preparar no banheiro. O que usava por baixo o deixaria ainda mais louco. 

Leigh respirou fundo quando se separou de... como era mesmo o nome dela? Becky. Becky Sune lembrou enquanto tirava os sapatos e meias, o blazer e a camisa. Foi para o quarto e ajeitou a cama afastando os lençóis. Desafivelou o cinto e o puxou.  Estava para abrir a calça quando bateram com força na porta. Pensou em ignorar, mas a batida se repetiu e a voz do gerente se fez ouvir.

─ Alteza, por favor. Há alguém aqui que quer lhe falar. Disse que é urgente!

─ Não estou esperando ninguém ─  Retrucou abrindo a porta. 

Era claro que não gostou de ser interrompido. Antes que pudesse impedir Nancy Morris entrou no quarto flamejando de raiva sem convite ou sequer cumprimentá-lo. 

─ Hei, não lhe de permissão pra entrar no meu quarto!

─ Dane-se sua permissão! Alteza! ─ O tom de desprezo foi cortante. A expressão de repúdio ficou pior quando Becky surgiu na sala seminua coberta por um conjunto de calcinha, cinta liga e bustiê transparentes. ─ Ruth foi levada ao hospital.            ─ O que? ─  A raiva foi substituída pela surpresa.

─ Sua noiva! ─  falava para Becky ─ A mulher com quem pretende se casar em dez dias foi levada às pressas para hospital agora a pouco.  

─ Por quê? O que aconteceu? Ela sofreu algum acidente?

─ Pensei que pudesse me dizer. ─  Olhou para ele e para Becky ─ Se fez algo com ela... se a machucou...

─ Deixei Ruth em casa no fim da tarde. Não a vi e não falei mais com ela. Não sei o que houve. ─  Falava e recolhia as vestes. ─ O senhor, espere a senhorita se vestir e a acompanhe até a saída. Pague-lhe um taxi e coloque em minha conta. ─  Instruiu o gerente de forma fria e autoritária. Virou-se para Becky ─ Eu volto a procurá-la e a compensarei por esta frustração. ─  Não se importou com a indignação de Nancy Morris ─ Vamos embora.─  Disse saindo. 

─ Oi Becky. ─  O gerente cumprimentou sorrindo. Era um velho conhecido.

─ Oi. ─ Sem se envergonhar Becky foi ate a porta. O estrangeiro bonitão, sua mina de ouro entrava no elevador acompanhado por aquela puritana da Sra. Morris. Virou-se para amigo intrigada. ─ Por que o chamou de Alteza?

 

Leigh vestiu a camisa no elevador e não conseguiu abotoá-la por carregar o resto das peças e os sapatos. Nancy não se ofereceu para ajudá-lo. Ele atravessou a recepção sem se incomodar com os olhares que atraiu. James Morris abriu a porta de trás para a esposa enquanto Leigh se ocupou o banco da frente. Arrancou assim que todos se acomodaram.

─ O que houve?─  Leigh perguntou tentando se recompor. 

─ Fui pegar meus filhos na casa da minha irmã. Quando cheguei encontrei sua governanta saindo desesperada. Ela me pediu para socorrer Mademoiselle Coombs que estava tendo um tipo de crise... ─ O corretor informou.

─ Crise? ─  Leigh perguntou preocupado. 

─ Ela parecia em choque. Nancy, Annette e a sua governanta tentaram fazê-la responder e como ela não reagiu, decidimos levá-la ao hospital. A deixamos lá e viemos buscá-lo. ─ James olhou para ele sem saber como dizer. ─ Ela estava inerte Sr. Lescaut.

─ Inconsciente? 

─ Não. Inerte. Olhos abertos, vidrados. Não parecia estar ali.

─ Ausente. ─ Ele murmurou empalidecendo.

 

Annette, Jeffrey e a Sra. Lanfond estavam no corredor do hospital quando eles chegaram. Nice foi em direção dele falando rápido em francês o que não permitiu que os outros acompanhassem a conversa. 

Acalme-se madame Lanfond e me conte o que houve.

Mademoiselle teve outro pesadelo. Se debateu muito. Quando a acordei ela não respondeu. A chamei várias vezes e ela ficava apenas com o olhar parado. Então tentei sentá-la e ela não reagiu.... estava catatônica e fria...muito fria. Liguei para o hotel. O senhor não estava. Não consegui achar o número do restaurante... então fui para a casa da Sra. Keller e o Sr. Morris estava chegando. Ele a pegou e a colocou no carro e a trouxemos para cá. Não tive opção monsieur.  ... eu a envolvi no lençol e ele a pegou com cuidado, toda coberta. Foi uma emergência.... eu não conseguia encontrá-lo. Mas aqui fiz questão que ela fosse atendida por uma médica. Apenas mulheres a tocaram. Depois que a levaram a Sra. Morris disse que sabia onde o senhor estava.

─ Agiu bem madame Lanfond. Fez o que achou correto e estava certa. Em casos assim um homem pode prestar socorro a uma mulher. Deverei um favor ao Sr. Morris não mais que isso. O que a médica disse?

─ Até agora nada.

─ Vou ver como ela está. ─ Disse sério aproximando-se do grupo que conversava em um canto. Pelos olhares que lhe dirigiram já sabiam que ele havia estado com outra mulher. ─ Agradeço a ajuda de todos. Sintam-se livres para irem se assim o desejarem.  

─ Nem pensar. Esperaremos aqui. ─  Nancy disse zangada. 

─ Como decidirem. ─  Leigh rebateu indiferente se afastando. 

Jamais entenderiam a natureza de sua relação com Ruth. Podia e teria tantas quantas mulheres quisesse. E tinha certeza que o que Ruth não se oporia. Na recepção foi atendido por uma enfermeira.

─ Quero notícias de Ruth Coombs. Ela foi trazida há algum tempo... 

─ É da família?

─ Ela será minha esposa em dez dias. Não há outros familiares no país. 

─ Aguarde um momento, a médica já virá falar com o senhor ─ Pelo telefone informou a médica a chegada dele. Não demorou e a doutora logo apareceu. 

─ O senhor é parente da jovem Ruth Coombs? ─ Sou a Dra. Ana Asari.

 ─ Leigh Lescaut. Sou noivo dela. Como ela está?  

─ Ela foi sedada! Está dormindo agora. ─  A medica disse fria.

─ O que aconteceu? Ela perdeu a criança?

─ Não. Não foi nada relacionado a gravidez. A criança está bem. ─  Assumiu uma postura distante. ─ Sua noiva quase entrou em choque. A senhora que a trouxe disse que ela estava tendo um pesadelo.   

─ Ruth tem pesadelos. ─ Encarou a médica. ─ Ela se feriu?

─ Não. Nós a examinamos e... os ferimentos físicos já foram cicatrizados. ─  Havia pesar no olhar. ─ Os emocionais não. Algo despertou lembranças ruins e acredito que sua noiva reviveu cada momento do trauma que passou recentemente. Ela chegou quase em estado de choque. Nós a reanimamos, ela reagiu e ficou muito agitada. A sedamos para que não se ferisse. Agora precisa de descanso e não deve ficar sozinha. O senhor pode me acompanhar.

Leigh entrou no quarto devagar e se espantou em ver Ruth quase tão branca quanto o lençol que a cobria. Parou ao lado da cama. Segurou a mão fria. Havia medicação sendo aplicada na veia. Leigh acariciou o rosto dela. Ela parecia dormir. 

─ Ruth... querida.... ma chérie... Lyubov.

─ Ela vai dormir por algumas horas. ─  A médica sussurrou. Leigh concordou e a ela deu mais alguns detalhes. Depois que a profissional saiu ele puxou uma cadeira e sentou ao lado da noiva colocando a mão fria entre as suas. 

Começou a murmurar palavras no idioma natal. 

 

Ruth despertou durante a madrugada. Leigh estava ao seu lado debruçado sobre a cama segurando-lhe a mão. Quando ela se moveu ele levantou a cabeça. Ela olhou em volta confusa e reconheceu o local como um hospital. Leigh tocou o rosto dela com as pontas dos dedos molhando-os com as lágrimas que começaram a escorrer. 

─ Eu... eu perdi... eu perdi meu bebê não foi? Eu perdi! 

─ Ruth ....─  Tentou e ela começou a chorar alto.

─ Oh Deus não! Não! De novo não! ─  Leigh tentou segurá-la e ela começou a se debater ─ Não! Meu bebê! Você o rejeitou, não o quis! Desejou que ele morresse. Deitou-se com outra e se negou ao meu filho e eu não pude tê-lo... Você não entende... o que uma mãe sente. Nunca entendeu! Oh Deus não! Meu filho…

─ Ruth se acalme! Pare! Pare! Vai se machucar! ─ Enfermeiras tentaram afastar Leigh, mas ele não cedeu espaço. A sacudiu um pouco, a segurou firme e disse sério.

Você não perdeu seu filho! Não perdeu! ─ Ela parou para ouvi-lo ─ Não perdeu. Ainda gesta! Ele viverá. Vou levá-la até a matrioska quando for a hora. Vou desafiar e matar o Koryak que a tomou. Você e seu filho viveram livres! É a minha promessa. ─   Ela respirava com dificuldade. ─ Dou-lhe minha palavra de príncipe que serás livre. Você e este que gesta viverão em paz! Tens a minha promessa!

Os olhos dela se encheram de esperança. Devagar Leigh a envolveu nos braços de forma protetora. As enfermeiras se afastaram e os deixaram juntos. Horas depois, quando entraram no quarto, o noivo havia deitado na mesma cama da paciente, recostado a jovem no corpo forte e ambos dormiam.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

CAP 03

 

CAPÍTULO 03

 ─ Interessante.  

 ─ O que é interessante?  A medica perguntou voltando a sala.

 ─ Os costumes do povo do monsieur Lescaut. É o que eu suspeitava?

 ─ Sim. ─ Sorriu para Leigh. ─ Parabéns monsieur Lescaut. O senhor será pai. Mademoiselle Coombs está grávida.

Leigh Franziu a testa intrigado. Pensou ter ouvido mal. 

 ─ O que? ─ Levantou tenso, o corpo rejeitando assimilar a informação.

 ─ Eu disse que mademoiselle Coombs está grávida. No princípio da gravidez. Ela não se lembra de seu último período, mas acredito que esteja de poucas semanas.

 ─ Quarenta e cinco dias. ─ Leigh murmurou o olhar perdido.

 ─ Quem bom, o senhor se lembra! Com certeza uma data especial. ─ Tirou o receituário da maleta e escreveu rapidamente.  ─ Ela está em uma fase difícil. Algumas mulheres são assim. Precisa de repouso, alimentação leve. Deve tomar essas vitaminas e muito líquido para não se desidratar.   

 ─ Parabéns rapaz! ─ O médico disse sorridente. 

 ─ Eu pedi a sua governanta que a mantenha em uma dieta saudável. Ela deve procurar esta obstetra para acompanhá-la. Precisa fazer alguns exames. ─ Estendeu o papel para ele. ─ Parabéns ─ Disse sorrindo tomando o ar distante do rapaz como choque a boa notícia. Leigh pegou a folha escrita no momento em que a síndica e a Sra. Lanfond voltavam à sala. 

 ─ Mademoiselle quer lhe falar monsieur. ─ A governanta informou com um sorriso disfarçado.

Todos felizes e seu mundo desmoronava. Leigh pediu licença e se retirou.

Nice acompanhou as visitas até a porta. Sempre gostou de crianças e ter uma ali seria ótimo. O som da porta batendo a assustou. Ouviu mademoiselle gritar e correu para o quarto. A porta estava trancada e eles discutiam. Parou ouvindo. Não esperava aquela reação. Monsieur foi tão carinho naqueles poucos dias... apurou os ouvidos, chocando-se com o que descobria.



Leigh abriu a porta do quarto devagar. Ruth havia tomado um banho e saia do banheiro envolta em um roupão. O sorriso luminoso que ela lhe deu teve o mesmo efeito que uma punhalada. Ele bateu a porta e passou a chave. 

 ─ Está feliz? ─  Sibilou tenso.

 ─ Claro que estou. Pensei que nunca mais poderia gerar e agora... 

Em dois passos Leigh a alcançou e a sacudiu como uma boneca. Ela gritou pelo susto e demorou a entendê-lo.

 ─ Feliz? Como pode estar feliz? Gerar o filho de um monstro é motivo para ficar feliz? Você sabe o que acontece quando se gera um Koryak. Ele vai saber!!! Vai sentir!!! Virá atrás de você para matá-la e levar essa criança!  

 ─ O que está dizendo? Não... ─ A expressão dele esclareceu sua dúvida. ─ É seu! É seu legatário! ─ Gritou assustada.

 ─ Não é! Eu não a toquei! ─  A jogou sobre a cama  ─ Como pode? Como pode desejar fecundar naquele momento!?!

 ─ Eu não desejei. ─ Levantou. 

 ─ Desejou. Você quis ter o filho dele! Você gostou do que ele lhe fez e desejou procriar com ele! Se não tivesse desejado não estaria gestando.  

 ─ Eu não desejei ter o filho... dele! É seu! Eu juro! ─ Leigh andava pelo quarto. Ruth o fez parar para olhá-la. ─ Naquele dia na minha casa. Antes dele....Antes que ele...Nos dividimos juntos. Juntos. Você disse que me daria um filho. Ali eu desejei. Eu quis o seu filho!

 ─ Eu menti! ─  A olhou com raiva. ─ Eu não lhe dei filho algum! Quis te consolar por que ainda chorava o bebê que perdeu. Eu não... Eu não deixei meu legado em você. Você gesta o filho do meu inimigo. Filho que desejou só Deus sabe por quê. Uniu-se aos meus inimigos e com isso ele me subjugou. Por lei eu deveria entregá-la a ele.

 ─ Não! Não! É seu! SEU!

 ─ Não é. Tenho certeza disso! Eu sei. Eu sinto. ─ Foi para porta. ─ Você me traiu. Uniu-se aos que desejam minha morte!

 ─ Não. É seu! Eu não quis...

 ─ Quis. Desejou. Sem o seu consentimento nenhum Koryak poderia engravidá-la! Traiu-me de forma vil. Uniu-se a ele eternamente! Merece o destino que terá nas mãos do Chanceler.  

 ─ Não pode me entregar a ele. Ele me matou! ─ O segurou pelo braço. ─ O que vai fazer? Por favor...─  Leigh se livrou com um safanão e se afastou.

Pela primeira vez sentia-se derrotado. Passou a adolescência protegendo quem não devia. Vivendo uma vida que não era sua. Expondo-se a coisas que seu próprio eu abominava. Mas havia jurado resguardá-lo e o fez. Julgado como traidor foi renegado por sua família. Perderá sua vida, seus dons, seus direitos de príncipe. Excomungado por seu povo, foi preso e flagelado. Sofrerá tudo calado. Sobreviverá, porque a tinha. 

Possuía a pureza de seu amor. A promessa de um tempo de paz o lado dela. A chance de viverem o que nunca lhes foi permitido. Agora era um amaldiçoado. Seu maior inimigo a tomou e plantou a semente em um ventre que antes estava seco. Ventre que gerava um Koryak. Uma parte do inimigo que a levaria até ele cedo ou tarde. O fel da vergonha encheu-lhe o coração. 

Desejava poder matá-lo com as próprias mãos, mas como humano seria esmagado. Com sua morte, tudo o que fizera se perdia. Tudo o que protegeu durante anos pertenceria ao Chanceler e Hansalexius Anton Leigh Conanlescaut Borlowish Spartwalyskis Borwoshi Meneslaups desapareceria eternamente da terra.

 ─ Você me traiu. E eu a odeio por isso! ─ Disse abrindo a porta. 

Não viu a governanta se esconder no quarto em frente. 

Deixou o apartamento furioso. Entrou no primeiro bar que encontrou.

 

Nice consolou a jovem patroa com carinho. Ruth chorou por horas e acordou aos gritos nas poucas vezes que adormeceu. Exatamente como acontecia nas primeiras semanas. Leigh demorou dois dias para voltar e quando entrou a garota estava no sofá olhando o nada. Levantou feliz por ele ter retornado. 

 ─ Prepare-se para partir. ─  Disse sem sequer olhá-la, indo direto para o bar.

 ─ Você... você vai me levar para ele? ─  A expressão dele a fez recuar. 

 ─ Não ─  Ele disse servindo-se de conhaque.  ─ Isso me humilharia ainda mais.

 ─ Então...?

 ─ Tenho direito de decidir se ainda a quero. Decidi que quero.

 ─ Ah! ─ Voltou a respirar aliviada  ─ Então para onde vamos?

 ─ Para a América. Quanto mais longe ficarmos da Europa enquanto gesta, maior chance terá de permanecer oculta.

 ─ América? ─ Koryaks não se refugiavam na América. ─ A matrioska já foi até a América para pegar um legatário?  

 ─ Não posso afirmar. ─ Virou-se para ela. Frio.

 ─ Não? Mas você... Você vai pegá-lo... quando nascer?

 ─ Não. Eu o enjeito. ─ Disse duro.

 Algo se quebrou dentro dela. A dureza do olhar dele...

 ─ Você… o enjeita?. ─ Ruth repetiu sem acreditar. Tensa envolveu o ventre com os braços em um gesto protetor. ─ Você aceitou o outro bebê! 

 ─ O outro bebê não era filho de um traidor de nosso povo! Era apenas a semente humana vinda de um rapaz íntegro que perdeu a vida por protegê-la! Merecia ser meu legatário, merecia minha descendência!

 ─ Leigh por favor! É meu filho! É um inocente!

 ─ Nunca será um inocente. É parte dele!

 ─ Se a matrioska não for e se você não o pegar ele...

 ─ Não viverá. ─ Aproximou-se dela bebendo. Pela aparência era o que havia feito nos últimos dois dias.  ─ Não vou dar vida a semente do meu inimigo.  

Ruth empalideceu tomada pela extensão da declaração.

 ─ Não pode...  

 ─ E o que eu não posso Ruth? ─  Sibilou furioso e ela recuou assustada. Já o tinha visto transtornado, mas nunca a raiva dele foi direcionada a ela  ─ Eu vou fazer o que decidir fazer e não há ninguém que possa me impedir. Eu posso decidir renegá-la e entregá-la ao Chanceler. Talvez até me concedam clemência por isso e ao menos eu poderia existir como Koryak e não está existência humana servil e limitada.

 ─ Sabe que jamais fariam isso. Por favor... tem que pegar... meu bebê.

 ─ Eu o rejeito. A aceito e tomo como serva

Ruth recuou outros dois passos. Serva? Ela, serva? A condição mais desprezível a que uma Koryak pura podia ser sujeita...

 ─ Sigo todos os ritos e costumes, mas rejeito aquele que gesta. Esta é uma opção. Tenho outra. Pode ir ter com o Koryak que lhe deu esse ser. Sabe como ele traria seu filho ao mundo não sabe?  

 ─ Não. ─ Sem se conter ela desabou em um choro suplicante.  ─ Por favor... Leigh ...por favor.... não permita... não permita que um inocente não veja a luz!  

 ─ A luz já se apagou para muitos. ─  Terminou a dose e serviu-se de outra. 

 ─ Aceito ser sua esposa. ─ Ele riu mordaz.

 ─ Não quero uma esposa traidora! ─ Rebateu  ─ Precisa da minha proteção. A terá como minha serva!

 ─ Eu não o traí. Por favor... Eu não posso ser uma serva.  

 ─ Escolha. Tem dois minutos para aceitar ou não.

Ruth deu-lhe as costas tentando encontrar uma saída que não a fizesse submeter a tal condição. Gerava um Koryak e queria ter este filho. Para gestá-lo precisava de proteção. Não poderia ficar sozinha. Se ficasse não teria forças para dar à luz e mesmo que conseguisse levar a gravidez até o fim, tanto ela quanto o filho pertenceriam ao Chanceler se um Koryak não lhe desse guarda. Precisava da guarda de um Koryak mesmo que fosse como serva. Fechou os olhos e com a voz trêmula ela começou a declamar a própria sentença de submissão. 

 ─ Eu o aceito.... eu o aceito como meu senhor... eu o aceito e permito... que me tenha, que me tome...eu permito... que desvende... meus segredos... minhas entranhas... meu corpo mortal e minha essência imortal. E o tenho agora como meu senhor, senhor da minha vida e do meu ser.  

 ─ Você permite... ─ Com dois passos largos a alcançou e a apertou contra o próprio corpo.  ─ E eu aceito. ─  Apertou os seios, mordiscou o pescoço. A virou com raiva e a beijou mordendo os lábios.  ─ E tomo o que é meu! ─ O beijo foi mais longo. O gosto de sangue o fez se afastar. Segurando-a pelos braços a sacudiu como uma boneca de pano. ─ Pertence a mim agora! Entende isso? Pertence a mim! Somente a mim! Diga!

 ─ Pertenço ao meu senhor. És o meu amo ─ Concordou como ele queria.

 ─ És minha! Obedecerá a minha vontade.

 ─ Sim meu amo.

 ─ Seguirá os costumes. Todos eles.

 ─ Sim meu amo.

 ─ Não verá homem algum. Não sairá sem minha permissão. Não falara com ninguém. Pertence a mim e eu direi o que pode ou não fazer.

 ─ Sim meu amo.  

 ─ Irá me servir! ─ O olhar assustado não o deteve. Mergulhou a mão na massa de cabelos negros cintilantes  ─ Me servir... em tudo...

E voltou a agredi-la em algo parecido com um beijo. Ruth chorou. 

 ─ Monsieur! ─ O grito de madame Lanfond os separou. 

Soltou a jovem de forma brusca e ela quase caiu. A governanta deixou a sacola de compras que carregava e correu para ampará-la. Envolveu Ruth pelos ombros.

 ─ Francamente Monsieur! Sinceramente esperava que depois de dois dias a raiva já teria passado e monsieur voltado a razão.  

Embalou Ruth com palavras de carinho em francês. Leigh se afastou e voltou a se servir de outra dose. Nice o repreendeu com o olhar severo. 

 ─ Mademoiselle não tem culpa do que aconteceu. Ela é uma vítima monsieur. 

 ─ O que sabe? ─  Perguntou mordaz.

 ─ Tudo. Lamento monsieur, não pude deixar de ouvir a última discussão dos dois. Entendo a sua raiva, mas não pode pensar que mademoiselle o traiu.

 ─ O que sabe? ─  Sibilou encarando a governanta.

 ─ Mademoiselle não pode ser acusada de traição quando foi violentada. Eu cheguei no dia seguinte ao acontecido. Monsieur não estava aqui. Monsieur sequer veio ─ Ele a olhou reprovador. ─ Talvez tenha tido um bom motivo, mesmo assim monsieur não esteve aqui e isso é um fato. Eu sim. Eu vi o quanto ela estava traumatizada. Vi o quanto estava ferida no corpo e na alma. Por semanas esta jovem gritou durante o sono. Por semanas mal comeu. Só a vi sorrir no dia em que chegou. Agora a vejo chorar mais do que antes. E a causa dessas lágrimas, é monsieur!

 ─ Cale-se!

 ─ A primeira coisa que disse quando chegou era que mademoiselle era a porta de seu céu... ─  Ela continuou sem ouvi-lo. 

 ─ Meu céu transformou-se em um inferno! ─  Disse furioso. ─ Um inferno pelo qual já passei. ─  Aproximou-se da noiva que chorava baixo aconchegada a governanta.  ─ Me jogou no inferno novamente. ─ Mudou para a língua natal. ─ Vai me servir.  Em tudo. ─ Ruth o olhou assustada. ─ Contenha-se, perfume-se e vá para meu quarto. Meu corpo precisa de alívio. E de hoje em diante, só falamos em nossa língua. ─ Olhou a governanta perdida na conversa.  Isso a manterá viva. ─ Saiu sala.

Nice ajudou a jovem patroa e ir para o quarto. Entendeu quando a jovem pediu que lhe preparasse um banho. A água quente iria ajudá-la a relaxar. A deixou na banheira e foi preparar uma boa xícara de chá. Parou a porta do quarto que o dono da casa costumava usar. Pode ouvir o som do chuveiro. Era bom que se acalmasse também. Pela aparência deveria ter rodado bebendo de bar em bar durante todo o tempo que esteve fora. Ele também estava sofrendo. Penalizou-se dos dois.

Não imaginava como resolver aquela situação. Talvez com o tempo...

Mais do que nunca mademoiselle precisava de tempo. Os dois precisavam pensar e decidir o que fariam. Se ficariam juntos ou se separariam. Já sabia que ambos não tinham mais família. Apenas um ao outro. E agora existia a criança. 

O chá ficou pronto. Demorou mais alguns minutos preparando um lanche. A jovem não havia comido nada naquele dia… Levou para o quarto surpreendendo-se com a forma como a encontrou vestida. 

Ruth mal se cobria com um bustiê vermelho repleto de adornos em pedras. O ventre estava exposto e a pele reluzia com as contas que desciam da parte superior circulando o corpo. A parte de baixo era mínima e inúmeros véus pretos, vermelhos, prateados com delicados fios de ouro e pedras cintilantes a cobriam, ocultando e revelando as pernas bem torneadas. Nos cabelos presos em um elaborado penteado, uma tiara de a coroava. Em cada tornozelo, punho e pescoço uma corrente em ouro  e pequenas pedras cintilantes.  

Estava lindamente maquiada. E mais triste do que em qualquer outro momento.

 ─ Mademoiselle...?

 ─ Sei que não preciso explicar ─  A jovem disse beijando-a de leve no rosto.  ─ É melhor que saia. Tire o resto do dia e a noite de folga.  

 ─ Mademoiselle, isso é... Ele não pode obrigá-la!

 ─ Ele pode. Eu o aceitei como amo. ─ Mirou-se no espelho. ─ Eu que recusei ser esposa, aceitei a condição de serva. ─ Virou-se para a amiga. ─ Sei que não faz ideia do que isso significa, mas... ele pode fazer o que quiser comigo agora. ─ Para completar a beleza da jovem faltava apenas um sorriso. ─ Vá. Ele me espera.  

 ─ Mademoiselle... ele está furioso... ele pode machucá-la! Machucar o bebê!  

 ─ Ele nunca me machucaria fisicamente Nice. E contra as leis que regem a natureza de um Koryak ferir um ser mais fraco.  

 ─ Está dilacerando sua alma!

 ─ Deitar-me com ele... enquanto o bebê ainda não está formado... ─ Alisou o ventre.  ─ Talvez...talvez.... dê um pouco dele a criança... um pouco que seja, e meu filho viverá. ─ Havia adornos e pinturas nas mãos e anéis nos dedos. Ela brilhava.  ─ Faço o que for necessário para manter meu filho vivo. Agora vá.

 

Leigh tomou um banho quente seguido de uma ducha fria, alternando os dois por quase meia hora. Agora esperava por Ruth em seu traje de príncipe. Uma longa casaca em branco e dourado com o brasão da família Conanlescaut bordado no peito. A faixa na cintura marcava os quadris estreitos, o cirwal era preto e justo.

Calçava botas longas fechadas por pequenas fivelas. 

O primeiro dever de uma serva era tirá-las e beijar os pés do amo. O segundo era despi-lo tocando com os lábios e as mãos cada parte do corpo que desnudava. O amo a conduziria da maneira que lhe aprouvesse para o próprio prazer. 

Muitos humilhavam suas servas obrigando-as a atos censuráveis. Ele não. Seria um bom amo apesar de Ruth merecer que a fizesse pagar. Fechou a cortina e deitou ajeitando as almofadas. Como desejou aquele momento. Na verdade, desejou tê-la em sua noite de núpcias e não o ato servil de uma dominada. No entanto Ruth o rejeitara como marido. O trairá com seu inimigo. Merecia ser usada. Merecia ser o objeto de seu bel prazer. Apertou as têmporas com os indicadores. O efeito da bebida havia passado e a gargalhada vitoriosa de seu inimigo voltou a ressoar nos ouvidos. 

Fechou os olhos e pode vê-lo rindo de sua humilhação.

 ─ Eu estou aqui, meu amo. ─ Ruth disse tensa entrando no quarto.

Leigh abriu os olhos e por um milésimo de segundo desistiu de macular tamanha beleza. Viu o brilho de desafio nos olhos dela. Brilho que não existia antes. 

 ─ Conhece os costumes. ─ Mandou esticando o corpo sobre a cama. Ruth olhou em volta. As cortinas estavam cerradas, mas a luz acesa mantinha o ambiente claro. Algo como dor a cortou.

 ─ Meu amo... permita-me apagar a luz. ─ Pediu as mãos tremendo.

 ─ Não. Quero vê-la. Quero que me veja. É a minha vontade.  

Ruth arquejou um segundo. Abriu a boca para protestar e a fechou em seguida. 

Leigh viu o mesmo brilho de desafio em seu olhar enquanto ela se aproximava. Ruth subiu na cama, ajoelhou-se aos pés dele e começou a abrir as pequenas fivelas do calçado. Em um gesto rápido ele dobrou o joelho fazendo-a se aproximar mais. Reclinou-se e a nova posição a fez ficar em frente a ele. 

 ─ Olhe para mim ─ Obediente ela o encarou. 

Leigh aspirou o perfume suave e a puxou sobre si. A envolveu com braços e pernas, girou o corpo ficando sobre ela. Prendeu-lhe os punhos sobre a cabeça. Deslizou, virou, ajeitou até moldar o corpo feminino ao seu. Gemeu baixo posicionando-se entre as coxas dela. Ruth sentiu o peso dele contra carne e começou a tremer. A frágil barreira dos tecidos impediu que ele a invadisse por inteiro. A mão livre subiu e desceu pelo corpo enquanto se movia forçando-a a separar mais as pernas. Ela as abriu totalmente e ele voltou a gemer pressionando ainda mais o sexo contra o dela. Ruth levantou os quadris. Queria que ele a tomasse. Com ódio ou amor, queria dar uma chance ao filho que gerava. 

Não conseguiu evitar que o tremor aumentasse. 

Não conseguiu evitar o pranto que veio silencioso. 

Leigh não o notou. Mergulhou o rosto no pescoço longo, abriu a frente do cirwal guiando a mão delicada ao próprio corpo. A induziu a tocá-lo. Ruth tentou empurrá-lo. Estava errado. Mesmo para uma serva estava errado. Ele a forçou a ficar quieta e de novo guiou a mão pequena ao corpo mostrando como queria ser tocado. 

Lágrimas de humilhação e vergonha escorreram no mesmo ritmo que a mão deslizava. Leigh levantou a cabeça e gemeu alto um  “não pare”  Os olhos estavam vidrados. Ele não via nem ouvia nada. Apenas sentia. Os Koryaks eram assim. Quando se entregavam ao sexo não sentiam, não viam nada além do estímulo que recebiam. 

Ela continuou obedecendo até que ele se derramou. 

Leigh ficou imóvel um segundo ofegante. Ruth pensou que tivesse acabado. Quando ele se moveu arremeteu o corpo no dela. Encontrou a barreira da seda que a cobria. Virou e tentou afastar o fino véu para dominá-la por inteiro. 

Sem perceber ela começou a lutar. Gritou. Seu pesadelo tornou-se real. 

Havia um monstro sobre ela. Quanto mais lutasse mais cedo morreria. Sabia disso e preferia morrer a permitir aquilo. Sabia que depois de saciado ele a mataria de qualquer forma. A adaga estava ali ao lado para arrancar-lhe o coração.

O choro tornou-se convulsivo e ele bebeu as lágrimas.

Gritou por socorro. Gritou pelo homem que jurou protegê-la. 

De subido Leigh a largou levantou em um salto. Respirava ofegante. A odiava e se odiava. Ruth sentou encolhendo-se na cama. Tentava se cobrir assustada. Ele se virou para se recompor. Se ajeitou ofegante recobrando o controle.

 ─ Vista-se. ─ Mandou alguns minutos depois.  ─ Vou deixá-la em um convento.

 ─ Não... não meu amo. Perdoe-me, meu senhor! ─ Percebendo o que fez caiu aos pés dele  ─ Eu não vou lutar mais. Eu o aceito meu amo. Faça comigo o que quiser. ─ Voltou a abrir a bota. Tremia tanto que as pulseiras titilavam. 

 ─ Se continuar vou possuí-la como homem. Não como Koryak. ─ Ruth parou.

 ─ Sem partilha? ─ Perguntou trêmula ainda aos pés dele. Ele apenas acenou que sim.  ─ Então… de toda forma.... meu bebe... meu bebe morrera.

 ─ Deitar-se comigo não resolverá isso. Não vou me dividir para dar a ele parte da essência que falta. ─ Ruth recuou magoada. ─ Levante-se, vista-se. Vou deixá-la em um convento e lá poderá rezar para que a matrioska vá pegar este enjeitado. ─ Saiu do quarto. Ela ficou no chão imóvel sabendo o que aquilo significava.

Leigh precisava beber. Só a bebida traria o alívio que precisava. Na sala encheu o copo, uma, duas, três vezes. Os olhos turvaram. O efeito era rápido. 

 ─ Solte este copo. ─ Disse uma voz firme vinda da varanda. 

Leigh se virou assustado. Ruth que chegava a sala parou chocada.

 ─ Salastiel! ─  A jovem murmurou para o reverendo. Seu pai. 

             Salastiel teve um segundo para entender o que acontecia. Pareceu flutuar e parar ao lado da filha. Beijou-lhe os lábios suavemente, puxou a longa capa que usava, colocando-a com cuidado sobre os ombros da garota. Tocou com a ponta dos dedos a boca machucada e as marcas de lágrimas. A manteve junto a ele por alguns segundos. 

Mandou-a ir se vestir como a princesa que era. Depois que ela saiu voltou-se para Leigh. Observou os trajes dele. A batina se agitou com os dois passos largos e raivosos que deu para alcançá-lo. 

A mão foi rápida e certeira.

 ─ Envergonho-me de você! 

 ─ Não é o primeiro! ─ A bofetada ardia na face esquerda. 

 ─ Não lhe entreguei minha filha para ela ser sujeita a condição de serva.

 ─ Não o fiz. ─ Confessou envergonhado. Voltou a encher o copo ─ Não a tive. ─ Bebeu. ─ Mandei que se vestisse. Pretendia deixá-la em um convento. Agora que está aqui pode levá-la como creio que veio fazer.

 ─ Você não vai abandoná-la novamente. Fez-me uma promessa e vai cumpri-la. Vai torná-la sua esposa aos olhos de Deus, aos olhos da lei, e sob todos os costumes de nosso povo. Vai viver com ela, coabitar e terão filhos que...

 ─ Ter filhos? Como se ela já gesta o filho do traidor? ─ Quase gritou indignado. Não viu surpresa nos olhos negros do mentor.  ─ Você sabia!! 

 ─ Eu a curei. Claro que sabia que ela gesta.

 ─ Por isso me arrancou a promessa de casamento! A fim de dar honra a um...

 ─ Não se atreva! Não ofenda minha descendência! ─ Salastiel espalmou a mão no peito dele sem realmente tocá-lo jogando o rapaz do outro lado da sala sobre um sofá. ─ Eu o desafio se disser uma única palavra ofensiva sobre minha Ruth ou ao filho que ela gesta. 

Devagar Leigh levantou humilhado indo direto para o bar.

 ─ Faz isso por que sabe que agora não posso vencê-lo.  

 ─ Nunca pode. E nunca poderá se continuar a agir como um garoto mimado e imprudente. Este ser é um presente!

 ─ Um presente? Para quem? Talvez para você! Sua descendência ligada a descendência do mais novo Chanceler. Sua descendência garantida, não importa quem governar Koryakia! ─ Outro copo foi enchido. 

 ─ Estou farto de suas tolices. Este ser é um presente de Deus para você!  

 ─ Como pode dizer que é um presente? Ela gesta o filho do homem que usurpou meu direito. O filho do homem que tirou meus dons. Como isso pode ser um presente? Ele saberá que ela gesta. Ele ouvirá o filho e virá atrás dela. E desde vez matara os dois. A mim e a ela. ─ Bebeu e voltou a encher o copo.

 ─ Só o tempo dirá. ─ O copo na mão de Leigh tremulava. ─ Meu senhor já bebeu demais! ─ Salastiel disse em tom de pesar. 

 ─ Não tanto quanto gostaria. ─ Meio trôpego desabou sobre o sofá. ─ Só a bebida me faz esquecer o riso dele. ─ Levantou o copo em um brinde com um esgar amargo.  ─ Bebo a vitória dele.  

 ─ Concentra-se demais nas coisas ruins. ─ Encarou-o ─ Nada justifica o que fez. Eu tinha sua promessa de honrar minha casa tomando minha filha como sua esposa e não de reduzi-la a condição mais desumana que existe em nossas leis. Minha Ruth nunca poderia ser sujeita a condição de serva!

 ─ Ela mereceu. Desejou o filho dele. Uniu-se a ele.

 ─ Não seja tolo. Se assim fosse você já não existiria mais. Meu senhor não imagina o quanto Ruth sofreu. ─ Curvou-se em frente a ele. O tom mudou completamente. ─ Meu Senhor, para mim e para boa parte de nosso povo ainda és nossa esperança. Ainda acreditamos que, por sua intervenção, teremos um país governado com paz e justiça. Para isso precisa aprender a conter o ciúme que o devora. Não falo como pai que vê uma filha humilhada, falo como preceptor do príncipe que fui.

 ─ Não tenho ciúmes ─ Retrucou irritado.

 ─ Não tens ciúmes!? É cego por ele! Vive, respira, promove guerras por este sentimento. É o mal que o consome todos os dias. O mal que levou nosso povo...

 ─ O que me consome e ter minha honra ferida! Todas as minhas mulheres me traíram. ─ Levantou para encher o copo. ─ Ruth agiu tal qual Susan, que fez tal qual Breseída a maior de todas as traidoras! Todas me envergonharam gestando o filho de outro. 

 ─ Se pensas assim é porque você não soube amá-las verdadeiramente. Em todas vê Breseída. Minha filha não é assim. E você sabe disso. É digna e honrada. Ou era, antes de sujeitá-la a...

 ─ Já lhe disse que não o fiz. ─ Baixou a cabeça. ─ Não tive coragem. ─  Sentou desolado. ─ Leve-a. Não a quero aqui. Se ela prefere o filho do traidor ao meu nada mais posso fazer a não ser enjeitá-la.  

 ─ Estou pronta meu pai. ─ Ruth disse surgindo na sala. Trazia apenas a pequena mochila com que chegara. Ouviu o último comentário feito por Leigh. 

 ─ Você não vai deixar esta casa minha filha. Se o jovem príncipe quer separar-se, ele deve sair. ─  Colocou as mãos para trás das costas, adotando sua costumeira postura compenetrada. ─ Precisa de uma morada protegida. E no momento esta é a única que posso prover. 

 ─ Esta casa é minha por direito de herança materna. ─ Leigh zangado.

 ─ Herança que deverá ser repassada a mulher com que se unir em matrimônio. Fez-me esta promessa. Quebre-a que o jogo de volta de onde o tirei. ─ O tom era brando mais claramente ameaçador. 

 ─ Então é isso? ─ Leigh riu amargo.  ─ Devo-lhe paga-lhe por ter me libertado da prisão e por ter-me feito viver uma vida que não era minha?

 ─ Deve pagar-me por, até aqui, estar vivo e por ele estar em segurança. Ele. Lembra-se daquele que o Chanceler jamais pode saber que existe?

 ─ Não arriscaria o tempo da vingança!

 ─ Você o arrisca quando se nega a cumprir sua palavra!  

Miraram-se desafiadores. O mais fraco baixou os olhos primeiro.

 ─ Está bem. ─  Bebeu infeliz.   ─ Vou fazer de sua filha minha esposa. 

 ─ Não... ─  Ruth tentou. 

 ─ Devemos então... ─  Leigh levantou a mão interrompendo o mentor. 

 ─ Farei dela minha esposa. Nas leis dos homens, nas leis de Deus. Será minha esposa perante todos. Quando meu direito for restabelecido será reconhecida como rainha e senhora do nosso povo. Mas não em nossos ritos. Ela jamais será esposa em meu coração. Não partilharemos o leito como Koryaks. A terei como homem, e, no tempo certo, terei outra esposa e até uma serva para que estas gestem meu legado ─  Mirou Ruth com pesar. ─ E mesmo sendo esposa não poderá questionar minhas decisões. Quanto ao ser que gesta não sou responsável por ele. Ela terá a minha proteção, que será o bastante para que leve a gestação a termo. Para o primeiro sopro de vida, se a matrioska ou outro Koryak quiser pegá-lo... não me oporei. Desde que seja bem longe de mim. Isso terá que bastar para compensá-lo pelo serviço que me prestou.      ─ Por hora basta. ─  Virou-se para Ruth.  ─ Retorne ao seu quarto, filha.  

 ─ Não vou me deitar com quem me considera uma traidora! ─ Ruth olhava para Leigh com raiva. ─ Pai, não quero este casamento.

─ Lamento minha criança. O casamento deve acontecer, mas não precisam partilhar o leito se esta não é sua vontade. ─ Salastiel a envolveu nos braços. ─ Tempo minha pequena. ─ Disse olhando-a nos olhos.  ─ Tempo.


O vento frio da tarde de novembro o trouxe de volta.

Ciúme. Salastiel descreverá toda a angústia que sentia como ciúme. Era um tolo. Um sábio tolo. Disse que o ciúme o cegava. Não tinha ciúme. O que sentia era... Não, não era ciúme. Ciúme de um ser que ainda não nascerá? Tolice! 

Ciúme do pequeno Koryak que crescia em um ventre que estava seco e que reduzirá a mais bela princesa de seu povo a uma serva?  Ruth sujeitou-se a ele e se sujeitaria a qualquer um para manter o filho vivo. Ela amava aquele pequeno ser. 

Amava o filho do traidor! Amava mais do que a ele. 

Esse amor era algo que não conseguia entender e o enchia de...ciúme.

Queria o amor dela apenas para si. Saber que havia algo que ela amava mais provocava um tipo de dor que dilacerava sua mente e o deixava dominado por....ciúme. Puro, cruel e amargo ciúme. A dor que sentia quando a olhava era como o frio cortante das terras de seu povo. Forte e penetrante. Era a adaga do inimigo que rasgava sua carne arrancando-lhe o coração. Se este filho não existisse talvez tivessem uma chance. O sentimento o amargurava. Retomou a corrida pegando o caminho de volta. Teve sede. Parou em uma lanchonete. A tinha magoado novamente. E quantas vezes mais o faria? Ocupou uma mesa. Conseguiriam viver sob o mesmo teto sem provocar nela tanta dor? Pediu água. Desejava uma forma de alívio. A garçonete lhe trouxe o pedido. 

Precisava de uma serva. Não. Serva não. 

 ─ Se precisar de algo é só chamar. ─  A moça disse sorridente.  

Levantou os olhos. Estava na América. Precisava de uma milenec.